A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Diálogos entre feminismo e ecologia a partir da perspectiva de reprodução da vida.

22/08/2019

 

 Entrevista com Silvia Federici

 

10 de janeiro de 2018 

 

Lorena Navarro Trujillo Mine * e Raquel Gutiérrez Aguilar *

 

Tradução: Mari Luppi

 

Revisão: Ana Carolina Andrade

 

Silvia Federici é reconhecida por sua participação na Campanha Internacional de Salários por Trabalhos Domésticos nos anos 1970. Em 1980, ela trabalhou como professora na Nigéria e acompanhou várias lutas contra a desapropriação de terras. Ela é a autora de “Calibã e a bruxa: Mulheres, corpo e acúmulo original”, trabalho traduzido para catorze idiomas até o momento. No contexto de uma conversa durante alguns dias de agosto de 2017 na cidade de Nova York, onde vive  há mais de quarenta anos, ela nos contou sobre a importância do diálogo entre feminismo e ambientalismo, entendidos como perspectivas históricas e campos críticos de conhecimento e práxis que abriram horizontes poderosos de transformação social. Ligado a isso, ela enfatizou a importância e os desafios enfrentados pelas mulheres na defesa da vida e para participar, decidir e tomar o controle de sua existência.

 

A articulação e a intersecção entre feminismo e ambientalismo estão muito conectadas com a crítica aos efeitos cada vez mais devastadores que o capital produz sobre a  vida. Na sua experiência, como esse diálogo se iniciou e foi configurado?

 

Surgiu no final dos anos setenta em muitas direções e em resposta a agressões cada vez mais radicais. O ecofeminismo nasceu do interesse das feministas pela natureza e na luta contra a desapropriação dos meios de subsistência. Por um lado, a partir das décadas de 1970 e 1980 se iniciou um novo ataque; o retorno de uma política colonialista organizada pelo Banco Mundial (BM) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI),  focada na desapropriação da natureza com a implementação de formas de desenvolvimento completamente destrutivas. Para os movimentos e o feminismo, o novo processo de cerco à terra tornou-se uma questão central, pois trata-se da destruição da forma mais fundamental de nossa reprodução.

 

No mesmo período, a nível internacional, houve um processo de amadurecimento sobre o que a política do corpo significava para o feminismo . Compreendeu-se que o corpo é sexualidade, procriação e que tem sido uma das áreas mais importantes de exploração do capitalismo. Nesse processo de reconhecimento do nosso corpo, somos mais sensíveis ao meio ambiente, à natureza, à continuidade de nossa vida com ar, água ou comida. O movimento feminista desenvolveu uma compreensão de como a vida é reproduzida, na qual o corpo não está isolado, mas faz parte de um ambiente natural. Por exemplo, o movimento ambientalista em sua primeira fase tinha o slogan "Pense como uma montanha", que buscava colocar a luta na perspectiva de uma montanha. Já o  ecofeminismo disse: "Nós não somos montanhas", não devemos pensar em uma natureza sem seres humanos, somos parte da natureza.

 

Isso não significa naturalizar as mulheres, uma acusação feita contra as ecofeministas, mas entender como o capitalismo precisa  do corpo das mulheres e da natureza e explora ambos. Vemos uma semelhança entre as formas de exploração das mulheres e da natureza, com modos de intersecção que se intensificam reciprocamente.

 

No ecofeminismo uniram-se dois movimentos fundamentais para nos dar uma visão sobre a continuidade entre capitalismo e patriarcado e lutar pela preservação da natureza. Eu acredito que o ecofeminismo mudou muito o sentido do movimento feminista, e tem expandido sua capacidade de pensar sobre a transformação social. Isso tem nos permitido abrir o discurso e introduzir novos temas, como terra, água, corpo, território e corpo-terra.

 

Do ponto de vista da reprodução da vida, como você entende a relação das mulheres com a natureza? E nesse sentido, quais tem sido as formas particulares e históricas da opressão e exploração capitalista?

 

Por milhões de anos nosso corpo foi formado em uma troca contínua com o mundo da natureza. E isso criou uma série de necessidades. Por exemplo, alguém pode morrer ou sofrer muito se não puder ver o céu, se não puder respirar ar puro, se não puder ter contato com os ventos. Na vida da humanidade, para diferentes gerações, uma grande força veio do contato com o mundo dos organismos vivos. O corpo humano evoluiu em continuidade com os outros, em constante interação com o mundo da natureza e com os animais que nos rodeiam. Com a chegada do capitalismo, houve um enorme empobrecimento porque ele nos isolou, nos separou. O ecofeminismo e o ambientalismo deram destaque a essa separação. Não só é uma separação econômica que o capital gerou entre as pessoas e a terra, também houve uma perda de poder, porque o corpo humano foi isolado de seu ambiente natural. É uma forma de cerco à terra e aos corpos.

