A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O Estalinismo por Ernest Mandel

13/03/2019

 1. O fracasso do ascenso revolucionário de 1918-1923 na Europa

A revolução internacional, esperada pelo proletariado russo e pelos dirigentes bolcheviques, estourou em 1918. Na Alemanha e na Áustria foram criados conselhos de operários e soldados. Na Hungria, foi proclamada uma República dos Conselhos, em março de 1919; na Baviera, em abril de 1919, os operários da Itália do Norte, em efervescência crescente desde 1919, ocuparam todas as fábricas em abril de 1920. Outros países foram atravessados por poderosas correntes revolucionárias, como a Finlândia, a Polônia, a Tchecoslováquia e a Bulgária. A Holanda viu-se sob a ameaça iminente de uma greve geral. Na Grã-Bretanha, os operários estabeleceram a “tríplice aliança” dos três maiores sindicatos do país, que abalou o governo.
Mas esta vaga revolucionária acabou por fracassar. As razões principais desse fracasso são as seguintes:

- a Rússia dos Sovietes se via dilacerada por uma guerra civil. Os antigos terra-tenentes e oficiais tsaristas, apoiados pelos capitalistas russos e estrangeiros, esforçaram-se por derrubar pelas armas a primeira república de operários e camponeses. Por isso, o poder dos sovietes apenas podia conceder uma ajuda material e militar reduzida às revoluções europeias, que, por outro lado, eram atacadas por todos os exércitos imperialistas;
- a social-democracia internacional se colocou, sem hesitar, no campo da contra-revolução, esforçando-se, através de todas as promessas e embustes imagináveis (na Alemanha, prometendo desde fevereiro de 1919 a socialização imediata da grande indústria, o que evidentemente de modo nenhum foi realizado), para afastar os trabalhadores da luta pelo poder. Não teve a mínima hesitação em organizar a violência contra-revolucionária, particularmente através dos freikorps convocados por Noske para combater a revolução alemã. Estes freikorps foram o núcleo dos futuros bandos nazis;
- os jovens partidos comunistas, que tinham fundado a III Internacional, careciam de experiência e de maturidade,o que os levou a cometer múltiplos erros “esquerdistas” ou direitistas;
- a burguesia, apavorada pelo espectro revolucionário, fez subitamente, em numerosos países, importantes concessões econômicas aos trabalhadores (particularmente a jornada de 8 horas), assim como concedeu o sufrágio universal. Isso teve o efeito de travar o ascenso revolucionário em vários desses países.

Os primeiros reveses da revolução terminaram em derrotas sangrentas, na Hungria, onde a República dos Sovietes foi esmagada num banho de sangue, e na Itália, onde o fascismo tomou o poder em 1922. Na Alemanha, contudo, o Partido Comunista pôde reforçar-se, adquirir uma base de massa cada vez mais ampla e lançar-se em 1922-23 à conquista dos grandes sindicatos e dos conselhos de empresa.

O ano de 1923 viu surgir uma crise revolucionária excepcional na Alemanha: ocupação do Ruhr pelo exército francês; inflação galopante; greve geral vitoriosa que derrubou o governo Cuno; constituição de governos de coligação socialistas de esquerda/comunistas na Saxônia e Turíngia. Mas o Partido Comunista, mal aconselho pela Internacional Comunista, falhou na organização sistemática da insurreição no momento mais propício. O grande capital pôde restabelecer a situação, estabilizar o marco e reconduzir ao poder uma coligação burguesa. Estava assim terminada a crise revolucionária do pós-guerra.


2. O ascenso da burocracia soviética

A Rússia dos Sovietes tinha concluído vitoriosamente a guerra civil em 1920-21. Mas tinha saído exaurida. A produção agrícola e industrial tinha baixado de maneira catastrófica. A fome flagelava grandes regiões do país. Para remediar esta situação, Lenin e Trotsky decidiram fazer um recuo econômico. A propriedade mantinha-se nacionalizada em relação a toda a grande indústria, aos bancos e ao sistema de transportes. Mas era restabelecida a liberdade de comércio para os excedentes agrícolas, depois de pago o imposto em espécie. O artesanato, o comércio e a pequena indústria privados eram restabelecidos.

