A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Sexta da Paixão: Vamos falar de Maria!

31/03/2018

  

E numa Sexta-Feira mataram o filho de Maria

 

Hoje é sexta-feira santa e eu gostaria de falar sobre Maria. Fico a pensar como foi para ela o dia de hoje. Por certo, devia estar acordada a muitos dias tentando saber da condição de seu filho, afinal, Maria foi mãe de um jovem presidiário. Seu filho havia cometido o crime de se organizar por um outro mundo, de reivindicar que os templos fossem para comunhão e não para comércio. Ele havia cometido o crime de andar acompanhado de pescadores e pessoas pobres, de curar pessoas enfermas que não tinham nenhum tratamento ofertado pelo estado vigente na época. O filho de Maria havia questionado os altos impostos e a partir de seu discurso convencido um dos cobradores desses impostos a devolver a parte que excedia para os trabalhadores dos quais ele havia cobrado indevidamente ou subornado. O filho de Maria foi condenado porque conversava com prostitutas e não apedrejava as mulheres adúlteras e ainda alimentava as pessoas pobres e dava a elas seus discursos investidos de esperança em um outro mundo sem escravidão, sem fome, sem impostos exorbitantes e sobretudo sem a morte de inocentes. Um mundo onde palavras como justiça e amor fossem reais.
 
Com certeza o filho de Maria ouviu dela muitas das ideias que defendia e que o levaram a prisão, afinal, ele era filho de uma mulher que havia aparecido grávida e que estava à espera de um filho que não era do homem de quem estava noiva. Maria se relacionava com um homem que não a maltratou fisicamente ou psicologicamente por sua gravidez precipitada. Ela havia construído com seu companheiro uma relação de companheirismo que mesmo a prova se fortaleceu e fez com que permanecessem juntos na criação, manutenção e educação de uma criança que não havia sido planejada por eles. Talvez naquela sexta Maria tenha lembrado do percurso até Nazaré, olhando as estrelas e sentindo as dores do seu parto mas confiante de que seu filho era fruto de uma convicção. Era fruto também de sua esperança em um novo mundo.

Maria com certeza deve ter se recordado que lhe foi prometido que ela seria mãe de um rei, alguém importante e que alteraria a história do mundo. Seu filho de fato tinha sido muito importante até ali. Independente dos demais acontecimentos descritos na promessa que ela recebera ao aceitar a incumbência de gestar a esperança, para ela seu filho já era muito importante. Era o seu bebê que a fez fugir para uma terra estranha para que ele não morresse nas mãos de poderosos que oprimiam o povo e que queriam aniquilar qualquer perspectiva de perda dos seus privilégios. Esse era o seu menino que a fez voltar no meio do caminho e procurá-lo com aflição para encontrá-lo falando com os doutores. Era o seu rapaz, que cheio de ideias novas ainda assim encontrava tempo para acompanhar seu padrasto, aprender uma profissão e seguir seus ensinamentos, amando e cuidando dos que mais precisavam e para quem ela sempre fazia questão de lembrar que ele tinha uma missão à cumprir. Maria viu seu menino tornar-se um homem, filho de um trabalhador autônomo e ao mesmo tempo humilde. Sim, provavelmente, naquela sexta Maria lembrava de tudo isso.
 
Aquela era a sexta que ela talvez não quisesse viver, pois Maria sabia da execução de seu filho. Fazia dias que ele era torturado pelo estado vigente à época. Fazia dias que se falavam que o subversivo iria ser executado, inclusive ela presenciou o júri popular feito para seu filho e o viu ser trocado por alguém com mais fragilidades na atuação social que ele. Sim, Maria tinha visto seu filho subversivo ser condenado à morte pelo estado e pelo povo que preferiu Barrabás. Fazia dias que ela buscava saber dele. Um outro jovem também de sua família, seu primo, teria também sido executado a pouco tempo por ter as mesmas ideias de seu filho sobre justiça e amor, por se opor aos poderosos. João Batista havia sido torturado, executado e decapitado e Maria se via sentindo as mesmas dores de Isabel, sua prima.

Maria foi forte e esteve todos os dias ao lado de seu filho, sempre acompanhando, querendo saber. Diziam que ele falava demais, que havia se metido com gente grande e poderosa e que, por isso, ia morrer, pois incomodava muito. Maria sabia que, se o estado e o povo havia negado seu filho, ela deveria estar ali pela esperança de saber o que ele fez e poderia fazer no mundo.
 
Hoje foi a sexta em que o estado executou o filho de Maria porque ele dizia que o estado não deveria servir para executar os filhos de ninguém.

Muitas sextas são assim para muitas Marias mundo afora. Muitos são os jovens filhos de trabalhadores julgados e executados pelo estado e pelo “povo” todos os dias. Muitas Marias continuam sem saber qual o destino de seus filhos, qual o futuro de suas crianças e ainda quais as possibilidades que seus filhos e suas filhas terão para ser nesse mundo. O filho de Maria ao morrer era convicto do propósito de sua morte e Maria também sabia que se o mundo conhecesse a história de seu filho talvez outros jovens como ele, nascidos e criados na periferia, investidos de propósito e de sonhos poderiam se inspirar nele e que isso poderia mudar o mundo para que nem o estado e nem mesmo o “povo” tivesse de novo o poder de prender, torturar ou executar jovens.
 
Hoje é Sexta-Feira santa, mas todos os dias temos Marias disputando as narrativas das histórias de seus filhos. Por isso, por todos os dias, um salve a elas. Hoje é Sexta-Feira santa, mas todos os dias as ideias revolucionárias e subversivas do filho de Maria precisam fazer parte da nossa vida e do nosso horizonte, justiça e amor.
 

 

 

 

Louise Santana é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de Fortaleza, Estudante e militante de Comuna Ceará e dos Setoriais de Juventude e Mulheres do PSOL.

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