A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

A ascensão da extrema-Direita no Brasil e nossos desafios: a aposta no futuro.

  

Introdução

 

Como demonstra Enzo Traverso, no excelente livro “The New Faces of Fascism”[1], o mundo não vivia um crescimento tão grande da extrema-direita desde os anos 1930. Nos últimos anos, diversos governos radicalmente direitistas foram eleitos em países europeus – Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Itália, Polônia, Hungria e Eslováquia – e Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos em 2016. Além disso, em outros países - como a França – a extrema-direita tem se tornado cada vez mais relevante politicamente. Ao que parece, a crise econômica de 2008 – acentuando a crise civilizatória já em curso – e o colapso das políticas neoliberais ao redor do globo têm como  uma de suas muitas consequências a radicalização política: o centro parece estar implodindo aos poucos, e as alternativas mais extremadas ganham força. Com um pano de fundo marcado pelo fim da “alternativa comunista” com a queda do muro de Berlim e pela adaptação da esquerda socialdemocrata ao neoliberalismo, além da pouquíssima relevância da esquerda radical nos últimos anos, as alternativas de direita têm surgido aos olhos de diversas populações como solução contra a “velha política”, contra o “establishment”, contra “tudo o que está aí”.

 

Na medida em que a relação entre capitalismo e democracia se torna mais problemática, em um contexto de crise econômica e pressão popular, as democracias burguesas ganham novos contornos, mais autoritários. Nesse cenário, em que parece difícil não construir analogias com a ascensão do fascismo na Europa do início do século XX, estão inseridas as eleições de 2018 no Brasil, que levaram Bolsonaro ao poder. Por aqui, os 14 anos da esquerda petista no poder, muito desgastada especialmente de 2013 a 2016[2], cumpriram o papel de produzir a associação entre a “esquerda” e o “establishment”, abrindo caminho para a busca por alternativas radicalmente opostas por parte da população.

 

É claro que esse processo foi muito complexo e construído ao longo de anos. Os efeitos da crise de 2008 chegaram tardiamente no Brasil e as manifestações de 2013 trouxeram para as ruas, pela primeira vez, várias vertentes de uma direita que vinha se articulando de maneiras inovadoras e pouco conhecidas por nós. Esses setores não predominaram nas ruas - a esquerda não governista, assim como muita gente que não tinha referência política bem definida anteriormente também participou ativamente das manifestações. Mas foram as novas direitas que souberam melhor captar, a partir daquele momento, as insatisfações da população e as novas formas de mobilização, sobretudo através da internet.

 

Neste sentido, um dos desafios para compreender o momento que vivemos é entender como se deu a ascensão dessa nova direita no Brasil, suas particularidades, diferenças internas e formas de organização. Nós nos acostumamos a uma postura de ridicularizar essas vertentes políticas, sobretudo quando elas estavam mais acanhadas, ainda com pouca expressão externa e “dentro do armário”. Nesse período, em especial no auge do governo Lula, alguns jovens insatisfeitos com a política do PT ou com escândalos como o do mensalão – especialmente de classe média, com acesso à internet – começaram a se reunir em fóruns virtuais e a debater e, aos poucos, construir organizações. Esses “contra-públicos” virtuais se articularam com organizações já existentes, formaram grupos de estudos, coletivos, movimentos. Tanto movimentos liberais de juventude como o MBL (seguramente o mais agressivo deles) quanto movimentos conservadores referenciados em Olavo de Carvalho têm suas raízes organizativas em comunidades no Orkut fundadas entre os anos de 2004 e 2007. Não vale a pena aprofundar aqui nessas questões[3], mas é fundamental ter em mente a importância de compreender essa nova direita brasileira, para poder derrotá-la.

 

Em 2014, com a reeleição de uma Dilma Roussef já muito desgastada, o cenário de atuação dessa direita cresce ainda mais. 2015 e 2016 são marcados pelo avanço da operação Lava-Jato, pelo desgaste das instituições políticas e por manifestações pró-impeachment, que culminam no golpe em abril de 2016. O governo Temer veio já com o intuito de fazer um ajuste econômico e retirar direitos dos trabalhadores sem nenhum tipo de mediação, e desgastou ainda mais a ‘velha política’ aos olhos de boa parte da população mais pobre do país. Nas eleições de 2018, era nítida a força que o lulismo ainda tinha, mas com Lula – de forma ilegítima – fora do cenário eleitoral, boa parte do imaginário popular considerava todas as grandes candidaturas iguais ou tendo diferenças irrelevantes entre elas, à exceção da encabeçada por Jair Bolsonaro, que aparecia como outsider. Com seu crescimento e o fracasso iminente das candidaturas mais tradicionalmente alinhadas com o mercado e com estruturas partidárias fortes (Alckmin, Meireles), formou-se a frente entre liberais e conservadores que elegeu Bolsonaro e que hoje forma as principais bases políticas de seu governo.

