A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Mulheres, economia feminista e a produção do viver no contexto Latinoamericano

18/12/2017

Este artigo busca refletir, a partir do contexto latinoamericano, sobre o papel das mulheres na garantia das condições estruturantes para um modo de viver e de produzir em que a defesa e respeito aos bens comuns, assim como a denúncia da divisão sexual e internacional do trabalho, estão em destaque. Pretende-se, com esta contribuição, apontar alguns elementos para o avanço do debate desse tema no âmbito da esquerda anticapitalista.

 

A ECONOMIA FEMINISTA E A VIDA DAS MULHERES

 

A resistência aos ataques do capitalismo patriarcal tem sido uma constante na vida das mulheres, principalmente no sul do mundo. As lutas para forjar experiências, no campo e na cidade, que coloquem a vida no centro em detrimento do mercado que quer nos impor paradigmas de opressão e exploração, têm as mulheres como suas principais sujeitas políticas. Neste sentido, a economia feminista se propõe a ser um instrumento para resignificar o que se concebe como sendo trabalho, seja ele pago ou não, mas todo aquele que é essencial para a produção dos bens e serviços que garantam a vida, incluindo os cuidados e afetos dos quais todas as pessoas precisam para existir e viver bem. A partir da economia feminista, é possível verificar a interligação existente entre a reprodução da vida e a produção de mercadorias, o que demonstra que o trabalho reprodutivo realizado largamente pelas mulheres é, não somente o alicerce de toda a produção de riquezas, mas principalmente o que garante a produção do viver, onde a sustentabilidade da vida humana e não-humana não podem se deixar guiar pelos interesses do mercado e do lucro. Tem-se, então, que a economia feminista não separa as demandas da divisão social do trabalho que hoje se entrelaçam com a realização do capitalismo como um sistema global, que articula o patriarcado e o racismo para usurpar territórios e bens comuns. As mulheres e feministas latinoamericanas que estão envolvidas na construção coletiva de novos paradigmas a partir de suas análises, elaborações e experiências concretas buscam alicerçar suas lutas no tripé antipatriarcal, anticapitalista e antirracista de maneira simultânea, para avançar rumo ao bem viver. Em tempos de crise climática e aquecimento global provocados por um modelo predador e insustentável, é latente a necessidade de acelerar a transição para outros modos de produzir, consumir e organizar a vida. É isso que a economia feminista propõe e é a partir disso que luta para mudar a vida das mulheres e transformar o mundo no qual queremos viver. 

 

O QUE AS MULHERES PRODUZEM? Expropriação, invisibilidade e resistência na América Latina 

 

A separação entre produção e reprodução, assim como a divisão sexual do trabalho, é a lógica que guia a economia capitalista para explorar e submeter às mulheres. Parte do pressuposto de que algumas tarefas e funções desempenhadas na sociedade são masculinas e outras, femininas. Associa-se, a essa lógica, uma sobrevalorização das funções tidas como masculinas. A divisão sexual do trabalho também estrutura uma separação entre produção de mercadorias (bens e serviços com valor de troca no mercado) e a reprodução das pessoas (homens ou mulheres que produzem essas mercadorias). O trabalho reprodutivo se encarrega das condições materiais (alimentação, higiene, descanso, cuidado com a saúde) e afetivas (incentivo à autoestima, capacidade de escutar, mediar conflitos, negociar), mas continua a ser invisibilizado e desvalorizado, sem nem sequer ser mensurado ou considerado trabalho. A reprodução se realiza nas unidades familiares e no espaço doméstico e, até hoje, são as mulheres que fazem esse trabalho, dedicando muito mais horas a ele do que os homens.

 

É nítido que o trabalho produtivo é incompatível com as lógicas e tempos dedicados ao trabalho reprodutivo, ao cuidado da vida. Com a dupla ou tripla jornada de trabalho, as mulheres tentam conciliar essas duas dimensões do trabalho, muito embora isso lhes custe uma enorme sobrecarga, desgaste físico e doenças. Não se trata, portanto, somente de visibilizar o trabalho doméstico e de cuidados, mas também de mostrar que ele também é parte do chamado trabalho produtivo, de forma que ambos os tipos de trabalho possam ser realizados por homens e mulheres. As atividades de socialização do trabalho reprodutivo realizado por grupos de mulheres em alguns países latino-americanos buscam não somente reconhecer seu significado econômico, mas também a sua importância para a coesão social e o crescimento individual e coletivo. A organização coletiva do trabalho reprodutivo favorece a aprendizagem, autonomia e sociabilidade mais horizontal de crianças, jovens, homens e mulheres. No Brasil, as experiências das “cirandas” como iniciativa da Via Campesina faz com que o cuidado e a formação de crianças e adolescentes seja uma responsabilidade coletiva, de todo o movimento. Em vários territórios indígenas do Peru e do Equador, assim como de outros países, o trabalho do cuidado e da preparação de alimentos são feitos de forma comum, para toda a comunidade, o que diminui o tempo dedicado ao trabalho doméstico e garante a segurança e soberania alimentar.

