A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Trotsky: O que foi a Revolução de Outubro

23/08/2017

 

 

Discurso de Leon Trotsky em Conferência no Estádio de Copenhague, na Dinamarca, 1932.

 

 

Caros ouvintes:

 

Permitam-me, em primeiro lugar, expressar-vos o meu sincero pesar por não poder falar na língua dinamarquesa perante um auditório de Copenhague. Pergunto a mim mesmo se os ouvintes perderão algo com isso. No que diz respeito ao conferencista, a ignorância do dinamarquês impede-o, no entanto, de estar em contato direto, em primeira mão e no original, com a vida e a literatura escandinavas. O que é, na verdade, uma grande perda!

 

O idioma alemão, ao qual sou obrigado a recorrer para tais fins, é poderoso e rico; mas a “minha língua alemã” é bastante limitada. Até porque, para questões complicadas, só nos explicamos com a liberdade necessária na nossa própria língua. Portanto, peço, antecipadamente, desculpas ao auditório.

 

Estive pela primeira vez em Copenhague para participar no Congresso Socialista Internacional e levei comigo as melhores lembranças da vossa cidade. Mas, já se passou um quarto de século. No Ore-Sund e nos fiordes, a água renovou-se muitas vezes. Mas não só a água. A guerra quebrou a coluna vertebral do velho continente europeu. Os rios e os mares da Europa arrastaram muito sangue humano. A humanidade, em particular a parte europeia, atravessou duras provas. Tornou-se mais sombria. Mais brutal. Todas as formas de luta se tornaram mais ríspidas. O mundo entrou numa época de grandes transformações cujas manifestações externas são a guerra e a revolução.

 

Antes de abordar o tema da minha conferência - A Revolução Russa - julgo dever expressar os meus agradecimentos aos organizadores da reunião, à Associação dos Estudantes Social-democratas de Copenhague. Faço-o na qualidade de adversário político. É verdade que minha conferência trata de questões histórico-científicas e não de questões políticas. Sublinho-o desde o início. É, porém, impossível falar de uma revolução, como a que criou a República dos Sovietes, sem tomar uma posição política. Na qualidade de conferencista, a minha bandeira permanece a mesma: aquela sob a qual participei nos acontecimentos revolucionários.

 

Até a guerra, o partido bolchevique pertenceu à social democracia internacional. A 4 de agosto de 1914, o voto da social democracia alemã a favor dos créditos de guerra, acabou de uma vez por todas com esta unidade e abriu a era da luta incessante e intransigente do bolchevismo contra a social democracia. Isto significa, portanto, que os organizadores desta reunião cometeram um erro ao convidar-me como conferencista? De qualquer modo, o auditório só poderá julgar após a minha conferência. Justificando a aceitação de tão amável convite para fazer uma conferência sobre a revolução, permito-me recordar que, durante os 35 anos da minha vida política, o tema da revolução russa foi sempre o eixo prático e teórico das minhas preocupações e dos meus atos. Isto talvez me dê algum direito de esperar conseguir ajudar, não só os meus companheiros e amigos de ideias, mas também os meus adversários - pelo menos em parte - a discernir melhor muitos aspectos da revolução, que até hoje escaparam à sua atenção. Numa palavra: o objetivo da minha conferência é ajudar a compreender. Não me proponho, aqui, propagar ou apelar à revolução.

 

Não sei se no olimpo escandinavo havia também uma deusa da rebelião. Duvido. De qualquer modo, não solicitaremos hoje os seus favores. Colocaremos a nossa conferência sob o signo de Snatra, a velha deusa do conhecimento. Não obstante o seu caráter dramático, como acontecimento vital, pretendemos estudar a revolução com a impassibilidade do anatomista. Se o conferencista, por causa disto, se tornar mais seco, espero que os ouvintes o saberão justificar.

 

Para começar, fixemos alguns princípios sociológicos elementares que são sem dúvida familiares a todos, mas que devemos, porém, recordar ao tomar contato com um fenômeno tão complexo como a revolução.

 

A sociedade humana é o resultado histórico da luta pela existência e preservação das gerações. O caráter da economia determina o caráter da sociedade. Os meios de produção determinam o caráter da economia. A cada grande época no desenvolvimento das forças de produção corresponde um regime social definido. Até agora, cada regime social assegurou vantagens enormes à classe dominante.

 

É evidente que os regimes sociais não são eternos. Nascem e transformam-se historicamente em obstáculos ao progresso ulterior: “Tudo o que nasce é digno de perecer”.

     

Nunca, porém, uma classe dominante abdicou, voluntária e pacificamente, do poder. Nas questões de vida e de morte os argumentos fundados na razão nunca substituíram os argumentos da força. É triste dizê-lo. Mas é assim. Não fomos nós que fizemos este mundo. Só podemos tomá-lo tal como é.

 

A revolução significa uma mudança de regime social. Ela transmite o poder das mãos de uma classe esgotada para as mãos de uma outra classe em ascensão. A insurreição constitui o momento mais crítico e mais agudo na luta de duas classes pelo poder. A sublevação não pode conduzir à vitória real da revolução e à implantação de um novo regime senão quando se apoia sobre uma classe progressiva que é capaz de agrupar à sua volta a maioria esmagadora do povo.

 

 Ao contrário dos progressos da natureza, a revolução é realizada por homens, no meio dos homens. Mas, também na revolução, os homens agem sob a influência das condições sociais que não são livremente escolhidas por eles mas que são herdadas do passado e que lhes mostram imperiosamente o caminho. É precisamente por isto e só por causa disto que a revolução tem as suas próprias leis.

 

Mas a consciência humana não reflete passivamente as condições objetivas. Ela reage ativamente sobre estas. Em certos momentos, esta reação adquire um caráter de massa, tenso, apaixonado. As barreiras do direito e do poder são derrubadas. Na realidade, a intervenção ativa das massas nos acontecimentos constitui o elemento mais essencial da revolução.

 

 Mas mesmo a atividade mais impetuosa pode permanecer ao nível de uma demonstração, de uma rebelião, sem se elevar à altura de uma revolução. A sublevação das massas deve conduzir ao derrubamento da dominação de uma classe e ao estabelecimento da dominação de outra. Só assim teremos uma revolução consumada. O levantamento das massas não é um empreendimento isolado que se pode desencadear por capricho. Representa um elemento objetivamente condicionado no desenvolvimento da sociedade. Mas, se as condições de sublevação existem, não se deve esperar passivamente de boca aberta: nos problemas humanos também há, como diz Shakespeare, fluxos e refluxos: “There is a tide in the affairs of men which, taken at the flood, leads on to fortune”. (“Há uma maré nos negócios humanos, que, quando tomada na enchente, conduz à fortuna.”)

 

Para derrubar o regime que sobrevive, a classe progressiva deve compreender que a sua hora chegou e impor-se como tarefa a conquista do poder. Abre-se aqui o campo da ação revolucionária consciente, em que a previsão e o cálculo se unem à vontade e à ousadia. Dito de outra forma: inicia-se aqui o campo de ação do partido.

