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Essência do Trotskismo?

20/08/2019

 

 

  Essência do Trotskismo? (Paul Le Blanc)(Tradução de Junior Colpani; revisão de Pedro Barbosa)
 

Fonte: http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article16158

 

 

Em resposta à minha resenha crítica da biografia de Trotsky feita por Robert Service [1], um leitor do jornal Links escreveu a seguinte resposta, com uma pergunta e uma sugestão:

 

Como de costume, um ótimo artigo de Paul. Eu me descreveria como um socialista (ou comunista) e penso que todos os suspeitos de costume como Marx, Lenin, Bukharin, Trotsky, Gramsci, Luxemburgo, Che, etc... valem a pena estudar. Então eu tenho uma pergunta para Paul – no penúltimo parágrafo você explica a essência da teoria de Trotsky. Mas eu argumentaria que todos os socialistas concordariam com estes três pontos. O que você pensa que é a essência do trotskismo, que o definiria como sendo diferente e único? Parece, para mim, que o traço distintivo de Trotsky é a sua luta contra Stalin. E neste ponto, me parece, a maioria dos socialistas concordaria. Ninguém realmente defende as distorções criminosas de Stalin”.

 

Minha resposta está a seguir.

 

***

 

Eu aprecio muito os comentários positivos do leitor. Espero ser perdoado por uma resposta que é um pouco menos sucinta, na medida em que expresso essencialmente acordo e ao mesmo tempo ofereço reflexões adicionais.

 

Eu concordo que a essência da teoria de Trotsky da revolução permanente (e também do “Programa de Transição”) é coerente com o pensamento de Marx e Engels, Luxemburgo, Lenin e Gramsci. No meu livro “De Marx a Gramsci” argumento (e forneço leituras para sustentar) que o pensamento destes seis revolucionários constituem um corpo de reflexão dinâmico e internamente coerente que pode ser chamado de “Marxismo revolucionário”. O mais jovem e descompromissado Bukharin (antes de 1925) também foi esteve inserido neste quadro. E muito do pensamento/ações de Che Guevara (assim como de muitos, muitos outros revolucionários) também coincide e intersecciona com este Marxismo revolucionário. Também concordo que a mais distintiva contribuição de Trotsky envolveu sua luta para defender o Marxismo revolucionário e a Revolução Russa de 1917 do que poderia ser chamado de “distorções criminosas de Stalin”.

 

Ao mesmo tempo, dentro do corpo em desenvolvimento do Marxismo Revolucionário, diferentes revolucionários chegaram a certos “insights” e esclarecimentos antes de outros – isso é uma tradição que poderia ser caracterizada como envolvendo “desenvolvimento desigual e combinado”. Também, vários camaradas deram uma articulação diferenciada a certas ideias: a discussão de “hegemonia” de Gramsci e a descrição da “greve de massas” de Luxemburgo, por exemplo, assim como as visões de Lenin sobre o “partido revolucionário” e sobre a “aliança operário-camponesa” vem à mente – e essa lista é dificilmente exaustiva. Muito mais contribuições essenciais poderiam ser associadas com cada um destes camaradas – embora ao invés de inventá-las do zero, eles foram simplesmente extraindo da fonte comum das conceitualizações associadas com o Marxismo revolucionário, dando a elas expressões diferenciadas diante de novas experiências. O ponto óbvio que deveria ser adicionado é que Trotsky teve a vantagem de viver mais tempo que Marx, Engels, Luxemburgo e Lenin, e de ter tido mais liberdade e experiência do que Gramsci – o que o permitiu fazer certas contribuições não possíveis aos outros.

 

Neste sentido, e providenciando uma lista mais extensa de contribuições, eu sugeriria que os “traços distintivos” de Trotsky incluem o seguinte:

 

1) seu desenvolvimento da teoria do desenvolvimento desigual e combinado e a relacionada teoria da revolução permanente;

 

2) sua compreensão da Revolução Russa de 1917, refletida em suas ações daquele ano e em seu magnífico livro de três volumes “História da Revolução Russa”;

 

3) sua articulação, como líder da Internacional Comunista, da tática de frente única (junto com Lenin e outros) para fazer avançar os interesses genuínos dos trabalhadores e oprimidos;

 

4) sua crítica, cada vez mais profunda e clara, de 1923 em diante, da degeneração burocrática dentro da República Soviética, do autoritarismo que a acompanhou e da perversa “revolução por cima” que teve um impacto tão devastador no campesinato e na classe trabalhadora – e sua recuperação dos conceitos de “democracia dos trabalhadores” (incluindo, finalmente, o princípio do pluralismo político) que havia sido central para as lutas revolucionárias de 1905 e 1917;

 

5) sua defesa do internacionalismo revolucionário contra a profundamente equivocada noção de “socialismo em um só país” – entendendo, na política econômica global, os destinos interligados das classes trabalhadoras e povos oprimidos da jovem União Soviética com o dos países capitalistas “avançados” e com o das regiões coloniais e semi-colonais “subdesenvolvidas”;

 

6) sua análise Marxista revolucionária da degeneração burocrática da União Soviética contida em “A Revolução Traída” e sua exposição e oposição às características venenosas e assassinas do stalinismo como refletido nos julgamentos de Moscou e na massiva repressão na União Soviética no final da década de 1930;

 

7) sua brilhante análise do fascismo e seu apelo urgente por uma frente única da classe trabalhadora para combatê-lo e derrotá-lo;

 

8) sua clara e incisiva crítica da frente popular, com seu inerente colaboracionismo de classe e suas dinâmicas internas de derrota;

 

9) sua análise das dinâmicas subjacentes da Segunda Guerra Mundial, que – em contraste com as perspectivas prevalecentes dentro da maior parte da esquerda – providenciaram a base para uma compreensão relativamente clara das realidades do pós-guerra;

 

10) seus esforços heróicos – contra as difíceis probabilidades – para estabelecer uma rede internacional de incorruptíveis revolucionários unidos à Quarta Internacional, armados com um “programa de transição” destinado a aplicar as perspectivas Marxistas revolucionárias às realidades presentes que enfrentavam;

 

Os que estiverem buscando converter tudo isso em uma “ortodoxia” dogmática estão violentando o método crítico que é essencial ao Marxismo revolucionário do próprio Trotsky. Ele condenou severamente os esforços para conceber uma compreensão comum de táticas “trotskistas” a serem aplicadas “de Paris a Honolulu”. Em vez de construir um “-ismo” especial que o distinga, poderíamos argumentar que seria mais útil enfatizar quão inseparáveis são suas ideias das dos outros revolucionários que mencionamos. Acho que não seria um erro menor, contudo, minimizar suas contribuições. Podem haver pontos de vista diferentes sobre as limitações de uma ou de outra de suas perspectivas distintivas. Isso é algo que os  historiadores podem explorar e debater – e, em um sentido mais importante, deve ser esclarecido em meio às realidades e lutas do aqui e agora.

 

Mas não há dúvidas de que aqueles envolvidos na compreensão e na mudança do mundo considerarão os escritos de Trotsky, como o leitor coloca, como algo que “vale a pena estudar”.

 

- Paul Le Blanc, janeiro de 2010. 

 

 

Notas


[1] Trotsky vive - uma resenha da biografia feita por Robert Service [“Trotsky lives – A review of Robert Service’s biography”] (dezembro, 2009): http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article16106

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