A ousadia de dizer o óbvio: Fora Bolsonaro! – É urgente e necessário construirmos o Fora Bolsonaro

 


Vivemos um momento decisivo. Se em 1989, com a queda do muro de Berlim, se falava em “fim da história”, com uma vitória completa do capitalismo e da democracia liberal diante de qualquer outra alternativa, hoje a História se mostra, como deveria ser óbvio, viva e aberta. O tempo da paz duradoura e da simples luta por melhorias no suposto único sistema possível (o capitalismo) acabou, mesmo aos olhos daqueles que acreditaram nisso. A crise de 2008, com seus efeitos brutais ao longo de todo o globo, abriu a caixa de pandora. O recrudescimento das políticas de austeridade, necessário para socorrer o grande capital, demanda um enfraquecimento da já limitada democracia liberal. Por outro lado, a insatisfação com a piora das condições de vida gera uma espécie de sentimento antissistêmico em muita gente. Esse sentimento, que assenta as bases para o surgimento de alternativas radicais, tem sido captado, no mundo inteiro – e no Brasil – sobretudo pela extrema-direita.

 

É nesse contexto, somado aos erros do PT – adequação à ordem corrupta, naturalização do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, conciliação de classes, alianças com partidos de direita e desmobilização popular – que no Brasil emerge a alternativa Bolsonaro. Trata-se de um governo conformado por uma frente entre setores das Forças Armadas, do judiciário e do aparato de repressão, ultraliberais, fundamentalistas religiosos e um clã familiar de fascistas e milicianos. Essa “frente”, a partir de sua vertente ultraliberal, adota como política econômica uma ortodoxia de mercado que, em resumo, visa retirar direitos como forma de garantir empregos e investimentos, destruir todo o serviço público do país e privatizar absolutamente tudo. Guiados por uma ideia de que o mercado é o melhor organizador da sociedade, colocam o Brasil à venda e buscam os compradores ao redor do mundo. Por isso, por mais que o governo enfrente crises pelos absurdos que diz e seja constantemente exposto ao ridículo internacionalmente, segue contando com apoio – ou pelo menos com a condescendência – dos setores do mercado brasileiro e dos mercados internacionais.

 

Nesse cenário, as esquerdas parecem atônitas. Para além de bravos exemplos de resistências locais, com destaque para os povos indígenas e de algumas importantes manifestações de rua, não temos conseguido muita coisa. O chamado “campo democrático e popular”, que governou o Brasil de 2003 a 2016, parece apostar nas eleições de 2022 como maneira de retornar ao poder e frear os retrocessos do governo federal. Nesse sentido, a tática política adotada vem sendo a de torcer por um desgaste crescente do governo a partir de suas próprias crises internas, e apresentar uma alternativa ungida pelas mãos do Lula (seja ele mesmo, ou algum indicado por ele). Enquanto isso, nos estados em que o “campo” governa – o Ceará entre eles – reformas da previdência adequadas e coerentes com a aprovada pelo governo federal, que basicamente retiram direito de servidores já extremamente sacrificados, foram aprovadas sem debate com a sociedade e à base de repressão policial, para ficar em apenas um exemplo de contradição.

 

Adotar essa tática, que prioriza as eleições de 2022 e busca o retorno a um passado supostamente glorioso (os governos Lula) como solução para o presente, enquanto se segue naturalizando uma lógica de austeridade e de mercado nos estados onde governa, não parece ser o caminho para nenhum tipo de vitória no campo da esquerda. Estamos numa esquina da história. O capitalismo está se transformando rapidamente e aparentemente caminhamos para um mundo e um país ainda mais desiguais, beirando um cenário distópico. Não podemos dar respostas velhas para problemas novos, sobretudo quando parte dos novos problemas foi causada justamente pelos erros das velhas respostas. Nesse sentido, se a esquerda pretende ter relevância social e voltar a pautar o país, é preciso ousar.

 

Vivemos sob o pior governo da história democrática do país. Em termos de ideologia, temos um presidente que profere discursos racistas e lgbtfóbicos, incita a violência contra os diferentes, tem uma visão de mundo profundamente machista e incentiva a destruição ambiental. Um presidente e uma equipe de governo que distorcem a história, mentem cotidianamente e promovem suas próprias crenças religiosas (muitas vezes distorcidas) em detrimento da ciência. Fora isso, um governo que foi eleito com um discurso de combate à corrupção, mas em seu primeiro ano já acumula acusações dos mais diversos tipos – favorecimento de familiares, rachadinha, conflito de interesses, envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson, envolvimento com milícias, lavagem de dinheiro, e por aí vai...

 

Fora tudo isso, o governo é de uma incompetência absurda. Liderada por um presidente despreparado em todos os sentidos, uma equipe completamente incapaz segue acumulando problemas gigantescos para o país. A fila do INSS está gigante, com perspectiva de até um ano de espera, e o governo apresenta como solução colocar militares – mal preparados tecnicamente para isso – para resolver o problema. O Bolsa Família, que tinha sua fila zerada em 2018, agora tem cerca de meio milhão de pessoas no limite da fome, esperando para receber os pequenos benefícios. A auditoria feita no BNDES, motivada pelas acusações de que havia corrupção no Banco, custou R$48 milhões aos cofres públicos, e mostrou que não havia absolutamente nada de ilegal nas operações do banco nos últimos anos. Por fim, e não menos importante, o ENEM, que afeta diretamente a vida de milhões de jovens em todo o país, teve o pior processo de todos os tempos, com problema nas correções das provas, estudantes que escolheram uma universidade e foram mandados para outra, e uma total falta de credibilidade em todo o processo. Além de ideologicamente ruim, o governo é brutalmente incompetente. Um fiasco administrativo.