 

O Estado brasileiro, ao longo de toda sua história, sempre serviu prioritariamente aos interesses das elites, e sempre foi corrupto. Essa é uma percepção bastante difundida pelo senso comum brasileiro, e ela dá caldo ideológico para a defesa da diminuição ao extremo do tamanho do Estado. A lógica é mais ou menos a seguinte: se o Estado sempre atrapalhou, porque não diminui-lo o máximo possível e ter uma lógica de cada um por si, em que o esforço e o mérito de cada um leva ao sucesso e o Estado não atrapalha cobrando impostos para oferecer serviços ineficientes. Essa forma de pensar (ou razão de mundo[4]) ideologicamente marcada pelo neoliberalismo está hoje revigorada no país, e toma parte das nossas juventudes e da classe trabalhadora. É esse o pano de fundo para o encontro entre liberais e reacionários no governo Bolsonaro, que faz com que o Brasil seja um laboratório para o resto do mundo. Enquanto nos casos europeus os partidos de extrema-direita têm problemas com o liberalismo e com as principais instituições representantes do mercado, aqui esse encontro formou uma frente vitoriosa nas eleições. Isso coloca o Brasil como uma experiência a ser observada pela esquerda e pela direita ao redor do globo. É, também, essas diferenças internas não resolvidas no âmbito dessa frente que podem gerar pontos fracos no governo Bolsonaro, como veremos adiante.  

 

Mesmo que analogias com o período fascista sejam possíveis nesse contexto de ascensão das novas direitas na Europa, nos EUA e no Brasil, não se trata de uma reedição do fascismo como o conhecemos. Na verdade, são movimentos que têm algumas referências – diretas ou indiretas – ao fascismo, mas que são fenômenos novos. Me parece que poderíamos encaixar o governo Bolsonaro – que não tem um partido forte, não tem milícias nas ruas, mas as tem virtualmente, e que não utiliza da violência de forma direta como método de governo e dominação – no conceito de pós-fascismo, cunhado por Enzo Traverso. O fato é que o movimento brasileiro tem nítidas conexões com as ideias da alt-right norte-americana, e a ascensão da extrema-direita por aqui está conectada aos fenômenos análogos que aconteceram nos últimos anos na Europa e nos EUA.

 

A Visão de Mundo que governa o Brasil.

 

Como bem argumenta Eduardo Costa Pinto[5], quando Bolsonaro afirma em seu discurso de posse querer libertar o povo “do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”, ele não está jogando palavras ao vento ou lançando uma cortina de fumaça, mas sim sintetizando a estratégia política que orienta seu governo. Compreender de forma séria essa estratégia é fundamental para derrotá-la. Vale a pena resumir os principais argumentos de Pinto antes de avançarmos numa caracterização mais completa do governo, e nas nossas prioridades diante do cenário.

 

Essas ideias, que orientam tanto o clã da família Bolsonaro – com Olavo de Carvalho como guru – quanto os militares que estão no governo, é herança intelectual dos neoconservadores norte-americanos da década de 1980, a chamada alt-right. Eles, também conhecidos como paleoconservatives, retomam a tradição conservadora dos anos 20 e 30, defendendo basicamente: pequeno governo, anticomunismo e valores tradicionais da civilização judaico-cristã[6].

 

Esses pensadores entendem que o movimento comunista se transformou ao longo dos anos, e que as principais marcas contemporâneas do socialismo são o tal “marxismo cultural” e o “politicamente correto”. Eles entendem que há uma continuidade entre todos os estudiosos do campo cultural desde Gramsci e Lukács na década de 30, passando pela Escola de Frankfurt até os movimentos de combate às opressões, que seria eivada pela busca de destruir as tradições e os valores ocidentais. Assim, o “politicamente correto” seria uma face desse “marxismo cultural”, que nada mais é do que uma estratégia dos marxistas na luta revolucionária, que muda a ênfase das questões econômicas para as culturais. Nos EUA, o movimento conservador tem dado cada vez mais importância à chamada “guerra cultural” (ou “guerra de 4ª geração, ou guerra híbrida, como formulado por Willian Lind): o multiculturalismo, o globalismo e o marxismo cultural seriam instrumentos utilizados para destruir os valores americanos, e deveriam ser combatidos. Essa perspectiva, que soa paranoica, se fortaleceu muito com a vitória de Donald Trump em 2016. Trump, por óbvio, fundamenta parte de suas crenças nessas ideias.[7]

