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Trotsky, revoluções e a constituição do “trotskismo” original

07/11/2019

 

 Trotsky, revoluções e a constituição do “trotskismo” original

(2000)

Daniel Bensaïd

Tradução de Julia Piccoli

Revisão de Pedro Barbosa

 

Tradução originalmente publicada em: https://teoriamarxista.wixsite.com/blog-mri/post/trotskismo-original-bensaid

 

Certas teses “trotskistas”, como a teoria da revolução permanente, apareceram primeiramente no início do século XX, estando relacionadas à Revolução Russa de 1905. Contudo, o termo “trotskismo” somente apareceu, como um termo banal do jargão burocrático, em 1923-24. Depois da vitoriosa guerra civil, e sobretudo em 1924 depois do fracasso do Outubro alemão e da morte de Lenin, os líderes da Rússia soviética e a Internacional Comunista se encontraram em uma situação imprevisto de relativa estabilização internacional e de isolamento duradouro da União Soviética. Não era mais a base social que sustentava a superestrutura do Estado, mas a vontade da superestrutura que buscava absorver a base.

 

Depois de sofrer seu primeiro derrame em março de 1923, Lenin recomendou a Trotsky começar a combater Stalin nas questões de monopólio do comércio exterior, nacionalidades e especialmente o regime interno do partido. Em uma carta enviada ao Comitê Central em outubro de 1923, Trotsky denunciou a burocratização das instituições de Estado. Em dezembro daquele mesmo ano, ele reuniu tais críticas em uma série de artigos reivindicando um Novo Curso. Isso provocou a luta contra o “trotskismo” e suas demandas: o restabelecimento da democracia interna do partido e a adoção de um plano econômico para controlar os efeitos desiguais e centrífugos da Nova Política Econômica (NEP). Em dezembro de 1924, no Pravda, Stalin pessoalmente caracterizou o trotskismo como uma “variação do menchevismo” e como um “desespero permanente”. Ele opôs a isso a audaciosa construção do “socialismo em um só país”, ao invés de esperar ser salvo por uma extensão da revolução em outro lugar, o que poderia nem acontecer.

 

Após a incorporação massiva de militantes do “recrutamento Lenin”, em 1924, os poucos milhares de veteranos de Outubro não pesavam mais muito como membros do partido em comparação às centenas de milhares de novos membros, dentre os quais muitos eram carreiristas de última hora. Em um país que carece de tradições democráticas e em seguida ao massacre da Grande Guerra, as perdas da guerra civil deixaram um povo acostumado com formas extremas de violência física e social. A desordem causada pela guerra e pela guerra civil levou a um “grande salto para trás” e uma reversão a um nível arcaico de desenvolvimento comparado àquele alcançado antes de 1914. Dos 4 milhões de habitantes de Petrogrado em 1917, restaram apenas cerca de 1,7 milhões em 1929. Mais de 380.000 trabalhadores deixaram a produção e apenas 80.000 continuaram trabalhando. A cidade operária, Putilov, perdeu 80% dos seus trabalhadores, enquanto mais de 30 milhões de camponeses enfrentaram escassez de alimentos e fome. As cidades devastadas viviam sob campanhas autoritárias de requisição. “Na verdade”, observa o historiador Moshe Lewin, “o Estado se formou na base de um desenvolvimento social regressivo”.

 

O privilégio floresce em meio a escassez: ali residem as raízes fundamentais da burocratização. Em um diário ditado em 1923 a seus secretários, Lenin, já doente, afirmou que “chamamos de nosso um aparato que nos é completamente estranho e que representa uma mistura de sobrevivências de classe média e czaristas”. Naquele ano, os preços de produtos manufaturados haviam praticamente triplicado em relação a 1914, enquanto os preços de produtos agrícolas haviam aumentado em menos de 50%. Esta desproporção explica o desequilíbrio entre campo e cidade, e a recusa dos camponeses de entregar suas colheitas sob a imposição de baixos preços, enquanto não havia nada para comprar.

 

Os líderes bolcheviques sempre conceberam a revolução na Rússia como o primeiro passo rumo à revolução europeia ou, ao menos, como um prelúdio à revolução alemã. A questão colocada em 1923 era então: como se segurar até um possível recomeço do movimento revolucionário na Europa? Em 1917, todos os partidos russos admitiam que o país não estava maduro para o socialismo. Entretanto, o próprio “democrata” Miliukov avaliava que o país tampouco estava pronto para a democracia. Ele não enxergava nenhuma alternativa entre a ditadura militar de Kornilov e a ditadura dos sovietes. Isso significava uma guerra implacável entre revolução e contrarrevolução.

