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Filosofia e revolução: de Kant a Marx — uma entrevista com Stathis Kouvelakis

Filosofia e revolução: de Kant a Marx — uma entrevista com Stathis Kouvelakis

 

(Tradução de Pedro Barbosa)

 

https://www.versobooks.com/blogs/3115-philosophy-and-revolution-from-kant-to-marx-an-interview-with-stathis-kouvelakis

 

 

Para celebrar a publicação, pela La Fabrique, da nova edição de Philosophie et révolution: de Kant à Marx*, o portal Révolution Permanente conversou com Stathis Kouvelakis sobre seu livro de 2003.

 

[A entrevista original, em francês, é de fevereiro de 2017. Esta tradução é baseada na versão em inglês, traduzida por David Broder para a Verso]

 

Révolution Permanente (RP): Stathis, você poderia se apresentar para aqueles que ainda não o conhecem? Qual é a sua experiência enquanto militante?

 

Stathis Kouvelakis: Desde de 2002 eu ensino filosofia política na Kings’s College London, mas mas minha própria educação universitária se deu na França. Em termos de histórico militante, desde meus anos de high school [ensino médio], eu era ativo na esquerda radical anticapitalista na Grécia e depois na França. Em 1981, adentrei a organização de juventude do que era chamado o Partido Comunista Grego “Interior”, uma corrente que posteriormente participou como uma das componentes que fundaram o Syriza. Eu também participei do corpo dirigente do Syriza entre 2012 e 2015, e então deixei o partido, junto com milhares de outros militantes e quadros, quando Alexis Tsipras vergonhosamente capitulou diante das determinações da Troika dos credores. Depois, participei da fundação da Unidade Popular — uma formação da qual ainda sou parte — que reúne as forças que saíram da ala esquerda do Syriza e parte da coalizão de extrema-esquerda Antarsya.

 

Quanto à França, eu fui militante do Partido Comunista Francês nos anos de 1980, e depois de 2005 em diante da Liga Comunista Revolucionária e do Novo Partido Anticapitalista, que posteriormente eu deixei para apoiar a Frente de Esquerda [“Front de Gauche”]. Eu também fui ativo em jornais marxistas como Actuel Marx (até 2004) e depois Contretemps, que me propiciou o privilégio extraordinário de poder trabalhar com Daniel Bensaïd.

 

Para resumir essa experiência, eu diria que tentei ser um militante comunista em um período de refluxo e transição, durante o qual as organizações do movimento operário — tanto as grandes quanto as menores — gradualmente se desintegraram. E isso aconteceu sem novas formas de estruturação política das classes dominadas conseguirem, no momento, se cristalizar. 

 

RP: La Fabrique acabou de reeditar o seu livro de 2003, Philosophy and Revolution: from Kant to Marx. Qual foi o contexto no qual você a escreveu?

 

O livro foi escrito essencialmente por volta do final dos anos de 1990, e sua primeira edição veio em 2003 através da Presses Universitaires de France [PUF]. Era um período em que a reflexão sobre Marx havia se aberto novamente, baseada em um contexto no qual movimentos sociais na França e em outros lugares estavam começando de novo. Como Daniel Bensaïd gostava de dizer, o céu pode não ter se tornado vermelho, mas, entretanto, ele começou a ganhar um pouco de cor de novo. Então para mim aquele pareceu um momento favorável para uma renovada reflexão teórica, que é indispensável se queremos escapar do período de derrota que se instaurou com o colapso da URSS e a inflexão da China em direção ao capitalismo.

 

De um ponto de vista teórico, esse livro se situa em continuidade aos debates do período anterior, aberto pela assim chamada “crise do marxismo” do final dos anos de 1970. Mais particularmente, a questão que me preocupava era a da teoria política de Marx, cujo estatuto e a própria existência estão sujeitos ao debate. Então, esse foi um modo de refletir sobre as questões das relações entre teoria e prática, da política e da estratégia revolucionárias, através do retorno a uma sequência fundacional. Especialmente, a sequência que viu a trajetória de Marx se destacar como única dentro do amplo cenário da intelligentsia opositora, de formação essencialmente filosófica, na Alemanha da era Vormärz, isto é, dos anos anteriores às revoluções de 1848.

