A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O que é processo feminista?

28/07/2019

Publicado por Solidarity-USA.

Original de 20 de fevereiro de 2008.

 

Tradução: Mari Luppi

 

O processo feminista emergiu como um conjunto de práticas em grupos exclusivos de mulheres, onde elas começaram a reconhecer que a dinâmica pessoal de poder estava presente mesmo quando os homens estavam ausentes. Com o tempo, essas idéias se espalharam para outros movimentos, enquanto as feministas tomaram emprestado idéias de outras tradições políticas, como o movimento de educação popular na América Latina (ver, por exemplo, como bell hooks usa Paulo Freire em “Ensinar a Transgredir”) e  os movimentos pacíficos/não-violentos de influência Quaker (especialmente, tomada de decisão por consenso).

 

As ideias feministas sobre o processo e a cultura organizacional foram ainda mais enriquecidas quando as mulheres de cor [1] desafiaram as feministas brancas a confrontar seu racismo não examinado. As feministas contribuíram e tomaram emprestado as intuições desenvolvidas pelos projetos de conscientização que confrontam a supremacia branca e pelos treinamentos sobre como trabalhar com as diferenças raciais.

 

As práticas advindas dessa história não são difíceis ou complexas de descrever, mas exigem esforço para aprender e aplicar. Isto é porque elas são, em alguns aspectos, muito diferentes dos modos de interação que essa sociedade valoriza e porque requerem um tipo de auto-percepção e autoconsciência que não é ensinada nem encorajada na sociedade ou em muitas de nossas organizações políticas. Essas normas de interação dentro de uma organização podem começar parecendo estereotipadas, muito formais e não genuínas. Mas com o tempo, à medida que as pessoas passam a agir com referência nelas, como qualquer outra prática social, elas passam a ser mais naturais e pessoais.

 

O tipo de auto-percepção e autoconsciência que o processo feminista e anti-racista exige diz respeito a pensar e sentir. Muitas pessoas da esquerda consideram qualquer atenção a sentimentos como algo “apolítico”, uma distração do trabalho real. Como a frase feminista “o pessoal é político” sintetiza, no entanto, a realidade é que as relações de poder institucionalizadas da sociedade moldam nossas interações mais pessoais. As feministas desafiaram a oposição dualista entre público/privado e intelecto/emoção. Os sentimentos estão sempre lá e os trazemos para qualquer interação social. Quanto mais estamos conscientes dos nossos sentimentos e dos sentimentos dos outros, mais capazes somos de ter um intercâmbio intelectual produtivo.

 

Primeiro, as pessoas privilegiadas [2] têm que perceber e reconhecer as muitas maneiras pelas quais o privilégio branco, o privilégio da classe média, o privilégio heterossexual, o privilégio masculino, a normatividade de gênero, etc. operam. Isso, claro, é complicado porque quase todos se encontram, de uma forma ou de outra, tanto no "lado positivo" quanto no lado "negativo" dessas relações. Em segundo lugar, somos chamados a reconhecer e lidar com as consequências emocionais de reconhecer privilégios e experienciar opressão. A esquerda, por causa da persistência da cultura masculinista que definiu a maior parte de sua história, é particularmente resistente nesse segundo ponto.

 

Vamos aceitar algumas generalidades grosseiras por um minuto para definir uma cultura "masculinista" dentro da sociedade capitalista. Embora mediada por raça e classe, uma cultura masculinista desencoraja a expressão de sentimentos fortes além da raiva e da hostilidade; valoriza mais o esforço competitivo do que o cuidado com os outros; e define a potência masculina como a capacidade de vencer em lutas com outros homens.

 

As mulheres, é claro, são perfeitamente capazes de se adaptar a esses valores e se comportar de acordo com seus termos; então não estamos falando aqui de homens sozinhos. Além disso, muitos homens encontram-se em desacordo com a cultura masculinista. Além disso, a cultura feminina tem suas próprias distorções únicas e, de certa forma, complementares; então não estamos falando de algum tipo de superioridade feminina. De fato, a própria história das organizações de mulheres demonstra muito bem que elas também estão sujeitas ao jogo não-reconhecido de poder, privilégio e agressão; conflitos não resolvidos e perniciosos; e falhas de empatia.

 

Processo feminista e o estabelecimento de normas

 

O processo feminista, então, é uma tentativa de identificar um conjunto de normas que podem ser usadas em qualquer organização, independentemente de sua composição de gênero. O processo feminista válida e coloca em foco os alicerces emocionais de nossos relacionamentos intelectuais e políticos.

O objetivo do processo feminista é abrir mais espaço para a participação e criar um ambiente onde a pessoa menos confiante entre nós sente que é seguro falar.