 

Desde antes da morte de Lenin, as respostas divergiam. A estratégia da “construção do socialismo em um só país”, defendida por Stalin e seus aliados, subordinava as chances da revolução mundial aos interesses da burocracia soviética. Já a estratégia da revolução permanente, desenvolvida por Trotsky e pela Oposição de Esquerda, subordinava o futuro da Revolução russa à extensão da revolução mundial. Essas estratégias implicavam respostas divergentes com relação aos principais acontecimentos internacionais: relações entre Inglaterra e Rússia em 1926, a segunda revolução chinesa de 1927, a ascensão do nazismo na Alemanha, e depois as atitudes radicalmente contrárias com relação à guerra civil espanhola, o pacto entre Alemanha e União Soviética de 1939 e as preparações para a guerra.

 

As duas estratégias se opunham igualmente com relação às políticas internas da União Soviética. Trotsky e a Oposição de Esquerda propuseram, depois de 1924, um “novo curso” direcionado ao reavivamento da democracia soviética e do papel do Partido. Eles pautaram políticas de planejamento e industrialização que visavam reduzir as tensões entre a agricultura e a indústria. Entretanto, eles se opuseram à brutal guinada dada por Stalin em 1928, abandonando a construção do “socialismo a passo de tartaruga” proposto por Bukharin e rumando na direção da coletivização forçada e da industrialização acelerada do Primeiro Plano Quinquenal, o despojou o campo e levou à grande fome de 1932 na Ucrânia.

 

Diante de tais alternativas tão distintas, alguns historiadores se questionaram a respeito da relativa passividade de Trotsky imediatamente após a morte de Lenin, sua relutância de começar uma implacável batalha contra Stalin, sua concordância em varrer o testamento de Lenin para debaixo do tapete. Interesse próprio seria uma explicação plausível e lógica para esta situação. Na metade da década de 1920, ele estava perfeitamente consciente da fragilidade de uma revolução cuja base na classe trabalhadora e urbana eram estreitas, e da necessidade de trabalhar com um campesinato atrasado que constituía a maioria avassaladora da população. Diante de tal equilíbrio instável, favorável a soluções bonapartistas, ele se recusou a ser empurrado pelo exército (onde sua popularidade permanecia alta) e pela casta de oficiais, porque um golpe de Estado militar teria somente acelerado o processo de burocratização.

 

No entanto, a disputa política, na verdade, já havia sido iniciada desde 1923. Em 1926, uma oposição unificada foi estabelecida, vendo-se como uma tendência que respeitava a autoridade legal do Partido; sua perspectiva era redirecionar e reformar o regime. Em maio de 1927, depois da derrota da segunda revolução chinesa, a oposição convocou uma mobilização massiva de militantes. Em outubro daquele mesmo ano, no décimo aniversário da revolução, Zinoviev e Trotsky foram expulsos do partido. Trotsky foi exilado e enviado para Alma Ata, enquanto mais de 1500 membros da oposição de esquerda foram deportados. Os expurgos começaram.

 

Em 1929, diante de uma situação econômica catastrófica, Stalin se voltou contra a ala direita do partido. Ele parecia, ao instituir o primeiro plano quinquenal, estar adotando certas sugestões da oposição. Esta virada precipitou uma divisão dentro da Oposição. Alguns de seus líderes mais prestigiados viram nessa "revolução de cima para baixo" um giro à esquerda. Capitulações e deserções seguiram-se uma após a outra. Para Trotsky, aqueles que haviam se reconciliado com o regime termidoriano eram, daí para frente, “almas perdidas”: planejamento sem restauração da democracia socialista somente reforçaria mais o poder da burocracia. Então começou um longo êxodo, impelido a permanecer nas margens do movimento de massas.

Estas trágicas batalhas internas moldaram as características originais definidoras do trotskismo. Sua essência pode ser resumida em quatro pontos.