Para os bolcheviques, devia se tratar de uma medida temporária, da qual mediam os riscos, sobretudo no plano econômico: o enriquecimento da pequena burguesia poderia reproduzir de forma permanente a acumulação capitalista privada. Mas as consequências sociais e políticas do isolamento da revolução proletária, em um país atrasado, eram muito mais temíveis do que aqueles perigos econômicos. E podem ser resumidas assim: o proletariado russo perdia cada vez mais o exercício direto do poder político e econômico. Sobre as suas costas, uma nova camada privilegiada começa a subir. Esta burocracia adquiriu um verdadeiro monopólio do exercício do poder em todos os domínios da sociedade.

Este processo não foi o resultado de um complô premeditado. Resultou da interação de um grande número de fatores. O proletariado se viu enfraquecido numericamente pela queda da produção industrial e pelo êxodo para os campos. Sob o peso da fome e das privações, despolitizou-se parcialmente. Os seus elementos mais conscientes foram absorvidos pelo aparelho soviético. Muitos dos seus melhores filhos foram mortos durante a guerra civil. Todo esse agitado período não foi propício à formação de quadros, técnica e culturalmente qualificados, no seio da classe operária. A intelligentsia pequeno-burguesa e burguesa pôde por essa razão conservar de fato o seu monopólio de conhecimentos. Um período de grandes penúrias é sempre propício à aquisição e defesa de privilégios materiais.

Também não se deve pensar que esse processo passou despercebido pelos marxistas revolucionários russos. Desde 1920, a Oposição Operária, no seio do PC soviético, fez soar o alarme, mas propondo soluções largamente inadequadas. Desde 1921, Lenin manifestava viva inquietação pelo perigo burocrático, denominando o Estado russo de Estado operário burocraticamente deformado e, semi-impotente, nota o predomínio da burocracia nascente sobre o próprio aparato do Partido. Desde 1923, constitui-se a Oposição de Esquerda trotskista, que fará da luta contra a burocracia um dos pontos essenciais do seu programa.

Seria igualmente errado crer que a progressão da burocracia soviética representa um fenômeno inevitável. Embora mergulhe raízes profundas na realidade social e econômica da Rússia do início dos anos 20, nem por isso era menos possível combatê-la com reais possibilidades de sucesso. O programa trotskista da Oposição de Esquerda visava criar as condições propícias à correção de tal situação:

a) acelerando a industrialização da Rússia e aumentando assim o peso específico do proletariado na sociedade;
b) aumentando os salários e combatendo o desemprego, visando o aumento de confiança das massas operárias em si próprias;
c) ampliando imediatamente a democracia soviética e a democracia no seio do Partido, visando aumentar a atividade política e a consciência de classe do proletariado;
d) acentuando a diferenciação no seio do campesinato, ajudando os camponeses pobres, com créditos e máquinas agrícolas, a a constituir cooperativas de produção, sobrecarregando os camponeses ricos com impostos progressivos;
e) mantendo a orientação no sentido da revolução mundial e retificando os erros táticos e estratégicos do Comintern

Se o conjunto dos dirigentes e dos quadros bolcheviques tivessem compreendido a necessidade e a possibilidade de realizar semelhante programa, teria sido possível a revitalização dos sovietes e do exercício do poder pelo proletariado, desde meados dos anos 20. Mas a maior parte dos quadros do partido eram eles próprios afetados pelo processo de burocratização. Só muito mais tarde é que a maior parte dos dirigentes compreendeu o perigo mortal que representava a expansão da burocracia. O fracasso do “fator subjetivo” (do partido revolucionário), junto das condições objetivas necessárias, explicam a vitória da burocracia estalinista na URSS.


