A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Desenvolvimento e Ensinamentos da Revolução de Outubro

27/08/2017

 

1ª Questão: Ao longo desta “História do partido Comunista da União Soviética”, apresenta-se o “Comitê Central leninista” como o verdadeiro inspirador, organizador e responsável da vitória da grande Revolução de Outubro. Mas esconde-se cuidadosamente ao leitor a composição desse mesmo Comitê Central leninista. Quais foram os seus membros antes, durante e depois da vitória de Outubro e qual foi o seu destino?

 

Resposta: Em agosto de 1917, 21 bolcheviques foram eleitos membros do Comitê Central. Desses 21, 7 morreram de morte natural: Sverdlov, Lenine, Noguine, Dzerjinsky, Artem, Kollontai e Estaline. Dois foram assassinados pela contrarrevolução: Uritzki e Chaumian. Onze tombaram vítimas do terror estalinista: um assassinado por um agente da GPU no estrangeiro (Trotsky) e dez nas masmorras estalinistas (Zinoviev, Kamenev, Rykov, Boukharine, Milioutine, Krestinsky, Sokolnikov, Bubnov, Smilga, Berzine); o vigésimo primeiro, Mouranov, desapareceu sem deixar vestígios; provavelmente foi também liquidado em 1938.

 

Entre 1918 e 1921, trinta e um bolcheviques forma membros do Comitê Central. Desses trinta e um, oito morreram de morte natural (Lenine, Djerjinsky, Sverdlov, Artem, Noguine, Stouchka, Estaline, Kalinine). Um foi assassinado pela contrarrevolução (Uritzki). Um foi levado ao suicídio por Estaline (Tomsky). Dezoito foram assassinados sob o terror estalinista: Zinoviev, Kamenev, Evdokimov, Smirnov, Trotsky, Radek, Serebriakov, Sokolnikov, Rykov, Boukharine, Rakovsky, Bielogorodov, Smilga, Krestinsky, Roudzoutak, Boubnov, Milioutine e Préobrajensky. Uma foi vítima do terror estalinista mas sobreviveu (Stassova). Um desapareceu sem deixar vestígios: Mouranov. Um ainda vive e faz parte do Comitê Central (Andréev).

 

Em Outubro de 1917, foi pela primeira vez eleito um bureau Político do Comitê Central. Era composto por sete membros: Lenine, Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Sokolnikov, Boubnov e Estaline. Dois desses membros (Lenine e Estaline) morreram de morte natural; os outros cinco foram mortos pelo terror estalinista. Até 1923, fizeram parte do Bureau Político: Lenine, Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Boukharine, Estaline, Preóbrajensky, Serebriakov, Tomsky e Rykov. Destas dez pessoas, oito foram vítimas do terror estalinista.

 

A conclusão é clara: a grande maioria dos membros do “Comitê Central leninista” foi morta durante o reinado de Estaline. Na antiga versão da história do Partido (o “Tratado” de 1938), explicava-se que esses revolucionários eram no fundo contrarrevolucionários, agentes do imperialismo, espiões, mesmo fascistas e “hitlerianos”. Inevitavelmente, os méritos de Lenine encontravam-se reduzidos: com efeito, que pensar de um dirigente revolucionário que se rodeia de uma maioria de contrarrevolucionários como mais fieis colaboradores?

 

Hoje em dia, Lenine foi “reabilitado”; o seu Comitê Central foi elevado aos píncaros. Como não concluir que o extermínio da maioria dos membros desse Comitê Central não podia ser nem “um lamentável acidente”, nem um simples capricho de psicopata (“o culto da personalidade”), mas que constitui a prova mais palpável de uma colossal transformação política que teve lugar na URSS entre a época de Lenine e o triunfo de Estaline? Como não concluir que existiu uma contrarrevolução, e mais exatamente uma contrarrevolução política, como o precisaremos mais adiante?

 

2ª Questão: Fala-se na “História do Partido Comunista da União Soviética” do papel que os membros desse “Comitê Central leninista” tiveram na história do movimento operário russo antes de 1917?

