A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O pensamento racista e a consciência e o programa antigenocida

 

 Nem as sinapses dum pensamento racista no tecido neuronal duma pessoa branca (mais ou menos privilegiada pelo racismo) seria possível sem o suor do trabalho do povo negro, vítima desse pensamento racista e da estrutura cujas engrenagens esse pensamento racista lubrifica. A história da constituição de todo o sistema global que temos hoje em funcionamento vem empurrada com a acumulação erguida, necessariamente, às custas do tempo de trabalho extraído forçosamente pelo regime escravista, das riquezas usurpadas nos continentes vítimas do colonialismo (aqui invoco especialmente África e América Latina) e do uso dos próprios corpos e das próprias vidas dos povos africanos como mercadoria.

 

Para a máquina mercado (aquela que os liberais chamam de mão invisível, e insistem que será capaz de nos dar paz e vida plena) começar a funcionar, esse sistema colonialista, racista, eurocêntrico e escravista foi indispensável. E apesar de todas as ilusões liberais, vendidas pelos brancos e em especial para os brancos a partir das revoluções burguesas, ainda hoje é o suor negro que nutre as células do organismo do opressor para que ele possa ter sinapses de pensamentos racistas.

 

Clóvis Moura diz que o racismo é uma arma ideológica de dominação, E cada unidade de pensamento racista (composta de muitas sinapses, de muitos dados, de muitos elementos) é um instrumento, uma informação, uma arma de lubrificação dessa máquina de moer carcaça humana. O mercado é a realização dessas crueldades (as do passado e as do presente) e se, por um lado, é uma ilusão cínica achar que dá pra manter as engrenagens do mercado "humanizando" e cirurgicamente "extraindo" as explorações racistas e genocidas dos corpos (inclusive das psiquês) do povo negro, por outro é abjeto desejar ou tentar naturalizar a liberdade imperiosa do mercado às custas desta permanente degradação de nossa gente.

 

Precisamos unificar os setores da África daspórica que querem fim do racismo, seja através de uma integração racial ou de uma autodeterminação separatista da negritude, mesmo que essas ideias não consigam coexistir, essa unificação é necessária. Precisamos por uma questão de sobrevivência: sem essa unidade, o genocídio matará a ambos os setores das vanguardas negras, e a todo o nosso povo, sem que nenhum dos dois lados veja sua "utopia" de sociedade sem racismo se realizar.

 

Mas o setor antipatriarcal e anticapitalista/ecossocialista do movimento antigenocida precisa ter programa próprio, para apresentar para dentro e para fora do conjunto do povo negro. Para apresentar para o conjunto das classes das mulheres, das LGBTs e das pessoas que vivem do trabalho. Um programa que comprometa o povo negro a ter como princípios o combate não apenas a qualquer tipo de racismo, mas também de machismo, de elitismo do capital e de LGBTfobia (heterocissexismo). Não basta unir o povo negro e termos qualquer tipo de opressão entre nós. Não basta nem é aceitável. Nosso programa precisa ser radicalmente contra toda e qualquer estrutura de opressão.

 

E para isso é fundamental, de imediato, espalhar essas duas consciências: a de que o racismo é uma arma ideológica que instrumentaliza as engrenagens de toda uma estrutura de dominação, exploração, acumulação e expansão; e a de que nenhumazinha das contrações musculares involuntárias dum racista funcionariam se o povo negro não trabalhasse para alimentar a vida e a hegemonia da branquitude, em níveis legais ou ilegais de exploração.

 

E o melhor experimento científico para provar ou refutar a minha hipótese se chama greve geral do povo negro.

 

beijinhos de maracujá!

 

Sorocaba, 20 de agosto de 2019

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