A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Vale a luta quando se é feminista!

 

"Tentaram nos enterrar, mas não
sabiam que éramos sementes."

 

Nós mulheres fomos e somos historicamente protagonistas de lutas, resistências e conquistas. Não por acaso a greve de mulheres tecelãs de Petrogrado, em 23 de fevereiro de 1917 (Dia Internacional das Mulheres à época), deu início à insurreição popular que derrubou o czarismo e fez vermelhar o outubro russo.

 

"Nossa meta é construir, no lugar do mundo velho e ultrapassado, um templo brilhante de trabalho, camaradagem, solidariedade e alegres liberdades universais”, defendia a líder revolucionária russa Alexandra Kollontai, em sua obra “A base social da questão da mulher”, de 1909. Porém, passado um século da primeira revolução socialista vitoriosa da história, continuamos a vivenciar diversas desigualdades de uma sociedade dividida entre classes, sexualidade, papéis de gênero e raça.

 

Apesar das diferenças históricas e sociais entre o atual momento no Brasil e o vivenciado pelas mulheres russas revolucionárias, vale manter vivo em nossas memórias o legado dessas lutadoras. Entre outras razões, porque as desigualdades do tempo presente nos fazem concluir que o feminismo foi e continua a ser necessário. Para exemplificar uma dessas discrepâncias sociais, podemos tomar como termômetro a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2012, desenvolvida pelo IBGE.

 

Em síntese, o estudo mostra que tempo de estudo não corresponde necessariamente a uma posição melhor para as mulheres no mercado de trabalho. A taxa de ocupação entre as mulheres, que era de 45,2% em 2002 e chegou a 49,2% em 2013, mas é 15% menor do que a taxa dos homens. O rendimento mensal médio dos homens continua a ser quase o dobro do das mulheres - em 2012, a média do rendimento masculino foi de R$ 1.430, enquanto que o feminino ficou em R$ 824.

 

Podemos dizer que nós mulheres ainda lutamos, na maior parte do Globo, pelas mesmas pautas que reivindicavam as protagonistas da Revolução Russa de 1917 - melhores condições de trabalho, igual salário para igual trabalho, fim da exploração sexual de meninas e mulheres. Se recobrarmos um passado mal explicado em nossa história, marcada pelas cicatrizes do colonialismo, podemos também dizer que nós mulheres - especialmente as mulheres afrodescendentes, negras, indígenas, de origens periféricas - ainda lutamos pelo mesmo motivo que lutaram as nossas ancestrais: a libertação.

 

A mesma pesquisa também nos lembra que a renda varia a partir da raça e, nesse quesito, são as mulheres negras que estão no ápice da extrema desigualdade. A renda média de homens brancos é quase três vezes maior do que a de mulheres negras. Havendo ainda a necessidade de registrar a diferença entre as mulheres: a renda média das mulheres negras é 44% menor do que a das mulheres brancas.

Vivemos tempos difíceis, mas também de reorganização das lutas feministas:

 

1. Presenciamos recuos conservadores expressos na política, especialmente no poder legislativo, que tem os direitos das mulheres como um de seus alvos.

 

A atual composição do Congresso Nacional, considerada a mais conservadora desde a ditadura civil-militar de 1964, expressa sua política reacionária a partir da articulação da intitulada Bancada BBB (Boi-Bala-Bíblia) e tanto dá suporte a ataques aos direitos trabalhistas quanto ameaça grupos historicamente oprimidos, com projetos de lei como o Programa Escola Sem Partido (número 193/2016) que tramita no Senado e que visa impor restrições a debates em sala de aula. Também ilustram a agenda patriarcal da política brasileira, o Estatuto do Nascituro e ataques aos direitos sexuais e reprodutivos (como o PL 5069/2013 que dificulta o direito ao aborto nos casos previstos em lei, como para a interrupção de uma gravidez em decorrência de um estupro); o Estatuto da Família; a proibição da distribuição do material do Programa Escola sem Homofobia; a retirada de gênero e sexualidade do Plano Nacional de Educação (PNE); a PEC 181 (Cavalo de Troia), que retrocede no direito ao aborto mesmo nos casos já previstos na legislação brasileira.

 

2. Verificamos a expansão e legitimação do discurso feminista na sociedade, com as manifestações que ganham corpo nas ruas e nas redes, a exemplo da Primavera das Mulheres, Marcha de Mulheres Negras, entre outras.

 

Contra o Projeto de Lei 5069, de autoria do ex-deputado federal Eduardo Cunha, cassado em 2016, mais de 150.000 pessoas foram às ruas somente em São Paulo - episódio que ganhou as capas de revistas de circulação nacional e teve continuidade em diversas cidades do país. Hoje, entre os movimentos sociais, o movimento feminista destaca-se pelo seu potencial alcance, mobilizando a sociedade em torno da pauta de igualdade entre os gêneros. Essa abrangência justifica o fato de 2015 ser reconhecido mundialmente como o ano da Primavera Feminista.

