A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Black Mirror ou Paraíso: para onde nos levam as novas tecnologias?

10/05/2018

     

 

     Já faz algumas décadas que os impactos produzidos pela adoção das chamadas novas tecnologias, aqui entendidas como aquelas baseadas na microeletrônica, têm suscitado muita discussão. Lá se vão mais de 40 anos e é farta a literatura sobre o assunto. Num primeiro momento, o foco da atenção foi dirigido para as mudanças que ocasionavam no mundo do trabalho e no processo de produção; num segundo, sem que a preocupação anterior fosse abandonada, o interesse maior voltou-se para a análise dos impactos sobre outros aspectos da reprodução econômica e social, mas também sobre o comportamento humano, decorrente de novos produtos propiciados por essa base técnica, com destaque para o que se alterava no convívio frente ao mundo virtual e ao surgimento de uma nova relação com o tempo. No espaço desse pequeno artigo, e considerando o título que lhe encabeça, destacamos alguns pontos para reflexão.

 

As novas tecnologias e o mundo do trabalho

 

     De maneira geral, nos ambientes de trabalho em que a adoção das novas tecnologias propiciou a eliminação de pontos de estrangulamento, a substituição de parte ou de toda a atividade desenvolvida pelo trabalhador e a integração de processos, provocou aumento da intensidade do trabalho, elevação da produtividade, perda de qualificação de parte dos trabalhadores e redução do número de trabalhadores empregados.  Isso foi observado tanto junto à indústria quanto junto às atividades comerciais e de serviços. Esses resultados estão largamente documentados nas inúmeras pesquisas desenvolvidas no âmbito da academia e no meio sindical, tanto no mundo como no Brasil. Para se ter uma ideia da dimensão desse processo de transformação, basta que nos lembremos de quantos trabalhadores as montadoras brasileiras, principalmente as localizadas no ABC paulista, empregavam nos anos 1970 e 1980 (disso decorria, em parte, sua força política) e de como eram alterados os preços dos produtos nos supermercados. Em 1985, as montadoras empregavam 145.765 trabalhadores (122.217 na produção de autoveículos e 23.548 de máquinas agrícolas e rodoviárias), para uma produção total física de 966.708; em 2013, 153.222 e 3.736.629, respectivamente, lembrando que o número de empresas fabricantes em território nacional, bem como de plantas, aumentou significativamente no período (ANFAVAE, 2014). No caso, dos preços, apenas para lembrar para os mais jovens, no lugar do código de barras, que permite constante atualização do preço e controle do estoque, a “maquininha de etiquetar”.   E isso somente para ficar nesses dois exemplos e no país. Há, ainda, quem assinale que, em alguns casos, esses impactos foram acompanhados de aumento da jornada de trabalho.

       Nos anos 1980, contudo, a experiência dos metalúrgicos alemães confirmou que o uso de uma tecnologia superior à corrente não necessariamente precisa resultar em demissão de trabalhadores, pois, a rigor, o impacto sobre o emprego no local de trabalho depende da força de negociação da categoria frente à empresa. Além disso, os metalúrgicos alemães, ligados ao sindicato IG Mettal, foram pioneiros na conquista das 35 horas semanais e, mais recentemente, das 28 horas. Em outras palavras, o aumento da produtividade decorrente da nova tecnologia pode, caso haja força para isso, resultar em redução da jornada e não demissão, mesmo que o ritmo de contração de novos efetivos seja claramente diminuído.

      Ademais, para além dos impactos aqui mencionados, a adoção das novas tecnologias permitiu aumentar o campo das negociações coletivas, como observamos em outro momento. “Se antes se limitavam a determinados aspectos do trabalho e da relação salarial, atualmente não há ponto relevante que não esteja contemplado nas reivindicações dos sindicatos. A microeletrônica permitiu que se generalizasse a discussão em torno de questões que até então eram consideradas de competência única da gerência, tal como a escolha do equipamento, organização do processo de trabalho e o ritmo do trabalho” (MARQUES, 1986, p. 44 - 45). É claro que a condição primeira para que isso aconteça é o grau de organização dos trabalhadores afetados pelas mudanças. Na falta dessa organização, o que se impõe é a lógica inexorável do capital, como discute Sawaya (2015), ao comentar trecho de Marx do capítulo XXII de O Capital sobre a procura e a oferta de trabalho.