 

Camaradas expressaram duas preocupações principais sobre o processo feminista. Uma é que a organização se tornará muito personalista, ou muito focada internamente, que gastaremos muito tempo em “olhar umbigo” na tentativa de “aperfeiçoar” nossos relacionamentos uns com os outros. Embora essa seja uma preocupação razoável, achamos que nossa organização está tão longe de tais resultados que a probabilidade de ser despolitizada é mínima. Além disso, poderíamos argumentar que, a longo prazo, o Solidarity será muito mais eficaz politicamente como uma organização se pudermos desenvolver normas sociais que nos permitam abordar bem nossos conflitos interpessoais, em vez de deixar que raiva, mágoa e frustração se transformem em sarcasmo, culpabilização, observações sarcásticas e formação de claques.

 

Outra preocupação expressa é que as normas sociais não são apenas de gênero, mas também ligadas a culturas de classe e racial/étnica; portanto, ao criar novas normas sociais, estaremos inadvertidamente impondo normas da cultura dominante, branca e de classe média. Mais uma vez, essa é uma preocupação razoável. No entanto, as normas sociais sugeridas pelo processo feminista e pelo diálogo anti-racista foram adotadas com sucesso e usadas por pessoas de muitas raças e etnias diferentes. Eles também provaram ser uma base particularmente bem sucedida para a criação e manutenção de organizações multi-raciais. Essas experiências sugerem que essas normas não são tanto um reflexo da cultura de classe média branca, como fazem parte da cultura política contemporânea de grupos feministas anti-racistas e anarco/socialistas/radicais.

 

Um exemplo: Normas de como nos falamos

 

O que abraçar o processo feminista significa em termos concretos? Um exemplo importante é como nós falamos, incluindo como interagimos um-a-um, e em reuniões de regionais, de direções, em conferências e outros órgãos [3].

 

Nosso objetivo é alcançar um diálogo respeitoso, onde cada pessoa se sinta afirmada no valor de suas idéias e de suas contribuições para o grupo. Isso significa que temos que falar de certas maneiras e temos que ouvir/escutar de certas maneiras. O diálogo respeitoso exige que, mesmo que não concordemos com uma idéia ou um comportamento, tenhamos o cuidado de não falar de uma maneira que humilhe a outra pessoa ou suas idéias. O diálogo respeitoso exige que nos envolvamos em uma escuta ativa - uma técnica que nos ajuda a ser menos defensivos ao responder a críticas ou discordâncias.

 

O diálogo respeitoso é especialmente importante para modular o impacto de emoções fortes que muitas vezes experimentamos em torno de conflitos - conflitos sobre ideias ou conflitos sobre o comportamento de alguém. Mesmo sem um conflito agudo, no entanto, as identidades, o senso de valor e de “eu” das pessoas, muitas vezes, estão vinculadas a suas ideias. Portanto, devemos estar conscientes de nossa responsabilidade de nos apoiarmos mutuamente e de nos engajarmos em discussões que sempre reconheçam o valor dos pontos de vista uns dos outros.

 

Devemos esperar que nossa liderança (membros da direção central e local, setoriais, executivas, etc.) [4] sejam exemplares no estabelecimento de um diálogo respeitoso. Isso inclui adequação a certas normas, incluindo, mas não limitadas às seguintes:

 

Ouça ativamente

 

Uma escuta ativa e próxima exige que nos concentremos na pessoa que fala, e não no que poderíamos dizer, e reservarmos o julgamento até que a pessoa termine de falar e tenhamos certeza de que entendemos o seu ponto de vista.

Nas discussões em grupo, a escuta ativa requer minimamente:

  • Nenhuma conversa paralela ou troca de bilhetes

  • Linguagem corporal que indica atenção de suporte (por exemplo, contato visual com o falante)

  • Nenhuma linguagem corporal que ridicularize (suspirar, revirar os olhos, resmungar em voz baixa, fazer comentários descartáveis ​​após o falante ter terminado).

 

Respeite as pessoas escolhidas para facilitar a discussão.

 

A menos que a facilitadora peça sua contribuição, permita que ela faça seu trabalho. Não interrompa, chame ou prejudique sua autoridade. As facilitadoras devem checar regularmente o grupo. Isso permite um espaço onde aqueles/a que queiram sugerir um debate diferente possam fazer essa sugestão.

 

Dê tempo suficiente para uma discussão aprofundada.

 

Ao planejar reuniões, perceba que uma discussão realmente boa levará muito tempo. É melhor ter menos discussões em que mais pessoas possam participar. Ter tempo suficiente também ajuda a diminuir o tom emotivo, porque as pessoas têm menos probabilidade de ficar frustradas. Invista em facilitação. Identifique metas claras para a discussão. Tire um tempo para retomar a discussão já feita. Cheque o processo durante a discussão.

 

Por outro lado,

 

Compartilhe o ar.

 

Aqueles que falam muito precisam dar um passo atrás para dar mais espaço para os outros. As discussões só podem ter um tempo determinado; portanto, aqueles que são falantes mais ativos no grupo precisam criar espaço para que outros participem.

 

Se alguém já falou o que você ia dizer, não fale - mesmo se a pessoa não tenha sido tão eloquente quanto você pensa que é.