 

Resposta: Fala-se… exclusivamente com o fito de denegrí-los! Quando se citam os “eminentes colaboradores de Lenine”, os “organizadores do partido”, etc., etc., quase que se os não mencionam. Os seus nomes apenas são citados quando se trata de emitir críticas maliciosas. Existe aí qualquer coisa totalmente ilógica. Falta-nos lugar para aqui examinarmos todas essas críticas. Mas, mesmo se fossem exatas, existiria ainda falsificação por omissão. Como supor, com efeito, que Lenine tivesse proposto durante toda a revolução e os primeiros anos do poder soviético um Comitê Central cujos membros apenas tivessem… erros na sua bagagem?

 

Em certas ocasiões, essas falsificações por omissão atingem o grotesco. Assim, “esquece-se” de mencionar que Kamenev foi enviado para a Rússia pelo Comitê Central em 1914 para dirigir a fração da Douma e o “Pravda”. “Esquece-se” de mencionar que Zinoviev foi eleito presidente da Internacional Comunista no Congresso de fundação e que ocupou esse posto até 1926. “Esquece-se” mesmo de mencionar a composição da delegação bolchevique para esse Congresso, e porque razão: ela era composta por Lenine, Trotsky, Zinoviev, Estaline, Boukharine e Tchitcherine. “Esquece-se” de assinalar que os soviétivcos membros do Executivo da IC eram Lenine, Trotsky, Zinoviev, Boukharine e Radek. “Esquece-se” de indicar que foi Trotsky quem falou em nome da fração bolchevique no pré-Parlamento, a fim de anunciar que essa fração ia deixar a assembleia. “Esquece-se” de mencionar que Trotsky foi o primeiro presidente bolchevique do Soviete de Petrogrado e que nessa qualidade presidiu também ao Comitê Militar Revolucionário desse Soviete, encarregado de preparar a insurreição. “Esquece-se” de fornecer a composição do primeiro governo revolucionário (o Conselho dos Comissários do povo presidido por Lenine, eleito no 2º Congresso Panrusso dos Sovietes). No entanto, pode-se encontrá-la no livro de John Reed, atualmente vendido na URSS: Lenine, Milioutine, Chliaonikov, Antonov-Ovséenko, Dybenko, Krylenko, Noguine, Lounatcharsky, Stepanov, Trotsky, Lomov, Theodorovitch, Avilov, Estaline…

 

3ª Questão: Quais eram as tarefas a resolver pela Revolução Russa de 1917?

 

Resposta: A Revolução russa derrubou o poder da burguesia e dos proprietários fundiários, estabeleceu a ditadura do proletariado e abriu caminho à expropriação dos capitalistas e à nacionalização dos meios de produção. Ao mesmo tempo, resolveu as principais tarefas da revolução democrática burguesa, que a burguesia se tinha mostrado incapaz de resolver: reforma agrária radical, questão nacional, unificação do país, etc.

 

No entanto, no que respeita a este assunto, a “História do Partido Comunista da União Soviética” semeia uma confusão extrema. Esta confusão resulta da recusa dos autores da obra em admitir o fato evidente que Lenine (e, depois dele, a maioria do Partido Bolchevique) modificou a estratégia bolchevique em Abril de 1917, e adotou no essencial a teoria da revolução permanente.

 

Durante a revolução russa de 1905, confrontavam-se três posições no Partido Operário Social-Democrata Russo:

  1. a posição dos mencheviques que, partindo da constatação do fato de que a Rússia não tinha ainda atravessado uma revolução burguesa vitoriosa, afirmavam que a revolução tinha essencialmente por objetivo o derrube do czarismo e a eliminação dos restos semifeudais da economia e da sociedade russa. O proletariado devia apoiar criticamente a burguesia liberal, a fim de a obrigar a realizar essa revolução do modo mais radical, combatendo, ao mesmo tempo, pelas suas próprias reivindicações imediatas (direito à greve, sufrágio universal, jornada de oito horas, etc.);

