A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O mundo esquecido das livrarias comunistas nos EUA

 

Os seus nomes proclamaram um novo tempo: Modern. Progressive. New Era. New World. Outras olharam para o passado, evocando heróis políticos norte-americanos como Thomas Paine e Abraham Lincoln.

 

Elas foram alvo de investigações do FBI e audiências do Congresso sobre "atividades não-americanas". J. Edgar Hoover condenou-as por vender publicações que "doutrinavam membros e simpatizantes” do Partido Comunista e “propagandear para as massas não-comunistas".

 

Embora hoje em grande parte esquecidas, as livrarias comunistas eram alguns dos espaços mais importantes para o marxismo nos Estados Unidos durante o século XX. A maioria dos norte-americanos não conhecia pessoalmente um comunista. No entanto, em cidades de todo o país, os radicais fizeram a sua presença ser conhecida em livrarias despretensiosas. Com os textos de Marx, Engels e Lenin, essas lojas também abasteceram o Daily Worker e as últimas publicações de figuras públicas do partido dos Estados Unidos, União Soviética e outros países ao redor do mundo.

 

As livrarias comunistas proporcionaram um espaço público crítico para os radicais, operando praticamente em todas as principais cidades americanas. Chicago, Los Angeles e Nova York tinham várias. Cidades menores e ostensivamente menos radicais, como Birmingham, Houston e Omaha, também tinham livrarias comunistas.

 

Décadas antes dos trolls da “direita alternativa” atacarem violentamente os escritores de esquerda na internet, os extremistas de direita visavam os livreiros comunistas, acusando-os dos crimes mais falsos e imagináveis. "Visite qualquer livraria comunista nos Estados Unidos e você encontrará livros impressos em Moscou e Pequim em inglês para bebês de um, dois e três anos", advertiu Fred Schwarz, autor do best-seller anticomunista “Você pode confiar nos comunistas (... eles são comunistas mesmo)”, de 1956. "Os comunistas querem as crianças. Eles não se importam tanto com os adultos, que consideram contaminados com a doença do capitalismo e, portanto, com pouca serventia para eles".

 

Não está totalmente certo quando os comunistas venderam livros pela primeira vez nos EUA. No entanto, logo após que se separaram do Partido Socialista da América para formar seu próprio partido em 1919, os comunistas também abriram suas próprias livrarias.

 

Os livreiros comunistas imediatamente se tornaram alvos da repressão estatal, pois enfrentaram uma intensa reação pós-guerra contra a chamada subversão. Em 1919, o poder legislativo de Nova York estabeleceu uma comissão para investigar "atividades conspiratórias" no estado. Como parte da investigação, um grupo de cinquenta policiais estaduais e voluntários de direita liderados pelo procurador-geral adjunto Samuel Berger invadiram a livraria People’s House da Rand School of Social Science, então a principal instituição educacional radical de Nova York. Os investigadores apreenderam livros e papeladas comunistas, mas os promotores eventualmente acabaram por não conseguir condenar os funcionários da livraria por conspiração.

 

Como anticapitalistas declarados, os comunistas foram comerciantes inesperados. Seus objetivos eram promover ideologia e cobrir os custos, não maximizar os lucros. As livrarias vermelhas se espalharam rapidamente à medida que as fileiras do Partido Comunista dos Estados Unidos da América (Communist Party USA, CPUSA) aumentaram durante a Grande Depressão. No final da década de 1930, cerca de cinquenta livrarias comunistas estavam abertas. A sua política também era paradoxal. Fiéis partidários de Stalin no exterior, os comunistas norte-americanos eram implacáveis ​​defensores da democracia e das liberdades civis em sua terra natal. E suas livrarias os ajudaram a circular nacionalmente um programa de igualdade racial e social.

 

Os comunistas nos EUA eram comerciantes refinados. A International Publishers (IP), editora oficial do CPUSA operada por Alexander Trachtenberg, dirigiu uma extensa rede de distribuição de publicações comunistas nos EUA. Trachtenberg, um judeu ucraniano que fugiu do massacre russo para os Estados Unidos em 1906, gerenciou a IP desde que foi fundada pelo partido e pelo abastado socialista A.A Heller em 1924. O PC pagou antecipadamente por textos escritos por líderes partidários, tipicamente fazendo encomendas em massa na faixa de cinco mil cópias antes da publicação, mas às vezes distribuindo até cem mil. Toda filial do partido no país tinha um "comissário literário" oficial que trabalhava com as livrarias e a editora para garantir que os textos oficiais chegassem às mãos dos filiados (que recebiam desconto de até 60% nas publicações).