 

O “Golpe de Estado”

 

O partido revolucionário reúne em si o melhor da classe progressiva. Sem um partido capaz de se orientar em qualquer situação, de apreciar a marcha e o ritmo dos acontecimentos e de conquistar a tempo a confiança das massas, a vitória da revolução proletária é impossível. Tal é a relação dos fatores objetivos e subjetivos da revolução e da insurreição.

 

Como sabeis, nas discussões, os adversários - em particular na teologia - costumam desacreditar frequentemente a verdade científica levando-a ao absurdo. Isto chama-se, na lógica, reductio ad absordum (redução ao absurdo). Nós vamos tentar seguir a via oposta: isto é, tomaremos como ponto de partida um absurdo a fim de nos aproximarmos com mais segurança da verdade. Na verdade, não nos podemos queixar da falta de absurdos. Tomemos um dos mais recentes e mais indigestos.

 

O escritor italiano Malaparte, uma espécie de teórico fascista, lançou recentemente um livro sobre a técnica do golpe de estado; claro que o autor consagra um número não negligenciável de páginas da sua “investigação” à insurreição de outubro.

 

Diferentemente da estratégia de Lênin, que permanece ligada às relações sociais e políticas da Rússia de 1917, “ a tática de Trotsky, pelo contrário - segundo os termos de Malaparte -, não está de nenhum modo ligada às condições gerais do país”. Tal é a ideia principal da obra! Malaparte obriga Lênin e Trotsky, nas páginas do seu livro, a travar numerosos diálogos nos quais ambos os interlocutores dão provas de tão pouca profundidade de espírito como a que a natureza pôs à disposição de Malaparte. Às objeções de Lênin sobre as premissas sociais e políticas da insurreição, Malaparte atribui a Trotsky literalmente a seguinte resposta: “A nossa estratégia exige demasiadas condições favoráveis e a insurreição não tem necessidade de nada, basta-se a si mesma”. Compreendem? “A insurreição não tem necessidade de nada.” Tal é precisamente, caros ouvintes, o absurdo que nos deve servir para nos aproximar da verdade. O autor repete com persistência que em Outubro não foi a estratégia de Lênin, mas a tática de Trotsky que triunfou. Esta tática ameaçava, segundo os seus próprios termos, ainda agora, a tranquilidade dos estados europeus. “A estratégia de Lênin” - cito textualmente - “não constitui nenhum perigo imediato para os governos da Europa. A tática de Trotsky constitui para eles um perigo atual e por consequência permanente”. Mais concretamente: “Colocai Poincaré no lugar de Kerensky e o golpe de estado bolchevique de outubro de 1917 teria também  triunfado.” É difícil acreditar que semelhante livro seja traduzido em diversas línguas e tomado a sério.

 

Em vão procuramos aprofundar por quê é que em geral a estratégia de Lênin, dependendo de condições históricas, é necessária se a “tática de Trotsky” permite resolver o mesmo problema em qualquer situação. E por que é que as revoluções vitoriosas são tão raras se para o seu sucesso basta um par de receitas técnicas?

 

O diálogo entre Lênin e Trotsky apresentado pelo escritor fascista é, tanto no espírito quanto na forma, uma invenção tola do princípio ao fim. Invenções semelhantes circulam muito pelo mundo. Por exemplo, em Madri foi impresso um livro com o meu nome, La vida de Lenine, pelo qual sou tão responsável como pelas receitas técnicas de Malaparte.

 

O semanário de Madri Estampa publicou deste pretenso livro de Trotsky sobre Lênin capítulos inteiros que contêm abomináveis ultrajes à memória do homem que eu estimo incomparavelmente mais do que qualquer outro dos meus contemporâneos.

 

Mas abandonemos os falsários à sua sorte. O velho Wilhelm Liebknecht, o pai do combatente e heroi imortal Karl Liebknecht, gostava de repetir: o homem político revolucionário deve prevenir-se com uma pele grossa. O doutor Stokman recomendava ainda mais expressivamente a todo aquele que se propõe ir contra a opinião pública que não vestisse calças novas.

 

Poder-me-iam objetar: as suas considerações gerais podem explicar suficientemente porque razão a velha Rússia, país de capitalismo atrasado e com um campesinato miserável, coroado por uma nobreza parasitária e por uma monarquia putrefata, devia naufragar. Mas na imagem da cadeia e do elo mais fraco falta ainda a chave do enigma propriamente dito: como é que num país atrasado podia triunfar a revolução socialista? A história conhece bastante exemplos de decadência de países e de classes para a qual não se encontrou nenhuma saída progressiva. A derrocada da velha Rússia deveria, à primeira vista, transformar o país numa colônia capitalista e não num estado socialista.

 

Esta objeção é muito interessante. Conduz-nos diretamente ao cerne de todo o problema. Contudo, esta objeção é viciosa, diria, mesmo, desprovida de proporção interna. Por um lado provém de uma concepção exagerada quanto ao atraso da Rússia, por outro de uma falsa concepção teórica quanto ao fenômeno do atraso histórico em geral.

 

Os seres vivos, entre outros, e naturalmente os homens também, atravessam, segundo a sua idade, graus de desenvolvimento semelhantes. Numa criança normal de cinco anos, encontra-se uma certa correspondência entre o peso, o tamanho e os órgãos internos; mas as coisas já se passam de outra maneira com a consciência humana. Em oposição à anatomia e à fisiologia, a psicologia, tanto a do indivíduo como a da coletividade, distingue-se pela extraordinária capacidade de assimilação, pela destreza e elasticidade: nisto consiste a vantagem aristocrática do homem sobre o seu parente zoológico mais próximo, da espécie dos macacos. A consciência, susceptível de assimilar e ágil, confere, como condição necessária do progresso histórico, aos “organismos” ditos sociais, ao contrário dos organismo reais, isto é biológicos, uma extraordinária variabilidade da estrutura interna. No desenvolvimento das nações e dos estados, em particular dos estados capitalistas, não há nenhuma semelhança nem uniformidade. Diferentes graus de cultura - e até pólos opostos - aproximam-se e combinam-se muitas vezes na vida de um único país.

 

Não esqueçamos, caros ouvintes, que o atraso histórico é uma noção relativa. Se há países atrasados e avançados, há também uma ação recíproca entre eles; há a pressão dos países avançados sobre os retardatários; há a necessidade para os países atrasados de alcançar os países avançados, de se servirem de sua técnica, ciência, etc. Assim surgiu um tipo combinado de desenvolvimento: sinais de atraso combinam-se com a última palavra da técnica e do pensamento mundiais. Enfim, os países historicamente atrasados, para ultrapassarem o seu atraso, são por vezes constrangidos a superar os outros.

