A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Stalinismo e Bolchevismo

29/03/2019

(dezembro 2005)

Daniel Bensaïd
Tradução de Pedro Barbosa, membro da Comuna, Tendência Interna do PSOL


O seguinte ensaio de Daniel Bensaïd representa uma reavaliação crítica da bem conhecida brochura de Trótski, escrita em 1937, Stalinismo e bolchevismo [1]. Foi escrita para a revista Erre, publicada por apoiadores da Quarta Internacional na Itália.

 

https://www.marxists.org/archive/bensaid/2005/12/stal-bolsh.htm

 

A época do “heroísmo burocrático”
O oposto de uma revolução
Um Termidor burocrático
O pecado (original) do estatismo?
Uma revolução prematura?
A moral da história
Notas

 

Há uma moda atual de fontes e genealogias bíblicas: Hegel gerou Marx, que gerou Lenin, que gerou Stalin… Aqueles que são os mais eruditos voltam atrás até São Paulo ou Platão. A história real e seu tecido social desaparecem nesses conceitos auto-gerados. Então as revoltas neste mundo são “culpa de Rousseau” ou “culpa de Platão”. Então, por uma linhagem estabelecida, a ditadura stalinista é a supostamente lógica continuação e a legítima herdeira da Revolução de Outubro, sua mecânica e inelutável consequência.


Adaptado ao atual pensamento da moda pelos “historiadores” d’O Livro Negro do Comunismo [2] e por stalinistas arrependidos como Annie Kriegel ou François Furet, o refrão não é nada novo, apresentando o stalinismo como o natural e legítimo filho do bolchevismo.

 

A época do “heroísmo burocrático”

 

Em 1937, quando Trótski escreveu este texto “todos os reacionários, o próprio Stalin, os mencheviques, os anarquistas e certos doutrinadores de esquerda” alegavam que esse era o caso. Esta concepção de história linear e fatalista não reconhece nem saltos nem rupturas ou escolhas de qual caminho tomar. É simplesmente uma nova teodicéia do espírito: o germe de todos os desenvolvimentos futuros já estavam contidos na ideia inicial que governa o mundo. Então, a identificação, pura e simples, do bolchevismo, de outubro e do estado soviético recoloca o processo histórico da luta de classes em uma escala internacional como uma simples “evolução do bolchevismo no vácuo”.

 

Quando Trótski, exilado em Coyoacán, levantou esta questão, era um momento em que a escuridão estava chegando. A prevista futura guerra já estava lançando sua sombra sobre um presente obscuro [3]. Depois do segundo Julgamento de Moscou, veio o julgamento de Tukhachevsky e os generais. A Comuna de Barcelona havia acabado de ser esmagada pelos stalinistas. A notícia do assassinato de Andrés Nin havia acabado de ser confirmada.

 

Em abril, o antigo organizador do Exército Vermelho recebeu a comissão presidida pelo filósofo John Dewey, para refutar as mentiras dos julgamentos stalinistas. Ele agora estava ocupado montando o material para seu dossiê sobre os crimes de Stalin. A seu ver, esta batalha era tão importante quanto os dias de insurreição ou a guerra civil. O que estava envolvido não era nada menos do que preservar a memória que estava ameaçada ao ser apagada por mentiras e falsificações, do mesmo modo como pessoas subitamente desapareceram de fotografias oficiais [4].

 

Depois de um ano de trabalho, a comissão tornou públicos, em uma conferência de imprensa ocorrida em Nova Iorque em 14 de setembro de 1937, os resultados de sua investigação, apresentou um volume de 600 páginas. Ele descreveu os julgamentos de Moscou como “falsificações” e declarou Trótski e Sedov (seu filho) “inocentes”. Ao tomar conhecimento da notícia, gritou “Duas linhas! Mas duas linhas que terão um forte peso na biblioteca da humanidade”.

 

Podemos apreender desta reação a importância que ele então atribuía a esta batalha pela memória, porque não havia nenhuma garantia de que as falsificações não se imporiam como verdade histórica. Desde então, elas têm sido mais do que desmascaradas. Essa não é a menor das póstumas vitórias das vítimas de Stalin, dos expurgos e do Gulag.