 

1) A oposição da teoria da revolução permanente à teoria do “socialismo em um só país”

 

Os elementos desta estratégia emergiram da anterior revolução russa de 1905. Eles foram desenvolvidos durante a década de 1920 e encontraram sua mais plena expressão nas teses de Trotsky acerca da segunda revolução chinesa de 1927:

 

“Com relação aos países com um desenvolvimento burguês atrasado, especialmente os países coloniais e semicoloniais, a teoria da revolução permanente significa que a solução completa e genuína de suas tarefas de alcançar a democracia e a emancipação nacional é somente concebível através da ditadura do proletariado como o líder da nação subjugada, sobre todas as suas massas camponesas. A conquista do poder pelo proletariado não encerra a revolução, mas somente a inicia. A construção socialista somente é concebível sob o fundamento da luta de classes, em uma escala nacional e internacional. É impensável a revolução socialista se completar dentro de limites nacionais. Uma das razões básicas da crise da sociedade burguesa é o fato de que as forças produtivas criadas por ela não podem mais ser reconciliadas no quadro de um estado nacional. Disso segue… guerras imperialistas… Diferentes países passarão por este processo em diferentes tempos. Países atrasados podem, sob certas condições, chegar à ditadura do proletariado mais rápido que países desenvolvidos, mas alcançarão o socialismo posteriormente” (Trotsky 1928/1962, pp. 152-155).

 

Em sua introdução à edição alemã de 1930 de seus textos sobre a Revolução Permanente, Trotsky denuncia o amálgama stalinista de “nacionalismo messiânico (...) complementado por um internacionalismo burocraticamente abstrato” (ibid., p. 25). Ele sustenta que a revolução socialista permanece, mesmo depois da tomada de poder, "uma continua batalha interna” através da qual a sociedade “continua a mudar seus aspectos” e dentro da qual inevitáveis conflitos surgem dos “vários agrupamentos dentro dessa sociedade em transformação”. Esta teoria está imbuída de uma concepção não linear e não mecânica da história, onde a lei do “desenvolvimento desigual e combinado” determina apenas um rol de possibilidades cujo desfecho não é determinado de antemão. "O marxismo", escreve Trotsky, "toma seu ponto de partida da economia mundial, não como uma soma de partes nacionais, mas como uma realidade poderosa e independente que foi criada pela divisão internacional do trabalho e pelo mercado mundial, que em nossa época imperiosamente dominam os mercados nacionais” (Ibid., p. 22).

 

2) Sobre reivindicações transitórias, a Frente Única e a luta contra o Fascismo

 

A questão colocada à luz pela revolução russa era: como mobilizar os maiores números possíveis; como aumentar o nível de consciência através da ação; e como criar a mais efetiva aliança de forças para o inescapável confronto com as classes dominantes. Foi isso que os bolcheviques souberam como fazer em 1917, ao redor das questões vitais do pão, da paz e da terra. Era uma questão de ir além da discussão abstrata a respeito da virtude intrínseca das reivindicações, se reformistas por natureza (porque compatíveis com a ordem estabelecida) ou revolucionária por natureza (porque incompatível com tal ordem). A adequação das reivindicações dependem de seu valor de mobilização em conexão com uma situação concreta, e em seu valor educacional para aqueles que adentram a luta. O conceito de “reivindicações transitórias” supera as antinomias estéreis entre um gradualismo reformista, que acredita na mudança da sociedade sem revolucioná-la, e um fetiche do “dia glorioso”, que reduz a revolução a seu momento de clímax, em detrimento do trabalho paciente de organização e educação.

 

Esse debate está diretamente relacionado àquele que estava no centro de discussões estratégicas sobre o programa do Quinto e Sexto Congressos da Internacional Comunista. Apresentando um relatório sobre a questão em 1925, Bukharin reafirmou a validade das “táticas da ofensiva” do início dos anos 1920. Por outro lado, no Quinto Congresso, Thalheimer, o representante da seção alemã, defendeu a ideia da frente única e de reivindicações transitórias. Ele argumentou particularmente:

 

“Basta olhar para a história da Segunda Internacional e sua desintegração para reconhecer que é precisamente a separação entre as questões cotidianas e objetivos mais amplos que constituiu o ponto de partida de sua queda no oportunismo (...) A diferença específica entre nós e os socialistas reformistas reside não no fato de que nós queremos eliminar do nosso programa reivindicações por reforma, qualquer que seja o nome que lhes dermos, visando nos distanciar deles. Na verdade, consiste no fato de que nós situamos essas reivindicações transitórias na mais íntima relação com os nossos princípios e nossos objetivos".