 

A destreza da consciência coletiva fornece a possibilidade de se atingir, em certas condições, na arena social, o resultado que em psicologia individual se chama “a compensação”. Neste sentido pode dizer-se que a Revolução de Outubro foi para os povos da Rússia um meio histórico de superar a sua inferioridade econômica e cultural.

 

Mas ultrapassemos estas generalidades histórico-políticas, que talvez sejam bastante abstratas, para colocar a mesma questão de uma forma mais concreta, isto é, através de fatos econômicos vivos. O atraso da Rússia no século XX exprime-se muito claramente do seguinte modo: a indústria ocupa no país um lugar mínimo em comparação com o campo, o proletariado em comparação com o campesinato.

 

No conjunto, isto significa uma baixa produtividade do trabalho nacional. Basta dizer que, nas vésperas da guerra, quando a Rússia czarista tinha atingido o auge de sua prosperidade, o rendimento nacional era oito a dez vezes mais baixo que o dos Estados Unidos. Isto exprime numericamente “a amplitude” do atraso, se se pode, em geral, servir da palavra amplitude no que se refere ao atraso.

 

Ao mesmo tempo, a lei do desenvolvimento combinado exprime-se no domínio econômico tanto nos fenômenos simples como nos fenômenos complexos. Quase sem estradas nacionais, a Rússia viu-se obrigada a construir estradas de ferro. Sem ter passado pelo artesanato e pela manufatura europeias, a Rússia passou diretamente para as empresas mecanizadas. O futuro dos países atrasados é saltar etapas intermediárias.

 

Enquanto a economia camponesa permanecia frequentemente ao nível do século XVII, a indústria da Rússia, se não pela sua capacidade, pelo menos pelo seu tipo, achava-se ao nível dos países avançados e ultrapassava estes em muitos aspectos. Basta dizer que as empresas gigantes com mais de mil operários ocupavam nos Estados Unidos menos de 18% do total dos operários industriais, enquanto na Rússia ocuparam mais de 41%. Este fato está em desacordo com a concepção banal do atraso econômico da Rússia. Todavia não contradiz o atraso, completa-o dialeticamente.

 

A estrutura de classe do país apresentava também o mesmo caráter contraditório. O capital financeiro da Europa industrializou a economia russa a um ritmo acelerado. A burguesia industrial adquiriu em breve um caráter de grande capitalismo inimigo do povo. Além disso, os acionistas estrangeiros viviam fora do país. Pelo contrário, os operários eram, evidentemente, russos. Uma burguesia numericamente fraca, que não possuía nenhuma raíz nacional, encontrava-se desta maneira oposta a um proletariado relativamente forte e com profundas raízes no povo.

 

Para o caráter revolucionário do proletariado contribuiu o fato da Rússia ter sido obrigada, como país atrasado, a alcançar os adversários, não chegando a elaborar um conservadorismo social ou político próprio. A Inglaterra, o país mais conservador da Europa, e até de todo o mundo, o mais antigo país capitalista, me dá razão. O país da Europa mais liberto do conservadorismo podia ser, portanto, a Rússia.

 

O proletariado jovem, fresco, resoluto, não constituía, contudo, mais do que uma minoria ínfima da nação. As reservas de sua potência revolucionária encontram-se fora do próprio proletariado: no campesinato, que vivia numa semi-servidão, e nas nacionalidades oprimidas.

 

O Campesinato

 

A questão agrária constituía a base da revolução. A antiga servidão monárquica era duplamente insuportável nas condições da nova exploração capitalista. A comunidade agrária ocupava cerca de 140 milhões de deciatinas. Há 30 mil grandes proprietários latifundiários, possuindo cada um em média mais de 2 mil deciatinas, correspondiam um total de 70 milhões de deciatinas, isto é, tanto quanto a cerca de 10 milhões de famílias camponesas, ou seja 50 milhões de seres. Esta estatística da terra constituía um programa acabado da insurreição camponesa.

 

Um nobre, Roborkin, escrevia em 1917 a Chambellan Rodzianko, presidente da última Duma do Estado: “Sou um proprietário latifundiário e não me ocorre pensar nem por um momento que tenha que perder a minha terra e, muito menos, para um fim inacreditável: para fazer uma experiência socialista”. Mas as revoluções tem precisamente por objetivo realizar o que não entra na cabeça das classes dominantes.

 

No outono de 1917, quase todo o país estava envolvido pelo levantamento camponês. De 621 distritos da velha Rússia, 482, isto é, 77%, eram atingidos pelo movimento. O reflexo do incêndio iluminava a arena do levantamento das cidades.

 

Mas, podereis objetar, a guerra camponesa contra os proprietários latifundiários é um dos elementos clássicos da revolução burguesa e não da revolução proletária!

 

Respondo: exato, foi assim no passado! Mas é precisamente a impossibilidade de sobrevivência da sociedade capitalista, num país historicamente atrasado, que explica o fato de o levantamento camponês não empurrar para a frente as classes burguesas da Rússia, mas pelo contrário as lançar, definitivamente, no campo da reação. Ao campesinato, para não fracassar, não lhe restava outro caminho senão o da aliança com o proletariado industrial. Esta aliança revolucionária das duas classes oprimidas foi genialmente prevista e preparada de longa data por Lênin.

 

Se a questão agrária tivesse sido resolvida corajosamente pela burguesia, certamente o proletariado russo não teria podido chegar ao poder em 1917. Chegando demasiado tarde, mergulhada precocemente na decrepitude, a burguesia russa, ávida e covarde, não teve a ousadia de levantar a mão contra a propriedade feudal. Assim, entregou o poder ao proletariado e, ao mesmo tempo, o direito de dispor da sorte da sociedade burguesa.

 

Para que o estado soviético fosse uma realidade, era sobretudo necessária a ação combinada de dois fatores de natureza histórica distinta: a guerra camponesa, isto é, um movimento burguês, e a insurreição proletária que anuncia o declínio do movimento burguês. Nisto reside o caráter combinado da revolução russa.

 

Bastava que o urso camponês se levantasse sobre as patas traseiras para mostrar a sua terrível fúria. Contudo não tinha capacidade para dar à sua revolta séria expressão consciente: tinha necessidade de um guia. Pela primeira vez na história do mundo, o campesinato sublevado encontrou um dirigente leal: o proletariado.

 

Quatro milhões de operários da indústria e dos transportes lideraram 100 milhões de camponeses; tal foi a relação natural e inevitável entre o proletariado e o campesinato na revolução.

 

A Questão Nacional

 

A segunda reserva revolucionária do proletariado era constituída pelas nações oprimidas, de resto predominantemente constituída por camponeses. O caráter extensivo do desenvolvimento do estado, que se estende como uma mancha de azeite, desde o centro moscovita até a periferia, está intimamente ligado ao atraso histórico do país. A leste, submetia as populações ainda mais atrasadas, para melhor sufocar, com o seu apoio, as nacionalidades mais subdesenvolvidas do oeste. Aos 10 milhões de grão-russos que formavam a massa principal da população associavam-se, sucessivamente, 90 milhões de “alógenos”.