 

Há quem diga que a economia vai bem. A abertura de caminhos de privatização, a mercantilização dos serviços públicos e todas as políticas de austeridade supostamente trarão investimentos estrangeiros para o país. O Brasil estaria se tornando um ambiente melhor para os negócios. Isso é uma falácia. Primeiro, não é automático que investidores venham ao país como consequência de determinadas medidas econômicas – tenhamos certeza que o flerte do governo com o fascismo (e até com o nazismo), o desleixo ambiental e a imbecilidade do presidente atrapalham a criação de um “ambiente seguro para os negócios”. Além disso, mesmo que algo melhore nesse sentido, pessoas e negócios não são a mesma coisa: bons negócios não garantem a melhoria de vida das maiorias mais pobres do país, que têm perdido direitos básicos como a aposentadoria e quaisquer garantias trabalhistas. A criação de subempregos precarizados, com salários baixíssimos não pode ser a solução para a vida dos mais pobres: acreditar que a única alternativa existente é entre a fome e o subemprego é cruel. Fossem outras a prioridades, as escolhas seriam mais justas. Então, para resumir, da perspectiva das maiorias do país, a economia também não vai nada bem.

 

Nas últimas semanas, consolidou-se um governo que tem toda sua alta cúpula composta por generais do exército, alguns inclusive da ativa. Um desses militares, general Augusto Heleno Ribeiro, em uma “live” promovida pelo presidente, incitou o governo a não tolerar negociações com o Congresso. A partir da reação do próprio Congresso e de setores da imprensa, o setor bolsonarista mais radical convocou atos para o dia 15 de março, contra o STF, o Congresso, e no limite contra a democracia. Até aí, poucas novidades. Entretanto, o próprio Presidente começou a ecoar a convocação dessas manifestações. Trata-se de um evidente crime de responsabilidade. Isso reacendeu, como em nenhum momento até aqui, a discussão sobre se é pertinente pedir o impeachment do presidente. Entretanto, se razões não faltam para isto, não é fácil reunir dois terços da Câmara de Deputados e, depois, do Senado.

 

Qual é a tarefa das esquerdas diante desse cenário? Não resta outra opção senão exigir imediatamente o “Fora Bolsonaro!” Não há nada que justifique a aceitação passiva de um governo incompetente, antipopular, antidemocrático, que comete crimes de responsabilidade quase que semanalmente e que, no frigir dos ovos, piora a vida dos setores já muito explorados e oprimidos da população. É claro que essa exigência deve ser construída no cotidiano, com comitês de bairro, nos locais de trabalho, nas universidades e escolas, em todos os lugares, que sirvam para discutir a situação do país e disputar essa ideia no conjunto da sociedade. É verdade que o governo tem ainda uma parcela de apoio popular, mas também é verdade que tem cometido com frequência diversos tipos de crimes que atentam contra a democracia.

 

A esquerda está diante de uma encruzilhada política. Naturalizar um governo com elementos fascistas e seguir apostando numa alternativa eleitoral numa defesa abstrata da “democracia”, como se tudo estivesse normal no país, ou buscar mobilizar socialmente em torno da exigência da queda do presidente? Apenas uma dessas alternativas é coerente com o balanço que o conjunto da esquerda faz do governo Bolsonaro até aqui: construir na sociedade a percepção de que esse governo passou de todos os limites – éticos, programáticos, econômicos, morais – aceitáveis e emanar, todos os dias, o canto de “Fora Bolsonaro!” Se a correlação de forças não parece a mais favorável no momento, a criação de “Comitês Fora Bolsonaro” nos bairros, locais de trabalho e estudo, em todos os cantos do país, onde se discuta cotidianamente os porquês de exigirmos a queda do presidente pode, aliada a um trabalho forte de redes sociais, ajudar a alterar a correlação de forças.

 

É urgente enfrentar Bolsonaro e por isso precisamos ocupar também as ruas. Nossa tarefa fundamental é construir uma grande mobilização para as manifestações já programadas em março, começando um forte 8 de Março, em que em diversos estados do país as mulheres já se organizam em atos onde a necessidade de derrotar a Bolsonaro estava colocada. Precisamos também ir às ruas no dia 14, para denunciar o assassinato de nossa companheira Marielle que após dois anos ainda segue sem respostas, e construir no dia 18 a mobilização da educação e dos setores do funcionalismo público.

 

Parece difícil, e será. Mas optar pelo lado esquerdo do mundo nunca significou buscar os atalhos mais fáceis. Quando tudo parece cinzento e sem esperança, é nosso papel lembrar que são as pessoas que fazem a História e que todas as revoluções sempre pareceram impossíveis até que se tornassem inevitáveis.

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