 

O oposto de uma revolução

 

Mas, em 1937, ninguém poderia saber onde a trágica espiral iria acabar, a espiral daquelas “grandes derrotas políticas”, as quais, escreveu Trótski na primeira página de sua brochura, “inevitavelmente provocam uma reconsideração de valores” em duas direções opostas: um enriquecimento à luz da experiência ou uma regressão em direção a velhas ideias sob o pretexto de inventar “novas verdades”.


A vitória do nazismo na Alemanha, a derrota da Revolução Espanhola, o crescimento da reação burocrática na União Soviética, exigiu na metade dos anos 1930 um exame crítico da herança teórica e moral. O desdobramento do “curto século XX”, o colapso do assim chamado campo socialista, a contra-reforma liberal iniciada nos anos 1980, hoje exigem que examinemos nossas consciências ainda mais profundamente.

 

Mas este auto-exame não começa do nada. Ele pode, muito felizmente, extrair força das controvérsias e combates de ontem. Na realidade, se simbolicamente a queda do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética marcam o fim do ciclo histórico aberto pela Grande Guerra de 1914-18, e pela Revolução de Outubro, a derrota das grandes esperanças de emancipação não datam de 1989 ou 1991. Esta foi somente a segunda morte de um cadáver. Porque, há muito tempo antes, um interminável Termidor já havia devorado a revolução.


Quando tempo atrás, exatamente? Essa é toda a questão. Uma litigiosa e controversa questão. Muitos militantes comunistas sinceros tem obstinadamente negado o fato de uma contrarrevolução burocrática sob o pretexto de que eles não encontraram um evento com um “e” maiúsculo que fosse a perfeita simetria de Outubro, a clara reversão do processo do qual ele foi o ato inicial, um retorno estrito ao que existia antes.

 

Esta é, na verdade, uma busca ilusória. Mais perspicaz, o ideólogo reacionário Joseph de Maistre havia entendido, seguindo a Revolução Francesa, que a contrarrevolução não é “uma revolução na direção oposta”, mas o “oposto de uma revolução”, uma reação que é feroz, assimétrica, que avança por estágios, às vezes com pausas. É neste sentido que a analogia com o Termidor, usada pelos oposicionistas na União Soviética de 1920 adiante, foi talvez mais pertinente do que eles próprios haviam imaginado: uma reação que não é uma reversão do tempo, um retorno ao passado, mas a invenção de formas históricas imprevistas.

 

Em 1937, Trótski estava convencido de que essa contrarrevolução burocrática havia triunfado. A desastrosa política da Internacional Comunista diante da ascensão do nazismo e na Guerra Civil Espanhola foram a prova disso, e ainda mais o foi a sua incapacidade de extrair lições dessas catástrofes, diferentes dos zigue-zagues entre a linha de divisão sectária do “terceiro período” e a linha de subordinação às instituições e aliados burgueses no âmbito das frentes populares.

 

Na própria União Soviética, a coletivização forçada provocou as grandes fomes e as deportações em massa de 1932-33. A lei soviética de 1º de dezembro de 1934 havia legalizado os procedimentos de emergência do Grande Terror e do grande expurgo de 1936-38, cujo número de vítimas são estimados em 690.000. Com o esmagamento dos movimentos populares urbanos e rurais, esse terror burocrático liquidou o que havia restado da herança de Outubro, reduzindo profundamente as fileiras do partido e do exército.

 

A maioria dos líderes do período revolucionário foi deportada ou executada. Mais da metade dos 1900 delegados do Congresso dos Vencedores de 1934 foi eliminada no espaço de poucos meses. Dos 200 membros do Comitê Central do Partido Comunista da Ucrânia, só havia três sobreviventes. As prisões no exército atingiram mais de 30.000 de 178.000 quadros.


Paralelamente a isso, o aparato administrativo necessário para levar a cabo a imposição desse regime repressivo e para o funcionamento de uma economia brutalmente nacionalizada, explodiu. De acordo com os arquivos analisados pelo historiador Moshe Lewin, o número de funcionários administrativos foi no espaço de 10 anos de 1.450.000 em 1928 para 7.500.00 em 1939, e o número total de trabalhadores de escritório aumentou de 3.900.000 para 13.800.000. A burocracia então se tornou uma real, cristalizada, força social com seus próprios interesses.