 

Assim se compunha o império no qual a nação dominante não constituía senão 43% da população, enquanto que os outros 57% eram de nacionalidades, culturas e regimes diferentes. A opressão nacional era na Rússia incomparavelmente mais brutal do que nos estados vizinhos e, para dizer a verdade, não somente naqueles que estavam do outro lado da fronteira ocidental como também nos da fronteira oriental. Isto dava ao problema nacional uma força explosiva enorme.

 

A burguesia liberal russa não queria, nem na questão nacional nem na questão agrária, ir além de certas reformas para atenuar o regime de opressão e violência. Os governos “democráticos” de Miliukov e de Kerensky, que exprimiam os interesses da burguesia e da burocracia grã-russa, apressaram-se, no decurso de oito meses de sua existência, a fazer compreender às nações descontentes: não obtereis senão aquilo que arrancardes pela força.

 

Lênin tomou desde o início em consideração o desenvolvimento inevitável do movimento nacional centrífugo. O partido bolchevique lutou durante anos, obstinadamente, pelo direito à autodeterminação das nações, isto é, pelo direito à completa separação estatal. Foi precisamente por esta corajosa posição sobre a questão nacional que o proletariado russo pode ganhar, pouco a pouco, a confiança das populações oprimidas. O movimento de libertação nacional, bem como o movimento camponês, voltou-se contra a democracia oficial, fortaleceu o proletariado e lançou-se na corrente da insurreição de outubro.

 

A Revolução Permanente

 

Assim se desvenda pouco a pouco perante nós o enigma da insurreição proletária num país historicamente atrasado.

Muito tempo antes dos acontecimentos, os revolucionários marxistas previram a marcha da revolução e a função histórica do jovem proletariado russo. Permitam-me reproduzir um extrato da minha obra sobre o ano de 1905:

 

“Num país economicamente atrasado o proletariado pode chegar mais cedo ao poder do que num país capitalista adiantado… A revolução russa cria… tais condições que o poder pode passar (com a vitória da revolução deve passar) ao proletariado mesmo antes que a política do liberalismo burguês tenha a possibilidade de desenvolver em toda a sua amplitude o seu gênio estatal (...) O destino dos interesses revolucionários mais elementares dos camponeses… está fortemente ligado ao destino da revolução, isto é, ao destino do proletariado. Uma vez chegado ao poder, o proletariado aparecerá aos camponeses como libertador de classe. O proletariado entra no governo como um representante revolucionário da nação, como dirigente reconhecido do povo em luta contra o absolutismo e a barbárie da servidão… O regime proletário deverá desde o princípio pronunciar-se pela solução da questão agrária a qual está ligado o destino das poderosas massas populares da Rússia”.

 

Evoquei esta citação para testemunhar que a teoria da Revolução de Outubro, apresentada hoje por mim, não é uma improvisação rápida e não foi construída, afinal de contas, sob a pressão dos acontecimentos. Não, ela foi formulada sob a forma de um prognóstico político, muito tempo antes da insurreição de Outubro. Concordais que a teoria não tem habitualmente valor senão na medida em que ajuda a prever o curso do desenvolvimento e a influenciar os seus objetivos. Eis, falando em termos gerais, a importância inestimável do marxismo como arma de orientação social e histórica. Lamento que os estreitos limites desta exposição me impeçam de desenvolver o texto citado anteriormente de uma maneira mais ampla e por isso terei de me conformar com um curto resumo de tudo o que escrevi em 1905.

 

Em relação às suas tarefas imediatas, a Revolução Russa é uma revolução burguesa. Mas a burguesia russa é contrarrevolucionária. Por conseguinte, a vitória da revolução não é possível senão como vitória do proletariado. Ora, o proletariado vitorioso não se deterá no programa da democracia burguesa, passará ao programa do socialismo. A Revolução Russa tornar-se-á a primeira etapa da revolução socialista mundial. Tal era a teoria da revolução permanente, elaborada por mim em 1905 e mais tarde exposta à crítica mais severa, sob o nome de “trotskysmo”.

Mais precisamente: esta não é senão uma parte desta teoria; a outra, agora particularmente atual, afirma:

 

“As atuais forças produtivas ultrapassaram há muito tempo as barreiras nacionais. A sociedade socialista é irrealizável nos limites nacionais. Por mais importante que sejam os sucessos econômicos de um estado operário isolado, o programa do ‘socialismo num só país’ é uma utopia pequeno-burguesa. Só uma federação europeia, e em seguida mundial, de repúblicas socialistas pode abrir caminho a uma sociedade socialista harmoniosa”.

 

Hoje, depois da prova dos acontecimentos, tenho menos razões do que nunca para me retratar desta teoria.

 

O Bolchevismo

 

Depois de tudo o que acabo de dizer, vale a pena ainda recordar o escritor fascista Malaparte que me atribuiu uma tática independente da estratégia e resultante de técnicas insurrecionais aplicáveis em todos os momentos? Já não é mau que o nome do infeliz teórico permita distingui-lo sem dificuldade do prático vitorioso do golpe de estado: não há assim risco de confundir Malaparte com Bonaparte.

 

Sem a insurreição armada de 25 de outubro de 1917 (7 de novembro segundo o calendário atual) o estado soviético não existiria. Mas a insurreição não caiu do céu. Para a Revolução de Outubro era necessário uma série de premissas históricas:

  1. A podridão das velhas classes dominantes, da nobreza, da monarquia, da burocracia.

  2. A debilidade política da burguesia que não tinha nenhuma raiz nas massas populares.

  3. O caráter revolucionário da questão agrária.

  4. O caráter revolucionário do problema das nações oprimidas.

  5. O peso social do proletariado. A essas premissas orgânicas é preciso juntar condições conjunturais de excepcional importância:

  6. A Revolução de 1905 foi uma grande lição, segundo expressão de Lênin “um ensaio geral” da Revolução de 1917. Os sovietes, como forma de organização insubstituível da frente única proletária na revolução, foram constituídos pela primeira vez em 1905.

  7. A guerra imperialista agudizou todas as contradições, arrancou as massas do seu estado de imobilidade e preparou assim o caráter grandioso da catástrofe.

Mas todas essas condições, suficientes para que a revolução irrompesse, eram porém insuficientes para assegurar a vitória do proletariado na revolução. Para esta vitória, uma condição era ainda necessária:

     8) O partido bolchevique.