3. Natureza da burocracia, natureza social da URSS

A burocracia não é uma nova classe dominante. Não representa qualquer papel indispensável no processo de produção. É uma camada privilegiada que usurpou o exercício das funções de gestão no Estado e economia soviéticos, e que, sobre a base desse monopólio do poder, se arroga substanciais vantagens no domínio do consumo (remunerações elevadas, vantagens em espécie, armazéns especiais, etc.). Não é proprietária dos meios de produção. Não detém nenhuma garantia de conservar essas vantagens nem de as transmitir a seus filhos; tudo está ligado ao exercício de funções específicas.

Trata-se de uma camada social privilegiada do proletariado, que assenta o seu poder sobre as conquistas da revolução socialista de outubro: nacionalização dos meios de produção; planificação econômica; monopólio do Estado para o comércio exterior. É conservadora no mesmo sentido em que o é qualquer burocracia operária; põe a conservação do adquirido acima de qualquer iniciativa de extensão das conquistas revolucionárias.

A burocracia teme a revolução internacional, que ameaça reanimar a atividade política do proletariado soviético e, por isso, minar o seu poder. Deseja, pois, conservar o status quo internacional. Mas, enquanto camada social, permanece adversária do restabelecimento do capitalismo na URSS, o que destruiria os próprios fundamentos de seus privilégios (o que não impede que a burocracia seja o caldo de cultura de subgrupos e de subtendências que podem tentar se transformar em novos capitalistas).

A URSS não é uma sociedade socialista, quer dizer, uma sociedade sem classes.

Continua sendo, como no dia seguinte à revolução de outubro de 1917, uma sociedade de transição entre o capitalismo e o socialismo. O capitalismo pode ser ali restaurado, mas à custa de uma contra-revolução social. O poder direto dos trabalhadores pode ali ser restaurado, mas À custa de uma revolução política que destrua o monopólio do exercício do poder detido pela burocracia.

Não é pelo fato de ser um sistema de “dominação do produtor pelos burocratas”, nem por ter dado prioridade por um longo tempo ao desenvolvimento das máquinas às custas do consumo das massas, que a economia soviética merece ser classificada como “capitalista”. O capitalismo é um sistema específico de dominação de classe, caracterizado pela propriedade privada dos meios de produção, pela concorrência, pela produção mercantil generalizada, pelo caráter mercantil da força de trabalho, pela inevitabilidade das crises periódicas de superprodução generalizada. Nenhum desses traços fundamentais pode ser encontrado na economia soviética.

Mas se a economia soviética não é capitalista, também não é socialista no sentido tradicional do termo, empregado por Marx, Engels e o próprio Lenin. Uma economia socialista se define como regime dos produtores associados, que regulam eles próprios a sua vida produtiva e social, estabelecendo a hierarquia de necessidades a satisfazer em função dos recursos disponíveis e do tempo de trabalho ao qual se dispõem para consagrar o esforço produtivo. A União Soviética está longe de tal situação. Uma economia socialista se define pelo desaparecimento de toda a produção mercantil. Contrariamente à doutrina oficial em curso na URSS, Marx e Engels esclarecem bem que esse desaparecimento de nenhum modo é inerente à “segunda fase” da sociedade sem classes, correntemente chamada de “fase comunista”, mas que ela caracteriza já a primeira fase, comumente chamada de “socialista”.

Ao desenvolver a teoria anti-marxista sobre a possibilidade de concluir a construção do socialismo num só país, Stalin exprimiu de maneira pragmática o conservadorismo pequeno-burguês da burocracia soviética: mistura de funcionários antigos dos Estados burgueses, de recém-chegados ao aparato de Estado soviético, de comunistas desmoralizados e cínicos, de jovens técnicos desejosos de “fazer carreira” sem consideração pelos interesses de classe do proletariado como um todo.

