A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O discurso, o meio ambiente e o ecossocialismo.

25/04/2018

 

Quando falamos em meio ambiente muitas vezes somos percebidos como produtores de um discurso que significa que meio ambiente é falar em florestas ou animais em extinção.

 

Não é uma percepção isolada ou ignorante, é parte de um tipo de operação simbólica que dá ao defensor do meio ambiente uma espécie de anel do Capitão Planeta, um superpoder de pertencer a um ramo lúdico da humanidade, propenso à defesa de animais, plantas e índios, que estão para quem acredita nesse viés discursivo entre os dois primeiros.

 

Nosso discurso se opõe ao do desenvolvimento não pelo ponto de vista conceitual pertencente ao debate ambiental sobre decrescimento, mas sob o ponto de vista que coloca o ambientalista como uma espécie de ludita pintado de verde.

 

Ao mesmo tempo a imprensa empresta ao discurso ambiental parte desse significado, chamando a todos para campanhas planetárias de salvamento do planeta, comprando um debate sobre sustentabilidade que pouco toca nas questões estruturais e sistêmicas de ataque ao meio ambiente e obliterando todo um debate sobre as questões ambientais que problematizam nosso meio de vida para além da compra de responsabilidades individuais como soluções para problemas causados pela lógica sistêmica de utilização de recursos que em tese são infinitos.

 

O que há de educação ambiental via de regra é a transformação do discurso senso comum sobre meio ambiente em algo cujas vestes sustentáveis mal escondem a busca de uma defesa de reforma tímida nas relações de produção de consumo a partir do acréscimo do termo “consciente” ao ato de consumir.

 

Os discursos políticos também ecoam a mesma ideia, indo, da esquerda à direita, da sobrevivência do planeta ao salvamento de animais, passando pela inclusão do indígena e quilombola.

 

A sustentabilidade tem até partido, tem um discurso que compreende como possível um sistema capitalista e a sobrevivência do planeta, basta adaptar a produção, e o consumo, sem mexer na estrutura de produção, sem mudar a hierarquia produtiva, os impactos das minerações, plantações monocultoras, produção de petróleo, nada.

 

A própria ideia de ecologia sob o ponto de vista do discurso é visível, em imagens, como um processo de conservação e não de ruptura sistêmica.

 

A ideia de inclusão do indígena e quilombola já tem, enquanto efeito discursivo, o apontamento de sua exteriorização, de estarem fora do processo, quando ecologicamente estamos todos dentro e sem plano B.

 

Sim, somos entidades ecológicas a partir do momento em que nós, indivíduos, nossas sociedades e nosso sistema de produção e consumo estão inseridos ecologicamente numa relação entre biomas interligados em escala planetária e que nos torna, todos, pessoal e coletivamente, como entidades cujos atos interferem diretamente na vida do outro.

 

A termelétrica implementada no Ceará e a eólica no Rio Grande do Sul afetam biomas locais e a biosfera, o clima, da mesma forma que Belo Monte no Norte.

 

O uso de sacola biodegradável enquanto se desfila de SUV ou se consome iPhone atrás de iPhone também tem seu impacto, assim como as casas ribeirinhas causam e sofrem impactos, mas estes impactos indiretos e microlocalizados são secundários diante dos impactos sistêmicos produzidos pelo sistema capitalista e sua produção em massa de artigos que sofrem com a obsolência programada, cuja centralização produtiva nos diversos países fazem com que existam enormes deslocamentos, com seus respetivos saldos de queima de carbono e ampliação do aquecimento global e cujo gasto de energia e de água nas plantas industriais ultrapassam em muito os gastos individuais e de uso doméstico.

 

Parte dos impactos sistêmicos são a excessiva produção de plástico que criam ilhas no pacífico e danificam a vida marinha, assim como os eventos extremos climáticos que atingem os ribeirinhos e pessoas em situação de vulnerabilidade climática que muitas vezes só residem onde residem pelo efeito de outro impacto sistêmico: a pouco racional estruturação do sistema de moradia sob o capitalismo onde existe muita casa sem gente e muita gente sem casa.

E o discurso, ou os discursos? Por que não produzem um processo de operação simbólica que deixe claro esse processo?

 

Porque a ecologia não pode ser respeitada sob o capitalismo, a não ser domesticada como defesa lúdica de um planeta cuja sociedade industrial está matando, inclusive agora, inclusive enquanto contribuímos para bem-intencionadas ONGs de combate à destruição ambiental.

A luta ambiental presume um processo de revolução produtiva que supere a contradição capital/natureza e que produza um sistema politicamente ecológico, um sistema ecossocialista.

O discurso que afasta o debate ecológico do debate contrassistêmico é um discurso produzido para a veiculação da naturalização do sistema, para a adequação da luta ecológica ao discurso ambiental comercialmente viável do capitalismo.

 

A busca de sustentabilidade é a ideia de sustentação do sistema enquanto passível e disponível para pequenas alterações que não altere a lógica de lucro em que se baseia o capitalismo.

O capital, com o discurso da sustentabilidade, transforma o discurso da luta ambiental em um slogan favorável a um viés de sua atuação, passível de gerar lucro com a agregação de valor moral ao consumo.

 

O capital, com a lógica de valoração lúdica do discurso ambiental costumeiro, com as Horas do Planeta e demais políticas de chamamento à ações ambientais que amenizam dores de consciência enquanto não alteram basicamente nada em sua estrutura, busca tornar a ecológica não só domesticada, mas absorvida pela lógica de que é possível salvar o planeta sem alterar as estruturas de superexploração e consumo dos recursos naturais e com isso do próprio meio ambiente.

 

Não tomamos o discurso aqui como alheio à concretude, ele é parte dela, ele é uma ferramenta dela.

 

O discurso reflete um processo político e ações que o endossam, que o justificam e empoderam. O discurso é parte do sistema, a terminologia produz uma operação simbólica de legitimação do sistema.

 

Um sistema sustentável é um sistema que se precisa sustentar e está legitimado a permanecer existindo, mesmo que suas engrenagens produzam a destruição do mesmo planeta que se pretende salvar através do discurso sustentável.

 

Essa operação discursiva gera uma operação simbólica que por sua vez produz um imaginário rico na manutenção do sistema sob o ponto de vista cultural.

 

E é por isso que o processo de debate ecológico precisa ter no debate ecossocialista uma firme decisão em combater, inclusive no plano de discurso, um tipo de ideia de que a sustentabilidade é um caminho viável pra luta ecológica.

 

Da mesma forma a ideia de que a utilização de energias renováveis não produz impactos ambientais ou mesmo que é possível manter a lógica de consumo sem produzir uma grande transformação sob o ponto de vista do consumo descentralizado, da racionalidade produtiva, da soberania alimentar, da agroecologia, da opção paulatina pelo decrescimento e pela ecologização da política, descentralizando o processo produtivo, o consumo e o processo decisório, numa paulatina construção de uma sociedade igualitária ecossocialista.

 

A presença de um norte utópico não pode, e nem deve, ignorar os processos práticos a serem levados a cabo diante dessa luta que inclui tanto as lutas práticas cotidianas presentes na luta ambiental, agroecológica, indígena e quilombola, quanto as lutas simbólicas e as lutas de representações existentes.

 

Mas é preciso um processo de discurso e prática cujo norte é a superação sistêmica para que o debate ecológico supere a simplificação dele enquanto elemento de sustentação do sistema que mais rápido destrói o planeta que buscamos defender.

Gilson Moura é historiador e militante da Comuna no Rio Grande do Sul.

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