 

Um anúncio de 1941 no Daily Worker sugere as prioridades de vendas do PC para aquele ano. O anúncio da Workers Book Shop em Nova York anunciou "150 mil volumes a serem vendidos" na "maior venda em nossa história". Além de clássicos, como as obras selecionadas de Lênin e os escritos de Marx e Engels sobre a Guerra Civil Americana, a loja ofereceu títulos menos lembrados (e mais intimidadores), como Marxist Philosophy and the Sciences [tradução livre: A filosofia marxista e as ciências] de JBS Haldane, A Textbook Of Dialectical Materialism [tradução livre: Compêndio do Materialismo Dialético] de David Guest, e New Data for Lenin’s Imperialism [tradução livre: Novos dados para o Imperialismo de Lênin] de Eugen Varga e Lev Mendelsohn por até 49 centavos de dólar cada.

 

No entanto, a perspicácia comercial não protegeu os livreiros comunistas da repressão. Um dos ataques mais notórios que enfrentaram foi em Oklahoma, onde a polícia local invadiu a Progressive Book Store em agosto de 1940, prendendo quase vinte funcionários e clientes e confiscando milhares de livros, panfletos e jornais. Quatro livreiros do CPUSA foram julgados por violar as leis do estado como "sindicalismo criminoso". Os promotores utilizaram textos comunistas confiscados como prova de planos de insurreição e os quatro réus foram facilmente condenados.

 

O caso de Oklahoma tornou-se o estopim para radicais e ativistas dos direitos civis em todo o país realizarem campanhas de libertação para comunistas presos como o sindicalista negro Angelo Herndon e o secretário geral do CPUSA Earl Browder. Em fevereiro de 1943, mais de dois anos após as investidas, o Tribunal Criminal de Oklahoma finalmente anulou a condenação dos livreiros.

 

O FBI também estava muito interessado nas livrarias comunistas. Os arquivos sobre os gerentes da Free State Bookshop em Baltimore oferecem um retrato vívido dos prós e contras de estar a frente de uma livraria comunista durante o auge do PC nos anos 1930 e 1940.

 

De 1937 até o final da década de 1940, Alexander Munsell e sua esposa, Louise Ellen Munsell, operaram a livraria Free State no centro de Baltimore, ao lado da sede local do CPUSA. Um descabelado excêntrico que renunciou a sua educação burguesa, Alexander era um herdeiro industrial que havia doado grande parte de sua fortuna para o CPUSA e se juntou à liderança estadual do partido em Maryland.

 

Em centenas de páginas de documentos, agentes disfarçados do FBI e informantes civis, relataram em detalhes ordinários suas visitas à Free State e a outra livraria operada por Munsell, a Frederick Douglass Bookshop, que a agência descreveu como um "ponto de distribuição das obras do Partido Comunista na vizinhança negra do oeste de Baltimore”.

 

Por mais de uma década, as duas livrarias funcionaram como os principais espaços públicos para a sucursal do PC em Baltimore. Além de oferecer espaço para reuniões do partido e formações para novos militantes, as livrarias foram usadas para recrutar novos membros, preparar petições e organizar campanhas de protesto.

 

A Free State e a Frederick Douglass lidaram com muitos dos mesmos desafios enfrentados pelos pequenos negócios. Os Munsells solicitaram licenças comerciais com a Prefeitura para equilibrar o caixa, ou pelo menos tentar. Continuar com as contas em dia nem sempre foi fácil e os líderes comunistas locais se preocupavam com os prejuízos da loja. O dinheiro das vendas de livros eram muito necessários para ajudar a cobrir os custos operacionais da filial do partido.

 

O Daily Worker suspendeu o envio de suas edições a Free State quando os pagamentos se tornaram muito atrasados. Alexander Munsell reclamou ao jornal que "todos nós aqui em Baltimore que trabalham vigorosamente para disputar ideias ao vender [Daily] Worker ficaram intrigados com o fato de que o jornal não chegou", mas um responsável pela circulação informou que o jornal não tinha outra escolha para lidar com as livrarias inadimplentes. Parece que até mesmo os anticapitalistas não podiam ignorar completamente os lucros.