Opondo a esta teoria a tese básica do marxismo (“a sociedade de classes só pode ser atingida a nível internacional, incluindo no mínimo alguns dos principais países industrializados do mundo” - “a revolução socialista se inicia no plano nacional, se desenvolve no plano internacional e só se completa a nível mundial”), Trotsky e a Oposição de Esquerda não defenderam uma posição “derrotista”, de “esperar para ver”, quanto ao destino da revolução russa. Muito antes de Stalin, e de maneira mais racional, tentaram impulsionar a mais rápida industrialização do país. Eles foram, e permanecem, apoiadores da defesa da URSS contra o imperialismo, da defesa do que resta das conquistas da revolução de outubro contra qualquer tentativa de restaurar o capitalismo na URSS. Mas eles entenderam que o destino da URSS seria decidido definitivamente pelo resultado da luta de classes a nível internacional. Hoje, como anteriormente, essa conclusão permanece correta.


4. O que é o estalinismo

Quando pronunciou a sua famosa acusação dos crimes de Stalin no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Kruschev explicou tais crimes pelo “culto da personalidade” que havia reinado durante a ditadura de Stalin. Essa explicação subjetiva, e mesmo psicológica, de um regime político que mudou completamente a vida de dezenas de milhões de seres humanos é incompatível com o marxismo. O fenômeno do estalinismo não pode ser reduzido às particularidades psicológicas ou políticas de um homem. Trata-se de um fenômeno social, cujas raízes sociais devem ser desveladas.

Na URSS, o estalinismo é a expressão da degenerescência burocrática do primeiro Estado operário, no qual uma camada social privilegiada usurpou o exercício do poder político e econômico. As formas brutais (terror policial, expurgos maciços dos anos 30 e 40, assassinato de quase todos os antigos quadros do PCUS, processo de Moscou, etc.) e as formas mais “sutis” desse poder burocrático podem variar. Mas, depois de Stalin, como sob Stalin, os fundamentos da degenerescência burocrática persistem.

O poder não é exercido por sovietes livremente eleitos por todos os trabalhadores. As empresas não são geridas por trabalhadores. Nem a classe operária, nem os membros do partido comunista dispõem das liberdades democráticas necessárias para poder determinar livremente as grandes opções de política econômica e cultural, interna e externa.

No mundo capitalista, o estalinismo significa a subordinação, pelos partidos que seguem a política do Kremlin, dos interesses da revolução socialista no seu próprio país aos interesses da diplomacia do Kremlin. Este utiliza os partidos comunistas estalinizados, bem como o movimento de massa que controlam, como moeda de troca nos seus esforços para estabelecer e manter o status quo internacional com o imperialismo.

No plano ideológico, o estalinismo representa uma deformação apologética e pragmática da teoria marxista. Ao invés de servir de instrumento de análise da evolução das contradições do capitalismo, das relações de força entre as classes, da realidade objetiva do período de transição do capitalismo para o socialismo, e também de ajudar a luta de emancipação do proletariado, a teoria marxista é rebaixada ao nível de instrumento para justificar cada “viragem tática” do Kremlin e dos partidos estalinistas.

O estalinismo tenta justificar essas manobras em nome das necessidades de defesa da URSS, “bastião principal da revolução mundial” antes da 2ª guerra mundial, e “centro do campo mundial socialista” depois da 2ª guerra mundial. Os trabalhadores devem essencialmente defender a URSS contra as tentativas do imperialismo de restabelecer ali a dominação do capital.

Mas as manobras táticas estalinistas que contribuíram para a derrota de tantas revoluções no mundo; que facilitaram o acesso ao poder de Hitler na Alemanha em 1933; que condenaram a revolução espanhola de 1936 à derrota; que obrigaram as massas comunistas francesas e italianas a reconstruir o Estado burguês e a economia capitalista nesses países em 1944-46; que conduziram ao esmagamento sangrento dos movimentos revolucionários do Iraque, Indonésia, Brasil Chile e tantos outros países desde então; estas manobras não correspondem de modo algum aos interesses da União Soviética como Estado. Apenas correspondem aos interesses estreitos de defesa dos privilégios da burocracia soviética - contrários, em todos os casos, aos verdadeiros interesses da URSS.