Se enumero essa condição em último lugar é porque isto corresponde à sequência lógica e não por atribuir ao partido o lugar de menor importância. Não, longe de o pensar. A burguesia liberal pode tomar o poder, o fez muitas vezes como resultado de lutas nas quais não havia tomado parte: para isso possui órgãos de compreensão magnificamente desenvolvidos. Contudo, as massas trabalhadoras encontravam-se numa outra situação: habituaram-se a dar o poder e não a tomá-lo para si. Trabalham pacientemente, esperam, perdem a paciência, sublevam-se, combatem, morrem, dão a vitória aos outros, são traídas, caem no desânimo, submetem-se, voltam a trabalhar. Assim é a história das massas populares sob todos os regimes. Para tomar com segurança e firmeza o poder nas mãos o proletariado tem necessidade de um partido que ultrapasse de longe todos os outros partidos, não só na clareza do pensamento, mas também na decisão revolucionária.

 

O Partido Bolchevique, designado com frequência e com razão como o partido mais revolucionário da história da humanidade, era a condensação viva de nova história da Rússia, de tudo o que era dinâmico nela. Há muito tempo que a queda da monarquia era a condição indispensável para o desenvolvimento da economia e da cultura. Mas faltavam as forças para levar adiante esta tarefa. A burguesia aterrorizava-se diante da revolução. Os intelectuais tentavam organizar o campesinato à sua volta. Incapaz de generalizar os seus esforços e objetivos, o mujique não deu resposta ao apelo dos intelectuais. A intelectualidade armou-se de dinamite. Toda uma geração se consumiu nesta luta.

 

Em 1º de Março de 1887, Alexandre Ulianov levou a cabo o último dos grandes atentados terroristas. O atentado contra Alexandre III fracassou. Ulianov e os demais participantes foram enforcados. A tentativa de substituir a classe revolucionária por uma preparação química tinha fracassado. Mesmo a intelectualidade mais heróica não é nada sem as massas. Sob a impressão imediata destes fatos e das suas conclusões, cresceu e formou-se o mais jovem dos irmãos de Ulianov, Vladimir, o futuro Lênin, a figura mais grandiosa da Revolução Russa. Desde o início da sua juventude colocou-se no terreno do marxismo e voltou o seu olhar para o proletariado. Sem perder de vista por um instante a aldeia, orientou-se para o campesinato através dos operários. Herdando dos seus precursores revolucionários a decisão, a capacidade de sacrifício, a disposição de ir até o fim, Lênin tornou-se nos anos da sua juventude o educador da nova geração intelectual e dos operários avançados. Nas greves e nas lutas de rua, nas prisões e no exílio, os trabalhadores adquiriram a têmpera necessária. A luz do marxismo era-lhes necessária para iluminar na escuridão da autocracia o seu caminho histórico. Em 1883 nasceu na imigração o primeiro grupo marxista.

 

Em 1898, numa assembleia clandestina, foi proclamada a criação do Partido Operário Social Democrata Russo (nesse tempo todos nos chamávamos social-democratas). Em 1903 teve lugar a cisão entre mencheviques e bolcheviques.

 

Em 1912 a fração bolchevique tornou-se definitivamente um partido independente.

 

Ensinou-nos durante doze anos (1905 a 1917) a reconhecer a mecânica de classe da sociedade nas lutas e nos grandiosos acontecimentos. Educou quadros capazes, quer de iniciativa quer de disciplina. A disciplina da ação revolucionária apoiava-se na unidade da doutrina, nas tradições de lutas comuns e na confiança numa direção experimentada.

 

Assim era o partido em 1917. Enquanto a “opinião pública” oficial e as toneladas de papel da imprensa intelectual o desprezavam, o partido orientava-se segundo o curso do movimento de massas. A formidável alavanca que esse partido manejava firmemente introduzia-se nas fábricas e nos regimentos. As massas camponesas voltavam-se cada vez mais para ele. Se se entende por nação não os privilegiados, mas a maioria do povo, isto é, os operários e os camponeses, então o bolchevismo transformou-se no decorrer do ano de 1917 no partido russo verdadeiramente nacional.

 

Em 1917, Lênin, obrigado a viver na clandestinidade, deu o sinal: “A crise está madura, aproximava-se a hora da insurreição”. Tinha razão. As classes dominantes caíam no impasse diante dos problemas da guerra e da libertação nacional. A burguesia perdeu definitivamente a cabeça. Os partidos democratas, os mencheviques e os socialistas-revolucionários dissiparam o último resto de confiança das massas apoiando a guerra imperialista e a política de compromissos e concessões aos proprietários burgueses e feudais. O exército - despertada a consciência revolucionária - negava-se a lutar pelos objetivos do imperialismo, que lhe eram estranhos. Sem atender às exortações “democráticas”, o campesinato expulsou os proprietários latifundiários. A oprimida periferia nacional do império lançou-se contra a burocracia de Petrogrado. Nos mais importantes conselhos de operários e soldados os bolcheviques dominavam. Os operários e os soldados exigiam atos. O abcesso estava maduro. Só faltava um corte de bisturi.

 

A insurreição só se tornou possível nessas condições sociais e políticas. E essa aconteceu inelutavelmente. Mas não se pode brincar com a insurreição. Desgraçado do cirurgião que utiliza o bisturi com negligência. A insurreição é uma arte. Tem as suas leis e as suas próprias regras.

 

O partido realizou a insurreição de Outubro com um cálculo frio e uma firme resolução. Graças a isto, triunfou quase sem vítimas. Por meio de sovietes vitoriosos, os bolcheviques colocaram-se à cabeça do país que engloba um sexto da superfície terrestre.

 

Creio que a maioria dos meus ouvintes de hoje não se ocupavam com a política em 1917. Tanto melhor. A jovem geração tem diante de si muitas coisas interessantes, nem sempre fáceis. Mas os representantes das velhas gerações nesta sala recordarão muito bem, certamente, como foi acolhida a tomada do poder pelos bolcheviques: como uma curiosidade, um mal-entendido, um escândalo, a maior parte das vezes como um pesadelo, que se desvaneceria ao primeiro raio de sol. Os bolcheviques manter-se-iam vinte e quatro horas, uma semana, um mês, um ano. Era preciso alargar sempre o prazo… Os donos do mundo armavam-se contra o primeiro estado operário: desencadeamento da guerra civil, novas e novas intervenções, bloqueios. Assim passou ano após ano. A história registrou, entretanto, quinze anos de existência do poder soviético.

 

Sim, dirá algum adversário, a aventura de Outubro mostrou-se mais sólida do que nós pensávamos. Talvez não fosse de todo uma “aventura”. Não obstante, a questão conserva toda a sua força: o que se obteve por um preço tão elevado? Realizaram-se as tarefas tão brilhantemente anunciadas pelos bolcheviques na aurora da insurreição?

 

Antes de responder ao suposto adversário, observemos que esta pergunta não é nova, pelo contrário, remonta aos primeiros passos da Revolução de Outubro desde o seu nascimento.

