A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Notas introdutórias sobre o ecofeminismo

06/09/2019

 

Pintura de Carlos Julio Sanchez Suau
 

Tradução: Mari Luppi  

 

http://boletin.hegoa.efaber.net/mail/37

 

O Ecofeminismo é uma corrente de pensamento e um movimento social que explora os pontos de contato e possibilidades de sinergia entre ecologismo e feminismo. A partir deste diálogo, pretende-se compartilhar e potencializar a riqueza conceitual e política de ambos os movimentos, de modo que a análise dos problemas que cada um deles produz separadamente ganhe em profundidade, complexidade e clareza (Puleo, 2011). É uma filosofia e uma prática que defende que o modelo econômico e cultural ocidental  se desenvolveu desconsiderando as bases materiais e relações que sustentam vida e que “se constitui, é constituído e se mantém por meio da colonização das mulheres , de povos ‘estrangeiros’ e de suas terras, e da natureza" (Shiva y Mies, 1997: 128).

 

A primeira vez que o termo ecofeminismo aparece é em 1974 com a publicação do livro “Feminismo ou a morte” de Françoise D'Eaubounne. Ela assinalou que havia uma relação profunda entre a superpopulação, a devastação da natureza e a dominação masculina, e que para sair da espiral suicida de produção e consumo de objetos supérfluos e efêmeros, da destruição ambiental e da alienação do próprio tempo, era preciso questionar a relação entre os sexos. (Cavana, Puleo e Segura, 2004). Para D'Eaubounne, o controle do próprio corpo é o começo do caminho não-consumista, ecologista e feminista.

 

Este primeiro ecofeminismo não despertou muito interesse na França, mas encontrou algum eco na América do Norte e Austrália, por exemplo no trabalho de Ynestra King, que faz uma análise interessante sobre as diferentes relações interconectadas de dominação e sobre a posição histórica das mulheres em relação a essa dominação.

 

Além disso, durante a década de 70, manifestações públicas de mulheres em defesa da vida ocorreram em vários países da periferia. A mais emblemática foi a do movimento Chipko na Índia. No mundo anglo-saxão, também, numerosas atividades feministas pacifistas se desenvolveram, impulsionadas pela relação entre as mulheres e a defesa da vida. Por exemplo, as manifestantes do Greenham Common exerceram grande pressão em torno das bases de mísseis e centros militares de pesquisa, organizando atos não-violentos, como tecer redes para  fechar as entradas de suprimentos.

 

Esses movimentos foram abordando o problema das relações entre pessoas e natureza a partir de visões muito diferentes, originando várias correntes que nos forçam a falar de ecofeminismos. Simplificando muito a variedade de propostas ecofeministas, pode-se tratar de duas correntes: ecofeminismos essencialistas e ecofeminismos construtivistas (Cavana, Puleo e Segura, 2004).

 

Os ecofeminismos de corte essencialista, também chamados clássicos, entendem que as mulheres, por causa de sua capacidade de dar à luz, estão mais próximas da natureza e tendem a preservá-la. Essa corrente tem uma abordagem ginecocêntrica e essencialista e encontrou forte rejeição no feminismo da igualdade, o qual repudia a ligação natural que tinha servido para legitimar a subordinação das mulheres aos homens. As ecofeministas clássicas valorizam mais as mulheres e o feminino e reivindicam uma "feminilidade selvagem". Consideram os homens como cultura, no sentido rousseauniano, ao tratar cultura como degradação do bom selvagem. Esse ecofeminismo apresenta uma forte preocupação com a espiritualidade e o misticismo e defende a ideia de recuperar o matriarcado primitivo.

 

Esse primeiro ecofeminismo põe em questão as hierarquias que o pensamento dicotômico ocidental estabelece, voltando a valorizar os sujeitos anteriormente desprezados: mulher e natureza. As primeiras ecofeministas denunciaram os efeitos da tecnociência na saúde das mulheres e confrontaram o militarismo, a nuclearização e a degradação ambiental, interpretando-os como manifestações de uma cultura sexista. Petra Kelly é uma das figuras que o representam.

 

Este primeiro ecofeminismo, crítico da masculinidade hegemônica, foi seguido de outros, propostos principalmente do Sul. Alguns deles consideram as mulheres como portadoras de respeito pela vida. Eles acusam o "mau desenvolvimento" ocidental por provocar a pobreza das mulheres e das populações indígenas, as primeiras vítimas da destruição da natureza. Nessa ampla corrente encontramos Vandana Shiva, María Mies ou Ivonne Guevara.