 

RP: Philosophy and Revolution se apresenta como mais um trabalho sobre Marx. Você poderia explicar de que modo ele é único?

 

Eu acredito que existem dois caminhos, para ser sucinto. Primeiramente, eu tento situar Marx como uma figura em um retrato de grupo, incluindo Heine, Moses Hess e o jovem Engels. É claro, este é um grupo sob as sombras das figuras tutelares da filosofia clássica alemã: Kant e Hegel, aos quais eu dedico um capítulo introdutório. Eu então expando o foco para capturar a singularidade de Marx com relação a ampla tendência da qual ele emergiu, especificamente a dos “jovens hegelianos”. Isso fornece uma base para a reflexão posterior sobre a frase com a qual o velho Engels conclui seu panfleto sobre Ludwig Feuerbach — uma frase que sempre me fascinou e intrigou: “O movimento da classe operária alemã é o herdeiro da filosofia clássica alemã”. 

 

Então com isso devemos entender que essa aparentemente só especulativa filosofia é, na verdade, a portadora de uma carga emancipatória, nos cruzamentos do Iluminismo com as ondas de choque desencadeadas pela Revolução Francesa. Esta é uma carga que desde o primeiro momento coloca a questão da sua realização prática. Além disso, nesta frase Engels repete o adjetivo “alemã” para enfatizar esta especificidade, a qual ele chama a “aptidão alemã para a teoria”, que primeiro floresce na filosofia — isto é, a uma distância da prática — e que Marx “traduz” em uma nova teoria, que quer ser um guia para a ação de uma classe que pode derrubar a ordem existente.

 

Para colocar em outros termos, a “realização” da filosofia implica sua “abolição”, sua transcendência em uma prática que preserva seu conteúdo verdadeiro ao torná-la efetiva, concretamente ativa. É aqui que Marx intervém, dizendo que esta abolição deve ser pensada como política, mas não qualquer política. O que era necessário era “traduzir” em política o conteúdo emancipatório que a filosofia clássica alemã havia apreendido de um modo especulativo. E isso também transforma profundamente as concepções anteriormente existentes de “política” e mesmo de “revolução”.

 

A segunda especificidade do meu trabalho reside na atenção que ele concede à paixão política que eu considero ter sido o motor da evolução intelectual de Marx. Esta paixão também se alimentou de sua profunda relação com Hegel, um pensador da modernidade burguesa e suas contradições, cujo incessante realismo é muito mais útil para um revolucionário do que qualquer moralismo ou exaltação voluntarista.

 

RP: Você busca explicar a emergência do pensamento revolucionário de Marx não como uma lógica que estava inscrita de antemão na história, mas como o resultado político e filosófico do Vormärz. Pode nos falar mais sobre isso?

 

Karl Korsch uma vez nos convidou, em seu Marxismo e filosofia, a aplicar ao próprio Marx o método que ele havia elaborado para estudar realidades históricas e sociais, partindo do princípio de que as ideias não caem do céu. Me esforcei para aplicar esse método. Compreender a singularidade de Marx significa livrar-se da concepção de acordo com a qual tudo já estava lá em germe, em seu gênio individual, em favor de uma tentativa de entender como um jovem intelectual radical reagiu — simultaneamente prática e teoricamente — aos imprevistos eventos que marcaram o período Vormärz, levando às revoluções de 1848.