5. A crise do estalinismo

O declínio da revolução internacional após 1923 e o estado atrasado da economia soviética são, estes, os dois pilares principais do poder da burocracia na URSS. Desde o fim dos anos 40, estes pilares vem sendo progressivamente minados.

Há vinte anos de derrotas da revolução, sucedeu um novo ascenso da revolução mundial, primeiro circunscrito a países igualmente subdesenvolvidos (Iugoslávia, China, Vietnã, Cuba), mas que a partir de maio de 68 se espraiou pelo Ocidente. Após anos de esforços de “acumulação socialista”, a URSS deixou de ser um país subdesenvolvido. É hoje a segunda potência industrial do mundo e o seu nível técnico e cultural pode ser equiparado ao de vários países capitalistas avançados. O proletariado soviético, tal como o dos Estados Unidos, é numericamente o mais poderoso que existe.

Nestas condições, as bases da passividade das massas nos países dominados pela burocracia soviética, começam a desaparecer. O início de atividades oposicionistas foram acompanhados por divisões dentro da própria burocracia, que passa por um processo de diferenciação crescente desde a cisão Stalin-Tito, em 1948. A interação destes dois fatores favorece irrupções bruscas de ação política das massas, que têm assumido as tarefas da revolução política, como em Outubro-Novembro de 1956 na Hungria, ou durante a “primavera de Praga” de 1968 na Tchecoslováquia.

Até agora, esses movimentos de massa foram reprimidos pela intervenção militar da burocracia soviética. Mas, ao passo que os mesmos processos amadurecem na URSS, nenhuma força exterior poderá conter as ondas de revolução política na Europa oriental e na URSS. A democracia soviética será restabelecida. Todo o perigo de restauração capitalista será definitivamente anulado. O poder político será exercido pelos trabalhadores e camponeses pobres. A luta pela revolução socialista no resto do mundo irá progredir imensamente.


6. As reformas econômicas

Após a morte de Stalin e sobretudo no início dos anos 60 e 70, esboçou-se na URSS e em várias “democracias populares” um vasto movimento de reforma dos métodos de planificação e gestão. As reformas mais prementes incidiram no domínio da agricultura, onde a produção de víveres por cabeça de habitante, ao tempo da morte de Stalin, estava inferior à de 1928 e até mesmo inferior à da época tsarista no caso da pecuária. Medidas sucessivas visaram promover um aumento na renda dos camponeses, a racionalização do emprego das máquinas agrícolas (que foram vendidas aos Kolkhozes), o estabelecimento de gigantescas fazendas estatais nas “terras virgens” do Cazaquistão e o aumento maciço dos investimentos na agricultura.

As reformas na indústria foram mais lentas e mais hesitantes. A necessidade objetiva dessas reformas decorreu de uma crise de crescimento da economia soviética, de uma baixa da taxa de crescimento anual da produção industrial. Corresponderam ao esgotamento da elasticidade que tinha permitido o funcionamento, melhor ou pior, da industrialização extensiva - quer dizer, sem nenhum esforço de economizar ao máximo com mão-de-obra, matérias-primas e terras. O esgotamento das reservas trouxe com ele a obrigação de um cálculo mais preciso, de uma escolha mais racional entre diversos projetos de investimento. A própria expansão da economia, a multiplicação das empresas e dos seus recursos, ameaçaram fazer subir o desperdício ao infinito, caso métodos de gestão e de planificação mais racionais não fossem introduzidos.

A pressão das massas trabalhadoras, cansadas de décadas de sacrifícios e tensões, e desejosas de melhorar e diversificar o seu consumo, assim como a necessidade de aproximar as decisões - ao nível da indústria leve - destes desejos dos consumidores, agiam no mesmo sentido. Ainda um outro elemento encorajou a procura de reformas: o crescente atraso tecnológico em relação à 3ª revolução tecnológica da economia capitalista, atraso derivado de um sistema de estímulos materiais à burocracia, que desencorajou a experimentação e a inovação tecnológicas. A forma desses estímulos foi dali em diante modificada.