 

Crítico ao essencialismo do ecofeminismo clássico, emerge o ecofeminismo construtivista. A partir dessa abordagem, argumenta-se que a estreita relação entre mulheres e natureza é baseada em uma construção social. É a atribuição de papéis e funções que origina a divisão sexual do trabalho, a distribuição de poder e a propriedade nas sociedades patriarcais, as quais despertam essa consciência ecológica especial das mulheres. Esse ecofeminismo denuncia a subordinação da ecologia e das relações entre as pessoas à economia e sua obsessão pelo crescimento.

 

Nessa linha, Bina Agarwal (Agarwal, 1996) aponta que o papel das mulheres na defesa da natureza é importante porque são aquelas que se preocupam com as provisões materiais e com o suprimento de energia, não porque gostam particularmente dessa tarefa ou por causa de predisposição genética, mas porque são as que são obrigadas a garantir as condições materiais de subsistência.

 

Sem tirar valor de muitas das contribuições, análises e lutas sociais que foram derivadas de ecofeminismos essencialistas, essa introdução situa-se em um ecofeminismo construtivista. Esse ecofeminismo é debitário de todos os campos do pensamento nos quais o feminismo desconstruiu muitos dos dogmas dominantes, mostrando que existem maneiras de compreender a história, a economia, o planejamento territorial, a ciência política ou a vida cotidiana que podem permitir construir outras formas de relação e organização emancipatória para todas as pessoas.

 

Apesar das diferenças de abordagem, todos os ecofeminismos compartilham a visão de que a subordinação das mulheres aos homens e a exploração da natureza são dois lados da mesma moeda e respondem a uma lógica comum: a lógica da dominação e da submissão da vida à lógica da acumulação.

 

Um ecofeminismo crítico e construtivista

 

O ecofeminismo revisa conceitos-chave de nossa cultura: economia, progresso, ciência ... Considera que essas noções hegemônicas mostraram sua incapacidade de conduzir os povos a uma vida decente. Por isso, é necessário olhar para um novo paradigma que deve ser inspirado nas formas de relação praticadas pelas mulheres.

 

Do ponto de vista filosófico e antropológico, o ecofeminismo permite nos reconhecer, nos situar e nos entender melhor como espécie, ajuda a compreender as causas e repercussões da divisão estrita que a sociedade ocidental estabeleceu entre Natureza e Cultura, ou entre razão e corpo; permite-nos intuir os riscos que os seres humanos assumem ao interpretar a realidade a partir de uma perspectiva reducionista que não compreende totalidades, simplifica a complexidade e invisibiliza a importância material e simbólica de vínculos e relações para os seres humanos.

 

Ele desenvolve uma visão crítica ao atual modelo social, econômico e cultural e propõe uma visão diferente da realidade cotidiana e da política, valorizando elementos, práticas e sujeitos que foram designados pelo pensamento hegemônico como inferiores e que foram invisibilizados. 

 

Possivelmente, todos os ecofeminismos concordam com King, quando afirma que: "desafiar o patriarcado atual é um ato de lealdade às futuras gerações e à vida, e ao próprio planeta" (Agra, 1997).

 

Pelo movimento feminista,  o ecofeminismo tem sido percebido como um possível  risco, dado o uso histórico que o patriarcado fez dos vínculos entre mulheres e natureza (Cavana, Puleo e Segura, 2004). Essa relação imposta tem sido usada como argumento para manter a divisão sexual do trabalho. Na mesma linha Celia Amorós adverte contra o que ela chama de prática de uma "moral das queixas" (Amorós, 1985) em relação às mulheres.

 

Essa moral de queixas, para Amorós, ocorre quando o que se pede e se exige não é a mudança de status das mulheres, mas simplesmente o respeito e consideração pelas tarefas que elas executam. Para um ecofeminismo construtivista, não seria uma questão de exaltar os estereótipos femininos, de trancar as mulheres no espaço reprodutivo, mesmo quando visibilizado, negando-lhes acesso ao espaço público. Nem é uma questão de mantê-las exclusivamente responsáveis ​​pela enorme tarefa de cuidar do planeta e da vida. Trata-se de visibilizar a submissão, apontando as responsabilidades e co-responsabilizar homens e mulheres pelo trabalho de sobrevivência.