 

No Brasil, o General Avelar Coutinho escreveu livros muito influenciados por essas ideias, e se tornou muito influente nas forças armadas nacionais, a ponto de Eduardo Costa Pinto sugerir que essas ideias se tornaram “doutrina” entre os militares brasileiros. Seus livros discutem o suposto recrudescimento da ameaça socialista no Brasil com a chegada ao poder dos socialdemocratas Fabianos, representados por Fernando Henrique Cardoso. Essa ameaça teria se ampliado com o governo Lula (com participação no Foro de São Paulo, Fórum Social Mundial e apoio do MST). Para Coutinho, FHC e Lula, articulados com seus intelectuais orgânicos, estariam promovendo uma reforma intelectual e moral na sociedade brasileira pela via do “politicamente correto”, com o intuito de disputar hegemonia na sociedade brasileira, criando condições para a transição ao socialismo. Os intelectuais orgânicos vinculados a esse projeto seriam os socialistas e comunistas infiltrados nos partidos, como FHC (vinculado ao fabianismo, conectado a George Soros, Bill Clinton, etc.) e Lula (vinculado ao Foro de São Paulo e articulado com Fidel Castro), mas também nas ONGs, universidades e escolas, meios de comunicação, manifestações artísticas e nos movimentos sociais. Para Coutinho, “os movimentos alternativos e de minorias são estimulados ou mesmo criados pelas organizações de esquerda revolucionária como componente auxiliar da luta de classes (aprofundamento das contradições internas) e como elemento ativo da ‘desconstrução’ da família tradicional e dos valores da civilização ocidental cristã”[8]. Aqui está o sentido do combate ao “marxismo cultural”, ao “politicamente correto” e à “inversão de valores” presentes no discurso de posse do Bolsonaro.

 

O governo Bolsonaro

 

O governo Bolsonaro é composto por quatro grandes grupos: o clã Bolsonaro, composto pelo Presidente e sua família, embasado fundamentalmente nas ideias apresentadas acima e orientado por Olavo de Carvalho, representa a vertente mais fortemente ideológica do governo, tendo os setores evangélicos nas suas adjacências[9]; os militares, também em boa medida orientados por essa visão, mas por conta de seu pragmatismo com algumas diferenças no que diz respeito à economia, como veremos; os ultraliberais, coordenados por Paulo Guedes, que têm como mantra a utilização do mercado para resolver todos os problemas, e preferem que as questões ideológicas não atrapalhem as tarefas econômicas; e, por fim, os lavajatistas, que têm uma pauta judicial-moral e certo respaldo da sociedade e acreditam que o combate à corrupção e a eficiência estatal resolveriam os problemas do país, sendo ideologicamente parcialmente alinhados aos bolsonaristas, mas menos radicais que estes, e economicamente parcialmente alinhados aos ultraliberais, mas menos radicais que estes.

 

Compreender esses diferentes núcleos é um passo importante para entender o que está acontecendo, e principalmente que origina o aparente caos na condução do Estado brasileiro por parte desse governo. E a primeira questão que salta aos olhos é a diferença, no âmbito do governo, sobre como conduzir as questões econômicas. Enquanto o clã Bolsonaro é ideologicamente contra a globalização (globalismo, multiculturalismo, ameaça aos valores judaico-cristãos) e desconfiado do mercado, os militares pragmaticamente acham que o mercado e a integração internacional econômica do Brasil pode resolver nossos problemas sem ameaçar nossa identidade nacional, enquanto os ultraliberais acreditam que o mercado e a abertura para o capital estrangeiro resolveriam absolutamente todos os nossos problemas.

 

Mesmo que haja uma certa convergência de três desses quatro núcleos no âmbito econômico, o fato do clã Bolsonaro ter tido uma conversão oportunista e eleitoreira ao liberalismo mas na verdade funcionar baseado nas perspectivas dos neoconservadores norte-americanos tende a gerar muitas tensões[10].