 

Um Termidor burocrático

 

Nos anos de 1930, no entanto, essa análise não era fácil de aceitar para militantes comunistas que viam na União Soviética a mais forte muralha contra a ascensão do nazismo e que estavam marcados pelas duras batalhas conduzidas durante o período da linha de “classe contra classe” ou pelas heróicas façanhas das brigadas internacionais na Espanha. Diferente da social-democracia, cuja degeneração burocrática ocorreu na forma de aburguesamento parlamentar, a degeneração burocrática da Internacional Comunista foi mascarada pela retórica da “defesa da União Soviética”. Esta é a época que Isaac Deutscher de maneira pertinente definiu como a era do “heroísmo burocratizado”, à qual os relatos de Anna Larina Bukharina, de Victor Serge, de Jan Valtin, de Alexander Zimin e de muitos outros prestam um comovente testemunho.
 

Porém, cada um a seu próprio modo, autores diferentes entre si como Walter Benjamin (em suas conversações com Brecht) ou Hannah Arendt (nas Origens do Totalitarismo) descobriram o mesmo ponto de inflexão histórica. Este julgamento foi largamente confirmado por trabalhos históricos mais recentes, como os de Moshe Lewin, Eric Hobsbawn ou Pierre Broué, tirando vantagem da abertura dos arquivos soviéticos (veja particularmente O século soviético, de Moshe Lewin, 2003). No decurso da década de 1930, a sociedade soviética passou por uma profunda metamorfose sob o cnute burocrático. Nenhum país no mundo havia experimentado anteriormente tão rápida transformação, realizada pelo punho de ferro de uma burocracia autocrática.

 

A memória recente da estagnação do período Brejnev ou a senilidade de Chernenko deixam a impressão de um conservadorismo imóvel, ao passo que a burocracia ascendente era, pelo contrário, brutalmente dinâmica e empreendedora. De 1926 a 1930 as cidades cresceram em 30 milhões de habitantes. Sua população foi de 18% a 33% do total da população. Sob o primeiro plano quinquenal, a taxa de crescimento era 44%, assim como durante todo o período de 1897 a 1926. A força dos trabalhadores assalariados aumentou de 10 para 22 milhões de trabalhadores. O resultado foi uma “massiva ruralização” das cidades, que se tornaram um enorme local para a disseminação de alfabetização e educação, a imposição de disciplina de trabalho a uma marcha forçada, a exaltação do nacionalismo e a recompensa pelo carreirismo, a cristalização de um novo conformismo burocrático. Nesta grande balbúrdia, como Moshe Lewin ironicamente observa, a sociedade havia quase se tornado a famosa “sociedade sem classes”, não porque as relações de classe haviam fenecido, mas porque todas as classes estavam “disformes e em fusão”. O que estava então tomando lugar não eram as rivalidades pessoais que tanto extasiam nossa mídia hoje, não era o resultado de uma “competição entre Stalin e Trótski”, mas realmente “um antagonismo entre a burocracia e o proletariado”, um confronto “entre dois mundos, dois programas, duas moralidades”, expressas por posições estratégicas opostas sobre a Revolução Chinesa, sobre como enfrentar o fascismo, sobre a orientação da economia soviética, sobre a Guerra Civil Espanhola, sobre a guerra por vir.
 

Trótski e os oposicionistas de esquerda abundantemente usaram a analogia com o Termidor para descrever o processo da contrarrevolução burocrática. Eles desejavam, com isso, sublinhar que o Termidor não era uma restauração, um retorno ao antigo regime, mas uma contrarrevolução na revolução: o império que então resultou aparecia como uma zona cinzenta onde aspirações revolucionárias ainda estavam emaranhadas com a consolidação de uma nova ordem de dominação de classe.
 

