A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

A irmã revolucionária Marielle.

03/04/2018

 

Marielle é sobre tudo! A luta desta humana, desta mulher, conseguiu colocar tudo no centro da análise de uma só vez. E de uma maneira tão cada vez mais perigosa que a executaram, na intenção de tentar parar esse processo. Mas me parece que, ao menos num primeiro momento, o efeito foi o oposto do esperado. A morte dela na verdade tirou de controle a centralidade de tudo, de diversos problemas, no centro da análise. Agora abre-se uma janela para que qualquer pessoa possa fazer as conexões.

Gosto quando Audre Lorde e Mészáros se encontravam na palavra escrutínio. Desde ano passado Mészáros se encontrou com Audre num lugar onde Marielle agora também pode se encontrar com os dois. Eu não sei, mas deve ser tipo um paraisozinho das pessoas revolucionárias, onde elas e ele podem ficar olhando a gente aqui penando perante o capital, a supremacia branca, o patriarcado, e torcendo pra vencermos nessas lutas de classes.

Escrutínio? É um tipo de pente fino. Em todas as dimensões da vida. Não deixar nada passar. Achei essa palavra lendo textos do István e da Audre. Vi conexões que achei que seria fortalecedor utilizar na luta. São dois escrutínio diferentes? Ou são duas faces dum só e mesmo escrutínio?

QUAL O ESCRUTÍNIO DE AUDRE LORDE? Mulher negra LGBT classe trabalhadora anticapitalista e mãe como Marielle, apenas não era terceiromundista, mas se preocupava com suas irmãs do terceiro mundo. E irmãos, apesar de que a confluência de identidades lhe chamava atenção.

Buscava suas raízes sem abrir mão do feminismo negro. Sabia da força de ser mulher, sabia que a palavra, a raiva e o erótico eram forças libertadoras de todo tipo de opressão. Via o hierárquico como o coração do problema das opressões. Lutava por territórios livres de todo tipo de opressão, mesmo que fosse contra a LGBTfobia no movimento negro, o racismo no feminista ou o machismo na luta Gay. Isso não a impedia de ver a unidade de todos os setores oprimidos como fundamental para derrotar os sistemas do capital, do patriarcado e da supremacia branca. Essa unidade e as energias oriundas dela são fundamentais para passar o pente fino nessa confluência de sistemas. Para escrutinar todo tipo de opressão. Nenhuma pode ser aceita.

Lorde se preocupava com o escrutínio de nós mesmas e mesmos. Sua poesia elucida autoconhecimento. Sabe que nos conhecendo, nos retificando, nos corrigindo, podemos também nos ratificar, afirmar nossas forças, levar adiante os acertos de nossos projetos de futuro, de mudança, de superação daquilo que nos faz sofrer. Escrutinar todas as hierarquias, todas as desigualdades. E escrutinar todas as minhas cumplicidades com a desigualdade hierárquica vigente nas estruturas da sociedade. Me revolucionar assim como quero revolucionar o mundo. Me revolucionar na totalidade para revolucionar o mundo.

QUAL O ESCRUTÍNIO DE ISTVÁN MÉSZÁROS? Tem a ver com uma dissecação das leis de funcionamento do mundo humano. E por mundo humano, entendo também tudo aquilo que o mundo humano toca. Dissecação? Mészáros era uma criançona, que desmontava os brinquedos pra entender como funcionam. Só que seguiu Marx na ideia de desmontar, com os instrumentos duma tradição filosófica européia, o pior brinquedo que a Europa poderia inventar para a humanidade. O capitalismo: um brinquedo assassino.

Mészáros percebeu que Marx fazia um escrutínio, e recomendou que a classe trabalhadora, que o movimento socialista, nunca deixassem de fazê-lo. Ao contrário disso, Mészáros fuzilou todo o sistema do capital com escrutínios por toda a sua vida, até ir pro Éden de repouso revolucionário nos assistir perder um bocado e depois vencer.

