A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Os desafios da luta feminista hoje

07/03/2018

Há pouco mais de um mês, uma nova convocatória para uma nova greve internacional de mulheres foi publicada nos Estados Unidos, com assinaturas de algumas das mais destacadas teóricas e ativistas feministas do país. Como em 2017, o manifesto deste ano não deixou dúvidas sobre sua vocação: fomentar a emergência e organização de uma experiência feminista “dos 99%”, ou seja, com um insuspeito conteúdo social.

 

Há anos, um conjunto expressivo de feministas ao redor vem batendo na tecla da necessidade de superar o predomínio neoliberal no ideário e prática do movimento. Predomínio, aliás, que não se expressa necessariamente como visão de mundo organizada e sistematizada, mas que se apresenta difuso nas mais diferentes formas de fragmentação, isolamento, moderantismo, violência e burocratização da vida e das lutas das mulheres.

 

Estes manifestos recentes e a propaganda que o acompanha por um movimento de mulheres de amplo alcance e solidariedade classista poderiam passar desapercebidos, como puro lance intelectualista de meia dúzia de “especialistas” e lideranças. Isso já aconteceu outras vezes. Mas não deverá ser, e isso por duas razões. Primeiro porque as convocatórias por um movimento feminista dos 99% tem conseguido se somar de maneira habilidosa a lutas sociais concretas em contexto de crise e avanço do conservadorismo nos diferentes países do globo. Nesse sentido, trata-se de um feminismo que se desenvolve em conjunto com essas lutas, tanto locais e regionais como nacionais, integrando a elas sua agenda: por direitos reprodutivos, recolocando a pauta do trabalho doméstico e das questões trabalhistas de gênero, por liberdade sexual e afetiva, contra a violência misógina, o racismo, em defesa dos direitos indígenas, religiosos, das mulheres precárias, imigrantes e refugiadas. Nas massivas lutas contra Trump no início de 2017, que arrastaram centenas de milhares para as ruas ano em várias cidades americanas e desencadearam processos de reconhecimento e enfrentamento feminista em vários níveis e estruturas misóginas da sociedade norte-americana, incluindo aquelas onde os sonhos são fabricados, lá estavam elas. Em 2018, seu manifesto incorpora de maneira ativa e crítica esse caldo recente de indignação.

 

Aqui no Brasil, apenas para citar um exemplo, também não foi diferente. Ao mesmo desde 2011, com as marchas das vadias, é possível sentir – ainda que de maneira dispersa – a emergência deste novo momento. Do processo ativo de participação das mulheres nos protestos massivos de 2013, à emergência de novas lideranças e figuras públicas, às lutas rebeldes, em 2015, contra então deputado Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara dos Deputados, as significativas vitórias. Neste exemplo, localizado, de protestos, foi notável a capacidade das feministas brasileiras em fundir as bandeiras pela democracia, contra a corrupção na política e em defesa dos direitos sociais, trabalhistas e reprodutivos. Como este, há outros exemplos, expressos nas formas de resistência cultural, contra a violência sexista – a chamada “cultura do estupro” e o “feminicídio”, termo incorporado na linguagem popular brasileira graças a essas lutas.

 

Em 2018, ao que tudo indica, o manifesto por um feminismo dos 99% terá espaço renovado, mas para que suas exigências sejam ouvidas, é preciso enuncia-las. Nos Estados Unidos, ele poderá se conectar à novíssima onda de greves das classes subalternas, processo que tem levado analistas a dizer que o sindicalismo selvagem pode ter ressuscitado nos Estados Unidos. Dos protestos estudantis contra os crimes com armas em escolas, passou-se a um ciclo de greves de professoras e professores, com ocupações radicalizadas e “atropelamento” das burocracias sindicais, como na Virgínia Ocidental, com tendência a “contaminação” de seus impulsos autônomos para outros lugares do país. Os governos locais foram pegos desprevenidos Donald Trump, que até agora sofreu mas foi capaz de aplacar as formas de oposição controladas pelos moderados democratas, pode não ter a mesma facilidade com este novo e imprevisível antagonista: a população na rua, impaciente.

 

E as feministas em meio a isso? Bem, elas estarão lá e é aconselhável não perde-las de vista. Afinal, se há alguns anos se organizam, discutem e confrontam o ideário neoliberal para defender um movimento social amplo e diverso, terão muito o que dizer neste 8 de março de 2018. Aliás, o mesmo é verdadeiro para outros lugares do globo, e vale a pena acompanhar o que farão as argentinas e também as espanholas.

 

No Brasil, este 8 de março também será um momento de encontros de lutas, de resistências, diante dos ataques contínuos aos direitos sociais, a violência sexista endêmica, o massacre das mulheres pobres. Esta não chega, infelizmente, a ser uma novidade entre nós, pois há décadas discutimos formas de reagir do que de avançar, celebrando conquistas cujos limites conhecemos bem. Neste caso, este 8 de março se apresenta como oportunidade para resgatar a memória política das lutas recentes, localiza-las no mapa para poder buscar orientação.

 

Existem as bandeiras, mas é preciso buscar também os caminhos que abrem aos feminismos brasileiros um novo horizonte. Um caminho para a reconexão destes com as mulheres “comuns”. Os feminismos brasileiro tem, na história das classes subalternas brasileiras, um lugar rebelde. Precisa agora encontrar um lugar hegemônico. Façamos do 8 de março o momento a coragem capaz de inspirar e mesmo liderar tantas lutas ao redor desse nosso Brasil.

 

Que venha mais um 8M!

 

 


 

Daniela Mussi é Pós-doutoranda em Ciência Política na
Universidade de São Paulo e militante do PSOL.

 

 

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