 

É claro que os efeitos da destruição capitalista do meio ambiente impactaram mais as mulheres do que os homens, porque estamos diretamente envolvidas na reprodução da vida. O processo de reprodução criou laços muito importantes das mulheres com o ambiente natural. É por isso que não acho acidental que as feministas e outras mulheres tenham sido responsáveis ​​pela expansão do discurso crítico dos ambientalistas contra o capitalismo. Elas entenderam mais diretamente todas as implicações da destruição da natureza em nossas vidas e tentaram entender como o capitalismo procura explorar, apropriar-se da produção da vida, dominar todos os sistemas e processos que a produzem, transformá-los em processos e sistemas que produzem lucros, canalizam as forças produtivas do corpo das mulheres e da natureza para a acumulação. As mulheres sofreram em seu próprio corpo essa apropriação, a distorção de sua capacidade de criar vida, a criminalização do controle da procriação, de sua sexualidade. A partir dessas experiências, elas compreenderam que o patriarcado e a destruição dos elementos da natureza fazem parte do mesmo sistema de pensamento e dominação.

 

Como você caracteriza o momento atual? Como você vê as lutas das mulheres e quais desafios você acha que estão enfrentando? O que você pode nos dizer da sua experiência?

 

Desde os anos setenta, a economia global tem sido reestruturada de várias maneiras. Embora com algumas diferenças, o fio comum em todas as realidades é a crise da reprodução, uma vez que estão sendo continuamente atacadas  as medidas mais básicas que as populações do mundo tem para se reproduzir: através da privatização da terra, os ataques aos regimes comunitários com políticas extrativas, cortes nos recursos públicos, precariedade do trabalho.

 

É por isso que a violência aumentou no mundo, pois é a única maneira de impor um sistema precário de existência. Em tudo isso, o fracking é uma metáfora social, um método de extrair, espremer a terra, destruí-la para saquear todos os seus tesouros. O mesmo vale para as pessoas. Estamos enfrentando o capitalismo que aperta tudo que pode para continuar sua lógica de acumulação. O capitalismo precisa cada vez mais de violência para se sustentar. A guerra é uma medida econômica, através da qual as relações econômicas são modificadas para mudar um situação. Com a guerra, países inteiros são destruídos e depois se diz que eram Estados falidos.

 

E nisso são muito importantes as lutas para defender e recriar as várias formas de existir, para recriar um senso de solidariedade social. Na América Latina, podemos ver isso nos bolsões de miséria e nos bairros populares, onde as mulheres, como estratégias de sobrevivência, criaram formas de solidariedade e condições para se reproduzir de maneira diferente, mas também criaram diferentes laços e relações sociais.

 

Estamos enfrentando um momento muito confuso e difícil, mas também a gestação de algo novo. Vejo que existe um movimento de mulheres muito rico, com muitas frentes, que nem sempre parecem andar juntas, mas que o fazem: mulheres indígenas e camponesas contra o extrativismo e a exploração da natureza, redes de economia feminista, mulheres contra múltiplas violências. As mulheres não aceitam mais ser subordinadas. As mulheres estão criando seus espaços, com base em sua própria experiência, pensando o que querem para suas próprias comunidades e coletividades. As mulheres estão descobrindo sua própria força. A dimensão da espiritualidade ainda é muito importante, mas também o reconhecimento de  suas dores, as formas pelas quais nos autodestruímos, autodesvalorizamos e internalizamos o capitalismo. Este é um processo coletivo que não podemos fazer sozinhas. Uma mulher geralmente não se olha com os próprios olhos, seolha através dos outros ou do que eu chamo de olhar do mercado. O mercado de casamentos, o mercado de trabalho e dos empregadores, mas você nunca se olha com seus próprios olhos. O poder do feminismo está em mudar a maneira como olhamos para nós mesmas, por exemplo, através dos olhos de nossas irmãs. Quando você se vê através dos olhos das mulheres que ama e com as quais luta, é muito diferente de quando você olha para si mesmo de fora.

 

É por isso que os espaços de mulheres são tão importantes, porque essas experiências não podem ser expressas quando há um espaço controlado pelos homens. Mulheres de algumas comunidades podem participar de assembleias, mas em outras não são permitidas. Nesse sentido, os homens têm que mudar, eles têm que se mexer. Quando as mulheres apontam a violência sexista em suas comunidades, não são elas que enfraquecem a luta, são os homens que as estão sabotando. Se você reduz e reprime a capacidade de intervenção e luta das mulheres, você enfraquece a luta.

 

A luta é uma medida de autolibertação. A política não deve ser um trabalho alienado, mas algo que confere força, compreensão e melhor relacionamento com os outros. Não devemos levar a luta como um dever. Eu escrevi algo sobre militância feliz. Eu acho que você não precisa se sacrificar. Precisamos fazer coisas que tenham a ver com o nosso bem-estar. Se a luta for contra nós, algo não está indo bem. É muito importante que lutemos com um corpo e um coração fortes e não enfraquecidos, para nos alimentarmos bem em todos os níveis. Cada um tem habilidades particulares e específicas; temos que ver onde queremos estar e como queremos contribuir.

 

*Área de Enquadramento Comunitário e Formas do Político, Instituto de Ciências Sociais e Humanas Alfonso Vélez Pliego, Universidade Autônoma Benemérita de Puebla, México. Autor correspondente: Lorena Navarro Trujillo Mine. E-mail: mlorena.navarrot@gmail.com. Twitter: @MinnaLunn.

 

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