PSOL sai mais forte das eleições, mas é preciso corrigir rumos.


Documento de balanço da campanha eleitoral

Vitória da extrema-direita e escalada autoritária no Brasil

Findadas as eleições presidenciais no Brasil, o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) sagrou-se vencedor com 55% dos votos válidos. A intensa mobilização das forças democráticas, populares e de esquerda ampliaram a base social e eleitoral de Haddad e Manuela (chegando a 45% dos votos válidos), mas não o suficiente para derrotar a ascensão da extrema-direita nestas eleições. Abstenções, nulos e brancos totalizaram 31% do eleitorado. A conformação de uma “frente” democrática informal contra a ameaça anti-popular, anti-nacional, anti-democrática, violenta e corrupta acumulou para a resistência que seguirá, e esse é o principal saldo, apesar da derrota eleitoral, desse processo.

A eleição de Bolsonaro se deu em um contexto de profunda crise econômica, social e política e expressou o desalento de parcelas de nosso povo, que, em alguma medida, canalizaram suas insatisfações votando em um falso candidato anti-sistêmico que, na verdade, representa a expressão mais apodrecida deste sistema. Associado a isso, expressou também o reacionarismo obscurantista, racista, machista e LGBTTfóbico de frações da classe dominante e da classe média, de setores do povo, das forças militares e do fundamentalismo religioso.

A ascensão de Bolsonaro e seus consortes se dá em meio a um cenário de crise internacional do capitalismo, inaugurada em 2008 nos EUA; e de crise de autoridade das classes dominantes. As frações mais pujantes do capital financeiro ainda seguem vencendo a guerra de classes, é verdade, porém a saída que apresentam à sua própria crise não é uma promessa de futuro, mas o aprofundamento da mesma receita que gerou a crise.

Neste interregno, a social-democracia e os partidos tradicionais - que implementam a receita de ajuste exigida pela burguesia internacional com mais ou menos concessões - esvaziam sua representatividade e abrem caminho para o surgimento de novos fenômenos sociais e políticos à esquerda e à direita. Os mais perigosos destes fenômenos são movimentos e governos de extrema-direita, que encontram eco nas classes médias desesperadas pela crise, na reação ao crescimento das lutas por liberdade, na reação xenófoba aos imigrantes, ou setores populares influenciados pelo fundamentalismo religioso. É um fenômeno internacional, dentre os quais Donald Trump, Duterte e Erdogan são expressões.

Além do contexto que propiciou que uma figura política caricatural se tornasse presidente, sua eleição está marcada por situações atípicas. O ataque sofrido no primeiro turno, e rapidamente condenado pelo PSOL, o favoreceu eleitoralmente, mantendo forte exposição midiática e colocando-o em condição de vítima da violência propagada pelo mesmo. Serviu para intensificar a mobilização social dos seus apoiadores mais ativos e gerou comoção social prolongada via grande mídia e redes sociais. O ataque justificou sua ausência nos debates e bloqueou as críticas de seus opositores por um valioso tempo em uma campanha de tiro curto. Somado a isso, veio à tona o escandaloso uso ilegal de fake news através do WhatsApp com indícios claros de financiamento por grandes empresas via Caixa 2. Foi a primeira eleição no Brasil onde o peso das redes sociais mostrou-se decisivo. Evidente que a aguda crise da “Nova República” foi o terreno fértil para que a estratégia de campanha de Bolsonaro fosse vitoriosa.

Seu discurso escancarou o caráter autoritário do futuro governo, com ameaças explícitas ao poder judiciário, aos movimentos sociais, à esquerda, à liberdade de imprensa e à oposição em geral. Na reta final da campanha, entidades sindicais, estudantis e instituições públicas de ensino sofreram incursões de algumas seções da justiça eleitoral e das forças policiais, coibindo manifestações democráticas contra o fascismo. A crítica posterior do STF a essas ações foi tímida, tardia e sem maiores decorrências, dada a gravidade dos acontecimentos. Essa mesma justiça, inclusive suas instâncias superiores, silenciou-se diante das sucessivas apologias à violência e ameaças aos opositores e à imprensa feitas pelo próprio Bolsonaro e por seus apoiadores, além da omissão prática mediante o escândalo das fake news.

