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“Social-democracia e movimentos sociais”

20/07/2019

 Uma entrevista com Ernest Mandel

 

De: “Tese onze” [“Thesis Eleven”], N. 7, 1983, p. 159 – 162. Agradecimentos para Joseph Auciello.

 

http://www.ernestmandel.org/en/debat/txt/socialdemocracy.htm

 

Tradução para o português de Mauro Vinicius. Revisão de Pedro Barbosa.

 

(entrevistado por Steve Warne da 3RRR e Peter Beilharz, em 2 de abril de 1983, Melbourne)

 

 Pergunta: Acabamos de ter a eleição de um governo trabalhista na Austrália, uma vitória esmagadora que não ocorria há três ou quatro décadas. Também vimos a eleição de governos socialistas na França, Espanha e Grécia e o correspondente declínio dos Partidos Comunistas nesses países. Simultaneamente, o Partido Trabalhista Britânico parece estar se desmembrando diante da própria questão de saber se pode ou deve apresentar uma alternativa "revolucionária". O que esses desenvolvimentos significam para a política socialista e a tradição revolucionária? Essas tendências dão base para uma visão otimista, à medida em que o consenso amplo se move para a esquerda, ou esses desenvolvimentos representam um obstáculo para a política socialista?

 

 

Mandel: O mínimo que se pode dizer é que essas tendências são contraditórias. Deixaria de lado a questão do otimismo e do pessimismo. Qual é o significado desses votos? Eles são a primeira forma de reação de classe contra a ofensiva de austeridade dos empregadores, do estado burguês e dos governos conservadores anteriores. Isso não é nada surpreendente. Se você sistematicamente tirar dinheiro do bolso dos pobres para colocá-lo nos portfólios dos ricos, e mantiver o sufrágio universal, um dia o povo vai apresentar a conta. Isso parece tão óbvio que é difícil acreditar que os astutos políticos burgueses não conseguiram prever isso. Tivemos uma eleição, um recorde mundial: nas Ilhas Maurício, onde, sob um governo conservador e com um controle conservador completo da mídia de massa, você teve uma eleição geral no ano passado em que 100% dos parlamentares foram de esquerda, nem um único parlamentar de direita foi eleito. É claro que é um país pobre: ​​o declínio nos salários reais significa um declínio em relação à fome, no sentido literal da palavra. Se você mantiver a democracia parlamentar nessas circunstâncias, a reação é inevitável.

 

Qual é a contradição? A contradição é que as pessoas votaram contra a austeridade ou, digamos, por menos austeridade, mas não vão consegui-lo com esses governos social-democratas. Os governos social-democratas vão aplicar políticas de austeridade. Eu não quero fazer previsões para a Austrália; eu não quero me envolver na política australiana, mas na França é óbvio, na Espanha é óbvio, nas Ilhas Maurício é óbvio. Esses governos, na medida em que não estão prontos para romper com a lógica da economia capitalista, especialmente com sua integração à economia capitalista internacional, vão absolutamente repetir as políticas de austeridade da direita. Então aí está a contradição. Se você coloca a questão da revolução de um ponto de vista ideológico, você a coloca de uma forma insolúvel. Revoluções que ocorrem na vida real não saem do reino da ideologia, elas saem do campo das tensões sociais agudas e exacerbadas, dos conflitos sociais. 

 

Os revolucionários desempenham, então, um papel de liderança se forem inteligentes o suficiente e não cometerem muitos erros, e se a correlação de forças não for muito desfavorável para eles, mas isso não tem nada a ver com a origem da revolução. Essa questão colocada dessa maneira não pode ser resolvida, porque ninguém é um profeta e pode dizer até irão as massas em sua reação explosiva nos próximos dez anos contra essas políticas de austeridade, mas o que se pode prever com absoluta certeza é que você não pode se livrar das políticas de austeridade sem tentar romper com o capitalismo. Se isso é feito de maneira revolucionária ou não-revolucionária, é outra história. Qualquer política econômica hoje que queira defender genuinamente o padrão de vida, os salários reais, o pleno emprego, as vantagens da seguridade social que a classe trabalhadora conquistou durante os vinte anos anteriores tem que romper com a lógica do lucro e com a lógica da economia capitalista internacional. Se você permanecer dentro dessa lógica, aplicará políticas de austeridade. Você não pode defender o pleno emprego, os salários reais e as vantagens da seguridade social da classe trabalhadora, aceitando a lógica do lucro capitalista. É impossível. 