 

O jornalista francês Claude Anet, que estava em Petrogrado durante a revolução, escrevia já em 27 de Outubro de 1917: “Os maximalistas (era assim que os franceses chamavam os bolcheviques) tomaram o poder e o grande dia chegou. Enfim, pergunto-me, vou ver realizar-se o Éden socialista que nos prometeram há tantos anos… Admirável aventura! Posição privilegiada!” etc. etc., e assim por diante. Que ódio sincero se ocultava por detrás destas saudações irônicas! No dia seguinte à ocupação do Palácio de Inverno, o jornalista reacionário julgava-se com o direito de exigir o cartão de entrada no paraíso. Quinze anos decorreram desde a insurreição. Com a maior falta de cerimônias os adversários manifestam a sua alegria maligna ao comprovar que ainda hoje o país dos sovietes se assemelha pouco a um reino de bem-estar geral. Por que, então, a revolução e as suas vítimas?

 

Balanço de Outubro

 

Caros ouvintes - permito-me pensar que as contradições, as dificuldades, os erros, e as insuficiências do regime soviético não me são menos conhecidas do que a quem quer que seja. Pessoalmente, nunca as dissimulei, nem em palavras nem por escrito. Eu pensava e penso que a política revolucionária - ao contrário da política conservadora - não pode basear-se no disfarce. “Exprimir o que é” deve ser o princípio essencial do estado operário.

 

Mas é preciso ter perspectivas, tanto na crítica como na atividade criadora. O subjetivismo é um péssimo conselheiro sobretudo nas grandes questões. Os prazos devem ser adaptados às tarefas e não aos caprichos individuais. Quinze anos! Que significam para uma vida? Entretanto, numerosos são aqueles da nossa geração que foram enterrados; e, nos sobreviventes, os cabelos grisalhos multiplicam-se bastante. Mas estes mesmos quinze anos não são mais do que um período mínimo na vida de um povo! Nada mais do que um minuto no relógio da história.

 

O capitalismo teve necessidade de séculos para se afirmar na luta contra a Idade Média, para elevar a ciência e a técnica, para construir as estradas de ferro, para estender os fios elétricos. E então? A humanidade foi lançada pelo capitalismo no inferno das guerras e das crises! Mas ao socialismo os seus adversários, quer dizer, os partidos do capitalismo, não concedem senão uma década e meia para instaurar sobre a Terra o paraíso com todo o conforto.

 

Nós não assumimos tais obrigações. Não estabelecemos tais prazos. Deve-se medir os processos das grandes transformações com uma escala que lhe seja adequada. Não sei se a sociedade socialista se assemelhará ao paraíso bíblico. Duvido muito. Na União Soviética não existe ainda o socialismo, mas um estado em transição cheio de contradições, carregado da pesada herança do passado e, além disso, sob a pressão inimiga dos estados capitalistas.

 

A Revolução de Outubro proclamou o princípio da nova sociedade. A República Soviética não mostrou senão o primeiro estágio da sua realização. A primeira lâmpada de Edison foi muito imperfeita. Devemos saber discernir o futuro, para além dos efeitos e dos erros da primeira edificação socialista.

 

E as calamidades que se abatem sobre os seres vivos? Os resultados da revolução justificam as vítimas que causou?

 

Pergunta estéril e profundamente retórica: como se o processo da história resultasse de um balanço preestabelecido! Pela mesma razão, face às dificuldades e misérias da existência humana, poder-se-ia perguntar: vale a pena viver? Lênin escreveu a este propósito: “e o tolo espera uma resposta”... As meditações melancólicas não impediram o homem de fecundar e nascer. Mesmo na época de crise mundial sem precedentes, os suicídios constituem, felizmente, uma percentagem pouco elevada. Os povos não tem o costume de procurar refúgio no suicídio. Procuram libertar-se dos fardos insuportáveis pela revolução.

 

Por outro lado, quem se indigna com as vítimas da revolução socialista? Quase sempre são os mesmos que preparam e glorificam as vítimas da guerra imperialista ou, pelo menos, os que se acomodam facilmente ao conflito. É a nossa vez de perguntar: justifica-se a guerra? Que nos deu? Que nos ensinou?

 

Nos seus onze volumes de difamação contra a grande Revolução Francesa, o historiador reacionário Hypolite Taine descreve, não sem sórdida alegria, os sofrimentos do povo francês durante os anos de ditadura jacobina nos que se seguiram. Foram sobretudo penosos para as camadas inferiores das cidades, os plebeus, que, como “sans-cullottes”, deram à revolução o melhor do seu ser. Eles ou as suas mulheres passaram noites frias em filas para voltar no dia seguinte com as mãos vazias ao lar gelado. No décimo ano da revolução, Paris era mais pobre que antes da revolução. Dados cuidadosamente escolhidos e artificialmente compilados servem a Taine para fundamentar o seu veredito destruidor contra a revolução. Olhai, os plebeus queriam ser ditadores e caíram na miséria.

 

É difícil imaginar um moralista mais hipócrita: em primeiro lugar, se a revolução lançou o país na miséria, a culpa deve recair sobre as classes dirigentes, que arrastaram o povo para a revolução. Em segundo lugar: a grande revolução francesa não se esgotou nas filas da fome, diante das padarias. Toda a civilização moderna emergiram da Revolução Francesa!

 

No decorrer da guerra civil nos Estados Unidos, durante os anos 60 do século precedente, morreram 50 mil homens. Justificaram-se estas vítimas?

 

Do ponto de vista dos escravistas americanos e das classes dominantes da Grã-Bretanha que caminhavam ao lado deles - não! Do ponto de vista do negro ou trabalhador britânico - totalmente! E do ponto de vista do desenvolvimento humano no seu conjunto - não pode haver qualquer dúvida. Da guerra civil dos anos 60, saíram os Estados Unidos atuais com a sua iniciativa prática desenfreada e veloz, a técnica racionalizada, o arranque econômico. Sobre essas conquistas do americanismo, a humanidade edificará a nova sociedade.

 

A Revolução de Outubro penetrou mais profundamente que todas as que a precederam no âmago da sociedade, nas relações de propriedade. Prazos maiores são necessários para que se manifestem as forças criadoras da revolução em todos os domínios da vida. Mas a orientação geral da insurreição é clara: diante dos seus acusadores capitalistas, a república soviética não tem razão nenhuma para curvar a cabeça e falar a linguagem da desculpa.

 

Para apreciar o novo regime do ponto de vista do desenvolvimento humano, deve-se primeiro responder à pergunta: de que maneira se exterioriza o progresso social e como se pode medí-lo?

 

O critério mais objetivo, mais profundo e mais indiscutível é o progresso que se pode medir pelo crescimento da produtividade do trabalho social. A avaliação da Revolução de Outubro sob este aspecto já foi dada pela experiência. Pela primeira vez na história, o princípio de organização socialista demonstrou a sua capacidade fornecendo resultados de produção jamais obtidos num curto período.

 

Em números globais, a curva do desenvolvimento industrial da Rússia expressa-se como se segue: fixemos para o ano de 1913, o último ano antes da guerra, o número 100. O ano de 1920, ápice da guerra civil, é também o ponto mais baixo da indústria: 25 somente, quer dizer, um quarto de produção de antes da guerra; 1929, aproximadamente 200; 1932, 300; ou seja, três vezes mais que nas vésperas da guerra.