  2. a posição dos bolcheviques que partiam da constatação que a burguesia, na época contemporânea, em presença de um proletariado industrial altamente concentrado e consciente, organizado nos partidos marxistas, era incapaz de realizar as tarefas clássicas da revolução democrática burguesa, com medo da ação revolucionária das massas. Ao mesmo tempo, Lenine constatava que, dado o reduzido número de proletários na sociedade e a fraqueza da infraestrutura capitalista no país, o partido do proletariado não podia esperar conquistar sozinho o poder. Levando a revolução até o fim, esta conduziria a uma “ditadura democrática do proletariado e do campesinato”, no seio da qual o partido operário podia participar num governo de coligação com um partido camponês. Esta revolução vitoriosa seria apenas uma revolução democrática burguesa radical e não tomaria imediatamente a forma de uma revolução socialista;

  3. a posição de Trotsky. Como os mencheviques e Lenine, Trotsky compreendia que a questão agrária era a questão chave. Mas, enquanto que os mencheviques acreditavam que a burguesia liberal podia realizar uma reforma agrária radical, e que Lenine acreditava que essa reforma podia ser obra de um governo de coligação entre um partido operário e um partido camponês, Trotsky afirmava que só a ditadura do proletariado era capaz de dar de modo radical a terra aos camponeses. Com efeito, precisava que a história tinha demonstrado que o campesinato era incapaz de constituir grandes partidos nacionais verdadeiramente “camponeses” e que seguia sempre ou a direção de um partido burguês ou a direção de um partido operário.

A história da Revolução de Outubro deu razão a Trotsky, pois só quando o poder foi conquistado pelo proletariado, quando o governo bolchevique foi constituído, é que o decreto sobre a distribuição das terras aos camponeses foi votado.

 

Para permitir a vitória de Outubro, Lenine modificou a orientação do Partido na Conferência de Abril de 1917, modificou o programa do Partido que apenas exigia a constituição de uma república democrática e fez inscrever como objetivo o estabelecimento imediato da ditadura do proletariado, de um Estado Soviético.

 

Tudo isto é hoje em dia bastante claro. Mas a “História do Partido Comunista da União Soviética” esforça-se por fugir de diversas maneiras com a mão à palmatória. Esforça-se por negar que tenha existido uma mudança de estratégia do Partido bolchevique em Abril de 1917.

 

Para isso, define o objetivo das Teses de Abril elaboradas por Lenine e das decisões da Conferência de Abril de 1971 do Partido bolchevique, como a “luta pela passagem da revolução democrática-burguesa à revolução socialista”.

 

Veremos mais adiante o que é que esta fórmula contém de errado. Mas podemos desde já constatar que está em oposição com o “objetivo estratégico” dos bolcheviques em 1905, tal como a própria “História” o define, pois afirma corretamente que a “ditadura democrática dos operários e camponeses”, concebida por Lenine em 1905, não era uma ditadura socialista, mas apenas uma ditadura “democrática”. Será que os autores da “História” pretendem talvez contestar que a Revolução de Outubro tenha estabelecido uma ditadura proletária, socialista, na Rússia?

 

Contra esta desesperada tentativa de negar a mudança de orientação estratégica de Lenine em 1917 - tentativa que torna obscuro o conjunto do problema da estratégia do partido revolucionário num país atrasado, particularmente nos países coloniais - numerosos testemunhos da época existem, todavia, para a contradizer. Citemos dois deles, que os autores da “História” dificilmente poderão recusar.

 

Em 1924, Molotov publicou um artigo intitulado “Lenine e o Partido na época da Revolução de Fevereiro”, do qual extraímos a passagem que se segue:

“Mas é necessário dizê-lo abertamente: o Partido não possuía aquela perspicácia e aquele espírito de decisão que eram exigidos pelo momento revolucionário. Não as tinha, porque não tinha uma clara atitude de orientação em direção à revolução socialista. Na generalidade, a agitação e toda a prática do partido revolucionário careciam de uma base sólida, pois o pensamento ainda não tinha avançado até à conclusão audaciosa da necessidade de uma luta imediata pelo socialismo e pela revolução socialista”.