 

A questão esteve novamente na pauta do Sexto Congresso de 1928, sob condições profundamente distintas. Exilado na Turquia desde 1929, Trotsky se beneficiou de seu retiro forçado para avaliar mais profundamente os últimos dez anos de experiências revolucionárias. Essa reflexão forneceu o material para os textos sobre A Internacional Comunista depois de Lenin. Em sua crítica ao programa da Internacional Comunista (IC), publicada em Constantinopla em 1929, Trotsky condenou o abandono do lema dos Estados Unidos Socialistas da Europa. Ele rejeitou qualquer confusão entre a sua teoria da revolução permanente e a teoria de Bukharin da ofensiva permanente. Ele novamente caracterizou o fascismo como um “estado de guerra civil” levado a cabo pelo capitalismo contra o proletariado.

 

Imediatamente após o Congresso, em uma guinada que se deu paralelamente à política de liquidação dos kulaks e à coletivização forçada na União Soviética, a IC adotou uma orientação de “classe contra classe”. Isso fez da social-democracia a principal inimiga e produziu uma divisão fatal no movimento operário alemão estava diante da ascensão do nazismo. Em uma brochura intitulada chamado O terceiro período de erros da Internacional Comunista, Trotsky denunciou esse desastroso curso não como uma recaída em um entusiasmo revolucionário, explicável como esquerdismo de juventude, mas como um esquerdismo senil e burocrático, subordinado aos interesses do Kremlin e aos zigue-zagues de sua diplomacia. Em História da revolução russa, ele insistiu no estudo sério dos índices de radicalização das massas (a evolução do poder dos sindicatos, resultados eleitorais, a taxa de greves) ao invés de proclamar abstratamente a possibilidade constante da ação revolucionária: “a atividade das massas pode tomar formas muito diferentes de acordo com as condições. Em certos momentos, as massas podem ser completamente absorvidas por lutas econômicas e expressar muito pouco interesse em questões políticas. Da mesma forma, podem, depois de terem sofrido vários reveses importantes no fronte econômico, elas podem abruptamente direcionar sua atenção para o campo político”. Em seus Escritos sobre a Alemanha, Trotsky apresenta dia após dia propostas de ação unificada para derrotar a resistível ascensão do nazismo. Eles fornecem um exemplo brilhante de pensamento político concreto adaptado às mudanças na situação econômica. Eles eram raios arremessados na direção da “ortodoxia” do Partido Comunista Alemão, que estava casada com a estúpida profecia de que “depois de Hitler, vem a vez de Thälmann [o então Secretário-Geral do PC Alemão]”.

 

Em 1938, o programa de fundação da Quarta Internacional (ou Programa de Transição) sintetizou as lições dessas experiências:

 

“No processo de sua luta diária, as massas devem ser auxiliadas a encontrar uma ponte entre suas reivindicações imediatas e o programa da revolução socialista. Essa ponte deve consistir em um sistema de reivindicações transitórias, baseado nas atuais condições e na consciência real de amplas camadas da classe trabalhadora, e inexoravelmente levando-as em direção a uma única conclusão: a conquista do poder pelo proletariado (...). A Quarta Internacional não rejeita as reivindicações do antigo programa mínimo na medida em que elas conservem alguma vitalidade. Defende incansavelmente os direitos democráticos dos trabalhadores e suas conquistas sociais. Mas encara esse trabalho diário do ponto de vista revolucionário”.

 

O programa incluía reivindicações de escalas móveis de salários e horas, de controle operário da produção (uma escola para a economia planificada) e transparência financeira, de “expropriação de certos grupos de capitalistas”, de nacionalização do crédito. Dava especial importância para reivindicações democráticas e nacionais nos países coloniais e semi-coloniais. Esse programa não constituiu um modelo pronto e definitivo de sociedade; na verdade, ele desenvolveu um modo de compreender a ação no qual a emancipação dos trabalhadores permanecia uma tarefa dos próprios trabalhadores.

 

3) A luta contra o stalinismo e a burocracia

 

No início dos anos 1920, alguns economistas soviéticos enxergavam a economia capitalista mundial mergulhando em uma estagnação sem fim. Trotsky foi um dos primeiros a analisar a sua relativa recuperação. Nesse contexto, ele chegou a considerar a economia soviética não como uma economia socialista, mas como uma “economia em transição” em um país subjugado a constantes ameaças militares e forçado a dedicar um parcela desproporcional de seus escassos recursos para a defesa. Não se tratava, então, de construir uma sociedade ideal em um só país, mas de ganhar tempo enquanto se aguardava o refluxo e fluxo da revolução mundial, cuja autoridade final determinava o futuro da revolução russa. A revolução russa permaneceria constrangida pelo mercado mundial e pela competição com países com tecnologia mais desenvolvida e maior produtividade do trabalho, enquanto permanecessem sem o apoio do movimento revolucionário de países mais desenvolvidos.

