A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

A História a partir das coisas: o caso do Museu Nacional

 

“Jamais deixou de haver sangue, martírio e sacrifício, quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória; os mais horrendos sacrifícios e penhores, as mais repugnantes mutilações (as castrações, por exemplo), os mais cruéis rituais, tudo isto tem origem naquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da memória.”

 

NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.

 

Apesar de revelar-nos um caráter essencialmente aristocrático em grande parte de sua produção, a filosofia existencialista de Nietzsche toca num ponto infinitamente interessante quando destaca a questão envolvendo a consciência humana a respeito da sua própria existência e os processos de formação da memória. Como é possível perceber na passagem exposta acima, a criação de uma memória é um processo que está longe de ser natural e intensamente permeado por disputas - seja essa memória formada no universo eternamente em crise do indivíduo ou no contexto profundamente mais complexo da formação de uma memória social.

 

Posto isso, passemos, então, para o objeto central desse texto: considerando o potencial incrível que o ambiente urbano do Rio de Janeiro tem para contar sobre a sua própria trajetória e também acerca de sua relação com a história do Brasil enquanto uma Nação, torna-se de grande valia expandir o debate sobre a nossa relação com a memória a partir duma discussão sobre a tragédia que vitimou o Museu Nacional. Como se pode supor, na medida em que estamos falando sobre um museu, a tragédia, que completou um ano muito recentemente, tem uma relação incrivelmente direta com as dinâmicas próprias do universo de debates envolvendo o tema da memória.

 

A explicação para essa afirmação, entretanto, pode ser um pouco mais complexa do que a simples associação entre a ideia daquilo que se tem sobre um museu e o seu papel de “preservação” das memórias. No caso do Museu Nacional, mas não somente nesse caso, o ambiente no qual ele estava inserido, o espaço físico do prédio e suas características importam tanto quanto as suas coleções para que a gente consiga debater sobre a sua relação com a memória. Sobre isso, é possível chamar atenção de antemão para o fato de que as características adquiridas pelo prédio que abriga o Museu Nacional - que ainda vive - ao longo dos anos tinham uma função tremendamente específica que ultrapassava os limites que cercam o campo da estética. O Antigo Paço Real possuía as características neoclássicas justamente para ser um agente que atuava de modo ativo no processo de disputa por hegemonia cultural que se estabeleceu no Brasil durante o século XIX.

 

Não dá para dissociar o prédio do Museu Nacional duma perspectiva aristocrática de sociedade que visava se estabelecer a partir do apagamento de outras identidades existentes no Brasil, identidades que estavam a margem dos padrões definidores do mundo ocidental. Para ser mais claro, estou falando aqui sobre uma ação da monarquia para ditar, de maneira excludente, quais eram os parâmetros desejados para estar inserido na sua ideia de Nação brasileira. Essa marca de uma sociedade excludente, profundamente visível em todos os cantos do prédio que se queimou, era justamente o que estava sendo questionado e cotidianamente enfrentado pelas coleções preservadas na instituição vitimada pelas chamas.

 

As coleções, com diversos elementos das mais diferentes identidades dos indígenas brasileiros, a recente coleção envolvendo a pluralidade da história dos africanos e as demais coleções que também mostravam a diversidade de identidades que estabeleceram relações com o Brasil, questionavam, e muito, a imposição de uma narrativa única sobre a história das civilizações. O Museu Nacional era, portanto, um espaço onde era possível presenciar todos os dias uma grande disputa pela inserção de outras identidades na memória do que é a Nação brasileira, que volta e meia encontra governantes interessados em estabelecer uma história única para chamar de sua. Foi justamente essa disputa ativa e cotidiana pela diversidade que se queimou no dia 2 de setembro de 2018, e isso ocorreu em decorrência do aprofundamento de uma política de sucateamento das instituições inseridas no universo cultural que é longuíssima data.

 

A falta de investimento do Estado nessas instâncias levaram o Museu Nacional ao estado precário de funcionamento e este levou a instituição até essa tragédia. Ver aquele prédio de imenso valor histórico se queimar junto com as coleções que mantinham a vida de algumas identidades que buscam lutar contra o apagamento nas disputas inseridas no campo da memória foi, sem dúvida alguma, uma enorme dor pessoal. Porém, o estrago feito com o incêndio do Museu Nacional está para muito além disso.

 

A questão que se coloca neste exato momento, um ano após o incêndio, é: sem o contato com as disputas dentro do ambiente do Museu Nacional, como podemos lutar contra o apagamento de identidades marginalizadas num modelo de sociedade capitalista ocidental que busca sempre pelo estabelecimento de uma história única? É possível criar novos elementos para fortalecer essas memórias e avançar na inserção social dessas identidades, as pesquisas que se desenvolvem a partir da ligação do Museu Nacional com a UFRJ podem trazer novos acervos que manterão essas disputas ativas. Porém, é preciso investimento e uma outra concepção de sociedade.

 

Como pesquisador do Museu Nacional, afirmo que não resta dúvida de que todo os grupos sociais precisam ter o direito de participar dos espaços de criação de memórias para a nossa sociedade, mas esses espaços só serão alargados a partir duma nova perspectiva para o campo da cultura. A tragédia que vitimou o Museu Nacional está inserida num contexto onde os olhos da política social estão voltados muito mais para um determinado conceito sobre o Amanhã (ou Museu do Amanhã, que tem como verba mensal simplesmente muito mais do que orçamento anual do Museu Nacional). 

 

Dados e percepções que mostram o quanto os modelos de sociedade industrial ou rentista do capitalismo ocidental não comportam algum interesse por essa perspectiva e o seu avanço fomenta o efetivo sucateamento e até mesmo a queima dos aparatos culturais que promovem a diversidade na nossa sociedade. O Museu Nacional precisa viver, pois é um agente efetivo de contestação da ordem social vigente.      

 

* Leonardo Amatuzzi, doutorando em Arqueologia do Museu Nacional e militante da Comuna no RJ

 

 

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