 

O pensamento de Trotsky tinha tirado essa “conclusão audaciosa” a partir de 1905. Lenine tinha-a atingido a partir do início da Revolução de Fevereiro de 1917. Eis a verdade histórica.

 

O tomo XX das “Obras Completas” de Lenine apareceu em 1928. A edição foi assegurada pelo Instituto Lenine, sob o controle do Comitê Central. O primeiro volume desse tomo ocupa-se nomeadamente da Conferência de Abril do Partido bolchevique. Eis o que afirma uma nota na página 557-8 (edição alemã) acerca da conferência:

 

“Nessa conferência, houve um pequeno grupo, composto essencialmente por uma parte dos delegados do comitê de Moscovo e da região de Moscovo (Noguine, Rykov, Smidovitch, Ovsiannikov, Angarsky e outros); a sua concepção da revolução corresponde aproximadamente à posição dos bolcheviques no ano de 1905 (fórmula ‘ditadura do proletariado e do campesinato’)... Kamenev, que tinha uma posição próxima da desse grupo, foi por ele encarregado de apresentar um contrarrelatório”.

 

É em relação a esta posição moscovita que Lenine se refere, opondo-lhe a tese da conquista do poder pelos Sovietes. É verdade que ele considera que esse poder não será “ainda” socialista sendo, no entanto, já “mais do que democrático burguês”. Mas sobre este ponto, a história corrigiu o camarada Lenine. Ninguém hoje em dia contestará o caráter socialista da Revolução de Outubro. Não querer compreender este problema significa rejeitar toda a possibilidade de ajudar os Partidos Comunistas dos países coloniais a elaborar uma estratégia exata. Significa perder de vista não só os ensinamentos da revolução de Outubro, mas também os ensinamentos da Revolução iugoslava e da Revolução chinesa - sem falar, infelizmente, das dezenas de ensinamentos negativos, em todo o lado em que os Partidos Comunistas se agarraram às teses ultrapassadas de 1905 e recusaram orientar-se em direção à ditadura do proletariado, apoiando-se no campesinato pobre.

 

4ª Questão: Quais são os ensinamentos da Revolução de Outubro sobre este assunto?

 

Resposta: A lição da Revolução de Outubro no que respeita às principais forças motrizes da revolução nos países que ainda não conheceram uma revolução democrática burguesa consumada, é que a aliança entre operários e camponeses, a única capaz de terminar a reforma agrária radical, só pode ser realizada através da ditadura do proletariado (a conquista do poder pelo proletariado). Esta lição é confirmada pela história da Revolução russa, pela história da Revolução chinesa e pela história da Revolução iugoslava. Não há, na história dos últimos 40 anos, nenhum exemplo de um país que tenha conseguido levar a cabo as tarefas clássicas da revolução burguesa sem passar pela conquista do poder pelo proletariado.

 

Existem, pelo contrário, inumeráveis exemplos de revoluções que, pelo fato de não terem conduzido à ditadura do proletariado, estagnaram depois da conquista da independência política (Índia, Indonésia, Birmânia, Egito, Marrocos, Tunísia, etc.) ou depois do derrube dos agentes políticos do imperialismo (Iraque, Venezuela), mas que não conseguiram resolver o problema agrário, para não falar do da industrialização do país. A história da segunda revolução chinesa (1925-27) confirma esta mesma lição.

 

5ª Questão: Formularam os autores da “História do PC da União Soviética” esta lição?

 

Resposta: Não o fizeram, apesar de, no entanto, encontrar-se assinalada em numerosos documentos da Internacional, bem como no seguinte texto de Lenine:

 

“A nossa experiência ensinou-nos - e encontramos a sua confirmação no desenvolvimento de todas as revoluções do mundo, se considerarmos a era moderna, digamos, os últimos cento e cinquenta anos - que por toda a parte e sempre aconteceu a mesma coisa: todas as tentativas feitas pela pequena-burguesia em geral e pelos camponeses em particular, para tomar consciência da sua força, para dirigir a economia e a política à sua maneira, resultaram num fracasso. Ou bem que se colocam sob a direção do proletariado ou bem que se colocam sob a direção dos capitalistas. Não existe meio termo. Aqueles que sonham com um meio termo são uns sonhadores, uns visionários” (Discurso no Congresso dos operários dos transportes, Março de 1921, “Obras Completas”, tomo II, págs. 838-9).

