A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O que é ecofeminismo: as chaves para a dignidade humana e a sustentabilidade na igualdade

15/06/2019

 


Tradução Mari Luppi

Revisão a partir da versão em inglês: Tiago Moreno

30/11/2011 | Entrevista com Yayo Herrero (Ecologistas em Ação)

 

Esta entrevista foi originalmente publicada no Solidarité Switzerland com a seguinte introdução:

 

Nos países francófonos não há muita literatura sobre ecofeminismo e o pouco que existe é o ecofeminismo espiritualista. Além disso, o ecofeminismo é visto com considerável desconfiança, inclusive por setores ecologistas radicais.

 

Por um lado, esse movimento incipiente é visto como um retorno místico à terra e, por outro lado, não se compartilha a ideia de que, pelo simples fato de ser mulher, há uma relação mais direta e diferente com a natureza.

 

Para nos esclarecermos um pouco, entrevistamos Yayo Herrero, professora da Universidade Nacional de Educação à Distância em Madri e co-coordenador de Ecologistas em Ação (Espanha) - JT.

 

 

P. O que é o ecofeminismo e qual é a sua história?

 

O ecofeminismo é um vasto movimento de mulheres nascido da consciência dessa dupla submissão e da convicção de que as lutas pela ecologia e pelo feminismo contêm as chaves para a dignidade humana e para a sustentabilidade na igualdade.

 

Nos movimentos pela defesa da terra havia e há muitas mulheres. Conhecemos o papel das mulheres no movimento Chipko¹ em defesa das florestas, no movimento contra as barragens no rio Narmada, na Índia, na luta contra os resíduos tóxicos do Love Canal, na origem do movimento pela justiça ambiental nos Estados Unidos, bem como sua presença nos movimentos locais de defesa de terras comunais, na luta pelo espaço público urbano ou pela alimentação saudável. O ecologismo de muitas mulheres pobres é um ecologismo daquelas que dependem diretamente de um ambiente protegido para poder viver.

 

Em meados do século passado, o primeiro ecofeminismo discutiu as hierarquias estabelecidas pelo pensamento ocidental, revalorizando os termos da dicotomia até então depreciada: mulher e natureza. A cultura masculina desencadeou guerras genocidas, devastação e envenenamento de territórios e a instalação de governos despóticos. As primeiras ecofeministas denunciaram os efeitos da tecnociência sobre a saúde das mulheres e enfrentaram o militarismo e a degradação ambiental, compreendendo-os como manifestações da cultura sexista. Petra Kelly é uma das suas representantes.

 

Depois desse primeiro ecofeminismo, crítico da masculinidade, seguiram-se outras proposições, principalmente vindas do sul global. Essas proposições consideravam as mulheres portadoras de respeito pela vida. Eles acusaram o "mau desenvolvimento" ocidental de causar a pobreza das mulheres e das populações indígenas, que são as primeiras vítimas da destruição da natureza. Este talvez seja o ecofeminismo mais conhecido. Neste vasto movimento encontramos Vandana Shiva, Maria Mies e Ivone Guevara.

 

Superando o essencialismo dessas posições, outras ecofeministas construtivistas (Bina Agarwal, Val Plumwood) vêem na interação com o ambiente a origem dessa consciência ecológica particular das mulheres. É a divisão sexual do trabalho, a distribuição de poder e propriedade que subjugaram as mulheres e a natureza, a que todas e todos pertencemos. As dicotomias reducionistas da nossa cultura ocidental devem ser quebradas a fim de construir uma maneira mais respeitosa e mais livre de convivência.