A Memoires d’Outre-tombe, de Chateaubriand, ilustra perfeitamente a pertinência da analogia. Nós claramente encontramos em Stalin os traços característicos do novo-rico termidoriano, uma espécie mais medíocre de Napoleão. Ambos emergiram no recuo da onda revolucionária, na supressão das aspirações iniciais de emancipação, mesmo que disseminassem certos efeitos destas aspirações a despeito deles próprios: “Que Bonaparte, continuando os sucessos da República, disseminou em todos os lugares o princípio da independência, que suas vitórias ajudaram a afrouxar os laços entre pessoas e reis, a libertar tais pessoas do poder de antigos costumes e antigas ideias: que neste sentido ele perseguiu a libertação social, tudo isso eu não posso de modo algum contestar: mas que, de sua própria vontade, ele conscientemente trabalhou para a libertação política e civil de nações; que ele estabeleceu o mais estrito despotismo com a ideia de fornecer à Europa, e à França em particular, a mais ampla constituição; que ele era somente um tribuno disfarçado de tirano, isso é uma suposição que é impossível, para mim, de adotar: a revolução, que foi a fonte de Napoleão, rapidamente apareceu para ele como uma inimiga; ele a combateu incessantemente” [5]. Como ele, Stalin poderia ter dito: “Eu desconjurei o terrível espírito de novidade que estava dirigindo o mundo”.

 

Então, o Termidor não era a restauração. Mas a restauração se seguiu ao Termidor, assim como na Rússia a restauração liberal sucedeu o Termidor burocrático. Mas a restauração, aquela época sinistra onde os nomes de Robespierre, Marat, Saint-Just, não podiam ser pronunciados, só durou um tempo.

 

O pecado (original) do estatismo?

 

Em sua brochura, Trótski polemizou contra as teses anarquistas de acordo com as quais as maldades do stalinismo advinham de um vício de estatismo que fazia parte do programa marxista. É suficiente, no entanto, (re)ler a crítica de Marx e Engels aos programas de Gotha e Erfurt, ou O Estado e a Revolução, escrito rapidamente por Lenin no meio de um tormento revolucionário, para ver que o problema reside não na teoria, mas em contradições sociais bem concretas.
 

Nós realmente precisamos relembrar as pessoas que Marx conduziu uma polêmica em dois frontes, contra as ilusões na luta social que levaram os anarquistas a compreender equivocadamente a especificidade da luta política, mas também contra o socialismo estatista de Lassalle. E embora ele tenha se oposto à negação abstrata do estado e de toda autoridade de Bakunin, era para opor a isso a temática do “fenecimento” ou “extinção” do estado como um corpo separado e fetichizado, insistindo nas condições históricas de tal fenecimento. Na realidade, não era uma questão de proclamar isso, mas de atingir as condições reais para tanto: uma massiva redução do tempo de trabalho forçado, a socialização das funções administrativas, uma transformação radical da divisão social do trabalho e das relações entre cidade e campo, etc.
 

Todas estas coisas não podem ser feitas em um dia através do balançar de uma varinha mágica: tomar o poder é um ato, um evento, um momento de decisão e de verdade; é somente o meio e o início de um processo de revolução permanente. O outro aspecto da polêmica com Bakunin, que é muito frequentemente esquecido, referia-se à democracia: a rejeição de toda autoridade, incluída a autoridade de uma decisão majoritária, em nome da liberdade do indivíduo ou de ativas minorias, implica no fim das contas a rejeição de qualquer constrangimento democrático [6].
 

Quanto a Lenin, O Estado e a Revolução é um texto de um tom comunista libertário que coloca a ênfase na destruição da antiga máquina de estado e em todas as formas emergentes de auto emancipação. Trótski relembrou disso nessa perspectiva, Lenin concebeu deixar alguns territórios para os anarquistas conduzirem seus experimentos comunitários.
 

Se existia um erro teórico, ele reside antes nos excessos libertários de tal texto e em seu otimismo com relação aos ritmos do previsto fenecimento de instituições políticas e jurídicas. Certamente esta visão contava com a rápida extensão da revolução na Europa, mas ela se omitiu de pensar sobre as formas institucionais e jurídicas necessárias para o período de transição. Então, os textos básicos dos primeiros quatro congressos da Internacional Comunista ou o debate de 1921 sobre os sindicatos demonstram uma compreensão insuficiente quanto às relações entre o estado, os sovietes, os partidos e os sindicatos.
 

