A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

França: em nome do voto útil, cai fora Poutou?

27/04/2017

 

 

 

Escrito por: Daniel Tanuro

 

Estou me expressando aqui de forma estritamente pessoal sobre a situação política francesa. Ela é, simultaneamente, cheia de perigos, de esperanças e extremamente complexa.
Vejamos a questão tal como tomada por todos, pelo aspecto menor, pois é assim que ela é colocada nas redes sociais: o NPA não deveria retirar seu candidato à presidência, Philippe Poutou? Ele não deveria declarar voto a Jean-Luc Mélenchon? Este último não teria, então, mais possibilidade de passar pelo primeiro turno e enfrentar Le Pen no segundo (turno) e, então, revogar a lei do trabalho, aumentar o SMIC e abrir uma brecha na política de austeridade da UE?

Para muitas pessoas de esquerda que veem a situação política na França de longe, através dos meios de comunicação e das pesquisas, a resposta parece evidente: dado que os quatro favoritos estão lado a lado, os 2 a 2,5% de Poutou poderiam fazer a diferença. Poutou fez uma boa campanha, ele atacou bem o Fillon e a Le Pen no grande debate, o NPA teve o impacto midiático que queria; isso é suficiente por agora: que ele retire seu candidato e chame o voto para Mélenchon, mantendo suas críticas. Não fazer isso seria sectarismo, dizem.

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Este raciocínio não se sustenta

Na realidade, este raciocínio simplesmente não se sustenta. Nem do ponto de vista humano, nem do ponto de vista prático, nem do ponto de vista aritmético eleitoral. Além disso, ele (o raciocínio) passa ao largo do problema político chave: o projeto populista azul-branco-vermelho do líder Jean-Luc Mélenchon é um obstáculo à reorganização da esquerda frente à direita e à extrema direita, tanto no plano social como no político. Mas não nos antecipemos, comecemos pelo concreto.

Do ponto de vista humano, a uma semana do voto (três dias atualmente), é impossível, sem sérias consequências, parar, com um estalar de dedos, milhares de simpatizantes que estão mergulhados na campanha por suas ideias e seu projeto de sociedade, que fizeram grandes sacrifícios (especialmente para obter os apoios necessários) e sem uma séria contrapartida parar com um estalar de dedos os milhares de militantes que estão completamente na campanha pelas suas ideias e pelo seu projeto de sociedade, que têm acordo com os enormes sacrifícios (destacadamente para obter os apoios necessários) e que colhem os frutos, em termos de presença midiática, de simpatia, de participação nas atividades e de adesões.

Do ponto de vista prático, as cédulas estão impressas e nada poderá impedir os eleitores e as eleitoras que, assim desejem, de votar a favor de Philippe Poutou. Além disso, se o NPA declarasse publicamente que retira seu candidato a favor de Mélenchon, não seria garantido que fosse reembolsado pelas despesas de campanha (cada candidato pode gastar até 800.000 euros, que são cobertos pelo orçamento do Estado, mediante apresentação comprovação). Quem iria assumir tal risco? É o caso de dizer aqui, “os tesoureiros não são os que pagam” .

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O cálculo é falso

Do ponto de vista da aritmética eleitoral, finalmente, o cálculo é falso. Há uma massa de indecisos. Além disso, a simpatia que goza Philippe Poutou (e, em menor grau, Nathalie Arthaud) corresponde a um radicalismo bem presente na sociedade francesa. Um radicalismo que, para dizer simplesmente, não se reconhece totalmente na bandeira tricolor (azul, branca, vermelha), na Marselhesa , no desfile militar do 14 de julho, e nas declarações ambíguas de Mélenchon sobre diversos assuntos - trabalhadores “détachés” , o emprego da bomba atómica, o apoio aos bombardeamentos russos na Síria, “a honra do uniforme usado pelos policiais da República”, etc., etc.…

É provável que os e as simpatizantes de Poutou e Arthaud sejam mais numerosos que o indicado nas pesquisas. Não há, com efeito, pouca gente de esquerda que decidiu apoiar Mélenchon pelo voto “útil”, apesar de suas reservas que são, às vezes, muito grandes. Se Poutou se retirasse, o que fariam seus eleitores? A maioria votaria na LO ou iria pescar. Eles não votariam em Mélenchon. Porque eles não gostam sem de seu programa nem de seu estilo – para não mencionar sua “Insubmissão” . O candidato útil, para eles, é Philippe Poutou. É útil porque lhes permite votar por suas ideias. Eles têm efetivamente razão: porque deveriam desistir desde o primeiro turno?! No mais, como tratar como ”inútil” um candidato operário que nocauteou Le Pen e Fillon na frente de seis milhões telespectadores?