 

É nesse sentido, que se faz necessário entender as narrativas emergentes do feminismo contemporâneo, presentes tanto nas plataformas reivindicatórias, quanto expressas na ação de mulheres cada vez mais jovens, que tem os seus corpos como símbolos de resistência. Se na década 80 as feministas gritaram “Nosso corpo nos pertence”, as jovens feministas reinventam essa máxima ao ecoar pelas ruas "Meu corpo, minhas regras", contrariando a ideia de superação do movimento.

 

Os levantes de mulheres dos anos 2000 mostram que o tema da violência e a afirmação da autonomia continuam ocupando espaço central para o feminismo. Na internet, as campanhas #MeuPrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto inovaram ao utilizar as hastags para abordar a violência contra as mulheres, ganhando a atenção de um bom número de pessoas e contribuindo para romper com o silêncio, comum quando falamos de machismo. Essas campanhas contribuíram para o crescimento de 354,5% das buscas pelo termo “empoderamento feminino” na internet entre janeiro/14 e outubro/15, de acordo com o site Think Olga, que anunciou 2015 como o “ano do feminismo na internet”.

 

Com perspectiva de pensar uma resposta coletiva às desigualdades, em especial, as desigualdades manifestadas a partir do machismo, nós mulheres apostamos numa organização de iguais que dê centralidade às lutas feministas.

 

E é nesse cenário controverso que nos reorganizamos. Seja para denunciar os impactos de um modelo político pautado pelas conciliações entre a bancada conservadora e a presidência da primeira mulher eleita no país; Ou, agora, na atual conjuntura pós impeachement de Dilma Rousseff (PT) - orquestrado através de um golpe institucional - quando diversas cidades do Brasil foram tomadas pelos atos Nem Uma a Menos (contra a violência sexista e estupro) e a primeira Greve Internacional de Mulheres do século XXI (contra as medidas de contenção de crise que precarizam ainda mais a vida de nós mulheres, reduzindo os direitos trabalhistas e aumentando a idade mínima para aposentadoria).

 

Feminismo é REVOLUÇÃO

 

Cabe destacar, que a paralisação internacional que levou milhares de mulheres às ruas em pelo menos 40 países no 8 de Março de 2017, foi consequência da articulação mundial de diversas militantes feministas (organizadas em coletivos, partidos, frentes) inspiradas nos resultados positivos da greve de mulheres na Polônia, em outubro de 2016, contra ao projeto de lei que bania o aborto no país. A vitoriosa greve das mulheres polonesas obrigou lojas, escritórios do governo, universidades e escolas a fecharem as portas.

Também serviu de inspiração a mobilização organizada na Argentina. No mesmo outubro, mulheres paralisaram suas atividades para protestar contra a violência de gênero após o estupro e feminicídio de uma jovem de 16 anos. A solidariedade e os casos recorrentes de violência contra nós mulheres faz com que os manifestos continuem a se desdobrar em vários cantos do mundo.

 

E é importante frisar que a luta auto-organizada e protagonizada por mulheres incorpora desde as pautas mais ‘específicas’ de mulheres - como a violência sexista e os direitos reprodutivos -, como a agenda nacional contra as arbitrariedades do governo brasileiro. Isso também porque o governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) segue incansável em aplicar políticas reacionárias que tem impactos danosos para toda a classe trabalhadora, mas que atingem especialmente os setores que ocupam a base da pirâmide social.

 

Um exemplo é a sua nociva reforma previdenciária, que amplia a idade mínima de aposentadoria das mulheres para 62 anos sem considerar as duplas e triplas jornadas de trabalho que impactam o cotidiano das trabalhadoras, invisibilizando o trabalho doméstico e o alto índice de mulheres - sobretudo mulheres negras – que estão no trabalho informal e em postos de trabalho que figuram entre os mais precários. A reforma da destruição da previdência também prejudica o acesso das trabalhadoras do campo à aposentadoria.

 

Esse cenário de incertezas e crueldades nos faz lembrar que é cada vez mais urgente organizar mulheres na sua diversidade: mulheres LBT's, mulheres negras, mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas (...). É preciso potencializar as lutas feministas, antirracistas, antihomolesbobitransfóbicas e libertárias para “organizar a rebeldia e assim deixar de ser refém”. Que a coragem das mulheres que vieram antes de nós habite em cada companheira que se levanta e resiste.

 

 

 

Bárbara Nascimento é jornalista, mestra em comunicação, militante do movimento feminista e integrante da Coordenação Nacional da Comuna.

 

 

 

[1] Informações extraídas de "As mulheres de 1917", de Megan Trudell. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2017/06/14/as-mulheres-de-1917-especial-revolucao-russa/ 

 

[2] Trecho da música “Andar com os próprios pés”, de Eulapaula Martins, Maria Monte e Marli Fagundes.

 

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