 

Tente ouvir uma discussão inteira antes de participar. Veja o que acontece.

 

Assuma a responsabilidade sobre como todos no grupo participam da discussão.

 

Muitas pessoas definem a liderança como a capacidade de articular as idéias que levarão o grupo adiante. Assim, elas geralmente se concentram em divulgar suas ideias o máximo possível para que outras pessoas possam ter o benefício de ouvi-las.

 

Existem, no entanto, outros modelos. Como Barbara Ransby aponta em sua biografia da líder dos direitos civis, Ella Baker, Baker conceituou a liderança como desenvolver a capacidade dos outros de articular suas ideias, e ela fez isso dialogando, ao invés de dizendo o que ela sabia ou pensava. 

 

Reconheça sua própria localização social e modifique sua participação de acordo com ela.

 

Assuma a responsabilidade de garantir que aqueles que não são privilegiados (de uma maneira ou de outra) sejam encorajados a falar.

 

Não faça atribuições sobre os motivos das pessoas.

 

Esta é geralmente uma forma de ofensa que passa por análise. Não podemos saber as razões pelas quais uma pessoa expressa uma ideia ou se comporta de uma determinada maneira. Aborde o comportamento/ideia apenas e seja específico.

 

Faça declarações em primeira pessoa.

 

Não há lugar privilegiado de conhecimento do qual você fala, não importa o quanto você saiba ou pense que sabe. “Eu acho que”, “pela minha experiência”, “eu acho que” são todas as maneiras de enquadrar o seu discurso que abrem espaço para a próxima pessoa se engajar no diálogo.

 

Quando alguém te deixa com raiva, aborde o comportamento, não envergonhe ou culpe os outros.

 

Todos cometemos erros e, por mais irritados que os erros de outra pessoa nos façam, temos a responsabilidade de lidar com eles da maneira mais empática possível. Por exemplo, "quando você disse ou fez X ... quando X aconteceu ... senti ... pensei ..."

 

Se possível, tente dizer o que teria funcionado melhor, sugerindo alternativas ou dando um exemplo específico.

 

Não tenha medo de se desculpar ou pedir por desculpas.

 

Mais uma vez, todos nós vamos cometer erros, por isso precisamos reconhecê-los sem tentar desculpar ou racionalizar nosso comportamento - apenas dizer que você sente muito é bom o suficiente.

 

E precisamos aceitar as desculpas de outras pessoas e seguir em frente.

 

O interpessoal como político: ampliando nossa definição de bom processo

 

Uma percepção política fundamental do feminismo da segunda onda foi que as relações interpessoais são um local onde o poder opera. Essa percepção abriu uma nova forma de pensar sobre como as organizações funcionam e, particularmente, como as normas sociais e a cultura de uma organização podem reproduzir relações sociais opressivas ou ajudar as pessoas a desafiá-las. O Solidarity tem uma tradição honrosa de institucionalizar o processo democrático. Mas nós entendemos esse objetivo de maneira muito estreita. Por exemplo, tendemos a supor que, se as regras permitem que todos falem, isso é suficiente para garantir que as pessoas deem um passo à frente. Em resposta à clara tendência dos homens de falar mais frequentemente do que as mulheres, dissemos que antes que outro homem possa falar, a mesa deve perguntar se alguma mulher deseja falar.

 

O que não analisamos é se as maneiras pelas quais nos comunicamos são também uma barreira à participação. Nossa prática indica que muitas pessoas na organização assumiram que a melhor maneira de encorajar as mulheres a falar é treiná-las para serem duras - isto é, capazes de interagir com outras pessoas em um tipo particular de estilo masculino. Nós não consideramos se deveríamos questionar esse estilo de debate e pensar em como isso exclui não apenas as mulheres, mas muitas outras pessoas da participação.

 

Ao prestar atenção a essa importante dimensão de como as organizações funcionam, o processo feminista tem o potencial de ajudar o Solidarity a crescer. Achamos que as normas sociais aqui propostas nos ajudarão a:

 

  • Trabalhar nossas diferenças de raça/gênero/sexualidade/classe de maneiras que sejam emocionalmente favoráveis ​​e, portanto, mais produtivas

  • Ser muito mais capazes de lidar com conflitos - sobre o comportamento, bem como sobre idéias

  • Criar uma cultura organizacional onde cada pessoa sente que tem ideias importantes e algo para oferecer ao grupo

 

 

Notas da tradução:

 

[1] Texto original: "women of color". Termo bastante comum nas discussões sobre políticas raciais nos Estados Unidos.

 

[2] O original usa “upside of power” e “downside of power”, que seriam literalmente “lado positivo do poder” e “lado negativo do poder”. Preferi usar “privilegiado” e “não-privilegiado”, para facilitar.

 

[3] Texto original: "branch meetings, NC meetings, conventions and other bodies".

 

[4] Texto original: "NC members, PC members, fraction convenors, branch execs, etc.".

 

 

 

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