 

Para colocar de uma forma ainda mais desagradável, eu diria que a política do consenso, o “Butskelismo”, como era chamado na Inglaterra durante o período de prosperidade, tem continuado no período de recessão, mas, claro, com um conteúdo completamente diferente. Sob o período de prosperidade, isso significava que os conservadores estavam prontos para conceder algumas reformas aos trabalhadores, a fim de manter o sistema estável. Sob recessão, crise, isso significa que os social-democratas estão aceitando cortes nos padrões de vida dos trabalhadores sob o pretexto de não romper com a economia internacional, como eles a chamam ⎼ o que eles realmente querem dizer é a economia capitalista em escala internacional. 

 

Mas há uma séria limitação nessa tese. Tudo o que você perguntou e tudo o que eu disse até agora se aplica à liderança oficial desses partidos e desses sindicatos. O que vai acontecer dentro desses partidos e dentro desses sindicatos é uma questão completamente diferente. Lá, a recessão e ofensiva de austeridade dos empregadores e do estado está tendo o efeito de um processo de diferenciação, esclarecimento, e dizemos que há toda uma reestruturação que começou dentro do movimento operário organizado da Europa Ocidental. Está saindo dos limites da Europa Ocidental agora; está vindo para a América do Norte. Isso provavelmente acontecerá no Japão e na Austrália também; em todos os países imperialistas e até mesmo nos países dependentes mais industrializados, como o Brasil, onde isso também começou; Argentina, México e outros. Partes do movimento organizado da classe trabalhadora não aceitarão políticas de austeridade. Disso tenho certeza.

 

Não tenho tanta certeza se na Grã-Bretanha ele experimentará a sua maior extensão, porque, em última análise, esse processo de polarização não é, repito, um processo ideológico, é um processo social, por isso será mais forte nos países onde o maior número de trabalhadores estiver envolvido nas lutas reais. Infelizmente, na Grã-Bretanha, tivemos um período de declínio das lutas operárias e derrotas das lutas operárias, e não é por acaso que a ala direita do Partido Trabalhista abriu sua ofensiva contra a [ala] esquerda em tal período, porque esse é o único período em que eles têm uma chance de sucesso. Eu preferiria olhar para países como a França, meu próprio país ⎼ Bélgica ⎼, Itália, Portugal, Espanha, os países com as tradições militantes de luta dos trabalhadores nos próximos anos, e podemos até ter algumas surpresas no Canadá e nos Estados Unidos.

 

Pergunta: Qual é a relação entre os movimentos sociais e a política socialista hoje? Como você vê os movimentos sociais que agora parecem dominar a política radical ocidental?

 

Mandel:  Os movimentos sociais, em geral, são progressistas enquanto movimentos de pauta única, no sentido de que levantam questões genuínas de emancipação para a classe trabalhadora e para a humanidade em geral. Eles objetivamente desafiam princípios básicos e pilares básicos da sociedade burguesa. Há movimentos de pauta única por causa da ausência do movimento operário tradicional. Em um quadro social normal, digamos, na situação como a que tivemos antes da Primeira Guerra Mundial na Europa, nos anos 20 em alguns países europeus como a Alemanha, no começo dos anos 20 na Itália e mais tarde na Espanha, teria sido o movimento operário organizado que teria assumido essas pautas, que teria se mobilizado massivamente pela a libertação das mulheres, contra o impulso da guerra, e assim por diante. É o enfraquecimento do movimento operário que deixou o vazio que foi então preenchido por esses movimentos sociais. A fraqueza dos movimentos sociais não está em sua dinâmica de questão única ⎼ que é positiva ⎼, sua fraqueza está em sua incapacidade de integrar os objetivos progressistas concretos pelos quais geralmente lutam em uma solução social global.

