A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Animalismo, antiespecismo e ecologia a partir de uma perspectiva marxista

07/08/2019

 

16/04/2019

Original: https://vientosur.info/spip.php?article14747

Tradução: Mari Luppi 

Revisão: André Coggiola

 

O animalismo surgiu como um tema com impacto político há algumas décadas e está ganhando cada vez mais peso, especialmente em setores jovens. No Estado Espanhol, a mobilização em defesa dos animais, como um marco geral, gerou várias organizações - desde protetoras até organizações maiores, como Anima Naturalis - que têm uma atividade regular e certa presença na mídia, mas acima de tudo uma imagem pública muito positiva. 

 

No terreno mais político, há dois elementos que devem nos fazer notar a relevância do tema: em primeiro lugar, a presença de algumas dessas questões na política institucional (a chegada de leis sobre maus-tratos a animais em alguns parlamentos autônomos, bem como outras medidas mais tímidas em nível nacional) e, sobretudo, o sucesso eleitoral do PACMA¹, que apesar de apresentar-se praticamente sem programa e sem candidaturas midiáticas, obtém resultados eleitorais muito significativos e parece ter como objetivo obter representação nas próximas eleições. 

 

No entanto, esse aumento na presença pública não é linear nem homogêneo. Sob a égide da defesa dos animais vivem organizações protecionistas, ecologistas que priorizam os ecossistemas à defesa dos animais não-humanos, e setores de animalistas de corte mais essencialista que colocam a vida dos animais acima de tudo, criando um fosso entre animalistas e ecologistas que não para de crescer há anos.


 

Necessidade de uma perspectiva não individualista mas coletiva como alternativa à abordagem consumista

 

Em um contexto como esse, é difícil para as organizações políticas formarem uma posição consistente e adequada a uma organização revolucionária. A orientação que apresenta mais problemas teóricos e políticos é a que chamamos de essencialista, pois corre o risco de desembocar em políticas individualistas de duas maneiras: primeiro, porque o foco na defesa da vida toma a forma de defender cada um dos seres vivos, não a coletividade, e segundo, porque se traduz principalmente em comportamentos de controle e direção do consumo. A estes problemas acrescenta-se outro: não se discerne entre os sujeitos capazes de autodeterminação - e portanto de emancipação - e aqueles que carecem dessa capacidade. A questão dos sujeitos animais é uma das bases deste problema, uma vez que frequentemente leva a um desvio essencialista.

 

Sob o debate do animalismo e das possíveis posições sobre ele está sempre a discussão sobre o valor da vida dos seres vivos. A priori, não há categorização de seres vivos, em qualquer caso, que possa dar uma "proporção" de valor de uma vida; é uma discussão quase metafísica que quase nada produz e apenas ajuda a nublar o debate. Junto com isso, há o problema da necessidade que nós seres humanos temos de nos alimentar e obter nosso sustento, o que de uma forma ou de outra nos obriga a assumir uma relação conflitiva com a natureza, incluindo os seres vivos. O importante neste caso é construir uma posição que seja consistente com uma política revolucionária e de cuidado com a vida, que passe por um posicionamento que enfoque o coletivo e estabeleça como objetivo sociedades verdadeiramente sustentáveis, mas também com conhecimento científico e socialmente consistentes, que não anule nenhuma nuance na consideração das capacidades de cada espécie e de seu impacto ecológico.

 

Adequação à tradição marxista

 

Se tentarmos debater o animalismo a partir da tradição marxista, parece evidente que a porta de entrada é a teoria da natureza. O conceito de natureza em Marx é fundamental porque condiciona tanto sua antropologia quanto sua teoria da criação de valor. É importante lembrar que, em consonância com os postulados materialistas, Marx afirma a natureza como um marco de realidade para toda atividade e também uma fonte de geração de valores de uso. "Matéria e trabalho natural" são os elementos que perpassam qualquer produção, e além disso, Marx desenvolve que, em sua produção, o homem só pode proceder como a própria natureza, isto é, mudando, simplesmente, a forma dos materiais. Além disso: "este trabalho de transformação é constantemente apoiado por forças naturais. O trabalho, portanto, não é a única fonte dos valores de uso que produz, da riqueza material. O trabalho é o pai, como diz William Petty, e a terra, a mãe.