 

Na verdade, o projeto de poder da frente que venceu as eleições em 2018 é complexo e por vezes contraditório, mas há uma estratégia que o orienta: é uma estratégia de propaganda e de reformas estruturais. De um lado, capitaneado pelo clã-Bolsonaro, Olavo de Carvalho e o núcleo mais ideológico do governo, há um projeto de construir uma “contrarreforma intelectual e moral no país”, esse é o aspecto da propaganda. Partindo da análise de que a esquerda foi capaz de transformar cultural e ideologicamente o Brasil nos últimos 30 anos (com o avanço das discussões sobre opressões e com o “politicamente correto”) e de que isso ameaça os valores da civilização judaico-cristã na qual deveríamos nos espelhar, o principal objetivo deste núcleo é reverter esse processo. Isso explica a opção por manter o Ministério da Educação, primeiro com Vélez Rodriguez e depois com Abraham Weintraub, como uma trincheira nitidamente ideológica, que combate abertamente as ciências humanas, busca eliminar a referência em Paulo Freire e identifica nos “professores esquerdistas” o foco do problema da educação brasileira – o projeto Escola Sem.Partido continua vivo. Esse é um campo de atuação prioritário para essa vertente do governo, já que é justamente nas universidades e nas escolas que atuam e que são formados, na perspectiva deles, os intelectuais orgânicos do projeto esquerdista que vigoraria no país hoje[11]. Outra trincheira importante deste combate é o Ministério das Relações Exteriores, afinal de contas o alinhamento aos “países ocidentais”, especialmente os Estados Unidos, o combate ao “globalismo” e a busca pela articulação internacional desse movimento de extrema-direita são pilares fundamentais da disputa ideológica que eles estão travando no Brasil. A atuação de Ernesto Araújo, chanceler do governo Bolsonaro, é completamente orientada para o fortalecimento dessa luta ideológica, em todos os níveis. Neste sentido, o aspecto ideológico do projeto de poder do governo Bolsonaro não é uma cortina de fumaça para questões econômicas, mas sim um tema prioritário para o principal núcleo dirigente deste governo – a própria família Bolsonaro e seus agregados. Não é a toa que o principal “inimigo interno” a ser combatido, por eles, é a esquerda e os comunistas, compreendidos de forma amplíssima.

 

Por outro lado, isso não significa que o núcleo econômico não seja importante, fundamental. Do ponto de vista do clã-Bolsonaro, a adesão ao ultraliberalismo econômico foi completamente tática, como forma de fortalecer seu projeto ideológico. A frente composta com os ultraliberais liderados por Paulo Guedes foi uma forma de animar investidores e coesionar os setores mais à direita do “mercado”: é uma aliança tática da perspectiva do clã-Bolsonaro. Esses setores, dos quais Guedes é um excelente representante, são radicalmente liberais do ponto de vista econômico e não dão tanta importância para as questões culturais, desde que elas não atrapalhem as metas econômicas, as reformas estruturais. É por isso que esse tipo de ultraliberal não tem problema em alinhar-se com setores conservadores, reacionários e antidemocráticos: o ponto chave, para eles, é ter condições de implementar seu projeto econômico de eliminação dos serviços públicos, dos instrumentos de assistência social e amparo e de todo e qualquer aspecto social do Estado. O mercado seria solução para tudo, e o projeto econômico consiste em abrir caminho para isso (desmantelando os sistemas públicos). Boa parte desse projeto, diferentemente das questões mais radicais do projeto ideológico, tem apoio do establishment econômico e midiático do país, sendo a reforma da previdência o principal exemplo (já que parte do desmantelamento do Estado começou ainda durante o governo Temer).

 

Esses dois elementos – o cultural-ideológico e o econômico – são as principais faces do projeto de poder do atual governo brasileiro. Os militares flertam com elementos de ambos, mas têm uma forma de funcionar mais fiel às instituições (especialmente às próprias forças armadas) do que o clã-Bolsonaro, e são mais aderentes ao liberalismo econômico do que eles. Neste sentido, aparecem aos olhos do mercado como potencialmente mais racionais e estáveis para implementar seu projeto econômico. Isso está na raiz das tensões existentes (e crescentes) entre Bolsonaro e os militares. O embate entre Olavo de Carvalho e o clã, de um lado, e Mourão e outros militares, de outro, é a principal expressão disso. 