 

O quadro tornou-se ainda mais claro à luz dos índices internacionais. De 1925 a 1932, a produção industrial da Alemanha diminuiu cerca de uma vez e meia; na América, cerca de dobro; na União Soviética, subiu mais do quádruplo; os números falam por eles próprios.

 

De maneira nenhuma penso negar ou dissimular os lados sombrios da economia soviética. Os resultados dos índices industriais são extraordinariamente influenciados pelo desenvolvimento desfavorável da economia agrária, isto é, do domínio no qual ainda não foram aplicados os métodos socialistas, mas que foi arrastado ao mesmo tempo para a vida da coletivização sem preparação suficiente, de maneira mais burocrática do que técnica ou econômica. É uma questão importante, mas que no entanto ultrapassa os limites da minha conferência.

 

Os números dos índices apresentados requerem ainda uma reserva essencial. Os êxitos indiscutíveis e brilhantes da industrialização soviética exigem uma verificação econômica ulterior do ponto de vista da harmonia recíproca dos diferentes setores da economia, do seu equilíbrio dinâmico e, por conseguinte, da sua capacidade de rendimento. Grandes dificuldades, e mesmo recuos, são ainda inevitáveis. O socialismo surge, na sua forma acabada, do plano quinquenal, como Minerva da cabeça de Júpiter ou Vênus da espuma do mar. Temos ainda à nossa frente décadas de trabalho obstinado, de erros, de correções e de reconstruções. Por outro lado, não esqueçamos que a edificação socialista, pela sua essência, não pode atingir o seu auge senão à escala internacional.

 

Mesmo o mais desfavorável balanço econômico dos resultados obtidos até agora não poderia revelar outra coisa que não fosse a inexatidão dos cálculos preliminares, as faltas do plano e os erros da direção, mas não poderia contradizer o fato estabelecido empiricamente: a possibilidade de elevar a produtividade a um nível jamais existente com a ajuda dos métodos socialistas. Esta conquista, de uma importância histórica mundial, ninguém e nada poderá ocultar.

 

Após o que acaba de ser dito, quase não vale a pena perder tempo em lamentações segundo as quais a Revolução de Outubro conduziu a Rússia ao declínio da cultura. Tal é a voz das classes dominantes e dos salões inquietos. A “cultura” aristocrático-burguesa, derrubada pela revolução proletária, não era mais que um complemento da barbárie. Enquanto inacessível ao povo russo, pouco contribuiu para o tesouro da humanidade.

Mas também no que respeita a essa cultura tão chorada pela emigração branca deve-se precisar a questão: em que sentido foi destruída?

 

Num só sentido: o monopólio de uma pequena minoria sobre os bens da cultura desapareceu. Mas tudo que era realmente “cultura” na antiga Rússia ficou intacto. Os “hunos” bolcheviques não espezinharam nem as conquistas do pensamento nem as obras de arte. Pelo contrário, restauraram cuidadosamente os monumentos da criação humana e expuseram-nos em ordem exemplar. A cultura da monarquia, da nobreza e da burguesia tornou-se agora a cultura dos museus históricos.

 

O povo visita com zelo esses museus. Mas não vive neles. Aprende. Constroi. O simples fato de a Revolução de Outubro ter ensinado ao povo russo, às dezenas de povos da Rússia czarista, a ler e a escrever, coloca-se incomparavelmente acima do que o que toda a cultura russa encerrava antes.

 

A revolução de Outubro criou a base de uma nova cultura destinada não aos eleitos, mas a todos. As massas de todo o mundo o sentem. Daí a sua simpatia pela União Soviética, tão ardente como outrora o seu ódio contra a Rússia czarista.

 

Caros ouvintes, vós sabeis que a língua humana representa um utensílio insubstituível, não só para a designação dos acontecimentos, mas também para a sua afirmação. Afastando o acidental, o episódico, o artificial, absorve nela o real, caracteriza-o e condensa-o. Notai com que sensibilidade as línguas das nações civilizadas distinguiram duas épocas no desenvolvimento da Rússia. A cultura aristocrática trouxe ao mundo barbarismos tais como czar, cossaco, pogrom, nagaika. Vós conheceis estas palavras e sabeis o que elas significam. Outubro trouxe às línguas de todo o mundo palavras tais como: bolchevique, soviete, kolkhoz, Gosplan, piatilétka. Aqui a linguística prática emite o seu julgamento histórico supremo!

 

O significado mais profundo, mas no entanto mais dificilmente submetido a uma medida imediata, de cada revolução, consiste em que ela forma e tempera o caráter popular. A imagem do povo russo como um povo lento, passivo, melancólico, místico, está largamente espalhada e isso não se deve ao acaso. Tem as suas raízes no passado. Mas, até agora, as modificações profundas introduzidas pela revolução no caráter do povo não são tomadas suficientemente em consideração no Ocidente. Podia ser de outra maneira?

 

Todo o homem com experiência da vida pode despertar na sua memória a imagem de um adolescente qualquer, seu conhecido, que - impressionável, lírico, sentimental enfim - se torna mais tarde, de repente, sob a ação de um forte choque moral, num homem forte, e já não reconhecível. No desenvolvimento de toda uma nação, a revolução realiza transformações morais análogas.

 

A insurreição de Fevereiro contra a autocracia, a luta contra a nobreza, contra a guerra imperialista, pela paz, pela terra, pela igualdade nacional, a insurreição de Outubro, a queda da burguesia e dos partidos que faziam acordos com a burguesia, três anos de guerra civil numa frente de 8 mil quilômetros, os anos de bloqueio, de miséria, de fome e de epidemias, os anos de tensa edificação econômica, as novas dificuldades e privações; eis uma rude, mas boa escola. Um martelo pesado destroi o vidro mas forja o aço. O martelo da revolução forja o aço do caráter do povo.

 

“Quem acreditará nisso?”. Já tinha que se acreditar. Pouco tempo depois da insurreição, um dos generais czaristas, Zaleski, escandalizava-se com o fato de um porteiro ou um guarda se tornar um presidente de tribunal; um enfermeiro, um diretor de hospital; um barbeiro, uma personalidade importante; um soldado, um comandante supremo; um jornalista, um prefeito; um serralheiro, um diretor de empresa.

 

“Quem acreditará nisso?”. Já tinha que se acreditar. Aliás não se podia deixar de crer, enquanto os soldados derrotavam os generais, o prefeito, outrora jornalista rompia a resistência da velha burocracia, o serralheiro, como diretor, reconstruía a indústria. “Quem acreditará nisso?”. Tente-se não acreditar nisso!  