 

Se o feminismo denunciou como a naturalização da mulher serviu para legitimar o patriarcado, o ecofeminismo sugere que a alternativa não é desnaturalizar as mulheres, mas "renaturalizar" os homens, ajustando a organização política, relacional, doméstica e econômica às condições materiais que tornam a existência possível. Uma "renaturalização" que exige uma mudança cultural que torne visível a ecodependência para mulheres e homens (Herrero et al., 2006).

 

Algumas bases conceituais

 

Essa seção não busca esgotar a gama de questões que fazem parte das preocupações do ecofeminismo, como a desconstrução e reconstrução de olhares emancipatórios, a  consciência crítica da tecnologia e da ciência, a crítica do mito do progresso indefinido, a bioética, o culto ao trabalho, a produção ou a concepção da riqueza hegemônica.

 

Em seguida, apenas vão ser abordados aqueles elementos que fazem parte do diálogo estabelecido entre a economia ecológica e a economia feminista.

 

O ecofeminismo denuncia como os ciclos da vida humana e os limites ecológicos estão fora das preocupações da economia convencional. Essa denúncia perturba as bases fundamentais do paradigma econômico capitalista.

 

Contribui para desmantelar o artifício teórico que separa a humanidade da natureza; estabelece a importância material de vínculos e relacionamentos; concentra-se na imanência e vulnerabilidade dos corpos e da vida humana; e confere um papel essencial à produção e reprodução como elementos inseparáveis ​​do processo econômico.

 

Uma economia que cresce desconsiderando a ecodependência e a interdependência

 

A vida das pessoas tem duas dependências inevitáveis: a que cada pessoa tem da natureza e a de outras pessoas.

 

Os seres humanos obtêm o que precisam para viver da natureza: comida, água, abrigo, energia, minerais ... Portanto, dizemos que somos seres ecodependentes: somos  natureza. No entanto, apesar da óbvia dependência que as pessoas têm da Natureza, o ser humano nas sociedades ocidentais ergueu um muro simbólico entre ele e o resto do mundo vivo, criando um verdadeiro abismo ontológico entre a vida humana e o planeta em que ela se desenvolve.

 

A ideia de progresso está frequentemente relacionada à superação do que é visto como um limite. A dominação sobre a natureza toma forma de obsessão por eliminar obstáculos que impedem a realização de qualquer desejo. Qualquer limite que impeça o progresso neste domínio é apresentado como um desafio a ser superado. A modificação dos limites da natureza tem sido vivida como sinal de progresso. No lado oculto da superação de limites está a destruição, a exaustão ou a deterioração do que precisamos para viver.

 

Mas também, cada ser humano tem uma profunda dependência de outros seres humanos. Ao longo da vida, mas especialmente em alguns momentos do ciclo vital, as pessoas não poderiam sobreviver se não fosse porque outras gastam tempo e energia para cuidar de nossos corpos. Essa segunda dependência, a interdependência, é frequentemente mais oculta que a anterior.

 

Nas sociedades patriarcais, as pessoas que mais lidam com o trabalho de atenção e cuidado às necessidades dos corpos vulneráveis ​​são, em sua maioria, mulheres, porque esse é o papel que a divisão sexual do trabalho lhes impõe. Esse trabalho é realizado no espaço privado e invisível das casas, organizado pelas regras da instituição familiar.

 

Se o corpo e sua vulnerabilidade não são politizados, não podemos ver a centralidade do trabalho daquelas que estão encarregadas da manutenção e do cuidado com corpos vulneráveis ​​nem a necessidade da sociedade como um todo e, é claro, dos homens, assumir a responsabilidade por essas tarefas. Nas sociedades ocidentais, é cada vez mais difícil reproduzir e manter a vida humana, porque o bem-estar das pessoas incorporadas em seus corpos não é uma prioridade (Carrasco 2009).

 

Assumir a finitude do corpo, sua vulnerabilidade e suas necessidades é vital para entender a essência interdependente de nossa espécie, para colocar a reciprocidade, a cooperação, os vínculos e os relacionamentos como condições sine qua non para a humanidade.

 

A ignorância dessas dependências materiais (eco e interdependência) se traduz na noção de produção e trabalho usadas pela a economia convencional e contribuiu para nutrir o mito do crescimento e a fantasia da individualidade. O ecofeminismo, quando analisado em conjunto, ajuda a entender que a crise ecológica é também uma crise das relações sociais.

 

Uma produção que não leva em conta o suporte da vida

 

A redução do valor ao exclusivamente monetários configura o que faz parte do campo de estudo econômico. Esta redução expulsa do campo de estudo da economia a complexidade da regeneração natural e todo o trabalho humano que não faz parte da esfera comercial. Sem serem contados pelo critério do dinheiro, esses elementos se tornam invisíveis. A produção torna-se exclusivamente aquela atividade em que há um aumento do excedente social medido exclusivamente em termos monetários.