 

As principais tensões existentes no interior do governo são diretamente relacionadas com as contradições entre as duas faces principais do projeto. Quando Bolsonaro, ainda em campanha, sinalizou mudar a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, por exemplo, ele sinaliza para sua base ideológica, na defesa dos valores da civilização judaico-cristã. Por outro lado, com as possibilidades de boicote econômico dos países árabes, ele preocupa o eixo mais mercadológico do governo, e tem que encontrar uma solução de meio termo, que não agrada a ninguém: a manutenção da embaixada em Tel Aviv e a criação de um ‘escritório’ diplomático em Jerusalém. O caos na administração da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), órgão responsável por fazer ‘propaganda’ das empresas brasileiras no exterior, é outro exemplo nítido de embate entre os dois eixos. A intervenção de Bolsonaro nos preços do Diesel e a intervenção direta na campanha publicitária do Banco do Brasil geraram reações preocupadas dentro e fora do governo e também são exemplos dessa contradição ambulante.

 

A briga entre o clã-Bolsonaro e os militares, que teve diversos episódios protagonizados por Carlos Bolsonaro em ataque ao vice-presidente, mas que tem também Bolsonaro “fritando” o general Santos Cruz e uma cruzada constante de Olavo de Carvalho contra todos os militares no governo também pode ser colocada nessa chave. Mas ela tem um elemento a mais: a preocupação do clã-Bolsonaro com a perda de protagonismo no poder e, mais grave ainda, com a possibilidade da adesão de setores do “mercado” a uma alternativa de governo encabeçado por Hamilton Mourão. Nas discussões recentes sobre a Venezuela também fica clara a diferença em termos de pragmatismo e racionalidade da atuação dos militares e do núcleo ideológico, neste caso representado por Ernesto Araújo e pelo próprio Bolsonaro: não agrada ao mercado nem ao centro político a ideia de um envolvimento direto do Brasil na crise venezuelana, e os militares expressam muito melhor isso do que o chanceler. 

 

A ideia do clã é tentar afastar os militares do governo e criar algum tipo de relação direta de Bolsonaro com os setores de mais baixa patente do Exército. O que aparentemente é atabalhoado e repleto de confusão – por exemplo as agressões do Carlos e o apaziguamento posterior do presidente – é, na verdade, uma divisão de trabalho bem construída dentro do clã: o menos importante nacionalmente, vereador do Rio de Janeiro, constrói os ataques e mobiliza as milícias virtuais contra Mourão e os militares, dá o recado e Bolsonaro aparece com uma posição um pouco mais moderada. Tudo isso visa diminuir a influência do núcleo militar no governo, e fortalecer a autoridade do presidente. Se o mercado poderia ver uma possibilidade maior de estabilidade sob um governo dos militares, é preciso deslegitimá-los de antemão, especialmente Mourão, que não pode ser demitido por ter sido eleito vice-presidente. 

 

Em suma, apesar de todas as contradições, há um projeto e por enquanto os setores que formaram essa frente ainda acreditam na possibilidade de que ela permaneça de pé e de que todos – os ideológicos e os liberais – saiam ganhando com ela. O clã, os liberais e os militares têm estado no centro das polêmicas e da condução do país, enquanto o núcleo mais “lavajatista” tem tido um papel secundário, o que gera certa decepção do ministro Sérgio Moro e, no futuro, pode ser mais um aspecto de instabilidade. Por enquanto, a viabilidade dessa frente para implementar o projeto depende de alcançar estabilidade entre esses diferentes núcleos, e esse parece ser o principal desafio do governo Bolsonaro no momento. A oposição, por enquanto, não conseguiu apresentar-se como alternativa, e não parece ser a principal preocupação de nenhum dos núcleos que formam o governo.

 

Nossos Desafios

 

Vale a pena retomar rapidamente a reflexão com a qual iniciamos esse texto. Há um crescimento da tensão entre democracia e capitalismo a partir dos efeitos da crise de 2008, que gera uma tendência a implosão do centro político (do establishment), que abre caminho para o crescimento da extrema direita ao redor do globo. Entretanto, o mesmo fenômeno abre também espaço para o crescimento de alternativas mais radicais de esquerda. Nos Estados Unidos, a popularidade de Bernie Sanders e a quantidade de jovens que têm afirmado identificar-se com o socialismo são crescentes e parecem expressar esse fenômeno, assim como a ascensão de lideranças jovens de esquerda como a Alexandra -Ocasio-Cortez. No Reino Unido, a radicalização do Partido Trabalhista e a baixíssima adesão dos jovens ao partido conservador (nenhum parlamentar conservador teria sido eleito se as eleições fossem só entre os jovens) também apontam para esse caminho. Se estivermos corretos, da mesma forma que a crise abre perspectivas para a extrema direita, há espaço de atuação para uma esquerda mais radical.