Enquanto indicava seu “total acordo” com os anarquistas “quanto ao objetivo final de liquidação do estado”, Trótski extraiu as lições dessa experiência, adiante enriquecida pela experiência da Guerra Civil Espanhola e da entrada dos próprios anarquistas no governo de Largo Caballero no outono de 1936: “A vitória não pode ser pensada como um único evento: ela deve ser considerada na perspectiva de uma época histórica”. De modo que, se é “absolutamente inegável” que “a dominação de um único partido serviu como o ponto de partida para o totalitário sistema stalinista (...) a razão deste desenvolvimento” não era consubstancial ao Bolchevismo, e “deduzir o stalinismo do bolchevismo é exatamente a mesma coisa que deduzir, em um sentido mais amplo, a contrarrevolução da revolução”.
 

De outro lado, a concepção de partido e de seu papel de vanguarda ainda era problemática em 1937. Trótski sublinhou então que “a proibição de outros partidos soviéticos (...) não brotou de nenhuma ‘teoria’ do bolchevismo”, mas foi uma medida de defesa de uma revolução que, ainda que “sinalizando um perigo tremendo”, foi imposta para defender a revolução em uma situação de guerra civil.
 

No entanto, o problema permanece: a vitória nesta guerra interna contra os Brancos [do Exército Branco] e seus aliados internacionais levou em 1921 à Nova Política Econômica, direcionada para colocar um país esgotado de volta sobre seus pés; não estava associada com uma abertura democrática a nível político, uma abertura que era ainda mais necessária porque “a cultura de guerra” foi a prova severa de uma brutalidade burocrática cuja questão nacional, dentre outras, se revelou para Lenin nos últimos meses de sua vida ativa [7].
 

Em 1927 a questão do multipartidarismo não apareceu na plataforma da Oposição Unificada. Em 1935, no entanto, tendo medido as consequências, Trótski transformou-a em princípio em A revolução traída e explicou as razões fundamentais para isso: “Na realidade, as classes são heterogêneas; elas são atravessadas por antagonismos internos, e chegam à solução de problemas comuns não de outra forma senão através de uma disputa interna de tendências”. Ele então rompeu claramente com a ilusão de homogeneidade das pessoas que havia persistido no movimento revolucionário desde a revolução francesa. E ele convergiu com a advertência histórica lançada em 1918 por Rosa Luxemburgo: “Sem eleições gerais, uma imprensa livre e liberdade de reunião, a livre luta de opinião, a vida em qualquer instituição pública morre, entra em vegetação, e a burocracia permanece o único elemento ativo”.
 

De todo modo suas formulações sobre o papel do partido permaneceram bastante ambíguas: “O proletariado somente pode tomar o poder através de sua vanguarda (...) A revolução e ditadura proletárias são obra de toda a classe, mas somente sob a liderança da vanguarda. Os sovietes são somente a forma organizada da ligação entre a vanguarda e a classe. Uma forma revolucionária a isso somente pode ser dada pelo partido”. Uma coisa é dizer que até então nós não vimos uma revolução vitoriosa sem a intervenção de um partido revolucionário (seja qual for seu nome: movimento, frente, etc.). Outra coisa é dizer que o proletariado somente pode chegar ao poder através de sua vanguarda, se isso significa que ele irá exercer o poder ao delegá-lo para sua vanguarda. O que está então envolvido é a substituição, coberta por uma representação organicamente adequada, do partido pela classe.

 

A probabilidade de uma tal interpretação é reforçada pela seguinte frase. Se os sovietes “são somente a forma organizada da ligação entre a vanguarda e a classe”, eles não são o órgão soberano de um novo poder que está destinado a fenecer, mas a simples mediação entre uma classe que é secundária e o partido que encarna a plenitude de sua consciência delegada. A exceção imposta pela guerra civil então arrisca seriamente se tornar a regra, em detrimento da auto emancipação.

 

Uma revolução prematura?

 

Trótski também se compromete a refutar as críticas de dois frontes: a tese menchevique (e reformista em geral) de acordo com a qual o verme estava na fruta de uma revolução prematura que estava artificialmente tentando forçar o curso da história; e a tese anarquista de acordo com a qual a degeneração burocrática adveio de um “socialismo estatista” original.

 

Para os primeiros, como para Kautsky, as condições não estavam maduras para uma revolução socialista na Rússia. Similarmente, para François Furet, impaciência e “paixão revolucionária” venceram a racionalidade histórica. E o totalitarismo burocrático foi somente a previsível punição por esse pecado original. Esta retórica sobre o evento que deve vir em seu tempo, precisamente no tempo, nem cedo nem tarde demais, pertence a uma lógica determinista do significado da história, da noção de progresso e de tempo linear.