 

Nessa passagem, podemos observar claramente a importância da natureza como uma realidade objetiva na qual a atividade humana está inserida, não apenas como um limite externo, aquele estabelecido pela presença da matéria natural, mas também porque os seres humanos só podem produzir imitando a natureza. E essa produção é uma troca, uma mediação, como especificado mais adiante, descrevendo o trabalho como "um processo no qual o homem media, regula e controla seu metabolismo com a natureza", no qual o ser humano age como "um poder natural". Com isso, as bases mais elementares da concepção do trabalho são resolvidas em termos abstratos, como forma de satisfazer as necessidades materiais. Evidentemente, nessas passagens, Marx não determina qual deve ser o mecanismo concreto pelo qual a cultura se desenvolverá, isto é, quais são as formas de vida que permitem satisfazer as necessidades materiais de sobrevivência, mas os elementos básicos sobre os quais elas são construídas. 

 

O termo metabolismo, que aparece na citação anterior, é outra das peças-chave para construir uma abordagem ecossocialista. Com este termo, Marx levanta a relação que os seres humanos têm, na medida em que pertencem à natureza, com o resto da natureza. Em seus primeiros escritos, ele parece defender um horizonte de emancipação em que as sociedades, libertas do capitalismo, estabelecem uma relação de harmonia com a natureza; no entanto, o Marx maduro opera com uma noção de ser humano-natureza  em conflito. De fato, uma antropologia que não incorra em certo misticismo tem que assumir que os seres humanos precisam operar na natureza objetiva para obter seus meios de subsistência. É aí que a noção do metabolismo sociedade-natureza adquire relevância, na medida em que designa as relações estabelecidas pelas sociedades para lidar com suas necessidades, relações que dependem da forma adquirida pela natureza e devem se adaptar aos seus padrões de desenvolvimento e regeneração.

 

A natureza objetiva

 

Nesse esquema teórico, a natureza aparece dividida em duas perspectivas: natureza subjetiva e natureza objetiva, esta última referindo-se à realidade natural na medida em que é vivida e percebida pelos sujeitos humanos como o ambiente vital das comunidades, e também como objeto em que desenvolve sua atividade. É nesse contexto que se encaixa uma teoria sobre a condição dos animais. O próprio Marx não a desenvolveu, como também não desenvolveu uma teoria que poderíamos chamar de ecológica - apesar de ter estabelecido uma base sólida - mas a partir de suas abordagens podem-se tirar algumas conclusões.

 

O primeiro e mais óbvio é que, para Marx, os animais não estão sujeitos a considerações específicas: dentro da natureza objetiva, nenhuma distinção é feita entre uma ou outra classe de entidades, sejam elas quais forem. Mas estamos interessados ​​em dois pontos sobre os quais uma posição consistente pode ser proposta: primeiro, a questão do conflito inerente à relação entre a sociedade humana e a natureza, que situa a questão em face das posições maximalistas de defesa dos animais. Por outro lado, a possibilidade - necessidade, na teoria marxista - de controlar não a natureza, mas a relação que estabelecemos com ela. De certa forma, pode-se afirmar da seguinte maneira: não podemos ignorar nossa necessidade de operar como um sujeito histórico que atua em seu ambiente material, mas podemos controlar e direcionar nossas interações com esse ambiente.