O PSOL, que combateu duramente Bolsonaro durante a campanha eleitoral, foi ameaçado claramente, tanto em discurso para seus apoiadores em São Paulo, como também em pleno Jornal Nacional. Isso não nos intimidará. Continuaremos na luta contra as medidas autoritárias, anti-povo e anti-nacionais de seu governo. O PSOL teve importante vitória ao superar a cláusula de barreira e eleger 10 deputados federais com ampliação da representação feminina, especialmente a eleição de mulheres negras, a eleição de 18 deputados estaduais, além de campanhas majoritárias nacional e estaduais - em que pesem os limites da forma desigual como se dá a disputa - que contribuíram para forjar um polo de resistência aos ataques do futuro governo.

O PSOL e as eleições de 2018

Nossa chapa nacional, Boulos e Sonia, foi composta em uma aliança do PSOL com o MTST, a APIB, PCB, Unidade Popular, Mídia Ninja, intelectuais progressistas e ativistas sociais. Esta aliança foi um importante momento da história de nosso partido, consolidando-o como principal polo da esquerda combativa. Foi uma candidatura que se colocou com o objetivo de encarnar a resistência popular, tendo a frente uma liderança importante dos movimentos de luta pela moradia e como co-presidenta uma liderança indígena que expressa a resistência histórica de nosso povo contra as elites.

Reconhecemos a importância dessas lideranças e de todos e todas que estiveram engajados/as na construção de nossa campanha presidencial. Porém, não podemos deixar de apresentar um rigoroso balanço da campanha. O resultado eleitoral da campanha deve ser analisado sob três dimensões: o baixo desempenho quantitativo das eleições presidenciais; questões políticas sobre a estratégia de campanha, apesar da melhora na reta final do primeiro turno e do importante papel cumprido no segundo e o desempenho nas eleições proporcionais, com um importante saldo político e eleitoral.

Estava claro desde o final do ano passado que essa eleição presidencial seria uma das mais incertas desde o fim da Ditadura Militar. O desolamento ocasionado pela crise – na qual o PT tem importante parcela de responsabilidade pela frágil política neodesenvolvimentista, pela corrupção, pelo estelionato eleitoral de Dilma e por ter iniciado o ajuste fiscal radicalizado por Temer ampliou o sentimento de indignação contra os partidos e os políticos de um modo geral, que já se desenvolvia desde 2013. Estava posta a divisão da direita tradicional em diversas candidaturas (Alckmin, Amoêdo, Álvaro Dias, Meirelles) e a expressão eleitoral de uma representação da extrema-direita. Ao mesmo tempo, a representação popular seria disputada pelo PT (em situação de incerteza pela ausência de Lula), Ciro (PDT), Marina Silva (REDE), mesmo com ambiguidades, o PSOL, o PSTU e o PPL.

Compreendemos o cenário difícil no qual nossa campanha presidencial se inseriu, porém, não podemos ignorar problemas políticos que influenciam diretamente na baixa expressão eleitoral da campanha Boulos/Sonia, além de questões políticas relevantes da estratégia de campanha. Uma candidatura que buscava se afirmar como anti-sistêmica não devia ter evitado críticas contundentes à experiência governamental do PT e aliados. No intuito de deslocar franjas do PT, a campanha deixou-se confundir e não se afirmou como alternativa de esquerda independente. Na própria pré-campanha o partido participou, via Fundação Lauro Campos, de evento para apresentar uma inconsistente “alternativa programática para o Brasil” com as fundações do PT, PC do B, PSB e PDT.

Houve também excessivo mergulho na campanha do Lula Livre. Reconhecemos que o processo, a condenação e a posterior prisão de Lula foram parte de um nítido movimento político para impedir sua candidatura. Que foi correta a posição do partido de denunciar contundentemente essa farsa jurídica. Todavia, toda a campanha do Lula Livre sempre foi parte de uma estratégia do PT de recuperação de terreno nos movimentos sociais e nas eleições, que passava pela afirmação do que parecia positivo na sua experiência governamental e da busca por uma nova vitória eleitoral, que não veio, em 2018. O PT conseguiu recuperar parte do seu prestígio e de suas bases sociais e eleitorais, além de ter evitado a reprodução do desastroso resultado eleitoral de 2016. No fundamental, foi derrotado: perdeu a eleição para o governo federal e sua principal liderança política tende a continuar presa por longo tempo, mas não deixou de ter algumas vitórias parciais, especialmente no Nordeste.