 

Para explicar a paciência habitual que as massas populares da União Soviética mostraram nos anos de revolução, numerosos observadores estrangeiros apelam para a antiga passividade do caráter russo. Grosseiro anacronismo! As massas revolucionárias suportaram as privações pacientemente mas não passivamente. Elas constroem com as suas próprias mãos um futuro melhor e querem criá-lo a todo custo. Que o inimigo de classe tente somente impor a essas massas pacientes, de fora, a sua vontade! Não, melhor que não o tente!

 

Para terminar, tentemos fixar o lugar da Revolução de Outubro não somente na história da Rússia, mas também na história do mundo. Durante o ano de 1917, no intervalo de 8 meses, duas curvas históricas se encontraram. A Revolução de Fevereiro - esse eco tardio das grandes lutas que se desenrolaram nos séculos passados nos territórios da Holanda, da Inglaterra, da França, de quase toda a Europa continental - liga-se à série das revoluções burguesas. A Revolução de Outubro proclama e abre a era da dominação do proletariado. É o capitalismo mundial que sofre no território da Rússia a sua primeira grande derrota. A cadeia partiu-se no seu elo mais fraco. Mas foi a cadeia e não somente o elo que se quebrou.

 

Em Direção ao Socialismo

 

O capitalismo como sistema mundial apenas sobrevive historicamente. Cessou de cumprir a sua missão essencial: a elevação do nível do poder e da riqueza humana. A humanidade não pode estagnar no degrau atingido. Só um poderoso desenvolvimento das forças produtivas e uma organização justa, planificada - isto é, socialista - de produção e repartição pode assegurar aos homens - a todos os homens - um nível de vida digno e conferir-lhes, ao mesmo tempo, o sentimento precioso da liberdade em face da sua própria economia. Da liberdade em duas ordens de relações: primeiramente, o homem já não será obrigado a consagrar a maior parte da sua vida ao trabalho físico.

 

Em segundo lugar, já não dependerá das leis do mercado, isto é, das forças cegas e obscuras que operam fora da sua vontade. Ele edificará livremente a sua economia, isto é, segundo um plano, de compasso na mão. Trata-se agora de radiografar a anatomia da sociedade, de descobrir todos os seus segredos e de submeter todas as suas funções à razão e à vontade do homem coletivo. Neste sentido, o socialismo deve tornar-se uma nova etapa do crescimento histórico da humanidade. Ao nosso antepassado que se armou pela primeira vez com um machado de pedra, toda a natureza se apresentou como a conjuração de um poder misterioso e hostil. Mais tarde, as ciências naturais em colaboração estreita com a tecnologia prática iluminaram a natureza até as mais profundas entranhas. Por meio da energia elétrica, o físico exprime o seu juízo sobre o núcleo atômico. Não está longe a hora em que, como no jogo, a ciência resolverá a tarefa da alquimia, transformando o estrume em ouro e o ouro em estrume. Onde os demônios e as fúrias da natureza se desencadeavam, reina agora cada vez mais corajosamente a vontade industriosa do homem.

 

Mas, enquanto lutou vitoriosamente com a natureza, o homem edificou, cegamente, as suas relações com os outros homens quase como as abelhas e as formigas. Abordou problemas da sociedade humana com atraso e muita indecisão. Começou pela religião para passar em seguida à política. A Reforma apresentou o primeiro sucesso do individualismo e do racionalismo burguês num domínio onde reinava uma tradição morta. O pensamento crítico passou da igreja ao estado. Nascido na luta contra o absolutismo e as condições da Idade Média, a doutrina da soberania popular dos direitos do homem e do cidadão expandiu-se. Assim se formou o sistema do parlamentarismo.

 

O pensamento crítico penetrou no domínio da administração do estado. O racionalismo político da democracia era a mais alta conquista da burguesia revolucionária.

 

Mas entre a natureza e o estado encontra-se a economia. A técnica libertou o homem da tirania dos antigos elementos, a terra, a água, o fogo e o ar, para os submeter em seguida à sua tirania. O homem deixou de ser escravo da natureza para se tornar o escravo da máquina, ou, pior ainda, escravo da oferta e da procura. A atual crise mundial testemunha de forma particularmente trágica como este dominador orgulhoso e audacioso da natureza permanece escravo das forças cegas da sua própria economia. A tarefa histórica da nossa época consiste em substituir o jogo desenfreado do mercado por um plano racional, em disciplinar as forças produtivas, obrigando-as a agir com harmonia, servindo docilmente às necessidades do homem. É somente sobre esta nova base social que o homem poderá erguer as suas costas fatigadas e tornar-se todos e todas, e não somente os eleitos, cidadãos de plenos poderes no domínio do pensamento.

 

Mas isto não é ainda o objetivo final. É apenas o começo. O homem designa-se como rei da criação. Tem certos direitos. Mas quem pode afirmar que o homem atual seja o último e o mais acabado representante do homo sapiens? Não: tanto física como espiritualmente está longe da perfeição este aborto biológico cujo pensamento está doente e que ainda não criou um novo equilíbrio orgânico.

 

É verdade que a humanidade produziu por diversas vezes gigantes do pensamento e da ação que ultrapassaram os contemporâneos, como os cumes das cadeias montanhosas. O gênero humano tem direito a orgulhar-se dos seus Aristóteles, Shakespeare, Darwin, Beethoven, Goethe, Marx, Edison, Lênin. Mas por que são eles tão raros? Antes de mais nada porque provinham, quase sem exceção, das classes médias e mais educadas. Salvo raras exceções, os rasgos do gênio são esmagados nas almas oprimidas do povo mesmo antes de poderem brotar. Mas também porque o processo de procriação, de desenvolvimento e de educação do homem ficou e fica na sua essência submetido às leis do acaso; não iluminado pela teoria e pela prática, não submetido à consciência e à vontade.

 

A antropologia, a biologia, a fisiologia e a psicologia reuniram montes de materiais para erigir diante do homem, em toda a sua amplitude, as tarefas do seu próprio aperfeiçoamento corporal e espiritual e do seu desenvolvimento ulterior. Pela mão genial de Sigmund Freud, a psicanálise levantou a tampa do poço chamado poeticamente a “alma” do homem. E o que apareceu? O nosso pensamento consciente não constitui senão uma pequena parte no trabalho das obscuras forças psíquicas. Sábios mergulhadores descem ao fundo do oceano e aí fotografam misteriosos peixes. Para que o pensamento humano desça ao fundo de seu próprio poço psíquico deve eliminar as misteriosas forças motoras da alma e submetê-las à razão e à vontade.

 

Quando destruir as forças anárquicas da sua sociedade, o homem se integrará aos laboratórios e às retortas do químico. Pela primeira vez, a humanidade considerar-se-á a si própria como uma matéria-prima e, no melhor dos casos, como uma semifabricação física e psíquica. O socialismo significará um salto do reino da necessidade para o reino da liberdade, no sentido de que o homem de hoje, cheio de contradições e sem harmonia, abrirá caminho a uma nova espécie mais feliz.

 

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