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Sim, a unidade é a questão chave!

Vamos tomar agora os binóculos. O que nós vemos? Que a unidade das “pessoas de esquerda” contra a direita e a extrema direita após as eleições será a questão chave em todos os cenários. Essa será evidentemente a questão chave se Macron ou Fillon levar o segundo turno contra Le Pen, porque, em ambos os casos, uma nova ofensiva de austeridade brutal será lançada contra o mundo do trabalho, os jovens, as mulheres e as pessoas de origem estrangeira. Mas essa seria também a questão chave se (por milagre), Jean-Luc Mélenchon se tornasse presidente da República. Porque, para que as medidas substanciais de esquerda pudessem ser aplicadas, seria necessário: 1º) conquistar uma maioria de esquerda nas eleições legislativas um mês após a eleição presidencial; 2º) construir a resistência social, a mais ampla e mais unitária, para fazer frente à contraofensiva interna e internacional. Isso não se improvisa.

E ainda menos mais quando se considera que a esquerda francesa está profundamente dividida, ou mesmo decomposta. A Frente de Esquerda [Front de Gauche], que reuniu o PCF, o PG [Parti de Gauche] e o "Ensemble", explodiu. De um lado, o PCF deseja a todo custo manter sua velha estratégia reformista de aliança com o PS, posto que seus representantes eleitos dependem disso. Do outro lado, Mélenchon se inspirou no Podemos para criar um movimento de apoio à sua candidatura presidencial – a que se pode aderir somente individualmente, aceitando as regras fixas do jogo definidas por Mélenchon e seus seguidores – se apresentando como um populista de esquerda para além dos partidos, como a figura de um líder carismático da Nação. Entre os dois, o “Ensemble”, o terceiro componente, se encontra preso, sem outra possibilidade que não o apoio a Mélenchon. O PCF acabou por fazer o mesmo… Mas Pierre Laurent teve que tentar duas vezes para conseguir uma maioria.

Enquanto isso, é indiscutível que o projeto de Mélenchon encontrou um sucesso notável. Sua campanha criou uma dinâmica real, portadora de uma grande esperança. Os encontros de massa da França Insubmissa [France Insoumise] são testemunhas disso. Não é o caso de rebaixar os méritos do candidato – ele é um excelente orador. Tampouco de sua equipe – ela tem o tino da comunicação. Contudo, esse sucesso é em parte o resultado de uma conjuntura muito particular: de um lado os escândalos que mancharam Le Pen-Fillon e o “vácuo” do aparato socialdemocrata, derrotado nas primárias; de outro, Mélenchon subiu nas pesquisas como um balão em uma corrente de ar quente. Tudo bem! Mas é uma grave ilusão deduzir que a dinâmica da França Insubmissa pode continuar a crescer linearmente até o ponto de tornar supérflua toda reflexão estratégica sobre a política de alianças, como alavanca para unificar “as pessoas de esquerda” e sobre a plataforma necessária a essa unificação.

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Ilusão social, ilusão política.

Isto é uma ilusão, em primeiro lugar, por uma razão social: o confronto que virá, na França, entre a direita e a extrema direita, será disputado, em última instância, nas ruas. Ele não poderá ser ganho sem a unificação de toda(o)s a(o)s explorada(o)s e a(o)s oprimida(o)s. Com e sem papeis . Não somente “as francesas e os franceses”. Seu discurso fortemente laico e chauvinista à nação “una e indivisível” (“Eu quero devolver a França às francesas e aos franceses”), permite a Mélenchon rastelar amplamente nas urnas. Mas constitui um verdadeiro problema do ponto de vista de uma estratégia de unidade nas lutas sociais. O internacionalismo não é um suplemento opcional: ele é uma condição sine qua non para uma autêntica política de esquerda.