Ao vincular os prêmios dos diretores ao “lucro” (diferença entre o preço de custo e o de venda), que se convencionou “sintetizar”  o ótimo global da empresa, em vez da produção bruta expressa em termos físicos, os líderes burocráticos acreditaram poder desencorajar o desperdício das matérias-primas e da força de trabalho e encorajar um emprego mais racional da maquinaria. Os resultados foram modestos, embora positivos na indústria leve. Mas não modificaram em nada a natureza híbrida do sistema, visto que os preços de venda continuaram a ser fixados pelas autoridades do Plano Central.

O alcance de todas essas reformas é limitado, na medida em que não resolvem o problema fundamental. Nenhum “mecanismo econômico”, fora do controle democrático e público pela massa dos produtores e consumidores, pode chegar a um máximo de rendimentos por um mínimo de esforços. Cada reforma tende a substituir, por uma nova forma de abusos e desperdícios burocráticos, a forma anterior. Não há racionalização global possível da planificação sob o domínio da burocracia e do seu incentivo material, considerado como motor principal para a realização do plano. As reformas não restauraram o capitalismo, nem re-introduziram o lucro das empresas como guia das decisões de investimento. Mas aumentaram as contradições internas do sistema. Por um lado, acentuaram o impulso de uma fração da burocracia no sentido de uma autonomia dos diretores de fábricas, suprimindo as conquistas da classe operária, como a garantia do direito ao trabalho, e, por outro lado, a resistência dos trabalhadores às tendências ao desmantelamento dessas conquistas e da economia planificada.

7. O maoísmo

A vitória da 3ª revolução chinesa em 1949 foi a mais importante conseguida pela revolução mundial depois da vitória da revolução socialista de outubro. Quebrou o cerco capitalista à URSS, estimulou poderosamente o processo de revolução permanente na Ásia, África e América Latina e modificou sensivelmente as relações de força à escala mundial, em detrimento do imperialismo. Pôde ser obtida porque, na prática, a direção maoísta do PC chinês rompeu com a linha estalinista de “bloco das quatro classes” e de revolução por etapas, tinha dirigido um vasto levante agrário e se orientado no sentido da destruição do exército e Estado burgueses, apesar das suas proclamações favoráveis a uma coalizão com Chang Kai-Chek.

No entanto, esta revolução vitoriosa foi desde o seu início burocraticamente deformada. A ação autônoma do proletariado foi estritamente limitada, quando não contrariada, pela direção maoísta. O Estado operário estabelecido não se fundou sobre sovietes de operários e camponeses democraticamente eleitos. Propagaram-se largamente formas de gestão e de privilégios burocráticos, imitados daqueles em vigor na Rússia estalinista. Isso provocou um descontentamento crescente das massas sobretudo operárias e jovens, que Mao procurou canalizar desencadeando a “grande revolução cultural proletária” em 1964/65. Esta combinou formas autênticas de mobilização e de tomada de consciência antiburocrática de massa nas cidades, com uma tentativa da parte de Mao de depurar o aparato do PC e se desfazer dos seus adversários no seio da burocracia. Assim que as mobilizações de massas e a evolução ideológica, cada vez mais crítica por parte dos “guardas vermelhos”, ameaçou escapar do controle da fração maoísta, esta suspendeu a “revolução cultural” e restabeleceu em grande medida a unidade da burocracia reconduzindo a postos de direção a maioria dos burocratas afastados quando a revolução havia atingido o auge.

O conflito sino-soviético, provocado pela tentativa da burocracia soviética de impor um controle monolítico sobre a direção do PC chinês e de suprimir a ajuda econômica e militar à República Popular da China, como represália pela recusa de Mao de se inclinar perante tais determinações, se transformou progressivamente de um conflito interburocrático, organizativo e ideológico no seio do movimento estalinista internacional para um conflito a nível de Estado. O nacionalismo estreito da burocracia, tanto soviética como chinesa, desferiu um duro golpe nos interesses dos trabalhadores de todo o mundo e do movimento anti-imperialista, na medida em que o imperialismo foi capaz de ganhar espaços de manobra ao explorar o conflito sino-soviético.
 