Nesse processo, a maioria burocrática da direção do PSOL e a coordenação da campanha presidencial realizou movimentos que se mostraram equivocados. O primeiro deles foi, no início, o descolamento da campanha de Boulos/Sonia das candidaturas presidenciais anteriores do PSOL. Ao fazer isso, deixou de primeiro pavimentar nossa campanha em nosso próprio eleitorado, em sua maioria jovens, de setores médios e motivados por uma racionalidade por valores ou estratégica, para daí buscar ampliação. O foco no objetivo de atrair parte do petismo orgânico – fazendo concessões políticas e sem antes mobilizar nossa militância e atrair o nosso próprio eleitorado – poderia ter nos conduzido ao desastre. O contexto exigia a manutenção de uma importante característica das nossas campanhas anteriores: o caráter de enfrentamento ao neoliberalismo mitigado do PT e à direita tradicional representada pelo PSDB. Claro que esse caráter teria que dialogar com o cenário específico de 2018, onde a direita, em sua versão extrema ou tradicional, se apresentava com grandes chances de ganhar as eleições presidenciais. O enfrentamento central, portanto, não seria contra o PT. Mas ao não tecer, desde o início da campanha, críticas contundentes ao papel que o PT teve no Brasil de fortalecimento da hegemonia burguesa – desmobilizando bases sociais, ao mesmo tempo em que se vinculava organicamente à institucionalidade burguesa degradada e atendia aos interesses fundamentais do grande capital – ficamos vulneráveis à pressão do voto útil, que de fato foi antecipada para o final do primeiro turno.

Um segundo aspecto é que parte da estratégia de comunicação da campanha, como o tom “adocicado” de algumas peças e o uso errático do horário de Rádio e TV, não dialogaram com o contexto geral das eleições e dificultaram a afirmação de um perfil anti-sistêmico da candidatura, nesse aspecto, perdendo uma oportunidade de afirmar a independência política do PSOL, tanto com relação aos partidos burgueses, quanto às castas políticas do regime.

Somente na reta final a estratégia da campanha sofreu pequenas alterações, com elevação do tom de crítica ao PT e uma postura mais ofensiva de crítica sistêmica, colocando em segundo plano a preocupação em mostrar um “viável” plano de governo. Foi justo neste momento que recuperou terreno sobre os setores que embarcaram na dinâmica do voto útil em Haddad ou Ciro. Entretanto, já era tarde, o espaço político já havia se reduzido qualitativamente.

Sintetizando, afirmamos que o partido tinha condições suficientes, mesmo em uma conjuntura difícil para a esquerda, de ter obtido maior votação na chapa presidencial, onde tivemos o menor desempenho de nossa história com 617 mil votos. Faltou, portanto, uma estratégia de campanha sólida que, ao mesmo tempo em que se lastreasse no acúmulo do partido dialogando com o eleitorado já conquistado, buscasse ampliar, disputando com a extrema-direita a captura do voto anti-sistêmico de parte de nosso povo.

Ao realizarmos essas críticas não ignoramos o importante papel desempenhado por Boulos e Sônia. Muito menos o mérito de terem empolgado nossa militância na reta final da campanha. Destacamos também o bom desempenho de ambos nos debates e entrevistas em Rádio e TV. O PSOL, entre méritos e problemas, saiu do processo eleitoral conquistando a simpatia de muitos ativistas progressistas e de parte do eleitorado, mesmo que não tenham votado em nossa chapa. A nossa relação com os setores mais amplos que estiveram conosco nessa jornada deve continuar, mas é necessário consolidar uma estratégia mais sólida e deixar para trás vacilações táticas para superarmos o PT e nos tornarmos alternativa de esquerda para as maiorias.

Nessa eleição, nossa principal vitória foi a superação da cláusula de barreira, chegando a quase 3% dos votos válidos para deputado federal. Embora o partido tenha carecido de um planejamento mais rigoroso para alcançar esse objetivo, o acúmulo do partido em vários estados, candidaturas majoritárias de qualidade, uma candidatura presidencial qualificada e com baixa rejeição e a militância aguerrida do partido nos levaram ao melhor desempenho eleitoral de nossa história nas chapas proporcionais.