 

Você pode lutar contra a guerra, mas não pode fechar os olhos para a ofensiva geral da direita contra as liberdades democráticas. Você pode lutar pelo direito de legalizar o aborto pago pela seguridade social, mas não pode fechar os olhos para o estado policial em expansão. Quando setores do movimento de libertação das mulheres levantam, por exemplo, a questão do aumento das penas contra os estupradores, aumento das penas pelo Estado burguês, e se dirigem às cortes burguesas, dizemos: “Vocês estão erradas, sua causa é justa, entendemos seu problema, mas você deve entender que quanto mais poder você der para o Judiciário e para a polícia neste momento e nesta sociedade, mais vocês serão oprimidas ⎼ isso para não falar sobre outros setores da sociedade”. Estamos no começo de um impulso em direção a um estado forte, um estado autoritário, e se você fortalecer a polícia e o judiciário, vai na direção oposta àquela de que precisa. Você tem que lutar contra o Judiciário; você tem que lutar contra a polícia; você tem que lutar contra o fortalecimento do estado burguês e não tentar fortalecê-lo. Essa é a fraqueza desses movimentos sociais: eles não têm uma visão geral da crise social, e não dão uma solução geral, e isso é extremamente perigoso para eles, porque isso lhes dá uma posição ambígua na sociedade, na qual combinam motivações de esquerda e de direita dentre as pessoas que se juntam a eles.

 

Em alguns países, é claro, isso não é acidental, mas em alguns países ⎼ França, Alemanha e Áustria ⎼ você tem pessoas genuinamente de direita nesses movimentos. Na Alemanha, descobriu-se que um dos deputados eleitos pelo Partido Verde, que faria o discurso inaugural na abertura do parlamento, é um ex-nazista, um ex-líder da SA ["Tropas de Assalto" ⎼ milícia paramilitar]. Isso não é para dizer que o Partido Verde é influenciado pelo fascismo. Isso é estúpido, claro. Os Verdes se comportaram corretamente; eles imediatamente o removeram quando descobriram isso. Eles têm uma regra muito boa, que é uma regra de origem marxista, de origem leninista: que os eleitos podem ser removidos a qualquer momento. Isso é muito positivo, mas o fato de que ele pôde passar pela triagem e ainda subir para aquela posição teria sido impensável em qualquer partido de esquerda. Isso mostra que a triagem não foi feita de uma maneira muito profunda e que eles não estavam particularmente preocupados com a questão do neofascismo.

 

Pergunta:  Como você explicaria o fenômeno e o sucesso dos Verdes: eles representam uma entidade mais eficaz para a política radical do que os partidos tradicionais?

 

Mandel: Eu colocaria a questão de outro modo. Eu diria que os sucessos eleitorais e os sucessos na mobilização de massas em certos países são o reflexo da tendência mais geral de forças independentes dos partidos tradicionais da classe trabalhadora ganhando qualitativamente mais peso na vida política nesses países do que antes. Na França, na Itália e em Portugal, eu diria que a esquerda revolucionária organizada tem praticamente o mesmo peso eleitoral ou um peso eleitoral muito semelhante ao dos Verdes na Alemanha e em alguns outros países. E eu diria que a participação de parte da ala esquerda do movimento sindical e dos revolucionários nas mobilizações anti-guerra na Grã-Bretanha, na Itália, é pelo menos tão grande, senão maior, que a dos Verdes na Alemanha. Nos movimentos pela jornada de 35 horas semanais contra a austeridade, a ala esquerda do movimento operário tem um peso qualitativamente maior que o dos Verdes; então é um quadro mais complexo. Eu diria que, se há um elemento de inteligência política, de táticas políticas corretas, hoje em praticamente todos os países europeus ele está com as forças de esquerda (não necessariamente revolucionárias, você poderia chamá-las de centristas ou reformistas de esquerda) que representam potencialmente mais de 5% do voto popular e em alguns países 10%. Na Dinamarca, por exemplo, um país pouco conhecido e bastante moderado que não está na vanguarda da luta revolucionária, nas últimas eleições gerais os dois partidos socialistas de esquerda que estão muito à esquerda do Partido Comunista, para não falar do Partido Social-Democrata , obtiveram 10% do voto popular.