 

O movimento feminista viu no ecofeminismo um possível perigo, dado o mau uso histórico que o patriarcado fez dos vínculos entre as mulheres e a natureza. Como o perigo existe, é necessário delimitá-lo. Não se trata de glorificar a vida doméstica como sendo essencialmente feminina,  muito menos de confinar novamente as mulheres ao espaço reprodutivo ou recusar lhes o acesso à cultura. Nem muito menos se trata de responsabilizar diretamente as mulheres pela salvação do planeta e da vida, diante da imensidão de suas tarefas. É uma questão de desmascarar a submissão, de definir responsabilidades e de responsabilizar homens e mulheres pelo trabalho de sobrevivência.

 

P. Existe um ecofeminismo anticapitalista e ele busca a convergência com outros setores sociais anti-sistema? Algum projeto emancipatório  deve integrar este conceito? Quais são os principais elementos desse ecofeminismo?

 

A concepção de trabalho, tal como existia nas sociedades pré-industriais, correspondia à ideia de uma atividade que se desenrolava de maneira contínua e que fazia parte integrante da natureza humana. No entanto, há cerca de dois séculos atrás, surgiu uma nova concepção que foi forjada a partir do mito da produção e do crescimento, que reduziu  a antiga visão ampla ao campo da produção industrial assalariada.

 

Essa redução do conceito amplo de trabalho à única esfera do emprego remunerado oculta o fato de que, para que a sociedade e o sistema socioeconômico continuem, a realização de uma longa lista de tarefas associadas à reprodução humana é essencial: cuidar das crianças, cuidar dos idosos, satisfação das necessidades básicas, promoção da saúde, apoio emocional, estímulo à participação social ... Enfim, significa uma enorme quantidade de tempo de trabalho, cuja finalidade é garantir a satisfação das necessidades humanas e o bem-estar das pessoas, e que, devido à divisão sexual do trabalho imposta pela ideologia patriarcal, recai principalmente sobre as mulheres dentro de casa.

 

Os economistas clássicos, mesmo que não admitissem que há algum valor econômico nesse esforço, pelo menos reconheciam a importância do trabalho doméstico familiar e definiam os salários como o custo histórico da reprodução da classe trabalhadora. Eles tendiam a reconhecer o valor do trabalho doméstico, sem, contudo, incorporá-lo aos quadros analíticos da ciência econômica.

 

Essa contradição desaparece quase completamente com a economia neoclássica, que institucionaliza definitivamente a separação entre o espaço público e o privado, entre a produção de mercadorias e a produção doméstica, marginalizando e ocultando a segunda. É essa segregação de papéis que permitiu aos homens se dedicarem ao trabalho assalariado em tempo integral sem as restrições que são envolvidas nas tarefas relacionadas ao cuidado dos membros da família e à manutenção das condições de higiene no lar. Assim, impõe-se uma definição da economia que não se preocupa com a divisão sexual do trabalho e não reconhece o papel crucial do trabalho doméstico na reprodução do sistema capitalista.

 

No entanto, embora o trabalho de cuidado seja frequentemente considerado em separado do ambiente produtivo, ele garante a produção de uma “matéria-prima” essencial para o processo econômico convencional: a força de trabalho.

 

O sistema capitalista é incapaz, no quadro de suas próprias relações de produção, de reproduzir a força de trabalho de que necessita. A reprodução diária, mas especialmente geracional, requer uma enorme quantidade de tempo e energia que o sistema seria incapaz de remunerar. Os processos de educação, socialização e cuidado com idosas e idosos são complexos e implicam afeto e emoções que permitem que todos se desenvolvam sob  determinada condição de segurança.

 

O pensamento ecofeminista anticapitalista defende a ideia de que o sistema socioeconômico tem a forma de um iceberg. O mercado é a parte flutuante e visível dele. Sob a superfície, com uma massa muito maior, existe o trabalho de manutenção da vida. Essas duas partes do iceberg são bem diferenciadas. O principal é dissimulado, escondido da vista, mas ambos constituem uma unidade indivisível. O bloco do trabalho assalariado e da economia convencional repousa e é apoiado pelo gelo submerso do trabalho doméstico e pela regeneração dos sistemas naturais. A invisibilidade da esfera centrada na satisfação das necessidades básicas e do bem-estar, que absorve as tensões, é essencial para manter o sistema flutuando.

