A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Os problemas russos

18/12/2017

 

No momento em que a imagem da revolução russa, e nomeadamente de sua obra, surgiu clara e precisa apesar dos cozinhados mistificadores dos comentadores burgueses interessados, podemos retirar e apreender através de pesquisas detalhadas certos traços fundamentais deste acontecimento prodigioso.

 

Presentemente, a Rússia confirma uma vez mais esta velha experiência histórica: não há nada mais inverossímil, mais impossível e mais fantasista do que uma revolução uma hora antes do seu eclodir; nada há de mais simples, mais natural e mais evidente do que uma revolução no momento que travou a sua primeira batalha vitoriosa. Não cessamos, nomeadamente na imprensa alemã, de dar conta dia a dia das perturbações internas, das crises, da efervescência no império do czar, e mesmo assim, ainda agora, a opinião pública alemã e o mundo inteiro sufocam diante do espetáculo súbito e prodigioso da revolução russa.

 

Poderíamos, ainda uma semana antes do seu início, apresentar cem razões provando que ela era impossível: o povo arrasado por uma guerra terrível, pelas privações e a miséria; as camadas burguesas curadas para sempre do sonho da liberdade pelas recordações da revolução há 10 anos, e para mais, acorrentadas ao czarismo pelos planos de conquista imperialistas; vastas camadas na classe operária desmoralizadas pelo furor nacionalista a que a guerra tinha dado livre curso, as suas tropas socialistas de elite dizimadas pela sangria da guerra, dispersas pela ditadura do sabre, privadas de organização, de imprensa, de chefe… Podíamos provar por a mais b que na Rússia as explosões de desespero e anarquia eram hoje possíveis, mas que uma revolução política moderna, com objetivos precisos, guiada por um ideal, era pura e simplesmente impensável. E agora? Tudo isso eram senão mentiras, frases, conversatas. A revolução legitimou-se pela única via que, na história, qualquer movimento necessário utiliza: pelo combate e pela vitória.

 

A opinião pública europeia espanta-se sobretudo de dois aspectos nos acontecimentos russos: a rapidez do triunfo e o extremismo manifestado desde o primeiro instante; o governo provisório composto por uma multidão burguesa de elementos “mornos” não se pronunciou já pela república democrática! Mas estes dois aspectos não podem atingir senão o olhar superficial dos idiotas que nunca distinguem as relações históricas profundas entre o passado e o presente.

 

Os que, ao contrário, não esquecem que Março de 1917 não é mais do que a continuação da revolução de 1905-1907, entravada pela contrarrevolução e depois pela guerra mundial, esses não podem admirar-se do seu rápido triunfo nem da sua progressão resoluta. Amadurecida pelos esforços, pelas lutas e pelos sacrifícios dos últimos dez anos, ela surge do seio da sociedade russa e dá-nos a prova reconfortante de que nem uma só gota de sangue derramada pelos nossos irmãos russos ao longo deste terrível decênio pela causa da liberdade, nem um só dia de sacrifício e prisão que sofreram tantos camaradas russos, foram um sacrifício em vão. Mereceram e pagaram largamente a liberdade de que agora desfrutam.

 

Com um radicalismo espantoso, os liberais russos mudaram subitamente de feição, abandonando um programa constitucional dos mais deformados pela república; aderiram sobremaneira a esta forte viragem à esquerda dos liberais nacionalistas russos e mesmo dos conservadores; tudo isto não pode novamente surpreender senão os obtusos, para quem as palavras de ordem, os programas, as fisionomias inscritas no cotidiano parlamentar fazem o papel de verdades eternas. Os que, pelo contrário, estudaram a história, contentam-se a observar, sorrindo, a repetição fiel das revoluções francesa, inglesa e alemã; nos períodos de transformação, com efeito, a atitude de todas as classes e de todos os partidos depende do poder e da atitude da classe mais avançada: a classe operária. Que ela fixe os seus objetivos com audácia e esteja disposta a por toda a sua capacidade a serviço destes objetivos e toda a falange burguesa a seguirá num deslizar proporcional para a esquerda.

 

De fato, os operários russos não tem organizações, nem associações eleitorais, nem sindicatos, nem imprensa. Mas dispõem de fatores decisivos para o seu poder e influência: uma combatividade nova, uma vontade firme e um espírito de sacrifício inesgotável pelos ideais do socialismo; dispõem das qualidades sem as quais o melhor aparelho organizado não é senão um ferro-velho, comparado à massa proletária. É certo que sem organização não poderá manter por muito tempo todas as suas faculdades de ação. Eis porque estamos prontos a afirmar que, neste momento, em Petersburgo, em Moscovo, em toda a Rússia, os operários começaram febrilmente a criar uma organização, associações políticas, sindicatos, instituições culturais, todo o aparelho. Como há dez anos, a primeira ação do proletariado revolucionário russo será colmatar, o mais rapidamente possível, as lacunas na organização. E essa organização, nascida e fortalecida no combate, constituirá certamente um autêntico escudo para o seu poder e não a mordaça da sua impotência.

 

Na situação atual, a via do proletariado russo está claramente traçada. É certo que deve apresentar as suas reivindicações sociais e políticas sem enfraquecer nem transigir; porém, cada uma destas reivindicações, a obra da revolução no seu conjunto, depende antes demais da palavra de ordem: fim à guerra! Os operários russos devem conjugar harmoniosamente com a sua ação restante a conquista prévia da paz e, sem dúvida, eles fazem-no desde o início. Enfrentou assim o primeiro grande conflito com a sua própria burguesia, um áspero combate contra o inimigo interno.

 

Veremos se o proletariado russo, que certamente não recuará perante nenhum sacrifício, será o único sacrificado impunemente pela causa da paz, que é também a causa do socialismo internacional.

 

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