 

Ora, é exatamente a mesma ideia que guiou Trotsky na elaboração da sua teoria da revolução permanente. Escrevia Trotsky em 1905:

 

“A revolução russa impede… a constituição de qualquer regime constitucional-burguês que pudesse resolver as mais rudimentares tarefas da democracia… Por esta razão, o destino dos mais elementares interesses revolucionários do campesinato - mesmo do conjunto do campesinato enquanto camada - está ligado ao destino da revolução no seu geral, ou seja, ao destino do proletariado. O proletariado no poder aparecerá aos camponeses como a classe que os liberta. Mas será que talvez o campesinato rejeite o proletariado e ocupe o seu lugar? Isso é impossível. Toda a experiência histórica se revolta contra semelhante hipótese. Ela mostra que o campesinato é absolutamente incapaz de ter um papel político independente [...] a burguesia russa legou todas as posições revolucionárias ao proletariado. Deverá igualmente abandonar-lhe a hegemonia revolucionária sobre o campesinato”.

 

Em vez de admitir francamente esta identidade de opiniões, ou pelo menos de a esboçar, os autores da “História” repetem sem cessar (no mais puro estilo estalinista) que “Trotsky queria saltar por cima da etapa da revolução democrática burguesa” e que “negava o papel revolucionário do campesinato”, que queria “isolar” o proletariado do campesinato”. Basta comparar esta “análise” da teoria da revolução permanente com a definição que o seu próprio autor lhe dava e que acabamos de citar, para compreender todo o caráter deformado, senão falsificado, desta análise.

 

6ª Questão: Apesar de a desprezarem em teoria, será que os estalinistas e os khrouchtchevistas observaram, ao menos na prática, esta lição?

 

Resposta: Infelizmente, nada disso se passou. Em todos os casos em que Partidos Comunistas foram confrontados com poderosos movimentos revolucionários nas colônias, bem longe de lutarem pela hegemonia do proletariado, idealizaram a burguesia nacional, concluíram com ela alianças duráveis, subordinaram-lhe o movimento de massas e acabaram por ser brutalmente reprimidos por essa mesma burguesia. Isso começou pela trágica experiência com Tchiang-Kai-Chek em 1925-27; prosseguiu no Irã com Mossadegh, na Guatemala com Arbenz, no Egito com Nasser, na Argentina com Frondizi, em Marrocos com o rei Mohammed V. Prossegue atualmente no Iraque com Kassem, na Índia com Nehru, na Indonésia com Sukarno. O resultado não será mais brilhante.

 

Certamente, não se trata de exigir a um Partido Comunista que lute pelo poder em quaisquer condições de relação de forças, nem de lhe proibir a concessão de um apoio crítico a um movimento nacional burguês enquanto este efetivamente dirigir um movimento de massas contra o imperialismo. Infelizmente, todos os casos pré-citados indicam que, sob Estaline como sob Khrouchtchev, os comunistas desperdiçaram enormes oportunidades de se tornarem, a curto ou a médio prazo, a força dominante no povo, porque se submeteram servilmente à direção nacional burguesa e contribuíram para consolidar a sua audiência nas massas.

 

As únicas exceções evidentes são a do PC iugoslavo e a do PC chinês que, contra as “diretrizes” de Estaline, conduziram e ganharam a luta pelo poder. Estabelecendo a ditadura do proletariado resolveram, “de passagem”, as tarefas da revolução democrática burguesa, sem poderem parar nessa etapa, mas passando rapidamente às “medidas coletivistas”, como Trotsky o tinha previsto… a partir de 1905.

 

7ª Questão: Qual foi a natureza da Revolução de Fevereiro?