 

Dentro desse quadro de contradições, Trotsky foi um dos primeiros a notar o perigo da burocracia como uma nova força social desfrutando de privilégios sociais relacionados ao seu monopólio do poder político. Se, à época da guerra civil e do comunismo de guerra, ele havia sido a favor de métodos autoritários, como atestado por seu pior livro, Terrorismo e comunismo (1921), desde 1923 ele havia começado a analisar a burocratização como um fenômeno social, mesmo que a seus olhos a “nova classe média” dos kulaks e dos Nepmen ainda permaneciam o principal perigo. Essa questão decisiva da periodização da contrarrevolução burocrática continuou a confrontar movimentos revolucionários russos e internacionais. Era uma questão de saber se o “termidor soviético” já havia sido alcançado ou se ainda estava por vir.

 

A contrarrevolução burocrática não era um único evento, simétrico àquele de Outubro, mas de um longo e cumulativo processo de diferentes níveis e estágios. De outubro de 1917 até o Gulag stalinista, não há uma simples continuidade, mas diferentes níveis de repressão e peso da burocracia. Ao mesmo tempo da coletivização forçada, uma reforma crucial do sistema prisional se deu em junho de 1929, generalizando campos de trabalho para todos os prisioneiros condenados com sentenças de mais de três anos. Diante da grande fome de 1932-1933 e da importância das migrações internas, uma decisão de dezembro de 1932 introduziu passaportes internos. A lei de 1º de dezembro de 1934 introduziu procedimentos que forneciam os instrumentos legais do grande terror. Então começou ciclo genuinamente terrorista marcado pelos grandes expurgos de 1936-1938. Mais da metade dos delegados do congresso de 1934 foi eliminada; mais de 30.000 quadros de um exército de 178.000 foram mortos. Em paralelo, o aparato do estado burocrático explodiu: de acordo com as estatísticas de Moshe Lewin, os números de pessoal administrativo foram de 1,45 milhões em 1928 para 7,5 milhões, em 1939, enquanto o número de trabalhadores de escritório saltou de 4 milhões para quase 14 milhões. O aparato estatal devorou o partido, que pensou que possuía o poder para controlá-lo.

 

Sob o chicote russo [cnute] burocrático, o país assim testemunhou uma turbulência sem equivalente no mundo. Entre 1926 e 1939, as cidades cresceram em 30 milhões de habitantes, e sua força do trabalho remunerada foi de 10 para 22 milhões. Isso resultou em uma ruralização massiva das cidades e na imposição despótica de uma nova disciplina de trabalho. Essas transformações em marcha forçada foram acompanhadas pela exaltação do nacionalismo e um aumento massivo do carreirismo. Nesse grande furacão social e geográfico, como Moshe Lewin comenta ironicamente, a sociedade estava em certo sentido “sem classes”, porque todas as classes eram disformes, em fusão perpétua.

 

Apesar de diferenças em suas perspectivas, autores tão diferentes como Trotsky e Hannah Arendt concordaram que o primeiro Plano Quinquenal e os grandes expurgos de 1930 foram uma ponto de virada qualitativo após o qual se tornou possível falar de uma contrarrevolução burocrática (para Trotsky) ou totalitarismo (para Arendt). A contribuição de Trotsky foi fornecer os elementos para uma compreensão materialista da contrarrevolução burocrática, em que condições sociais e históricas precedem as intrigas palacianas ou a psicologia dos atores. Ele não reduz eventos colossais envolvendo multidões aos caprichos de uma “história vista por cima”, feita por guias supremos ou grandes capitães. Sua contribuição, portanto, não encerra o debate, e definitivamente não resolve os problemas históricos que continuaram a dividir seus herdeiros “ortodoxos” e “heterodoxos”.