 

As livrarias comunistas não estavam apenas focadas na ideologia política. Eles também floresceram como centros da cultura de vanguarda e vários ramos do pensamento livre. Eles eram especialmente importantes em cidades menores e mais conservadoras onde - em contraste com Chicago, Los Angeles e Nova York - poucos espaços apoiaram a experimentação artística e intelectual.

 

O intelectual literário James Smethurst mostrou, por exemplo, como as críticas livrarias comunistas eram para o Movimento das Artes Negras (Black Arts Movement, BAM) do meio do século. Em Birmingham, na década de 1930, um jovem músico chamado Herman Blount - mais tarde conhecido como Sun Ra, o incomparável bandleader de jazz - visitou regularmente Ella Speed Bookstore, onde gostava de palestras e conversas sobre cultura e política com funcionários e clientes . Décadas mais tarde em Baltimore, o poeta das Artes Negras, Sam Cornish, freqüentou a sucessora da Free State, a New Era Bookstore, que publicou uma das primeiras coletâneas de poesia de Cornish sob seu selo próprio, Sacco Publishers (nomeada em homenagem a Sacco e Vanzetti).

 

Embora mesmo quando as comunidades políticas e artísticas prosperaram em torno dessas livrarias, enfrentaram uma nova onda de dificuldades durante a “ameaça vermelha” após a Segunda Guerra Mundial. O Congresso intimou escritores e vendedores de livros radicais para testemunhar e responder a perguntas das autoridades do alto escalão sobre os detalhes de seus negócios. No final da década de 1950, os números das livrarias diminuíram acentuadamente em meio à queda da adesão do partido, das divisões internas e da repressão nacional.

 

Aqueles que permaneceram no mercado muitas vezes sofreram ataques nas mãos de assaltantes anônimos. Em Baltimore, Los Angeles e Manhattan, as livrarias do CPUSA foram atingidas com tijolos, coquetéis Molotov e até bombas na década de 1960. Acredita-se que membros do Ku Klux Klan e da John Birch Society foram responsáveis ​​por muitos desses assaltos.

 

Apesar desses desafios, as livrarias comunistas sobreviventes gozaram de um pequeno renascimento no final da década de 1960 e 1970. Com o Novo Movimento Comunista - um ramo ultra-esquerdista da Nova Esquerda - surgiu uma série de organizações marxistas-leninistas que procuraram radicalizar os sindicatos durante esses anos. Mas nos anos 80 e 90, duas transformações imprevistas esmagaram esse crescimento modesto.

 

Primeiramente, e mais dramático, cerca de vinte governos comunistas caíram em um intervalo de três anos. Os soviéticos dirigiram os comunistas norte-americanos e supervisionaram suas livrarias por décadas, de modo que o colapso do Muro de Berlim e a implosão do socialismo de estado - apesar de ser uma benção para a liberdade expressão no Bloco Oriental - tiveram um efeito prejudicial sobre as livrarias comunistas nos EUA.

 

Em segundo lugar, houve o surgimento de cadeias de livrarias. À medida que lojas como Barnes & Noble e Borders expandiram-se agressivamente da metade para o fim da década de 1990, eles começaram a vender muitos dos livros que antes eram a especialidade de livrarias independentes mais radicais - não apenas obras marxistas, mas também anti-racistas e feministas. E como as livrarias online, a exemplo da Amazon, tornaram-se populares até o final da década, os americanos poderiam comprar praticamente qualquer livro com um número ISBN com apenas alguns cliques de mouse. Hoje, muitos textos comunistas famosos estão disponíveis gratuitamente em sites, como Marxists.org.

 

Algumas livrarias radicais  ainda operam fisicamente hoje. Poucas se identificam estritamente como comunistas, e menos ainda estão associadas ao CPUSA, um partido que tem enfrentado dificuldades nas últimas décadas para chegar aos dez mil membros. Novas livrarias radicais independentes, como a Red Emma's em Baltimore e Bluestockings em East Village, em Nova York, atraem clientes com cafés e palestras freqüentes.

 

Aventure-se em uma dessas lojas e você vislumbrará o legado de um passado, em que as livrarias comunistas - apesar de enfrentar consideráveis ​​dificuldades financeiras e políticas - ajudaram seus clientes a imaginar mundos radicais que, de outra forma, eram inimagináveis ​​na América do Norte.

 

Joshua Clark Davis é professor assistente de História na Universidade de Baltimore. Tradução: Matheus Inocêncio - estudante de História na UFC e militante da Comuna Ceará.

 

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