Percebeu que Marx tinha percebido que o capitalismo é um metabolismo incontrolável, ninguém controla ele, mas ele nos controla. OH! O CAPITAL É UM MECANISMO DE CONTROLE!!! Demonstrou que o capital precisa ser superado, que a autoalienação do trabalho, o trabalho coletivo controlado para sempre via rédeas, precisa ser superado. Dissecador de brinquedo assassino. Pente fino. Eu fiquei embasbacado com o que o Mészáros faz com o assassino sistema do capital. Me perguntei como seria escrutinar o patriarcado e a supremacia branca.

O pente fino de István não é tão pra dentro, para as minhas hierarquias íntimas. Faz um escrutínio pra fora. Scaneia a relação entre as pessoas. Scaneia a relação entre as pessoas e a natureza.

Morreu dissecando o Estado, um dos três componentes centrais do sistema do capital. Um marxista radical. Levou a filosofia a um ponto extremo de conjuração anticapitalista. Mas também de projeção socialista.

DAÍ VEM MARIELLE, QUE AMPLIFICOU O TODO NO CENTRO DA HISTÓRIA.

Foi só depois da morte abjeta de Marielle que vi Mészáros e Lorde num pente fino que ela sempre praticou. Uma socialista que entendeu que o escrutínio deve ser em todos os níveis. A conjuração e o projeto da poeta outsider e do filósofo radical se encontraram numa menina. Quando ela morre, vejo que ficou mais fácil, para as pessoas, ver por toda parte os piolhos que temem Audre e István. Efeitos colaterais da tentativa inimiga de nós neutralizar.

O escrutínio de Marielle é antigenocida, antifeminicida, pelos direitos dos manos e das minas, ela sabia que gente negra e favelada não é demônios ou zumbis ou inimigos figurantes de vídeo game, que podemos matar ou nos deliciar com o fato de que alguém lhes mate.

Um projeto de vida, só com a morte esse projeto poderia ser encerrado. Interrompido. DEU ERRADO! Eles a mataram porque a vida de quem defende a vida é perigosa para quem defende a morte. Mészáros, me responde: como a defesa da morte (já usada geralmente contra negros favelados) conseguiu se tornar tão mais forte? O que mudou no metabolismo do sistema, que fez chegar ao ponto de ser tranquilo matar Marielle?

Quiseram nos colocar medo, colocar mais medo em nós. Com isso nos provaram que (mesmo que tenhamos muito medo) eles também têm muito medo de nós. O medo deles os fez tentar nos amedrontar. Isso me parece ser um gancho de vantagem para nós, acho que precisamos nos atentar para isso nesse momento em que, ao que tudo parece, estamos perdendo de sete a um: quiseram nos causar medo porque ainda têm medo de nós. Sabem que ainda somos um perigo!

E agora, com Marielle amplificando as vozes de TUDO, de todas as questões, no centro das análises, estamos também começando a perceber isso. Temem que o povo faça as conexões e perceba que o mundo não é fragmentado como a Globo e outros luxuosos lixos nos fazem crer. Temem que vejamos, como Marielle, o todo e suas conexões.

Mergulhar em Lorde e Mészáros me fez ver muitas coisas, mas acho que uma das principais foi: o sistema do capital é siamês do sistema do patriarcado e do sistema da supremacia branca. Vi uma irmã panafricanista criticar em texto quando alguma mina se diz: mulher, preta, lésBIca, pobre e favelada. Com razão essa pensadora mostrava que se trata de uma coleção de identidades que se definem em oposição a um conjunto de identidades opressoras, como se estas últimas fossem o centro da nossa visão de mundo. Mas não é disso que se trata. O modelo homem branco hétero cis rico burguês não é o centro da nossa visão de mundo. É o centro do mundo que vemos. Saber disso é fundamental para derrotar esse atual mundo.

