A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Nega Maluca: A síntese entre racismo e misoginia

02/03/2018

Existe um fetiche presente na sociedade brasileira, que perpassa as relações hierárquicas e horizontais, que vincula séculos de opressão e exploração de uma classe dominante branca sobre uma camada significativa da sociedade que pertence a uma classe social subalterna e marginalizada. Para que não haja dúvidas, torna-se necessário a compreensão de que essa classe dominante (pessoas brancas) exerce poder sobre a classe subalternizada (pessoas negras), este poder é político, econômico, cultural, social, institucional, dentre outros.  O Brasil que possui a segunda maior população negra do mundo, perdendo o primeiro lugar somente para a população da Nigéria, possui um racismo estrutural e institucional que está vinculado a séculos de exploração econômica e massacre da população negra em todas as camadas sociais, incluindo nessa somatória a imagem negativa de negritude e os estereótipos e estigmas que são carregados por longos períodos para manter essa camada da população na marginalidade e sem referenciais positivos da imagem de si mesma, ou seja, as pessoas negras foram compulsoriamente levadas a enxergar a si mesmas pelo olhar do colonizador e por seu racismo, que por vezes dilacera sendo sutil. Dessa forma, o poder que o racismo brasileiro possui faz com quem ele pareça um crime perfeito, sendo a palavra racismo entendida como conceito abstrato, onde podemos por vezes diagnosticar ações e atitudes racistas, porém jamais se encontra o sujeito que está vinculado a essas ações, seja em uma análise individual, coletiva ou estrutural que nos leve à profundeza da causa.

E esse poder também implica a apropriação de forma negativa das ferramentas culturais da classe oprimida, não a toa em pleno 2018, vemos uma das maiores festas populares afro-brasileiras sendo representada por diversas fantasias caricatas e racistas da população negra, dentre elas a “nega maluca” e o black face. Mas por que falo em apropriação negativa? Pois parto da perspectiva antirracista de que existem outras formas de se apropriar da maior festa popular afro-brasileira sem perpetuar o racismo presente em nossa sociedade como as tão antigas formas de animalizar e exotificar o corpo negro.  

A luta de classes no Brasil é racializada, assim como a luta por emancipação das identidades femininas. Mulheres negras são a síntese da exclusão de raça, classe e gênero, e não é a toa que a fetichização de seus corpos seja vista como algo natural de uma ordem burguesa-racista-patriarcal-hegemônica estabelecida, onde podemos assumir o crime, porém não os criminosos. Não raro nos deparamos com homens que dizem compreender a luta feminista quando se trata de mulheres brancas, mas interpretam mulheres negras como desprovidas de gênero, ou vice-versa, como se nós fôssemos somente um corpo negro o qual não sofre também com o machismo e a misoginia frutos do patriarcado. Ou em outros casos, como se fôssemos um gênero abstrato desprovido de raça.


Prova disso é termos visto diversos homens brancos e negros durante as festas de carnaval também reproduzindo estereótipos que desumanizam mulheres negras, como no uso da famosa fantasia de “nega maluca”, e essa violência racista vindo de homens brancos precisa ser compreendida como reflexo do abismo estrutural da compreensão e empatia sobre gênero e raça, no qual podemos observar profundas ignorâncias acerca dos dois temas, além da desonestidade intelectual, e quando vem sendo reproduzida entre homens negros precisa elucidar como apenas a raça não é determinante para qualificar as estruturas de opressão que afetam a população negra, pois se entre nós houvesse solidariedade racial não seria necessário apontarmos tantas divergências vindas do machismo e misoginia entre a própria comunidade negra.

 

Igualmente, muitas mulheres brancas não compreendem o fator racial quando também reproduzem estereótipos racistas contra mulheres negras e toda cultura negra de modo geral, não foi raro para nós mulheres negras, neste carnaval de 2018, nos depararmos com mulheres brancas em grupos de facebook buscando por fantasias de baianas, por artigos religiosos e sagrados das religiões afro-brasileiras, para serem usados como fantasia, além da óbvia fantasia de “nega maluca”.

