A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Nota sobre a greve dos caminhoneiros e a situação nacional

30/05/2018

 

1 – Sobre o caráter da greve dos caminhoneiros.

Nos primeiros dias da greve dos caminhoneiros, muito se discutiu sobre seu caráter. Seria ela fruto de um lokout ou da paralisação dos trabalhadores do setor de transporte rodoviário de cargas? Na medida em que ela teve prosseguimento, começou a ficar evidente que ela, na realidade, tinha elementos das duas caracterizações, refletindo a realidade do setor. Em 2017, o setor compreendia 111.743 empresas, 274 cooperativas e 374.029 autônomos transportadores de carga (CNT). As dez maiores empresas, entre as quais a JSL, a Centro Oeste e a JBS, tinham em fevereiro de 2018, 11.486 caminhões e 17.723 implementos. Em 2016, as empresas tinham 1.170.578 veículos, as cooperativas 21.837 e os a autônomos 783.656 (ANTT). Dados divulgados na imprensa, assinalam números menores para 2018 em todas as categorias, talvez fruto do fraco desempenho da economia do país. Essa distribuição explica, de certa maneira, a percepção diferenciada apresentada pelos vários informes partilhados ao longo da greve em diversos grupos de whatsapp, uns enfatizando a atuação de autônomos e outros a participação ativa das empresas.

 

A composição do setor também explica, em parte, a ausência de liderança nítida do movimento, embora seja representado por onze entidades. Essa representação foi duramente questionada quando da realização da tentativa de acordo com o governo, em 24/05, dando prosseguimento à greve.

 

2 – O movimento cala fundo em outros segmentos da população

Embora os caminhoneiros lutem por uma pauta relativamente extensa de reivindicações, a reclamação central está referida ao preço do diesel, que registrou aumento 56% entre 31/07/17 a 22/05/18. Essa elevação é resultado direto da política de preços implantada pelo presidente da Petrobrás, Pedro Parente, que aumenta o preço dos derivados do petróleo sempre que se eleva a cotação do barril do petróleo no plano internacional. Dessa maneira, é priorizado o valor patrimonial dos acionistas, apesar do impacto que a elevação do preço do diesel, e mesmo da gasolina, possa vir a ter nos processos produtivos, no transporte em geral e na vida cotidiana das pessoas.

 

É por isso que, ao contrário do que o governo parecia esperar, a greve dos caminhoneiros rapidamente encontrou eco em outros segmentos, tais como motoristas / empresas que trabalham com van, e tem recebido o apoio dos mais diversos setores. A greve dos caminhoneiros está colocando em cheque a política de preços da Petrobrás. Na sua esteira, é levantado o aumento abusivo do preço do gás e mesmo da luz, cujos preços não consideram sua natureza essencial na reprodução da vida familiar.

 

Além disso, o movimento está colocando a nu a dependência do país ao transporte rodoviário de carga, sem falar na total sujeição aos combustíveis fósseis. Discutir a greve dos caminhoneiros e seus impactos na economia e na vida do país é discutir também a construção de alternativas de transporte, seja para carga ou para passageiros nas cidades.

 

3 – A perda de controle do governo e a abertura da caixa de Pandora

Provavelmente, nunca antes o famigerado governo Temer esteve tão acuado. Não foram poucos os momentos em que se viu atacado ao longo do tempo em que está como presidente, mas em todas as oportunidades conseguiu, de uma maneira ou de outra, contornar o problema, muito embora, no plano da aceitação da população, registre há muito tempo o pior nível já obtido por um presidente depois de encerrada a ditadura militar. Agora, se vê abandonado por todos: do presidente da Câmara no momento da votação do primeiro acordo, dos governadores por não auxiliarem no desbloqueio das estradas quando Temer anunciou o uso das forças armadas para esse fim e, mais recentemente, do posicionamento contrário de 7 governadores (Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Sergipe e Minas Gerais) à parte da “solução” da greve anunciada por ele no domingo de 27/05. Não por acaso, sua fala em circuito nacional, nesse dia, foi acompanhada de panelaços em alguns bairros das grandes cidades do país.

 

O país está praticamente parado: fábricas encerraram suas atividades por falta de peças e/ou matérias primas; ônibus urbanos transitam com frota extremamente reduzida; hospitais e outros serviços de saúde se ressentem da falta de insumos e materiais; escolas e universidades paralisaram suas atividades; mercadorias faltam nos mercados; aeroportos estão sem combustível e outros trabalham com nível baixo de estoque; com sem falar que combustíveis não chegam aos postos.

 

Entre os caminhoneiros, mas sem que isso seja encampado de forma generalizada e nas manifestações de apoio a seu movimento, nas estradas e nas cidades, reapareceu com força a demanda por intervenção militar. Misturam-se a clamores contra a corrupção e o desmando com a negação de todas as instituições (executivo, legislativo e judiciário), apresentando-se como única solução a intervenção militar, que garantiria a volta à ordem ou a uma situação ideal desejada.

 

Ao mesmo tempo, como já mencionado, somam-se as manifestações de apoio ao movimento, dos mais diferentes segmentos da sociedade. Na semana, devem se juntar aos caminhoneiros os trabalhadores da Petrobrás, que anunciaram uma greve para começar a zero hora de quarta-feira, dia 30/05. Entre as reivindicações, está o bloqueio a sua estrangeirização, principalmente com relação ao pré-sal e a mudança de sua política de determinação de preço.

O resultado de todas essas forças é incerto. É como se, de fato, tivessem aberto a caixa de Pandora. Tudo é possível.

 

4 – Unificar as lutas e dar consequência ao Fora Temer

Nesse quadro, é preciso que os trabalhadores, mediante seus sindicatos, centrais, movimentos, frentes e partidos, trabalhem no sentido de unificar as lutas, preparar a greve geral e dar consequência ao enorme descontentamento que a greve dos caminhoneiros escancarou. Se até pouco tempo as lutas se caracterizavam por serem fundamentalmente defensivas, o questionamento da política de preço da Petrobrás e de sua entrega ao grande capital estrangeiro está as colocando em outro patamar, pois entram diretamente em choque com os fundamentos primeiros do que move o governo Temer.

 

É hora de juntar todos para dar consequência do Fora Temer e de exigir nossas eleições. O PSOL tem nesse processo um papel fundamental a jogar, devendo se apresentar como a alternativa possível à situação de crise profunda por que passa o país. Tal como o PSOL, a FPSM e a FBP, reafirmamos nossa luta:

 

Pelo fim da política atual de preços da Petrobrás!

 

Fora Parente!

 

Contra a repressão aos caminhoneiros!

 

Fora Temer!

 

Por eleições livres e democráticas!!

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