 

Resposta: A “História do Partido Comunista da União Soviética” caracteriza a Revolução de Fevereiro de 1917 como uma revolução democrática burguesa que era necessário “transformar” em revolução proletária. É verdade que algumas frases pronunciadas por Lenine em Abril de 1917 - frases que não se encontram em mais nenhuma análise posterior de Lenine sobre a revolução russa - dão consistência a essa definição. Na realidade, os dados que os próprios autores da “História” nos oferecem permitem sublinhar o caráter confuso, senão incompleto, dessa definição.

 

A Revolução de Fevereiro de 1917 foi apenas uma “revolução democrática burguesa” que não resolveu a tarefa principal. Com efeito, os autores da “História do PC da União Soviética” explicam na página 214 que o governo provisório criado pela Revolução de Fevereiro não podia e não queria dar a terra aos camponeses. Ao mesmo tempo precisam que a Revolução de Outubro “que realizou diretamente tarefas socialistas, conduziu igualmente até ao fim a revolução democrática burguesa”. Ora, a “História” afirma noutro lado que a tarefa mais delicada da revolução democrática burguesa russa era “a destruição do poder dos proprietários fundiários…”, ou, melhor ainda, “a liquidação de qualquer vestígio de feudalismo”. Manifestamente, esses objetivos não foram realizados em Fevereiro de 1917; se o tivessem sido, nunca o campesinato teria dado o seu apoio à Revolução de Outubro. Afirmando na página 212 que: “a revolução democrática burguesa de Fevereiro realizou o primeiro objetivo do Partido, o derrube do czarismo e abriu a possibilidade de liquidar o capitalismo e de instaurar o socialismo”, os próprios autores da “História” saltam por cima da tarefa principal da “etapa democrática burguesa”, a saber, a distribuição das terras, e “ignoram” eles próprios o peso decisivo do campesinato. Todas estas tristes contradições resultam da tentativa de ignorar a teoria da revolução permanente…

 

8ª Questão: Quem dirigiu a Revolução de Outubro e quando e como é que ela triunfou?

 

Resposta: Sobre este assunto, a “História do PC da União Soviética” repete - atenuando-as - as grosseiras falsificações do “Tratado” publicado em 1938. Este não tinha feito cerimônia em escrever que na sessão histórica do Comitê Central de 10 de Outubro de 1917, que decidiu a insurreição:

 

“Trotsky não votou diretamente contra a resolução, mas apresentou uma emenda que devia fazer falhar, reduzir a nada, a insurreição. Propôs que não se começasse a insurreição antes da abertura do 2º Congresso dos Sovietes; isso significaria demorar a insurreição, anunciar antecipadamente a sua data, advertir o governo provisório”.

 

Entretanto, tendo sido publicada a célebre obra de John Reed “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, essa desmedida falsificação que apresenta Trotsky, o principal organizador e dirigente da insurreição, como tendo de fato querido fazê-la falhar, teve de ser abandonada. Com efeito, o livro de John Reed não é uma obra qualquer. O seu prefácio foi redigido por Lenine. Reproduzido no novo tomo 36 das suas “Obras Completas”, esse prefácio caracteriza da seguinte maneira o livro de John Reed:

“Recomendo devotadamente esta obra aos operários de todos os países. Espero que este livro seja difundido em milhões de exemplares e traduzido em todas as línguas, pois relata de uma forma verídica e extraordinariamente viva acontecimentos que são tão importantes para compreender o que é a revolução proletária, o que é a ditadura do proletariado”.

 

Ora, o livro de John Reed diz que nessa mesma reunião Lenine e Trotsky defenderam a ideia de insurreição; que no dia seguinte Lenine publicou no “Pravda” um artigo defendendo a ideia da insurreição imediata; que o governo tendo assim sabido do “segredo” tomou imediatamente medidas… e que finalmente a insurreição teve mesmo lugar, como Trotsky o tinha proposto, no momento da convocação do II Congresso Panrusso dos Sovietes em Petrogrado. Na verdade, o livro de John Reed não deixa de pé uma só palavra da falsificação estalinista.

 

A nova versão dos acontecimentos oferecida pelos autores da “História” é, apesar disso, pouco mais verídica. Podendo ser confrontada por todos os leitores soviéticos (e comunistas do mundo inteiro) com a obra de John Reed, atinge o ridículo.