No plano ideológico, o maoísmo representa uma variante da deformação estalinista do marxismo-leninismo. Enquanto o estalinismo é ao mesmo tempo o produto a expressão de uma contra-revolução política dentro de uma vitoriosa revolução proletária, o maoísmo é a expressão simultânea da vitória de uma revolução socialista e da natureza burocraticamente deformada de tal revolução desde seu início. Combina então características de uma abordagem mais flexível e eclética quanto às relações entre o aparato e as massas com o traço característico sufocar qualquer ação ou organização  independente por parte das massas, especialmente da parte das massas trabalhadoras urbanas.

 

Em particular, caracteriza-se pela incompreensão da natureza social da burocracia operária e das origens da possível degeneração burocrática de revoluções socialistas e Estados operários - dado que ela própria é a expressão ideológica de uma fração da burocracia. Ao identificar, de maneira irresponsável e não científica, “burocracia” e “burguesia de Estado” na URSS, e definindo a URSS como “social-imperialista”, o maoísmo justifica, por antecipação, todas as viragens da política estrangeira chinesa e dos grupos maoístas. Chega ao ponto de colocar no mesmo pé o imperialismo americano, a URSS, os partidos burgueses e os partidos comunistas, sem mencionar sua designação da URSS e dos PCs como o “principal inimigo dos povos” e sua proposta de uma aliança com potências imperialistas e partidos burgueses contra a União Soviética e os PCs. Estas “táticas” se fundam na teoria segundo a qual a maioria dos países capitalistas não se encontraria hoje colocada ante a tarefa da revolução social, mas apenas ante a de lutar pela independência nacional contra as “superpotências”.

 

            O caráter arbitrário de todas essas teorias, que não são mais, no fundo, do que justificações a posteriori dos movimentos diplomáticos de Pequim, tem as suas raízes numa deformação idealista e voluntarista do marxismo. Sob o pretexto de combater o “economicismo”, que seria “a mais perigosa revisão” do marxismo, os “maoístas-ortodoxos” deixam de considerar as classes sociais como realidades objetivas, determinadas pelas relações de produção que se estabelecem na em uma dada sociedade. As classes sociais são identificadas com opções ideológicas. O proletariado deixa de ser o conjunto dos assalariados; passa a ser somente aqueles que “seguem a linha de Mao Tse-Tung”. Desta maneira, correntes de ideologia burguesa ou pequeno-burguesa no seio da classe operária são identificadas com “a burguesia” ou “seus representantes”, a luta ideológica no seio do movimento operário identifica-se com “a luta de classes entre o proletariado e a burguesia”. Nisto se funda, portanto, a recusa da democracia operária, a justificação de para se usar de violência e repressão dentro do movimento operário, a rejeição de toda a tradição marxista-leninista de luta pela frente única das organizações operárias contra o inimigo de classe comum. A ditadura do proletariado é identificada com o “pensamento de Mao Tse-Tung” e exercida pelo partido “Mao Tse-Tung”. Fecha-se, assim, o ciclo.

 

            Após a declaração de guerra contra o poder da burocracia na URSS, os maoístas acabaram defendendo um regime de comando burocrático muito semelhante àquele que existe na URSS, ainda que seja completado com uma pitada de glacê chique na forma de “participação” das massas nas tomadas de decisão. Como Stalin, Kruschev ou Brejnev, o maoísmo não aceita a teoria leninista da ditadura do proletariado, baseada no exercício do poder por conselhos de operários e camponeses, livre e democraticamente eleitos.

 

* Ernest Mandel. Retirado de Introdução ao marxismo (Editora Movimento, 1982, capítulo XII, p. 83-92). Tradução de Mariano Soares. Transcrição (com leves modificações) de Pedro Barbosa.

 

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