Marielle é sobre tudo. Marielle é TÃO sobre tudo que morreu lutando contra a intervenção militar no Rio de Janeiro e a Globo usou da sua morte para defender a intervenção militar. Todo mundo foi contra a intervenção de Temer assim que foi anunciada. Marielle já estava incansavelmente envolvida na luta antigenocida e pela desmilitarização. Essa intuição de inteligência revolucionária se chama escrutínio. Não é demérito dizer que o fato de ele ser mulher negra lésbica(-ou-bi?) pobre e favelada a ajudou a ter a potência de amplificação vocal que a fazia cativar a todas e todos que sonham e lutam onde quer que ela falasse, que a fez ser fenômeno de  votação nas nojentas eleições burguesas, que a fez tão potente porta-voz das lutas antigenocida e pela desmilitarização. Ela abriu pra gente a oportunidade de aprendermos que quem não vive todas essas vivências de opressão também pode lutar contra TUDO que os três sistemas siameses nos impõem. E nos abriu também a chance de vermos que quem vive todas essas opressões não pode continuar sofrendo silenciamentos: pode sim falar e deve ter esse direito garantido. É maior do que Marielle, é uma mudança do protagonismo de sujeitas políticas na luta revolucionária.

Se Marielle é sobre TUDO, não podemos escolher qual aspecto de Marielle foi mais determinante para a sua execução e fazer cavalo de batalha. Devemos analisar o grave episódio de sua execução como ela analisaria. Entendendo que TUDO está no centro desse episódio. E que precisamos desenvolver o talento de Marielle de falar de TUDO ao mesmo tempo. Denunciar os fenômenos que estão no coração de tudo. Escrutínio pleno.

Marielle era feminista e não adianta que eu lute apenas pela Marielle negra. Era antirracista e não adianta que eu lute apenas pela Marielle LGBT. Era bissexual ou lésbica, não sei ao certo, porque não a ouvi dizer como se definia, já vi pessoas dizendo que era as duas coisas e a bissexualidade costuma ser invisibilizada, mas namorava uma mulher, e não adianta que eu ignore isso e lute apenas pela Marielle mulher. Marielle era socialista. Revolucionária. Convicta. Lutar por Marielle é também tentar no mínimo entender porque ela tinha esse entendimento do presente e do futuro do mundo humano. Porque Marielle amava a revolução?

Não Temer! Sua intervenção militar não é o caminho para impedir que outras Marielles sejam executadas. Sua intervenção militar é o aprofundamento dum caminho que levou à execução dela. Hoje me parece (e não estou sozinho nesta opinião) que nossa principal tarefa imediata, tendo o escrutínio radical como arma, é lutar contra as mentiras do Temer e da Globo: derrotar o projeto genocida e antidemocrático da intervenção militar.

Manter a memória de Marielle viva não basta. Marielle é sobre tudo. Apropriações parciais de Marielle não são inaceitáveis apenas por princípios morais, mas também porque servem para destruir todo o saldo da sua luta. Quando as mídias burguesas homenageiam Marielle sem dizer que ela morreu denunciando milícias filhas da militarização, denunciando fortemente a intervenção até o seu último dia de vida, não é homenagear Marielle. É uma hipocrisia, uma usurpação e um desrespeito a ela e ao povo pelo qual ela lutou em vida. A irmã revolucionária Marielle é sobre tudo. E vamos com tudo virar o jogo a favor de tudo pelo que lutava. Viva Marielle, Marielle vive! Manda beijinhos de maracujá pra Audre e pro Mészáros por mim...

 


José Anezio Fernandes do Vale

É militante do movimento nacional Quilombo Raça e Classe, organiza o cursinho popular Quilombo Sim em Feu Rosa (Serra-ES), compõe o diretório municipal do PSOL ES e a coordenação nacional da Comuna-PSOL

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Please reload

acesse também

arquivo

Please reload

João Alfredo
Camila Valadão
Ailton Lopes

artigos

facebook