 

Começa-se por retomar, corrigindo-a, a passagem acima mencionada:

 

“Na reunião do Comitê Central, Trotsky não votou contra a resolução sobre a insurreição. Mas insistiu para que a insurreição fosse adiada até a concentração do 2º Congresso dos Sovietes, o que na prática significava fazer falhar a insurreição, pois os socialistas revolucionários e os mencheviques teriam podido retardar a convocação do Congresso e o governo teria podido ter a possibilidade de concentrar no dia da sua abertura as forças suficientes para a derrota da insurreição”.

 

O autor desta “correção” pouco brilha pela coerência das duas ideias. Esquece-se de nos explicar porque é que a insurreição, que coincidiu com efeito com a convocação do II Congresso Panrusso dos Sovietes, não falhou “devido a essa razão”. Esquece-se de nos lembrar que se Trotsky tinha proposto essa coincidência, era precisamente porque as forças militares que o governo dispunha eram insuficientes para fazer abortar a insurreição, pois elas passavam, regimento após regimento, para o comando do Soviete de petrogrado. E esquece-se de nos explicar porque é que o governo, que estava ao corrente da “data” da insurreição, não compreendeu o que Estaline, Ponomarev & Cia. descobriram… 20 anos mais tarde.

 

No “Tratado” de 1938, dizia-se:

“Em 16 de Outubro realizou-se uma sessão alargada do Comitê Central do Partido. Ela elegeu um Centro do Partido para dirigir a insurreição, com o camarada Estaline à sua cabeça. Foi esse centro, núcleo dirigente do Comitê Militar Revolucionário junto do Soviete de petrogrado, que praticamente dirigiu a insurreição”.

 

Na nova versão, essa falsificação foi ligeiramente corrigida:

 

“O órgão encarregado de efetuar a insurreição na capital foi o Comitê Militar Revolucionário, criado por proposta do CC do Partido, junto do Soviete de Petrogrado”.

 

É exato que esse Comitê efetuou todo o trabalho prático da insurreição. A única mentira por omissão que aqui cometem os autores dessa “História”, é a de não lembrar que o seu presidente foi Leon Trotsky.

 

Uma página adiante afirma-se que em 16 de Outubro:

 

“No fim da sessão foi eleito um Centro Militar Revolucionário para dirigir a insurreição, composto por Boubnov, Dzerjinsky, Sverdlov, Estaline e Uritzky. Decidiu-se que o Centro Militar Revolucionário entrasse no Comitê Militar Revolucionário do Soviete”.

 

Noutras palavras: o órgão que devia “dirigir” entrou simplesmente no órgão já existente e não modificou nem o trabalho, nem as tarefas, nem o pessoal dirigente, pois Trotsky permaneceu presidente, Antonov-Ovséenko e Podvoísky os principais lugar-tenentes “técnicos”. E para rematar as suas desastrosas “correções”, os autores acrescentam:

“Todo o trabalho de organização da insurreição foi dirigido por Lenine”...

 

No entanto, em John Reed pode-se ler que todo o trabalho de organização foi efetuado pelo Comitê Militar Revolucionário. E, finalmente, para citar um testemunho pouco suspeito de simpatias… trotskistas, eis o que afirmou o próprio Estaline:

“Todo o trabalho de organização prática da insurreição foi posto sob a direção imediata do presidente do Soviete de Petrogrado, o camarada Trotsky. Pode-se afirmar com toda a certeza que o Partido deve a rápida passagem da guarnição para o campo dos sovietes e o hábil método de trabalho do Comitê Militar Revolucionário, antes de tudo e essencialmente ao camarada Trotsky” (“Pravda”, 6 de Novembro de 1918).

 

9ª Questão: Quem criou o Exército Vermelho? Quem dirigiu as suas operações durante a guerra civil?

 

Resposta: Igualmente aqui, a “História” do PC da União Soviética”, dá prova de um mesquinho espírito de falsificação. Não assinala que Leon Trotsky foi o primeiro Comissário do Povo da Defesa, para não falar do fato de que ele foi o criador do Exército Vermelho e o “pai da vitória”, como o atesta o decreto que lhe concedeu a Ordem da Bandeira vermelha, em 7 de Novembro de 1919.