 

É urgente e necessária para a sociedade brasileira a compreensão da humanidade em mulheres negras, que merecemos ser respeitadas e que temos direito a dignidade. E essa compreensão se faz imprescindível através da percepção dos estereótipos e estigmas que carregam nossos corpos negros, perpassa o entendimento de que em nossa sociedade o corpo feminino é de ordem mercadológica, e que para as mulheres negras essa assimilação de um corpo-objeto-mercadoria também atravessa herdando séculos de escravização, sendo importante compreender como a desumanização da sociedade brasileira sobre corpos negros femininos é de ordem colonial e se conecta à síntese das mais diversas violências simbólicas, históricas e estruturais.


Especificamente a fantasia de “nega maluca” possui um caráter bestializado, de uma mulher negra desprovida de razão e capacidade intelectual, onde a fisionomia exacerbada retrata os traços que a sociedade mais julga inaceitáveis como sinais de inferioridade estética, tais como boca grande, nariz grande, cabelo crespo e um corpo feito mercadoria para o desfrute e consumo masculino, cabendo também dizer que a pintura preta do corpo em si levanta a ideia de que ser negro é ser sujo, ou seja, no carnaval a sociedade zomba e se diverte daquilo que mais odeia e rejeita no restante dos dias do ano, chama seu racismo de fantasia e diz querer homenagear tal população com a caricatura da ridicularização racista que provem da desumanização.

Isso significa que abolir as fantasias racistas e de Black face irá acabar com o racismo brasileiro? Não. Mas será um passo importante se conseguirmos levar nossa sociedade à reflexão sobre o que essas caricaturas representam estrutural e simbolicamente para a população negra, que tipo de imagem criam a respeito de nossos corpos, a qual lugar nos reduzem e de que forma legitimam os mais variados discursos de ódio.

 

Significa que essas fantasias sejam a causa do problema do racismo brasileiro? Não. Fantasias racistas e caricatas sobre a comunidade negra são evidencias das consequências estruturais em que o racismo brasileiro se encontra e se enraíza por séculos. Uma forma de imaginar isso é visualizar uma árvore com enormes raízes e diversos galhos, as caricaturas de representação racistas são alguns desses galhos, não são as raízes da causa, mas são igualmente nocivos para a comunidade negra, pois negam a humanidade de sujeitos que passam a ser representados com hipersexualização e animalizados, ou seja, são reflexos e consequências da profundidade da raiz. E nosso trabalho, enquanto pessoas que estão presentes na luta antirracista é fundamentalmente conseguir compreender que estes espaços não devem ser esvaziados, tanto a luta contra a raíz (causas da problemática) quanto a luta contra os galhos.

Espero que em tempo essa reflexão alcance os mais diversos setores de nossa sociedade, seja nas relações hierárquicas ou nas horizontais, pois embora o carnaval tenha acabado, a relevância de se combater estereótipos e estigmas negativos da população negra se faz urgente, esteja em festas populares brasileiras, ou nas salas de aula desde o ensino básico ao superior, principalmente nesses espaços de formação que podem ser decisivos para a autoestima de estudantes negros e para a imagem que constroem de si mesmos, além de serem campos férteis para ganharmos pessoas para a luta antirracista.

 

Que haja cada vez menos necessidade de textos como esses onde precisamos salientar que a desumanização e bestialização dos corpos negros são práticas racistas, e que ao invés de dizerem querer-nos “homenagear” através de suas fantasias caricatas juntem-se efetivamente a nós na luta antiracista todos os dias do ano, denunciando o genocídio da população negra brasileira e as mazelas e desigualdades sociais vivenciadas pelas mulheres negras no Brasil e ao redor do mundo.

 

Blackface* é o nome dado para a caracterização de personagens do teatro com estereótipos racistas atribuídos aos negros. Na tradução literal do inglês, blackface significa “rosto negro”, em português. A intenção era representar personagens afro-americanos, satirizando e ridicularizando de modo extravagante os negros que, normalmente, eram apresentados com personalidades pejorativas (como ignorantes, bêbados, vadios e etc).

 

As apresentações tinham como público-alvo ex-escravistas e pessoas majoritariamente brancas.

Além de ajudar a potencializar os estereótipos racistas contra os negros, o blackface também impedia a abertura de espaço para que os negros pudessem participar do núcleo de espetáculos teatrais. (Fonte: https://www.significados.com.br/blackface/ )

 

Mayara Santiago é moradora de Feu Rosa, estudante de Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo, feminista negra, criadora do GENI – Grupo de Estudos Intelectuais Negras e Coordenadora de Mulheres do Quilombo Raça e Classe no Espírito Santo.

 

 

 

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