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Itália em confinamento, classes trabalhadoras em sofrimento  (Nadia de Mond)

17/03/2020

 

Itália em confinamento, classes trabalhadoras em sofrimento 

(13 de março, 2020)

Nadia de Mond

 

Fonte: http://www.internationalviewpoint.org/spip.php?article6453

 

 

O desenvolvimento da epidemia Covid-19 tem sido mais forte na Itália, o primeiro país a ser completamente colocado em quarentena severa. Os anticapitalistas estão começando a desenvolver demandas e ações. Para uma ampla gama de artigos sobre o tema consulte a ESSF (Europe Solidaires Sans Frontières) sob a palavra-chave coronavírus.

 

A escala da epidemia está mudando diariamente. A contaminação ultrapassou os 15.000 casos na Itália. Isto inclui os doentes, os que se recuperaram - cerca de 1.250 - e os que morreram, que agora são mais de mil. Entre aqueles que estão doentes, metade está em casa isolada e a outra metade no hospital, incluindo mais de 1.000 em terapia intensiva. Os leitos hospitalares, particularmente na Lombardia, e em particular os destinados a cuidados intensivos, estão quase cheios. Isso se deve ao fato de que, nos últimos dez anos, o sistema público de saúde tem sido desmantelado em benefício dos hospitais privados. Desde então, houve cortes orçamentários de cerca de 35 bilhões de euros. Isto resultou numa clara diminuição do número de camas hospitalares no setor público, de cerca de 9 para 3 camas por cada 1.000 pessoas. Portanto, temos uma média muito inferior à de outros países da Europa Ocidental.

 

A crise da saúde

 

O que mais tememos neste momento é o colapso do sistema de saúde, que está a atingir os seus limites nos hospitais do Norte. No Sul, a situação é muito mais precária em geral, portanto também muito perigosa. O governo tem tomado medidas drásticas, que evoluem diariamente e que estão criando uma situação, talvez não de pânico, mas em qualquer caso de incerteza para a população.

 

Há duas semanas o governo decidiu fechar as escolas e isto vai durar pelo menos até 3 de Abril. Os primeiros passos foram isolar o que se chamou de focos de infecção, uma dúzia de pequenas cidades ao sul de Milão, na Lombardia. Estas comunas foram isoladas com proibição de entrada e saída, sob a vigilância da polícia nas estradas. Era o isolamento total.

 

As medidas de isolamento foram alargadas a toda a Lombardia e, desde 11 de Março, a toda a Itália. As restrições ao direito de viajar estão em vigor, excepto por razões de emergência. O grande problema é que eles dizem às pessoas para ficarem em casa mas, ao mesmo tempo, que têm de continuar a trabalhar. O governo quer evitar uma parada da produção.

 

Consequências para a população

 

Você só pode sair para fazer as suas compras ou por razões médicas. Bares, restaurantes, tudo está fechado, exceto farmácias, lojas de alimentos e tabacarias. Todas as reuniões são proibidas, dentro e fora de casa, com multas por não cumprimento destas medidas e até penas de prisão por delitos graves.

 

Os trabalhadores precários e os autônomos, que praticamente não têm seguro social e devem ficar em casa, não têm renda. Portanto, há grandes dificuldades. O governo vai finalmente liberar 25 bilhões de euros para responder a esta situação e financiar medidas para lidar com o desemprego temporário. Ainda não sabemos como será distribuído, mas haverá medidas de assistência aos pais que precisam de babás para seus filhos, porque há uma contradição entre o fechamento de escolas e o fato de que as empresas e o setor público não estão fechados. As medidas também permitirão que mais licenças sejam tiradas.

 

Supermercados, correios e bancos estão abertos, mas você deve sempre manter uma distância de um a dois metros das outras pessoas, por isso as entradas são limitadas. É a mesma coisa quando você caminha: você tem que manter a distância e não se afastar muito de sua casa.

 

Estas medidas são essenciais para evitar um colapso completo do sistema de saúde.

 

Demandas dos trabalhadores

 

Há greves espontâneas em certas cidades da Lombardia, como Brescia, Mântua e Bérgamo, por parte de trabalhadores que querem que a produção pare porque nas fábricas não se pode garantir as distâncias de segurança. Estas exigências são apoiadas pelos sindicatos dos metalúrgicos, que exigem insistentemente que o governo bloqueie a produção, pelo menos até que as fábricas tenham se tornado seguras.

 

Exigimos o cessar de todas as atividades econômicas, com exceção dos setores essenciais, garantindo 100% de renda a todos os trabalhadores que são obrigados a ficar em casa. Exigimos o retorno dos hospitais ao setor público e o reinvestimento no setor de saúde pública, assim como a extensão de todas as medidas de manutenção de renda a todos os trabalhadores do setor informal, e também o suporte adicional aos pais. Exigimos também uma redução líquida dos gastos militares para transferir dinheiro para hospitais e centros de saúde.

 

Fuori Mercato (Fora do mercado), a rede na qual fazemos campanha em dez cidades, organiza atividades de solidariedade, ajuda mútua para pessoas em dificuldade, para babás, ajuda para crianças em idade escolar, assim como ajuda para levar alimentos a pessoas em dificuldade, ligados à produção orgânica e autogerida. Recebemos muitos telefonemas de pessoas que precisam de ajuda, mas também de pessoas que querem se voluntariar para organizar a solidariedade. Também damos conselhos sobre direito do trabalho e direitos sindicais porque muitos trabalhadores não sabem como se defender, tanto em termos de saúde como a nível econômico. O Ri Make space em Milão, que pertence à rede Fuori Mercato, por exemplo, lançou a campanha "Non sei solo/a" ("você não está sozinho/a") para passar do isolamento forçado à ação coletiva.

 

O que é evidente é que esta crise está a exacerbar as desigualdades e injustiças "normalmente" existentes na nossa sociedade e a nível geopolítico, tornando-as praticamente insuportáveis. O que significa "ficar em casa" para as famílias que vivem juntas em 50 metros quadrados? Para as mulheres que são vítimas de violência doméstica? Para migrantes sem documentos e refugiados? Para os sem-teto? Ao mesmo tempo, estão surgindo iniciativas de solidariedade espontânea e de rejeição deste sistema mortífero, com as quais esperamos contar a médio prazo.

 

Ainda que só possamos aceitar, por razões apresentadas por todos os cientistas, as medidas draconianas de saúde que o governo tomou até agora, estamos conscientes do perigo da introdução - pela urgência da situação - de regulamentos que limitam a liberdade, que poderiam introduzir uma nova forma de autoritarismo. Uma vez terminada a emergência, teremos de estar à altura deste novo desafio.

 

Nadia de Mond é uma marxista feminista italiana-belga, militante do movimento Ni una di meno na Itália, membro da rede Communia e da Quarta Internacional.

 

* Tradução de Vinicius Souza

 

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