 

No Brasil, com as características da frente de extrema-direita que assumiu o poder, podem-se abrir algumas possibilidades importantes. Essa aliança repleta de tensões entre ultraconservadores e ultraliberais não é comum no mundo, e faz do Brasil um laboratório no contexto geral de crescimento da extrema-direita. Se o principal desafio do governo neste momento é gerar uma estabilidade e buscar a construção de uma síntese entre esses polos, nós precisamos encontrar formas de acentuar essas contradições e gerar cada vez mais instabilidade no governo. Para isso, a luta contra a reforma da previdência é fundamental. A Reforma da Previdência é a principal reforma estrutural proposta pelo núcleo liberal do governo, e serve como pilar do apoio do mercado e da tolerância das corporações midiáticas com relação ao governo Bolsonaro. Além disso, ao retirar direitos dos trabalhadores e desresponsabilizar o Estado brasileiro na garantia das aposentadorias, pode criar em curto prazo condições econômicas favoráveis para a estabilização do governo e para o avanço do seu projeto ideológico. Nesse sentido, nosso principal desafio de curto prazo é compor uma frente a mais ampla possível de luta contra a reforma da previdência: essa é a única pauta que, no momento, pode fazer a oposição ter relevância no debate político brasileiro e enfraquecer o governo, tanto desgastando-o perante a opinião pública quanto minando a relação entre os núcleos que o compõem.

 

Do ponto de vista mais estratégico, é preciso incorporar a compreensão do processo que levou à ascensão de Bolsonaro ao poder. Parte importante desse processo foi composta pelas opções políticas equivocadas ao longo dos governos petistas. Os erros desse campo político – tanto do ponto de vista da moderação na busca por transformações estruturais quanto do ponto de vista da condução do processo, com corrupção, alianças políticas espúrias, etc. – criaram condições para a associação da esquerda com o status quo, com o centro político que entrou em processo de implosão a partir de 2013. Por isso, um dos principais desafios estratégicos da esquerda para o momento é atuar de forma a não cometer os mesmos erros do passado e não confundir-se com ele: precisamos nos apresentar como alternativa radical de transformação para o país, e isso passa por, a partir de um balanço crítico do último período, construir um programa a quente, de baixo para cima, e buscar a construção de uma frente e de um instrumento político que gerem condições para essa construção.

 

Por outro lado, partindo da percepção que estamos perdendo na disputa de hegemonia na sociedade, precisamos encontrar mecanismos de disputar a base mais fluida do bolsonarismo. Na classe trabalhadora e em amplos setores da juventude, o apoio a Bolsonaro nas eleições foi assustador. Com o desenrolar do governo, parte desse apoio já está se desgastando, e deve ser nossa prioridade aparecer como alternativa radical e antissistêmica para os setores que buscaram isso em Bolsonaro, e que já estão percebendo que não encontraram. Esse processo de desilusão deve se acentuar, e nosso principal desafio estratégico é demonstrar que a construção de um programa radical e a implementação de reformas estruturais populares no país é possível e necessário e urgente. Para isso, precisamos não só compreender politicamente esses setores da população (parando de simplesmente ridicularizá-los e entendendo o processo que os levou ao poder), mas também buscarmos construir, a partir do nosso acúmulo histórico e de um diálogo constante com os setores populares, um programa radical que possa ser traduzido em bandeiras populares. Nesse sentido, o bom e velho “trabalho de base” alinhado a uma perspectiva estratégica deve nos orientar. O lado de lá tem o aparelho e tem as forças militares, e como contraponto a isso nossa maioria hegemônica deve ser muito ampla: estamos muito atrasados nessa tarefa.

 

Não é momento de estarmos apenas na defensiva. É momento de uma estratégia dupla: defesa e resistência por um lado, em frente ampla, e ousadia, radicalidade e força propositiva de outro, em frente com os setores que têm a mesma compreensão da realidade que nós, partindo de um balanço crítico do ciclo anterior que vivemos. É possível disputar influência na juventude e na classe trabalhadora e se a esquerda radical não voltar a mostrar sua cara e fazer isso diretamente, ou se perderá nas ilusões com um retorno ao passado, ou continuará passando ao largo da história brasileira, vendo as camadas populares apoiarem a extrema-direita ao passo que sua vida só piora.