 

A Revolução Russa estava então condenada à monstruosidade da insurreição de Outubro em diante por seu nascimento histórico “prematuro”, enquanto as “condições objetivas” para se ir além do capitalismo ainda não existiam: em vez de ter a sabedoria de eles próprios limitarem seus objetivos, os líderes bolcheviques foram o gênio maligno desse erro fatal. É como se, entre julho e outubro de 1917, enquanto a guerra continuava, o que estava envolvido era uma escolha racional quanto ao tempo histórico correto, uma escolha ponderada entre um parlamentarismo civilizado de tipo britânico e a ditadura do proletariado, e não um confronto desesperado entre revolução e contrarrevolução.

 

Moshe Lewin nos lembra, como fez Trótski em sua História da revolução russa, como os cadetes, os mencheviques, e todo o centro democrático então colapsou diante do peso de antagonismos que ninguém controlava. Toda crise oferece uma escolha. Em 1917, a bancarrota dos Kerenskys, dos Miliutovs, dos Tseretellis, desnudou o confronto entre a reação de Kornilov e a revolução bolchevique. Estes eram então os termos da alternativa. De um ponto de vista revolucionário, escreveu o grande historiador soviético Mikhail Guefter, ele próprio uma vítima da repressão stalinista, “não havia escolha”:

 

“Tendo pensado muito a respeito deste problema, eu posso me permitir uma resposta
categórica. O que foi realizado era naquele tempo a única solução oposta a uma mudança
mais sangrenta e a uma derrocada sem sentido. A escolha veio posteriormente, uma escolha
envolvendo não o regime social, não qual caminho histórico seguir, mas uma escolha dentro
deste caminho. Não havia nem leituras nem degraus diferentes que poderiam ser galgados
para se alcançar o topo, mas uma junção, uma escolha de caminhos”. [8]


Blanqui teria dito, uma bifurcação. E estas escolhas sobre qual caminho tomar são visíveis. Elas se chamam a NEP, o fim da guerra civil, a Revolução Alemã, a coletivização forçada, a luta contra o nazismo, a Revolução Chinesa, a Revolução Espanhola…


O pior, neste modo de raciocinar sobre a “história em um ritmo de caracol”, é que estes conselheiros da 25ª hora retiraram-se em sua própria covardia e sua própria passividade para acusar de excessiva pressa aqueles que aceitaram os desafios que foram impostos pela situação. Na realidade, os bolcheviques se depararam com a alternativa: ou a audácia revolucionária ou ser esmagado pela reação Branca. Mas eles situaram esta audácia dentro de um horizonte estratégico que era europeu e internacional, apostando tudo em uma rápida extensão da revolução na Alemanha e no Ocidente, sem a qual, como novamente Trótski frisou, “o bolchevismo será liquidado” e o regime soviético “deixado por si mesmo irá sucumbir ou degenerar”.


As convulsões sociais que se seguiram à guerra na Áustria, Hungria, Itália, Alemanha mostram que não se tratava de uma questão de especulações desarrazoadas, mas uma séria hipótese estratégica. Somente historiadores do fato consumado ou políticos fatalistas alegam que somente o que realmente aconteceu poderia acontecer.
 

Amputando a vida real de suas múltiplas possibilidades, eles privam a política em si de qualquer dimensão estratégica, reduzindo-a no máximo a uma tarefa pedagógica e mais frequentemente a um impotente acompanhamento administrativo do curso “natural” dos eventos, como se a história fosse um longo rio tranquilo, fluindo, com somente alguns lamentáveis atrasos, na direção do progresso inevitável. É este lullaby das filosofias da história que Walter Benjamin denunciou em suas teses Sobre o conceito de história, corretamente acusando-o de ter sido parcialmente responsável pela paralisia do proletariado alemão diante da ascensão do nazismo.
 

A coisa paradoxal, que foi devidamente notada por Trótski, sobre esta retórica da resignação, é que eles atribuem ao mesmo tempo ao partido o papel de um todo poderoso semideus: materialismo passivo e objetivista de um lado, subjetivismo e idealismo de outro.
 