 

Atualmente, na América Latina, a precarização do trabalho produtivo e reprodutivo feito pelas mulheres se dá através das atividades predatórias feitas pelas multinacionais do extrativismo (mineração, madeireiras), do agronegócio e de outros megaprojetos (construção de, plano IIRSA, transposição de rios). Todas essas atividades são as responsáveis pelo saque e apropriação dos bens comuns no continente (água, energia, terra e território), além de promoverem uma desarticulação das economias locais e a ruptura de formas ancestrais de reprodução social da vida, que ficam impactadas e reorientadas em função da presença das empresas. Quando se instala nas comunidades, esse modelo de economia produtiva altamente masculinizada acentua a divisão sexual do trabalho e gera uma subvalorização do trabalho do cuidado realizado historicamente pelas mulheres. A privatização da água e demais bens comuns (seja por limitação do aceso ou pela contaminação das fontes disponíveis) gera uma sobrecarga no trabalho feito pelas mulheres, que precisam percorrer distâncias maiores para buscar água. Além do mais, elas têm que cuidar das pessoas que adoecem por causa da contaminação ambiental, sem receber nenhum tipo de contrapartida por parte do Estado e sem liberar-se das demais cargas de trabalho habituais.  A perda de autonomia econômica também é outra repercussão causada por essas atividades, na vida das mulheres, pois elas deixam de dispor dos recursos que garantem a pesca (pela morte dos peixes ou pela falta de acesso aos rios), o cultivo de alimentos na agricultura (pela contaminação da água e do solo, além da erosão genética das sementes). Além de ser uma ameaça à soberania alimentar das mulheres e de suas comunidades, elas também deixam de realizar trocas e comercializar sua produção alimentar. Essa perda de autonomia das comunidades e a entrada forçada numa lógica de economia capitalista faz com que o papel e os saberes ancestrais das mulheres sejam ainda mais invisibilizados. Tudo isso é permeado por muita violência contra as mulheres, pois elas terminam assumindo um papel central na defesa de seus territórios, o que faz com que também aumente a criminalização das mulheres defensoras, várias delas assassinadas sem resolução do crime pela justiça.

 

DESAFIOS E TAREFAS PARA A ESQUERDA E O FEMINISMO ANTICAITALISTA

 

O paradigma neodesenvolvimentista, economicista e consumista foi trazido e fincou pés em nosso continente a partir das últimas duas décadas. De certa forma, o chamado “Consenso de Washington” ganhou nova roupagem na América Latina e se apresenta como um “Consenso de Commodities”, baseado na exploração de “recursos naturais estratégicos”, onde os bens comuns são nada mais do que mercadorias que abrem as portas para um espécie de “Novo Eldorado”.  Os desafios para as organizações de esquerda (incluídas aí algumas do movimento feminista) e de pensamento crítico é justamente abdicar e não deixar-se seduzir por uma “visão eldoradista”, onde a reprodução da vida e dos bens comuns são desconsideradas, apresentando-se como uma expressão atual da ilusão desenvolvimentista.

 

Animadas pela diversidade de pensamentos e práticas dos povos originários, camponeses e afrodescendentes, e alimentadas pelo intercâmbio entre os saberes acadêmicos e produzidos por organizações e movimentos anticapitalistas, ecossocialistas e feministas, essas concepções da economia feminista se contrapõem à visão tecnocrática, que pretende a racionalização de ‘recursos naturais’ e que instrumentaliza os conhecimentos e contribuições das mulheres e dos povos. Esta aposta de construção coletiva e de rechaço da verticalização implica num enfoque transformador, de superação de uma crise civilizatória e de redefinição ético-política das condições necessárias para o bem-viver, que se nutre das análises e propostas feitas há décadas pela economia feminista, cujo questionamento às noções de economia e riqueza, nas suas formas predominantes, postulam as dimensões ambiental e humana como centrais e indissociáveis.  Portanto, as contribuições a partir das experiências de auto-organização demonstra que nosso feminismo é parte constitutiva de um projeto político de sociedade no qual estamos envolvidas na construção, que não é um capítulo à parte e que, se não há mudanças nas estruturas que conjugam dominações e opressões, a igualdade e a autonomia não serão uma realidade para todas as mulheres.

 

Engendrar um feminismo anticapitalista e ecologista, a partir do ativismo e das análises das experiências de mulheres de setores populares em movimentos e organizações de base, reacendendo e atualizando criticamente as teorias marxista e feminista, não pode ser agenda exclusiva das feministas de esquerda, mas de todos os socialistas e comunistas. O reconhecimento e compartilhamento do trabalho necessário para a produção do viver, avançando nas mudanças necessárias para a despatriarcalização do Estado, das políticas públicas e das organizações é parte dessa tarefa.

 

 

 

Tárzia Medeiros é militante do movimento feminista, Secretária-Geral do PSOL e integrante da Coordenação Nacional da Comuna.

 

 

 

 

Referências bibliográficas:

  • Marxismo, feminismos e feminismo marxista: mais que um gênero em tempos neoliberais. MARY GARCIA CASTRO. Revista Crítica Marxista. 2013.

  • O bem viver: Objetivo e caminho para outro modelo. Magdalena León T. Publicado em Análisis: Nueva Constitución, ILDIS – La Tendencia, Quito, agosto de 2008.

  • «Consenso de los Commodities» y lenguajes de valoración en América Latina. Publicado na revista Nueva Sociedad, nº 244, março-abril de 2013.

  • Las mujeres en la construcción de la economia solidaria y la agroecologia: textos para la acción feminista.Publicação da SOF. 2015. São Paulo/Brasil.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

 

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