A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Por uma consciência ambiental de classe

20/08/2019

Em um mundo onde debates são levados a cabo com uma frequência estonteante sobre os mais diversos e profundos assuntos, a questão ambiental chegar a ser reduzida a sentenças definitivas fugazes em redes sociais era uma questão de tempo.

 

E não é recente não, pelo menos desde o advento do Orkut os debates em torno de questões políticas e ambientais se reduzem muitas vezes ao soterramento do bom senso pela ecolocalização da razão (O popular ganho no grito).

 

Há tempos há uma (falsa) dicotomia entre a revolução socialista e a consciência ambiental, ou melhor, da consciência de classe e da consciência ambiental.

 

O que combate mais o aquecimento global? Andar de bicicleta e não comer carne ou fazer a revolução? Ambos e nenhum. Porque a transformação através de inciativas pontuais e a construção da revolução levam praticamente o imensurável mesmo tempo.

 

E nem vale a pena aqui o necessário debate sobre a própria ideia de revolução enquanto algo a ser construído, na direção oposta da necessidade da produção da consciência de classe e em que me alinho na ideia de que a segunda constrói a primeira e não o inverso e que a revolução é mais um corcel a ser cavalgado que um castelo a ser erguido.

 

A consciência individual das responsabilidades ambientais é bem vinda, mas se ela é só individual e só responsabiliza a si mesma ela não é exatamente uma consciência.

 

A consciência coletiva e de classe que entende que o capitalismo é o grande problema e que sem derrubá-lo não se resolve a questão ambiental também é bem vinda, mas também não é exatamente uma consciência.

 

A consonância transformadora de ambas as matrizes de consciência é, essa sim, a transformação necessária e consciente do mundo para que se organize uma transformação ecológica, ecossocialista, do globo para combater mais do que o aquecimento global, mas o próprio sistema capitalista e sua base ecocida e opressora.

 

Porque as inciativas individuais são absorvidas pelo deslocamento de demanda sem mudar um sistema cuja matriz predatória não negocia com a natureza. E as iniciativas que buscam construir algo objetivamente impossível de se dizer quando ocorre e que espera que esse evento quase religioso e escatológico que se tornou parte majoritária da defesa da revolução, também não resolve os problemas cotidianos que o sistema causa à ecologia , ao meio ambiente e a própria vida.

 

Andar de bicicleta sem comer carne, usando bolsas de PET pra evitar usar o plástico, separar o lixo, comprar mais orgânicos,etc, são elementos que sim são funcionais e necessários para serem demandas coletivas, mas não resolvem a maior parte das questões, nem mesmo as que atingem diretamente, quando mais se extrapolarmos o problema para as demandas da classe trabalhadora.

 

Andar de bicicleta como transporte alternativo funciona em cidades com um trajeto de curta quilometragem, cidades pequenas e médias. Em cidades grandes, metrópoles e megalópoles é praticamente inviável um sistema de larga escala de uso de bicicleta para o deslocamento.

 

Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, teriam que ter mais do que uma revolução urbana para que se transforme a bicicleta em alternativa. Mesmo em se pensando a integração bicicleta, trem e metrô. Há distâncias longas demais e a alternativa trem/metrô é em si uma alternativa com também, enorme queima de carbono, embora menor que carro/ônibus, por óbvio.

 

Reduziria o impactos ambiental e no aquecimento global? Sim e é uma medida que precisa se tornar política de estado, não apenas ações individuais, e que mesmo assim demandam longo tempo pra resolver.

 

Por que? Porque precisa ajustar ciclovias, construí-las e repará-las, organizar bicicletários, ampliar o acesso popular a bicicletas (que não sejam patrocínio de bancos), organizar as integrações modais de transporte, e por aí vai.

 

Só que sem mudar a centralização da produção econômica, a própria organização sistêmica onde os empregos estão em lados da cidade opostos à moradia dos que neles trabalham, ainda teríamos um enorme passivo ambiental e de pegadas de carbono.

 

A não discussão aqui da opção pessoal pelo andar de bike é de propósito, porque sem uma opção coletiva de política pública é como curar câncer com dipirona, pode rolar, mas é improvável.

 

As opções de consumo ou não de carnes vai pelo mesmo caminho. Sem políticas públicas de transformação da relação entre consumidor e produtos; Sem a descentralização da produção e com isso do consumo, com a ampliação das redes locais de produção e consumo em contraponto aos grandes mercados que absorvem mais e mais comidas processadas, produção em massa de carne, que impactam a vida animal e o ambiente, não se resolve nada em si. E o problema continua, a solução individual só aplaca consciências pesadas.

 

E eu nem entrei na questão do comer em si, como algo que vai além da opção política pelo alimento e de sua origem.

 

Por outro lado a própria ideia presente no coração da propagação da solução individual tem que estar presente na produção da consciência de classe, e com ela da revolução, porque ou ela é ecossocialista e caminha em sua construção lado a lado com a defesa de políticas transformadoras do capital ou ela não é digna do nome.

 

Uma revolução ou é ecossocialista ou não é revolução.

 

E por que? Porque não há sequer tempo de ignorar as questões ambientais com fundamentais pra estarem no coração do processo de transformação social.

 

E uma revolução ecossocialista não pode existir sem ser uma revolução interseccional, que levanta de forma ecológica a relação entre o capital e todas as opressões de gênero, identidade de gênero, orientação sexual, raça e classe.

 

A relação ecológica entra a ação política e a transformação do mundo é a única forma de produzir transformações coletivas que contenham em si uma consciência ambiental de classe.

 

Essa consciência ambiental de classe é a consciência que se extrai da experiência coletiva em que há uma correlação entre as opressões e a predação do ambiente, e isso envolve debate sobre racismo e machismo ambiental, incidência de doenças causadas pelo consumo de produtos processados como alimento e pela poluição em seus mais diversos níveis, de ampliação dos danos psicológicos advindos de um sistema de transporte massacrante e de uma carga e uma jornada de trabalho cada vez mais dura com um salário cada vez pior, de uma vida cada vez mais impactada por eventos extremos climáticos.

 

Discutir o uso da bike precisa ocorrer em paralelo aos motivos pelos quais é fundamental ter ciclovias dignas do nome, integração modal de transporte, melhor jornada de trabalho sem redução de salário, fomento a alimentação saudável com melhoria não só no alimento do trabalhador na jornada de trabalho (defesa de refeitórios nas empresas com comida balanceada), mas também na melhoria de alimentação de sua família. E também precisa discutir-se onde está o trabalho e a descentralização dos locais de trabalho que permitam que mais e mais trabalhadores atuem perto de onde residem.

 

E isso, amigos, não é nem o início do tanto de política possível de debater em torno dos temas levantados e que incluem processo de construção ecológica da consciência de classe.

 

A decisão individual é linda, mas inócua se não for uma decisão coletiva ou pelo menos se transformar em um debate coletivo que não tenha a aparência liberal da defesa da transformação um a um. A decisão precisa ser coletiva, e a meu ver como política de estado.

 

A transformação ecossocialista abre caminho para uma série de debates, mas eles precisam ter a unidade com o debate de classe ou morrem no berço.

 

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