 

Marx não nasceu um revolucionário, ele se tornou um às custas de uma difícil ruptura com o quadro que serviu de referência para os intelectuais alemães de sua geração, incluindo mesmo aqueles opositores. Ele teve de lidar com uma situação na qual o espaço muito limitado que tornou tal atividade intelectual possível — inclusive na universidade e na imprensa — caiu sob os golpes de martelo da monarquia prussiana engajada em um autoritarismo crescente. Os adversários e interlocutores “jovens hegelianos” de Marx reagiram se retirando inteiramente ou se precipitando em uma postura cuja ultra-radicalismo retórico mal conseguiu mascarar sua total impotência. Ele preferiu se exilar, para poder tomar parte nas atividades políticas da classe trabalhadora e no universo dos intelectuais emigrados , cujo epicentro estava em Paris, mas também em Bruxelas e Londres.

 

Esta condição de exílio o colocou em contato direto com as principais correntes revolucionárias europeias, e o levou em direção ao comunismo. Sua radicalização então teve a particularidade de aliar ação política efetiva e inovação teórica. De fato, desde o início o comunismo de Marx se estabeleceu como algo muito único, uma ruptura mais do que uma variante das doutrinas comunistas de 1840, de Blanqui a Cabet e os neo-Babovistas [seguidores de Babeuf].

 

RP: A originalidade de sua abordagem também advém da seleção de autores que você analisa: Heine, Hess, Kant e Feuerbach. Por que você os escolheu?

 

Como eu disse antes, compreender a singularidade de Marx requer que ele seja situado dentre esse amplo grupo de rivais e interlocutores na tendência jovem hegeliana. Mais particularmente, eu escolhi Hess e Engels do que Feuerbach — que era muito distante de questões políticas — porque eles estiveram em contato com correntes socialistas e, no caso de Engels, com as realidades da Inglaterra industrial e seu poderoso movimento operário. Ainda no período, estudo suas trajetórias, que diferem muito evidentemente da de Marx. De fato, eles se orientaram em direção a uma forma de socialismo humanista, com uma forte dimensão ética, hostil à ação política.

 

Heine é um caso à parte. Ele pertenceu a uma geração anterior. Ele conheceu Goethe e Hegel pessoalmente, e se exilou em Paris um pouco depois da revolução de julho de 1830. Ele posteriormente iria conhecer Marx lá. Heine elaborou mais amplamente uma leitura diretamente política da filosofia e cultura clássica alemã, iluminando seu núcleo revolucionário. Ele exerceu um papel decisivo nas trocas culturais e políticas entre a França e a Alemanha durante esse período. Ele foi um pioneiro na operação de traduzir para o francês — isto é, para linguagem política — a teoria alemã que Marx conduziria a um novo curso.

 

RP: E é por isso que o seu estudo termina antes da fase revolucionária de 1848?

 

De fato, meu estudo de Marx termina no começo de seu exílio parisiense, que é também o momento de seu encontro com Heine. Neste momento de sua trajetória, Marx havia se tornado um revolucionário e via o proletariado como o agente de uma revolução alemã de novo tipo, uma “revolução radical” transcendendo o horizonte francês de 1789-93, na qual se colocaria em questão todo o edifício social social.

 

Vale a pena enfatizar o profundo paradoxo de tal posição, porque, como Marx e também vários outros energicamente repetiram, a Alemanha é — exceto por sua teoria — um país atrasado, tanto política quanto economicamente. Mas o que Marx já entrevê é que, se já era “tarde demais” para uma revolução burguesa bem-sucedida na Alemanha, é porque, ainda que balbuciante, a entrada em cena do proletariado é suficiente para levar sua burguesia a um compromisso com as velhas classes dominantes. O destino da Alemanha seria definido com a ruptura entre essas temporalidades contraditórias, e esta é precisamente desta “discordância dos tempos”, para usar essa noção cara a Daniel Bensaïd, que surge uma possibilidade incrível, cujo nome é “revolução radical”. Portanto, deixo Marx neste momento em que sua trajetória está se inclinando definitivamente, que é também o momento em que a sequência filosófica da qual ele é a expressão condensada atinge seu ponto de verdade.


 * O livro foi traduzido para o inglês e publicado pela editora Verso em 2018: Philosophy and Revolution: from Kant to Marx [Filosofia e Revolução: de Kant a Marx]

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