 

Esse é o potencial hoje na maioria dos países europeus. O fato de não ter se realizado em cada um deles tem algo a ver com erros nas táticas ou apenas falta de inteligência política de algumas das correntes que desempenham um papel de liderança na esquerda, mas o potencial está lá. Os Verdes Alemães são apenas uma expressão desse potencial que é muito maior. Não tem nada a ver com os Verdes enquanto tais; eles apenas ocupam um vazio, porque na Alemanha, por razões históricas, as organizações de esquerda revolucionárias eram muito mais fracas do que na França, na Grã-Bretanha, na Escandinávia ou na Itália. Ok ⎼ eles ocupam esse vazio. Em outros países, outras forças ocupam esse mesmo espaço.

 

Pergunta: Que efeitos esses desenvolvimentos na política radical têm sobre o status da teoria marxista? Como o marxismo precisa ser desenvolvido e/ou complementado por teorias radicais que focam em formas de dominação que não são de classe?

 

Mandel: Para lhe dar uma resposta completa levaria muito mais tempo do que o que resta aqui. Só para levantar um argumento histórico: quase cem anos atrás era evidente para as então lideranças marxistas, os marxistas de esquerda do Partido Social-Democrata Alemão, Lenin na Social-Democracia russa, que não se pode lutar por uma sociedade sem classes ⎼ é disso que se trata o socialismo e o marxismo; não é uma teoria sobre classe, é uma luta por uma sociedade sem classes ⎼ não se pode lutar por uma sociedade sem classes sem lutar contra qualquer forma de exploração e opressão. Lenin enfatizou essa questão vinte vezes em seus escritos básicos, especialmente em “Que fazer?”. Kautsky, Bebel, Engels, sublinharam essa questão vinte vezes (para não falar de Rosa Luxemburgo) em seus escritos da década de 1890 e do início do século XX. 

 

O que temos aqui não é uma negligência do marxismo, nem o marxismo como um sistema teórico, nem o marxismo como um guia para a prática. O que temos é uma negligência de organizações operárias burocratizadas, ou da liderança burocrática dessas organizações operárias, que abriram mão de elementos básicos da teoria e prática marxistas por razões básicas de colaboração de classes. Só para dar um exemplo: o exemplo do chauvinismo, do nacionalismo na época imperialista. O movimento marxista tradicional se manteve com o slogan, que não era apenas um slogan, mas uma das suas posições programáticas básicas, Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos! Então veio o 4 de agosto de 1914, e como Rosa Luxemburgo disse, esta posição programática foi substituída por outra: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos em tempos de paz e cortem-se as gargantas uns dos outros em tempo de guerra. Quando isso acontece, é claro, um movimento pacifista independente surgirá. A questão da guerra e da paz é tão importante para tantas pessoas no mundo que quando o movimento operário não desempenha seu papel como deveria ter feito e como fez por décadas, outras forças virão à vanguarda que acabará eventualmente sendo reintegrada em formas mais ou menos radicais do movimento operário (o que depende das circunstâncias e da correlação de forças). A mesma coisa que aconteceu com esta questão aconteceu em muitas outras áreas. Esta não é uma negligência do marxismo; não é uma deficiência da teoria; é uma negligência de organizações concretas que mudaram ao menos parcialmente suas funções de classe.

 

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