 

Raciocinar exclusivamente no universo abstrato dos valores monetários cortou o cordão umbilical que une a natureza e a reprodução cotidiana da vida com a economia. Chegamos ao absurdo de usar um conjunto de indicadores que não só não contam como riqueza bens e serviços essenciais para a vida, como contam a própria destruição como se fosse riqueza.

 

Do ponto de vista ecofeminista, a produção deve ser uma categoria ligada à manutenção da vida e do bem-estar das pessoas (Pérez Orozco 2007), ou seja, o que é produzido deve ser algo que satisfaça as necessidades humanas com critérios de equidade. Hoje, é considerada produção a obtenção de artefatos ou serviços que são socialmente indesejáveis ​​do ponto de vista das necessidades e da deterioração ecológica . Da mesma forma, é considerada produção a simples extração e transformação de materiais finitos preexistentes. Distinguir entre produções socialmente necessárias e socialmente indesejáveis ​​é essencial, e os indicadores monetários utilizados (como o Produto Interno Bruto) não permitem discriminá-las.

 

Ao tornar visível a dependência da economia em relação à natureza e aos trabalhos ligados ao cuidado da vida humana, as fronteiras entre produção e reprodução colapsam, minando assim o patriarcado capitalista.

 

Uma visão ecofeminista sobre o conceito de trabalho
 

A noção de trabalho cunhada nas sociedades industriais se reduz às tarefa que são realizadas na esfera mercantil em troca de um salário. Todas as funções realizadas no espaço de produção doméstico de forma não remunerada, embora garantam a reprodução social e o cuidado dos corpos, não são reconhecidas, embora obviamente ainda sejam essenciais e exploráveis, tanto para garantir a sobrevivência quanto para fabricar uma "mercadoria" muito especial: a mão de obra (Carrasco 2009).

 

A nova economia transformou o trabalho e a terra em mercadorias e começou a tratá-las como se tivesse sido produzidas para serem vendidas. Mas nem a terra nem o trabalho são mercadorias porque, ou não foram produzidas - como é o caso da terra - ou não foram produzidas para serem vendidas - como é o caso das pessoas. Polanyi adverte que esta ficção foi tão eficaz para a acumulação e obtenção de ganhos como perigosa para a sustentação a vida humana. Pode-se entender o escopo desta Grande Transformação se  se lembra de que "o trabalho não é nada mais que um sinônimo de pessoa e terra não é nada mais que um sinônimo de natureza" (Polanyi 1992)

 

A nova noção de trabalho exigiu que o corpo se encaixasse na regularidade e no automatismo exigidos pela disciplina do trabalho capitalista (Federeci 2010). O corpo torna-se uma máquina de trabalho, fortalecendo as noções anteriores que a Modernidade havia estabelecido. A regeneração e a reprodução desses corpos não são responsabilidade da economia que as desconsidera, relegando-as ao espaço doméstico. Lá, fora do olhar público, as mulheres são forçadas a assumir essas funções desvalorizadas, embora sejam tão essenciais para a sobrevivência digna quanto para a reprodução da própria produção capitalista (Carrasco 2009). Deste ponto de vista, podemos defender que as mulheres efetuam uma mediação com a natureza em benefício dos homens.

 

Mies propõe reformular o conceito de trabalho, definindo-o como aquelas tarefas dedicadas à produção da vida. Cristina Carrasco (Carrasco, 2001) aprofunda essa proposta ao apontar que é necessário reorganizar todos os trabalhos e co-responsabilizar os homens e a sociedade como um todo pelo trabalho que as mulheres fizeram ao longo da história. É um trabalho repetitivo e cíclico intensivo no tempo, o que libera os homens - e algumas mulheres - para fazerem trabalhos menos essenciais e muitas vezes prejudiciais para as próprias pessoas e para a natureza. Desta forma, se considerava também a ruptura da dicotomia que separa o trabalho reduzido ao emprego do resto dos empregos que sustentam a vida todos os dias.

 

Desse ponto de vista, o trabalho só pode ser produtivo no sentido de produzir excedente econômico enquanto pode obter, extrair, explorar e se apropriar do trabalho usado para produzir vida ou subsistência. A produção de vida é uma pré-condição para a produção comercial. O trabalho das mulheres é essencial para produzir as próprias condições de produção. Portanto, o capitalismo não pode se manter sem o patriarcado.