O bolchevismo então se tornou a ovelha negra, culpado de toda esta tragédia histórica. Trótski sublinha ao contrário que mesmo considerando o partido como um fator muito importante na luta, de fato o fator decisivo em uma conjuntura particularmente extrema, uma revolução permanece a combinação de muitas causas e fatores. E “a conquista do poder, por mais importante que seja por si mesma, de modo algum transforma o partido em um governante soberano do processo histórico”.
 

Contrariamente ao que é frequentemente alegado, a teoria não é uma filosofia da história determinista ou teleológica. Se é utilizada para entender as lógicas que estão trabalhando e as condições nas quais o que é possível seria tanto uma revolução ou um milagre teológico, ela não reivindica poder prever o curso da história, como físicos clássicos prevêem as consequências mecânicas de uma causa inicial. Gramsci de modo muito sábio disse que nós só podemos prever a luta e não seu resultado, que é por natureza incerto. Tanto que não há revolução “no momento certo”, que chega pontualmente na hora indicada.
 

Como Engels já havia compreendido em sua análise da revolução e contrarrevolução de 1848 na Alemanha, é uma questão dialética temporal do “já não mais” e “ainda não”. Ao criticar livremente certos aspectos da revolução russa, incluindo a dissolução da Assembleia Constituinte, Rosa Luxemburgo pagou aos bolcheviques um vibrante elogio por terem “ousado”, por terem aproveitado o momento exato (o kairós dos gregos) para fazer uma escolha histórica. São aqueles que em um momento decisivo não ousaram que nós deveríamos estar chamando para se explicar. É uma moda hoje em dia fazer das revoluções responsáveis por todas as catástrofes do século XX e contabilizar suas vítimas.
 

Mas quem pode dizer qual foi o preço das revoluções fracassadas e revoluções traídas e qual foi a responsabilidade daqueles que, quando foi o tempo de arriscar, fugiram? Quem pode dizer quão custosas para a Alemanha e a Europa foram as consequências da abortada revolução de 1918-23? [9]

 

A moral da história

 

Para os moralistas que proferem suas lições ao denunciar “a ‘imoralidade’ do bolchevismo”, Trótski replicou em sua brochura de 1937 que “as qualidades morais de todo partido advêm, em última análise, dos interesses históricos que ele representa”. Mas quem determina e garante esses interesses? A tentação ao relativismo ético tem sido frequentemente interpretada como um tipo de maquiavelismo vulgar (ou utilitarismo), de acordo com o qual os fins justificam os meios. Um ano depois, estimulado por seu encontro com John Dewey, Trótski retornou à questão em sua brochura frequentemente citada, mas nem sempre lida e mal compreendida, intitulada A moral deles a nossa.

 

Na dialética dos fins e meios, Trótski está na antípoda de uma justificação teleológica: “se o fim pudesse justificar os meios nós teríamos de procurar em outro lugar os critérios para a ação: no céu se não na terra! A teoria da moral eterna não pode se fazer sem Deus. O senso de moral absoluta é somente um tímido pseudônimo de Deus. Foram os jesuítas que argumentaram que os meios em si mesmos são indiferentes e que sua justificação é determinada pelo fim perseguido. Nisto eles provaram a si próprios como superiores diante da hipocrisia da Igreja. Mas ao se tornarem burocratizados estes guerreiros da igreja se tornaram por seu turno canalhas descarados”. De outra forma, o utilitarismo de Stuart Mill justifica moralmente os meios pela busca do bem comum. Do mesmo modo, com nossos contemporâneos partidários das guerras éticas ou humanitárias, a pureza das intenções (a defesa dos direitos humanos ou a intervenção humanitária) justifica os mais duvidosos meios, o ideal ético justifica o pior terror armado.

 

O que justifica o fim?, pergunta Trótski de modo contrário. Na realidade, se a moral não advém do céu, se ela está inserida em relações sociais, “o fim também exige justificação”. O vício é inerente à separação formal entre fins e meios. O que Nietzsche chamou de “moralina” [“moraline”] burguesa ficou então presa em um impasse lógico. Diferente de leitores que estão com pressa, Dewey compreendeu muito bem os argumentos de Trótski sobre a interdependência de fins e meios e ele evitou acusá-lo de cinismo. Se o critério máximo da moralidade concreta era, como Trótski afirmou, nem mesmo o interesse do proletariado, mas o desenvolvimento universal da consciência e da cultura (do qual o proletariado era somente uma mediação particular), em outras palavras aquilo que liberta uma humanidade que é realmente humana de sua alienação religiosa e social, então todos os meios não são permitidos, mesmo a um revolucionário sem religião.