 

As novas tecnologias e o comportamento

 

     Sociólogos, filósofos, neurocientistas, psiquiatras e profissionais de outras áreas do conhecimento muito já escreveram sobre o impacto das novas tecnologias no comportamento das pessoas, principalmente pelo uso do smartphone e das chamadas redes sociais. E certamente, muito ainda irão escrever, pois se trata de um processo em curso. Mas, aqui iremos somente referir-se ao celular, sabendo das implicações das redes sociais quando, por exemplo, Zygmunt Bauman declara que elas constituem uma armadilha (EL PAIS, 2016).

Não há dúvida que as “facilidades” decorrentes dos produtos derivados dessa tecnologia beneficiaram, de fato, as pessoas, ao integrarem vários aplicativos a um só equipamento. Desnecessário descrever aqui quais são essas facilidades, pois elas são de conhecimento geral. Contudo, ao lado disso, observa-se que, se ainda não estamos convivendo com situações iguais às abordadas em episódios da série Black Mirror, já é preocupante a mudança de comportamento decorrente das “facilidades” decorrentes dessa tecnologia.

   O celular já virou um apêndice de nosso corpo, não sendo poucos aqueles que não conseguem dele se separar nem que seja por um instante.  É através dele que se sabe de “todo mundo” e se posta “tudo” sobre a nossa vida, esperando que os “amigos” digam se “gostaram” ou “amaram” o que foi revelado. Estar desconectado é estar morto. As notícias precisam ser conhecidas no momento do ocorrido e essas são logo superadas por outras e, assim, sucessivamente. Não há tempo para reflexão. O tempo é o do imediato e da resposta irreflexiva, tal como age o capital dito financeiro ao perseguir maior rentabilidade. E o comportamento geral adotado, e muitas vezes objeto de “charges” de todos os tipos, é aquele de pessoas “plugadas”, que estão em permanente estado de “alerta”. E isso sem mencionar a extensão da jornada de trabalho que essas “facilidades” propiciam para determinadas segmentos de trabalhadores. Como exemplo, podemos citar os que estão empregados em cargos de chefia (seja do nível que for) e em atividades de ensino e pesquisa.

     Enfim, tanto nos locais de trabalho quanto na vida fora dele, as novas tecnologias parecem se apresentar com duas faces: a do bem e a do mal. As forças do capital conduzem à piora da relação de trabalho e à adoção de seu ritmo acelerado em todas as atividades humanas. Atuar contra essa “pulsão”, sabendo fazer da tecnologia um instrumento de liberdade, é tarefa de todos que desejam construir um mundo melhor.

 

Referências

 

ANFAVEA - Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. Anuário da Indústria Automobilística Brasileira. Estatístico. Disponível em  http://www.virapagina.com.br/anfavea2014/files/assets/basic-html/index.html#1. Acesso em 21/02/2018.

 

EL PAIS. Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/30/cultura/1451504427_675885.html. Acesso em 22/02/2018.

 

MARQUES, Rosa Maria. Os trabalhadores e as novas tecnologias. In Organização, trabalho e tecnologia. Orgs. Lúcia Bruno e Cleusa Saccardo. São Paulo, Atlas, p. 27 a 51, 1986.

SAWAYA, Rubens.  Poder, emprego e política econômica. São Paulo, Estudos Avançados, 29 (85), p. 105 – 119, 2015.

 

 

 

Rosa Maria Marques é Professora de Economia na PUC São Paulo e integrante da Coordenação Nacional da Comuna

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