 

A valorização dos cuidados leva a economia feminista a cunhar a idéia de sustentabilidade da vida humana (Carrasco, 2001) sob um conceito que representa um processo histórico complexo, dinâmico e multidimensional de satisfazer as necessidades que deve ser continuamente reconstruído, exigindo recursos materiais, mas também contextos e relações de cuidado, fornecidos em grande parte pelo trabalho não remunerado feito em domicílios.

 

Em nossa opinião, esse conceito está relacionado à ideia mais ampla de sustentabilidade ecológica e social. Segundo Bosch, Carrasco e Grau (2005: 322) entendemos sustentabilidade:

 

"Como um processo que não se refere apenas à possibilidade real de que a vida continue - em termos humanos, sociais e ecológicos-, mas também que esse processo significa desenvolver as condições de vida, padrões ou qualidade de vida aceitáveis ​​para toda a população. Sustentabilidade que supõe, então, uma relação harmoniosa entre a humanidade e a natureza, e entre seres humanos. Consequentemente, será impossível falar em sustentabilidade se não for acompanhada de equidade “


 

Recompondo um espaço seguro de vida para a humanidade a partir do ecofeminismo

 

As dimensões ecológica e feminista são essenciais para transformar a concepção e gestão do território e reorganizar os tempos das pessoas ... Sem elas, é impossível vislumbrar um modelo compatível com a biosfera e tentar responder a todas as diferentes formas da desigualdade. A seguir, são delineadas, de forma breve, algumas diretrizes essenciais para guiar, de uma perspectiva ecofeminista, as transições para um modelo econômico, cultural e político que permita a sustentabilidade da vida humana.

 

O ponto de partida é a inevitável redução da extração e pressão sobre os ciclos naturais. Em um planeta com limites, já superados, a diminuição da esfera material da economia global não é tanto uma opção como um fato. Essa adaptação pode ocorrer através da luta pelo uso de recursos decrescentes ou através de um processo de reajuste decidido e antecipado com critérios de equidade.

 

Uma redução da pressão sobre a biosfera que se queira abordar a partir de uma perspectiva que coloca o bem-estar das pessoas como uma prioridade, nos força a propor uma mudança radical de direção. Obriga a promover uma cultura de suficiência e autocontenção material, apostar na relocalização da economia e no estabelecimento de circuitos curtos de comercialização, restaurar uma boa parte da vida rural, reduzir o transporte e a velocidade , empreender uma distribuição radical da riqueza e colocar a reprodução diária da vida e do bem-estar no centro dos interesses.

 

A economia convencional valoriza exclusivamente a economia do dinheiro e formaliza a abstração do Homo economicus como sujeito econômico (My economy). Contra essa concepção, o ecofeminismo se concentra na "We economy", uma economia voltada para a satisfação das necessidades coletivas. Trata-se de buscar novas formas de socialização, de organização social e econômica que permitam nos livrar de um modelo de desenvolvimento que priorize os benefícios monetários sobre a manutenção da vida.

 

Abandonar a lógica androcêntrica e biocida nos obriga a responder às questões inevitáveis:  que necessidades precisam ser satisfeitas para todas as pessoas? Quais são as produções necessárias e possíveis de ser satisfeitas? Quais são os trabalhos socialmente necessários para isso?

 

Responder a essas questões implica uma mudança radical na economia, política e cultura. Trata-se, portanto, de abordar um processo de reorganização do modelo produtivo e de todos os tempos e trabalhos das pessoas.

 

Abordar essa transição com critérios de equidade envolve abordar a redistribuição e repartição da riqueza, bem como uma reconceituação dela. Em um planeta fisicamente limitado, no qual o crescimento econômico ilimitado não é possível, a justiça está diretamente relacionada à distribuição e repartição da riqueza. O acesso a um nível de vida digno para boa parte da população passa também pela drástica redução do consumo daqueles que exercem mais pressão material sobre os territórios com seus estilos de vida.

 

O ecofeminismo, pouco a pouco, vai permeando a análise de outros movimentos sociais e políticos. Acreditamos que essa visão é essencial para realizar uma análise material completa do metabolismo social e estabelecer diagnósticos mais precisos da crise civilizatória. Essa visão é central para ajudar a projetar as transições necessárias para uma sociedade mais justa, compatível com os limites da natureza.

 

 

Leituras e recursos da Web recomendados (em espanhol)

 

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