 

Talvez, como tem afirmado Vladmir Safatle, a obsessão deles por combater “os comunistas” não seja um olhar anacrônico para o passado, mas sim uma perspectiva para o futuro. Há condições estruturais para o crescimento da esquerda radical de uma perspectiva de luta estratégica pelo bem comum. Sem apego a um passado recente que não nos pertence – e que no limite nos trouxe até aqui - cabe a nós apostar na construção de um futuro comum.

 

**

 

O texto acima foi escrito em 6 de maio de 2019. Vale, portanto, dez dias depois, essa atualização breve: as manifestações organizadas em defesa da educação no dia 15 de maio – a partir do anúncio dos cortes orçamentários – parecem ter sido um ensaio do que pode ser a resistência nas ruas ao governo Bolsonaro. Mais de um milhão de pessoas foram às ruas Brasil à fora, e a crítica ao governo vai muito além da pauta específica da educação. Nos próximos meses, a disputa sobre os rumos do governo e do país será feita nas ruas: a nova manifestação estudantil convocada pela UNE, a greve geral de 14 de junho e as possíveis contra-manifestações puxadas pelas organizações de direita e apoiadas pelo governo serão um bom termômetro de como caminharemos nos próximos meses.

 

[1] TRAVERSO, Enzo. The New Faces of Fascism. Populism and the far right. Nova York: Verso, 2019

 

[2] MARQUES, Rosa Maria. Brasil: direita, volver. Janeiro de 2019. Disponível em < https://www.odiario.info/brasil-direita-volver/>

 

[3] ROCHA, Camila. “Menos Marx, mais Mises”: uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018). São Paulo: Repositório de Teses USP, 2019.

 

[4] DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

 

[5] COSTA Pinto, Eduardo. Bolsonaro e os quartéis: a loucura com método. Textos para Discussão 006. Rio de Janeiro: Instituto de Economia da UFRJ, 2019, pp.1.-29. No texto, além de falar das raízes teóricas da nova direita brasileira e duas influências entre os militares, o autor também discute de forma muito interessante a intenção de parte das Forçar Armadas de intervir no processo político brasileiro, especialmente entre 2017 e 2018. Essa discussão, bastante relevante, não vai entrar na reflexão construída aqui.

 

[6] Idem, p.5

 

[7] Idem, pp.6-8

 

[8] Idem, p.11

 

[9] Esses setores, politicamente, formam também um grupo próprio (inclusive com uma bancada parlamentar bem articulada) que poderia ser analisado com mais calma. De todo modo, parece que esse grupo tem atuado em sintonia com o clã Bolsonaro.

 

[10]“No entanto, o núcleo do clã Bolsonaro apresenta ideias, em algumas dimensões econômicas, contraditórias com a defesa irrestrita das políticas neoliberais, pois esses núcleo está alinhado integramente com a extrema direita americana (crítica ao politicamente correto; combate ao marxismo cultural que ataca os valores ocidentais, capitalistas e cristão; inimigo comum dos interesses do país; defesa das empresas nacionais; protecionismo para garantir o emprego nacional; crítica ao neoliberalismo econômico; etc.). Como alertou Jeffrey Tucker (2017), o coletivismo de direita americano (ideologia do clã Bolsonaro) vai numa direção oposta ao liberalismo (neoliberalismo)” (COSTA PINTO, 2019, p.27).

 

[11] O MEC, especialmente a partir da nomeação de Weintraub busca forjar um elo entre esse núcleo mais ideológico e o econômico: os cortes de verbas, que abrem caminho para a precarização e a justificação das privatização, são um sinal disso. É um dos espaços em que as duas perspectivas podem conviver relativamente bem. Outro espaço em que a convivência se retroalimenta é o do Ministério do Meio Ambiente, com Ricardo Salles a frente: o negacionismo climático e a negação da ciência como um todo (viés ideológico) alimenta e fortalece a pauta econômica de destruição de toda a legislação ambiental, defesa dos agrotóxicos e expansão da fronteira agrícola através do desmatamento.

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Please reload

acesse também

arquivo

Please reload

João Alfredo
Camila Valadão
Ailton Lopes

artigos

facebook