 

Exploração como uma característica dinâmica do capitalismo

 

Como a natureza é uma fonte de valores de uso, e esses valores são deslocados no capitalismo por valores de troca - mas somente a partir da operação do capital, que converte valor em mercadoria e mercadoria em fetiche - podemos concluir que a exploração da natureza objetiva deriva naturalmente da dinâmica de exploração do capitalismo. E então encontramos um ponto de união entre a crítica da exploração tradicionalmente realizada pelo marxismo - como uma crítica à exploração da força de trabalho - e a crítica da exploração animal. Ambas as realidades, que correspondem à natureza objetiva e subjetiva, estão sujeitas à mesma dinâmica de exploração. Isso não implica que sejam dois fenômenos comparáveis, uma vez que existem elementos diferenciadores, mas a origem da exploração é a mesma.

 

Dá-se aqui também um paralelo com o  fenômeno do capitalismo verde, que visa alterar a dinâmica no mercado para assumir a  realidade ecológica e dar conta dela, e encontra um obstáculo óbvio: o capital só responde à lógica da acumulação e, portanto, não pode dar  conta de objetivos como antiespecismo ou adequação ecológica. Modificações de uma ordem menor podem ser propostas para salvaguardar alguns aspectos menores e estéticos, mas, em última instância, a exploração para obter lucro é a característica central do capitalismo. Em outras palavras, o capitalismo não pode aceitar uma transformação que coloque a exploração fora do centro, porque então deixaria de ser o capitalismo. Se há uma opção por encontrar sistemas sociais que questionem a exploração de seres vivos, é uma opção que passa pela supressão do capitalismo.


 

Mercantilização e especismo

 

É, portanto, a dinâmica de exploração do capital que determina as formas de uso de animais, humanos e não humanos, ainda que de formas diferentes. Mencionamos anteriormente que, para Marx, a criação de riqueza depende da natureza tanto quanto do trabalho, mas é importante trazer aqui uma questão que é exemplificada pela famosa passagem das abelhas, que, segundo Marx, envergonham os seres humanos por sua perfeição. No entanto, o que diferencia as criações dos seres humanos da atividade de animais não humanos é que os primeiros podem desenvolver em sua mente o projeto que desejam realizar; podem inventá-lo e decidir sobre ele. Isto pode ser interpretado de duas maneiras: a capacidade superior de seres humanos para imaginar, construir e decidir  coloca-os em uma posição de força devido à qual são responsáveis, em maior ou menor grau, pelas formas sociais de exploração; e, no sentido oposto, essa capacidade superior torna mais séria a submissão imposta pela venda do trabalho, na medida em que subordina a liberdade mais plena que a capacidade intelectual superior lhes confere.

 

Entramos com isso na questão do especismo. Se dissemos anteriormente que não há possibilidade de discernir qualitativamente as formas de vida, talvez possamos encontrar uma caracterização mais ajustada de uma maneira funcional. A diferenciação que fizemos no parágrafo anterior sobre a capacidade de alcançar uma projeção intelectual que caracteriza os seres humanos foi parcialmente modulada pela pesquisa científica contemporânea, mas, em termos gerais, confirmada.

 

Há duas características que aparecem de forma consistente em estudos da cognição humana e animal; uma delas é a empatia, a segunda a capacidade de pensar abstratamente. No que diz respeito a empatia, e deixando de fora deformações mais ou menos orientadas para a literatura de auto-ajuda, podemos descrevê-la como a capacidade de um sujeito de entender os estados mentais de outros sujeitos; pode parecer elementar, mas na verdade é uma capacidade que tem sido tradicionalmente atribuída exclusivamente ao ser humano. Recentemente, estudos como Frans de Waal - mas também outros autores de prestígio como Tomasello ou Ferrari - têm mostrado que existem formas de empatia emergente evolutivamente em animais como os chamados primatas superiores e alguns outros mamíferos superiores. Esta capacidade está relacionada com o auto-reconhecimento, elaboração de julgamentos e expectativas sociais ou normas, por isso, é de fundamental importância.