 

Podemos dizer que existe uma grande contradição entre o processo de reprodução natural e social e o processo de acumulação de capital. Se a reprodução social e a manutenção da vida fossem o aspecto dominante da economia, a atividade seria direcionada para a produção direta de valores de uso e não para o valor de troca, e o bem-estar seria um fim em si mesmo.

 

Priorizar as duas lógicas ao mesmo tempo é impossível. Portanto, é necessário escolher uma delas. Como o mercado não tem como objetivo principal a satisfação das necessidades humanas, não faz sentido transformá-lo no centro privilegiado da organização social.

 

A obtenção de lucros e o crescimento econômico não devem mais condicionar a distribuição do tempo, a organização do espaço e as diferentes atividades humanas. Para construir sociedades baseadas no bem-estar, é necessário articulá-las em torno da reprodução social e da satisfação das necessidades, sem menosprezar a importância da base biofísica que permite a existência de nossa espécie.

 

As concepções econômicas heterodoxas têm muito a contribuir em um momento em que a ciência econômica está sendo reconfigurada. A economia ecológica mostra-nos que boa parte da atividade econômica é prejudicial à vida, que consome quantidades significativas de recursos, sem gerar bem-estar e até criando miséria. A economia feminista inverte a categoria de trabalho e coloca no centro das coisas a atividade historicamente desprezada e subestimada das mulheres, atividade que, no entanto, é a base da vida cotidiana. Com outros setores da economia crítica, essas diferentes concepções e abordagens são essenciais para a construção de um novo modelo.

 

Reconhecer-nos como seres vulneráveis ​​que exigem a atenção de outras pessoas durante nosso ciclo de vida permite redefinir e complementar o conceito de conflito entre capital e trabalho e afirmar que esse conflito vai além da tensão entre capital e trabalho assalariado e reflete uma tensão entre capital e todo trabalho, aquilo que é pago e aquilo que é realizado gratuitamente.

 

Lembremos também que, sob uma perspectiva ecológica, a contradição fundamental que existe entre o atual metabolismo econômico e a durabilidade da biosfera traz uma importante sinergia entre as concepções ecologista e feminista. A perspectiva ecológica demonstra a impossibilidade física de uma sociedade centrada no crescimento. O feminismo torna este conflito palpável em nosso cotidiano e denuncia a lógica da acumulação e do crescimento como sendo uma lógica patriarcal e androcêntrica. A tensão insolúvel e radical (na raiz) existente entre o sistema econômico capitalista e a sustentabilidade da vida humana demonstra, na realidade, uma oposição essencial entre capital e vida.

 

Colocar a satisfação das necessidades básicas e do bem-estar em condições de igualdade como objetivo da sociedade e do processo econômico representa uma importante mudança de perspectivas. Situa a satisfação das necessidades que possibilitam ao indivíduo crescer, se desenvolver e viver com dignidade, assim como o trabalho e a produção socialmente necessários para isso, como eixo estruturante da sociedade e, consequentemente, das análises. Nessa nova perspectiva, as mulheres não são seres secundários, nem dependentes, mas seres ativos, atrizes de sua própria história, que criam culturas e valores de trabalho diferentes dos modelos capitalista e patriarcal.

 

  1. Nota da tradutora: O movimento Chipko, ou Chipko Andolan, foi um movimento de conservação florestal na Índia. Começou em 1970 na vila de Reni, no distrito de Chamoli, Uttarakhand, e tornou-se um marco para muitos movimentos ambientais em todo o mundo. Seu sucesso e suas características - protagonismo feminino e uso da não violência  - inspirou muitos grupos ecológicos similares.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Please reload

acesse também

arquivo

Please reload

João Alfredo
Camila Valadão
Ailton Lopes

artigos

facebook