 

Ele buscou particularmente situar as etapas do processo no qual a burocracia se tornou autônoma e o poder se concentrou nas mãos de um indivíduo. A extensão da cristalização de privilégios, a relação entre classes, Partido e Estado, e a orientação burocrática das políticas internacionais representam vários indicadores que ele combinou para tentar determinar essas etapas. O elemento mais revelador dessa ruptura reacionária, no entanto, não era sociológico, mas político: ele residia na bancarrota da Internacional Comunista com relação à ascensão e vitória do nazismo na Alemanha. Em 1937, quando os julgamentos de Moscou e o grande terror estavam em pleno curso, Trotsky retificou sua posição: “Nós havíamos formalmente definido o stalinismo como um centrismo burocrático. Essa definição é hoje redundante. Os interesses da burocracia bonapartista não mais correspondem ao caráter híbrido do centrismo. O caráter contrarrevolucionário do stalinismo na arena mundial está definitivamente estabelecido”. Daí se seguiu a necessidade de desistir da posição de redirecionamento e reforma da URSS: “a tarefa central de agora em diante é a de derrubar a própria burocracia termidoriana”. Essa revolução se qualificava como política na medida em que supõe-se que estaria embasada nos direitos sociais já existentes (propriedade estatal e planejamento). Em seu ensaio sobre Trotsky, Ernest Mandel usa a paradoxal fórmula para o stalinismo de “contrarrevolução política na revolução”. Uma definição tão ambígua levou a uma insistência em caracterizar o estado como um estado operário burocraticamente degenerado, então atribuindo-lhe um conteúdo social que abria margem para muitas ambiguidades.

 

O programa da revolução política ainda incluía uma série de reivindicações democráticas já apresentadas em 1927 na Plataforma da Oposição de Esquerda: “1) Evitar qualquer tentativa de extensão da jornada de trabalho; 2) Aumentar os salários, ao menos em relação à atual produção industrial; (...) 5) Reduzir os aluguéis...”. Essa plataforma categoricamente condenou a prática de remover representantes sindicais eleitos sob o pretexto de discordar da linha interna do partido. Defendia total independência para os comitês de fábrica e comitês locais com relação à administração estatal. Por outro lado, não colocava em questão “a posição de partido único ocupada pelo Partido Comunista da União Soviética”. Se satisfazia de anunciar que aquela situação, “absolutamente essencial para a revolução”, gerou uma série de “perigos excepcionais”. O Programa de Transição de 1938 marca uma mudança fundamental nesse ponto. Nele, o pluralismo político, a independência dos sindicatos em relação ao Partido e ao estado e liberdades democráticas se tornaram questões de princípio, na medida em que expressavam a heterogeneidade do proletariado e os conflitos de interesse potenciais dentro dele, que provavelmente irão persistir bem além da conquista do poder. Em A revolução traída, Trotsky mostrou as bases teóricas desse pluralismo de princípio. Classes não são homogêneas “como se a consciência de uma classe correspondesse exatamente a seu lugar na sociedade”. Elas são “atravessadas por antagonismos internos e chegam a seus objetivos últimos somente através da competição de tendências, coalizões e partidos. Pode-se reconhecer com certas reservas qual partido é uma fração de qual classe, mas como uma classe é feita de várias frações, a mesma classe pode formar vários partidos”. Portanto, o proletariado da sociedade soviética “não é menos, mas muito mais heterogêneo e complexo do que aqueles de países capitalistas, e pode consequentemente fornecer um terreno fértil suficientemente grande para a formação de vários partidos”. Trotsky concluiu disso que a democratização dos sovietes era dali em diante “inconcebível sem o direito a um sistema multi-partidário”.

 

4) A questão do Partido e da Internacional

 

Esse é o quarto grande ponto constitutivo do "trotskismo" original. É o corolário organizativo da teoria da revolução permanente, e de se compreender a revolução como um processo internacional. A última batalha de Trotksy por uma nova Internacional, que ele considerou ser a mais importante de sua vida, foi contra a evolução nacionalista do regime soviético e sua consequência previsível: a liquidação da própria Internacional Comunista, o que se deu oficialmente em 1943.

 

Bibliografia

 

LEWIN, M. (1975), Correntes políticas nos debates econômicos soviéticos. Londres, Pluto Press.

TROTKSY, L. D. (19xx/1975), Terrorismo e comunismo: uma resposta a Karl Kautsky. Londres, New Park.

TROTSKY, L. D. (1928/1962), A revolução permanente e Balanço e perspectivas. Londres, New Park Publications.

TROTSKY, L. D. (1932/1965), História da revolução russa. Londres, Gollancz.

TROTSKY, L. D. (19xx/1967), A revolução traída - o que é a União Soviética e aonde ela está indo?. Londres, New Park.

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