O partido, nem sempre de forma linear, já vinha experimentando crescimento eleitoral desde 2010. Nas eleições para prefeituras de 2012, por exemplo, o partido saltou de 795 mil votos em 2008 para mais de 2,3 milhões de votos. Em 2016, posterior ao golpe parlamentar com forte impacto sobre a esquerda, o PSOL teve uma leve redução em sua votação total indo para 2,09 milhões de votos, mas chegando ao segundo turno em duas capitais, Rio de Janeiro e Belém, além de Sorocaba (SP). Elegemos também duas prefeituras, Janduís e Jaçanã (RN) e aumentamos a bancada de vereadores de 49 para 52.

Para deputado federal, o PSOL teve praticamente a mesma votação nas eleições de 2006 e 2010 (1,15 milhões e 1,14 milhões, respectivamente), elegendo 03 em 2006 e 2010. Já em 2014 o PSOL obteve 1,74 milhões de votos, crescimento de 52% em comparação a 2010, elegendo 05 deputados federais. Agora obtivemos 2,78 milhões de votos, crescimento de 59% em relação a 2014, e dobramos a nossa bancada eleita, chegando a 10, com uma mudança de qualidade na representatividade da bancada, além de uma ligação bastante orgânica com a luta por justiça para Marielle e das mobilizações do #EleNão ainda no primeiro turno. Além disso tivemos a eleição de 18 deputados estaduais.

No segundo turno, todo o partido teve firme posição para derrotar Bolsonaro, tática esta que necessariamente passava pelo envolvimento ativo com a campanha de Haddad e Manuela. Embora tenha faltado linha política e identidade própria no segundo turno, o que ficou muitas vezes a cargo de correntes do partido e não de suas instâncias, contribuímos com a organização e mobilização das atividades de campanha, muitas vezes tendo postura mais ativa do que o próprio PT. A derrota, que não é só do PT, mas sim do conjunto das forças democráticas, populares e de esquerda, não foi sem luta. As massivas mobilizações sociais ocorridas durante toda a campanha mostram que esse deve ser o nosso caminho: estar nas ruas defendendo os interesses da classe trabalhadora, dos que lutam pela terra e moradia, dos povos tradicionais (indígenas, quilombolas, ribeirinhos, etc), do povo de santo, das mulheres, dos negros e negras, dos LGBTT e da juventude, além do próprio direito de lutar e fazer oposição.

Terminada a eleição, estará em debate um processo de reorganização da esquerda no Brasil. Será um processo longo, que exigirá muita discussão. Um dos temas será a relação entre o PSOL e os partidos que se reivindicam de esquerda e centro-esquerda, dentre eles o PT. É evidente que tal apreciação é compartilhada por inúmeras lideranças do PSOL, que pensam que é necessário fazer unidade contra a extrema-direita e frente única com partidos e organizações que reivindicam a classe trabalhadora, tendo o PT, assim como o PC do B, incluídos na possibilidade e necessidade dessa frente. Mas pensamos que, na reorganização da esquerda, além de conclusões críticas à experiência dos governos do PT, que já é um acúmulo comum na história do partido, será fundamental a afirmação do PSOL, sua identidade própria e sua política independente.

O diretório desse final de semana será importante para dar o primeiro passo nesta direção. Felizmente, o PSOL está mais forte, tendo superado a cláusula de barreira. Neste quadro, será importante o partido organizar estas reflexões e encaminhar a discussão para que a militância tenha ativo papel no debate das nossas relações políticas com o MTST, e Boulos em particular, a APIB e outras organizações e movimentos que compuseram nossa aliança. Reconhecemos que após a eleição Boulos adquiriu legitimidade para se manifestar publicamente como representante do PSOL, mas para que de fato possa ser porta voz do partido é necessário que as posições a serem expressas publicamente sejam resultado de um acumulo coletivo das instâncias partidárias.

Diante do cenário de um governo abertamente autoritário, o PSOL deve se fortalecer e ter papel altivo na conjuntura. O quadro geral que enfrentaremos na conjuntura é defensivo. Nesse sentido, é preciso que a direção do partido esteja engajada nas lutas pela manutenção das conquistas democráticas e sociais da classe trabalhadora e setores oprimidos. Cabe, portanto, a conformação de iniciativas amplas em defesa das conquistas democráticas e sociais de nosso povo. Estas iniciativas não devem se resumir a um pequeno núcleo de partidos, mas sim envolver organizações políticas, entidades civis e movimentos sociais a partir de uma pauta unitariamente construída.

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