Em segundo lugar, essa é uma ilusão em termos políticos. Mélenchon canabalizou a Frente de Esquerda. Para criar os Insubmissos ele até desarticulou o Partido de Esquerda [Parti de Gauche] que ele mesmo havia criado! Sua prática semeou e continua a semear uma terrível divisão e muitos ressentimentos. A questão é bastante concreta. Para as eleições legislativas, a França Insubmissa anunciou que ela apresentará candidata (o)s (a)s contra os políticos comunistas em exercício... Ainda que o PCF apoie a campanha de Mélenchon! O objetivo dos Insubmissos é de fato muito claro: como Mitterrand, e sob a desculpa de “superar os partidos”, eles desejam quebrar o PCF. Isso não é um segredo: muitos comunistas não podem mais ver Mélenchon nem pintado. Você disse “unidade”?

Mas a questão política chave é a da atitude frente à base do PS. Um milhão e duzentos mil eleitores nomearam Benoît Hamon nas primárias. Um chamado à esquerda, um bofetão no social-liberalismo autoritário de Valls e Holland! O aparato socialdemocrata reagiu sabotando a candidatura, ou mesmo apoiando abertamente Macron. Hamon então quis compor com os caciques, o que o fez cair para 8% nas pesquisas. E o que diz Mélenchon? Em essência, que isso foi merecido e que isso prova que ele, Mélenchon, deveria continuar sozinho... Bem, isso dura pouco. Pois, se é possível, no limite, que Mélenchon passe para o segundo turno sem o apoio dos eleitores socialistas que buscam uma alternativa, está completamente fora de questão que, sem eles, ele ganhe contra Macron. E, provavelmente, mesmo contra Fillon.
É Mélenchon quem tem a chave.

Se Mélenchon deseja ganhar, ele deve mudar de estratégia. Tomar uma iniciativa que reuna as “pessoas de esquerda”. Propor a seus parceiros potenciais um programa conjunto de governo baseado sobre algumas medidas chave em resposta à urgência social e ecológica, um acordo sobre as eleições legislativas que seguirão as presidenciais e uma estratégia de mobilização para o após-vitória. Não há nenhum obstáculo intransponível neste caminho. Primeiramente porque a França Insubmissa, Hamon e o PCF têm em comum a pretensão de oferecer uma alternativa ao social-liberalismo sem unir à extrema esquerda no anticapitalismo. Logo, como Mélenchon é o mais forte, ele está em posição de ditar as linhas de força de um acordo no qual ele tomaria a iniciativa.

Essa iniciativa daria ao candidato da França Insubmissa uma chance muito maior de estar no segundo turno. Essa seria também a única via que lhe permitiria, se necessário, ganhar esse segundo turno contra Macron ou Fillon (devemos escapar da ideia estereotipada de que Le Pen estará necessariamente no segundo turno: ela não se recuperou do ataque de Poutou sobre a “imunidade operária”!). É Mélenchon quem tem a chave para a vitória.

Ele tem a chave, mas se recusa a usá-la. Cada dia que passa, torna-se mais improvável que ele o faça. No momento em que essas linhas são escritas, há, contudo, um temor quanto às chances de prevenir a vitória da direita no segundo turno das eleições para Presidente da República Francesa estejam em vias de se derreter como neve sob o sol. Isso porque Philippe Poutou mantém sua candidatura? Não, porque Mélenchon mantém sua estratégia de ser o caudilho de uma esquerda populista “azul-branca-vermelha” no seio da qual as vozes divergentes serão atomizadas.

Esse é o debate verdadeiro, o debate estratégico crucial para a esquerda. Aquelas e aqueles que gritam “Cai fora Poutou” ["Haro sur Poutou" ] contribuem para escamotear esse debate, conscientemente ou não.

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1. N.T. Salário Mínimo Interprofissional de Crescimento – corresponde ao salário mínimo, no Brasil.
2. NT: ditado francês.
3. NT: Mélénchon reivindica em sua campanha o hino nacional francês, La Marseillaise, o que gerou desconforto entre militantes que consideram a canção um hino de guerra colonial.
4. NT: trabalhadores de uma empresa da União Europeia que exercem um trabalho na França. O status desse trabalhador está submetido à legislação da Comunidade Europeia. 
5. NT: Luta Operária (Lutte Ouvrière) cuja candidata é Nathalie Arthaud.
6. NT: em referência ao movimento político criado para promover a candidatura de Melenchon, denominado France Insoumise (França Insubmissa).
7. NT: Sans papiers, referência aos imigrantes ilegais na França e suas lutas.


Disponível originalmente em:

<http://www.lcr-lagauche.org/france-au-nom-du-vote-utile-ha…/>

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