 

No que diz respeito à capacidade de pensamento abstrato, ele se estende, acima de tudo, às práticas cognitivas que nos permitem reconhecer outros sujeitos em diferentes momentos vitais, reconhecer espaços ou projetar no futuro. Sobre estas duas características se constrói a capacidade de decidir e de elaborar estratégias complexas - chimpanzés e bonobos são capazes de estratégias simples, se são repetitivas e não envolvem muitos sujeitos - e desenvolver planos. Desta relação podemos tirar conclusões interessantes para a relação de sociedades  humanas e animais não humanas. Além de reflexões de alto nível especulativo, os seres humanos e não humanos diferem em sua capacidade de dirigir suas próprias vidas. Embora não devamos manter a visão da ciência e da filosofia tradicional de total dependência dos instintos, é verdade que os animais não podem tomar decisões complexas ou decidir o seu próprio futuro, por isso não podemos considerá-los sujeitos políticos. No entanto, daqui não se pode - e não se deve - derivar uma defesa do especismo. Dentro de certos limites, humanos e animais não humanos compartilham uma história evolutiva e seria ridículo afirmar que existe uma lacuna absoluta: animais humanos podem estar sujeitos a uma boa vida ou sofrimento, e, portanto, não há justificativa para a exploração indiscriminada que produza dor. Por outro lado, a condição animal dos seres humanos e sua dependência da natureza para obter seu sustento ainda são um elemento inevitável da discussão. Um antiespecismo que valorize a vida de todos os animais aceitando o conflito latente entre as diferentes formas de vida parece ser a opção mais sólida.


 

A consideração de animais não humanos

 

Jorge Riechmann argumentou sobre a capacidade de sentir dor dos animais (Um mundo vulnerável, ed. Catarata) e levanta a fórmula "não ferir o que pode ser ferido". Esta fórmula nos coloca na alternativa da sobrevivência a todos os seres. Acima, notamos a relação de todos os seres com a exploração capitalista, e acreditamos que a ilegitimidade do uso de qualquer vida para obter benefícios mercantis é demonstrada. Ao mesmo tempo, lembramos a condição do ser humano como dependente da natureza, mas é evidente que não exige a exploração sistemática de animais que o capital impõe atualmente, ao tratar formas de vida como objetos de reprodução comercial. Os seres humanos não precisam consumir carne da pecuária e podem substituir sua ingestão de proteínas por outros alimentos; no entanto, a eliminação do consumo de alimentos de origem animal dificilmente pode ser sustentada sem insumos químicos, e esses produzem produtos ecologicamente agressivos que prejudicam os seres humanos e causam a morte ... de animais não humanos.

 

O equilíbrio é difícil de estabelecer, mas parece claro que a intuição de Marx sobre o conflito entre as sociedades humanas e a natureza persiste. O importante é trazer as capacidades cognitivas - e morais e políticas - do ser humano para controlar o dano que é feito no decorrer dessa relação conflitiva. Afinal, nisso consistiria um controle do metabolismo entre sociedade e natureza.

 

Diminuição do consumo, centralidade da vida, cuidado e reversão da mercantilização da vida

 

As diminuições no consumo e a eliminação de práticas alimentares particularmente nocivas não são um horizonte viável se não estiverem sob o controle coletivo da atividade humana. Sem subestimar as práticas de consumo, que têm um valor moral evidente, somente a transformação social e política pode permitir uma adequação nos ecossistemas frente às mortes gratuitas de animais não humanos, ao sofrimento geral e à crise ecológica.

 

Isso tem um marco mais do que adequado na realidade atual, de crise ecológica e matança generalizada de animais em condições infernais. O aumento da produção e do consumo que  a expansão do capital produziu deixou um balanço claro: o crescimento indefinido da produção de bens materiais não implica benefícios para a emancipação das sociedades, não é sustentável no quadro ecológico ou para as vidas não humanas. Uma forma de sociedade que controla suas relações com a natureza não humana e com sua própria organização social deve passar pela superação do capitalismo.

 

___________________________________________________________________

 

¹ Partido Animalista Contra el Maltrato Animal.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Please reload

acesse também

arquivo

Please reload

João Alfredo
Camila Valadão
Ailton Lopes

artigos

facebook