 

Cita confusamente alguns dos principais dirigentes militares e políticos do Exército: Frunze, Vorochnikov, Boudienny e outros; S. Kamenev, Karbichev, Chapochiniov, Stankievich e Nicolaiev na página 307, tomo I; Andréev; Boubnov; Vorochilov; Gussev; Dzerjinsky; Jdanov; Ziemliecka; Kalinine; Kirov; Kossior; Kuibychev; Mechlis; Mikoyan; Ordzonikidzé; Petrovsky; Chiadenko; Iaroslavsky. Mas esta lista “esquece” os principais chefes comunistas do exército, tais como os futuros marechais Toukhatchevski e Yegorov. Esquece todos os dirigentes bolcheviques colocados à cabeça das operações militares.

 

A “História” apenas nos indica por alto que existiu “num momento” um Conselho de Guerra Revolucionário. “Esquece” que todas as operações militares foram dirigidas por esse Conselho de Guerra Revolucionário da República dos Sovietes. Quando da sua constituição, em 1918, esse Conselho foi composto por Trotsky (presidente), Sklianski (vice-presidente) e Vatzétis, I. N. Smirnov, Rosengoltz, Raskolnikov, Mouralov e Yureniev. Deste oito membros, cinco foram depois “liquidados” por Estaline. Em 1919, I. N. Smirnov, Rosengoltz e Raskolnikov foram substituídos por Smilga e Gussev. A fim de dirigir a operações na Ucrânia, o Comitê Central destacou especialmente Piatakov, Smilga e Lachévitch, que viriam a ser vítimas do terror estalinista.

 

O papel determinante desempenhado por Trotsky como organizador do Exército Vermelho pode ser atestado por três testemunhos que os meios oficiais da URSS de hoje dificilmente poderão recusar: Jacques Sadoul, Gorki e o próprio Lenine.

 

Tomando a palavra no Primeiro Congresso da IC, Jacques Sadoul declarou:

 

“Devemos muito reconhecimento aos dirigentes desse Exército (Vermelho), mas em primeiro lugar ao camarada Trotsky, cuja indomável energia, ligada a uma alta inteligência e a um verdadeiro gênio, pôde dar uma nova força vital ao exército russo, que se encontrava em total decomposição” (Relatório integral em alemão, pág. 63).

 

Na primeira edição em russo de “Obras Completas” de Lenine, Lenine elogia Trotsky porque ele conseguiu criar o Exército “com os tijolos deixados pelo edifício destruído do antigo regime”.

 

Na sua obra, “Lenine e o Camponês Russo”, Gorki descreve uma entrevista com Lenine que, a respeito de Trotsky, diz-lhe: “Mostrou-me um outro homem capaz de organizar num só ano um exército quase exemplar e de ganhar o respeito dos peritos militares. Nós temos um homem desse gênero”.

 

É verdade que estas duas passagens foram eliminadas (ou suavizadas) nas posteriores edições das Obras Completas de Lenine e da obra de Gorki. Mas não faltará muito tempo para que igualmente neste caso a verdade histórica reencontre os seus direitos.

 

Acrescentemos que a nova “História” acrescenta mesmo uma mesquinhez suplementar às falsificações do antigo “Tratado”. Este, falando das metamorfoses da intervenção estrangeira contra a República dos Sovietes, nota: “É assim que, por exemplo, os marinheiros franceses, guiados por André Marty, se revoltaram em Odessa”.

Na nova “História”, a revolta permaneceu; o nome de André Marty desapareceu…

 

Quanto às inumeráveis falsificações respeitantes às operações do Exército Vermelho, é impossível retificá-las aqui; seria necessário demasiado espaço. O leitor interessado poderá recorrer com vantagem ao capítulo de “Ma Vie” de Trotsky que deles trata e, sobretudo, ao “Profeta Armado” de Isaac Deutscher, que reuniu uma impressionante bibliografia para desmascarar as fantasias estalinistas.

 

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