 

Mas, contestou Dewey, quando Trótski, acreditando que estava historicizando o julgamento moral e eliminando qualquer transcendência abstrata, fez da luta de classes a autoridade decisora em questões de moralidade, não estava ele transformando, contra sua própria intenção, um meio dentre outros em um fim supremo? Essa bem conduzida controvérsia foi infelizmente interrompida pela força das circunstâncias antes de Trótski ser capaz, como ele havia expressado a intenção de fazê-lo, de dar continuidade a ela.

 

A questão da moralidade, como aquela da revolução, pressupõe a questão da dialética, porque se “o stalinismo obviamente adveio do bolchevismo, ele não adveio dele por uma virtude ou lógica formal, mas dialeticamente, não como sua afirmação revolucionária, mas como sua negação termidoriana”.

 

Mais geralmente, se revoluções são seguidas de contrarrevoluções, não é porque estas estão genealogicamente engendradas, mas advêm de uma oposição antagônica irreconciliável. A ignorância da dialética ou sua transformação significativa em uma formal lógica de estado como a reação stalinista realizou, impediu a análise conjunta do evento e de suas condições, o momento revolucionário e o processo de transformação social e cultural, a necessidade histórica e a contingência política, fins e meios, história e memória, o que é real e o que é possível. É por essa razão que, como Lukács bem compreendeu, “o pensamento verdadeiramente revolucionário é impossível sem dialética”, que é a própria condição de qualquer pensamento estratégico e de uma concepção de história que não é positivista mas estratégica.

 

O que é chocante ao reler a brochura Stalinismo e bolchevismo em um contexto bastante diferente, é a continuidade dos termos da polêmica. À questão crucial que Mikhail Guefter fez novamente meio século depois, se teria havido “uma marcha contínua entre Outubro e o Gulag ou se pelo contrário era uma questão de dois distintos mundos políticos e morais”, o estudo da contrarrevolução stalinista nos fornece uma resposta clara. Antes do ponto de virada dos anos de 1930, nós ainda podemos falar de erros que poderiam ser corrigidos, de orientações alternativas situadas dentro de uma mesma perspectiva.

 

Depois disso, trata-se de uma questão de forças e projetos antagônicos que são totalmente opostos entre si. Já não é mais uma discussão familiar que pode tornar possível recuperar, a posteriori, as vítimas de ontem como testemunhas desaparecidas de uma “pluralidade comunista” ou reunir sob a mesma bandeira os “zeks” [prisioneiros dos Gulags] e seus algozes. Como Guefter de novo escreveu, uma rigorosa periodização torna possível para a consciência histórica “penetrar o campo da política”.

 

Notas

 

1. Este artigo pode ser encontrado em Writings of Leon Trotsky, 1936-37, Pathfinder Press, New York, 1970, e online no Marxist Internet Archive. [Este texto, em português-br, também pode ser encontrado em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1937/08/29.htm]


2. Originalmente publicado em francês por um coletivo de intelectuais anti-comunistas, O Livro Negro do Comunismo foi publicado em uma tradução em inglês em 1999 pela Harvard University Press.

 

3. Trótski havia acabado de escrever um longo artigo intitulado No limiar de uma Nova Guerra Mundial (Trotsky, op. cit.).


4. Como David King demonstrou em uma série de livros de fotografias. Veja particularmente O comissário desaparece, Canongate, Edinburgh, 1997.


5. René de Chateaubriand, Mémoires d’outre-tombe, Paris, Flammarion, tome 3, p. 647.


6. O que foi muito bem captado por Hal Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, vol. 4, Critique of other socialisms (Monthly Review Press).


7. Veja o diário das secretárias de Lenin e também Lenin's Last Struggle, de Moshe Lewin.


8. Mikhail Guefter, Staline est mort hier, L’homme et la société, No.2-3, 1988.


9. Veja Pierre Broué, La Révolution allemande, publicado em inglês como The German Revolution (1998), primeiro editado pela Porcupine Press, depois reeditado pela Historical Materialism books.

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