A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Do vírus ao clima, a mesma mensagem (Daniel Tanuro)

18/03/2020

 

Do vírus ao clima, a mesma mensagem

(12 de março, 2020)

Daniel Tanuro

 

Fonte: https://vientosur.info/spip.php?article15715

 

Bem, vamos ser positivos. Desde a Cúpula da Terra e apesar de todas as reuniões da COP, de todos os protocolos, acordos e mecanismos de mercado etc., as emissões de CO2 apenas aumentaram. Neste exato momento, graças ao Coronavírus, foi demonstrado que é possível pôr em marcha uma redução radical das emissões de cerca de 7% ao ano. Com uma condição: reduzir a produção e o transporte.

 

Obviamente, o Coronavírus não é o resultado de nenhuma decisão, de nenhum plano: ele reduz cegamente as emissões, o que leva ao agravamento das desigualdades e da precariedade social. Em particular, nos países mais pobres e em detrimento dos setores mais fracos da população. Isto pode levar à escassez de bens de primeira necessidade. Portanto, somente pessoas reacionárias e/ou cínicas podem se regozijar com o impacto climático da epidemia.

 

Mas de todo modo, este caso abre algumas questões. Vejamos:

 

- Por que a redução cega da produção e do transporte (causada pela Covid-19) não poderia abrir caminho para uma redução consensual e planejada, a começar por produtos inúteis e nocivos?

- Por que razão os trabalhadores afetados pela supressão destes produtos inúteis e nocivos (por exemplo, armas) não poderiam ter garantidos seus salários e a sua conversão coletiva a empregos social e ecologicamente úteis e gratificantes?

- Por que a globalização ditada pela maximização do lucro nas cadeias de valor das multinacionais não deveria ser substituída por uma cooperação decolonial baseada na justiça social e climática?

- Por que não deveria a agroecologia, que protege tanto a saúde humana quanto a dos ecossistemas, ao mesmo tempo em que dá sentido ao trabalho, substituir o agronegócio destruidor da biodiversidade e da saúde, que favorece a propagação de vírus?

 

É evidente que estas alternativas - e outras que vão na mesma direção - só podem ser concretizadas através de uma mudança política radical. De fato, seja em relação ao Coronavírus, seja em relação às alterações climáticas, a resposta dos governos tem sido em grande medida a mesma: negar efetivamente as leis da natureza (a propagação do vírus num caso e o efeito cumulativo do CO2 no outro), correr atrás dos fatos de modo a não distorcer a corrida pelo lucro e, depois, extrair da sua própria negligência o pretexto para medidas socialmente regressivas acompanhadas de uma nova virada autoritária.

 

Graças a este maldito Coronavírus, vemos hoje claramente que uma mudança política radical tem de ter dois componentes:

 

- Por um lado, as medidas anticapitalistas. Medidas indispensáveis para pôr fim à ditadura que a lei do lucro exerce sobre a sociedade. Eu não vou entrar em detalhes sobre isso. Basta apontar o seguinte: diante da epidemia do Coronavírus, o problema-chave é claramente a subordinação da política sanitária aos interesses capitalistas, assim como a liberdade total com que os capitalistas podem se beneficiar da epidemia (especulando ou acumulando estoques de materiais e produtos, por exemplo). A socialização da indústria farmacêutica é um eixo importante para uma política alternativa. Da mesma forma, diante das mudanças climáticas, um eixo importante e inevitável é a socialização do setor energético. Em ambos os casos, esta socialização deve ser acompanhada pela socialização das finanças, que dão as cartas do jogo.

- Por outro lado, medidas de democracia radical. Uma epidemia não pode ser combatida sem a participação da população; e a maior parte da população não participará de uma política neoliberal-autoritária que agrave as desigualdades. O mesmo está acontecendo, e em uma dimensão maior, em relação à mudança climática: a enorme mudança de estrutura e comportamento necessária para limitar a catástrofe não pode ser realizada sem a participação da população, e a maior parte da população não participará de uma política neoliberal-autoritária que agrava as desigualdades. Pelo contrário, podem concordar - e até entusiasmar-se! - com políticas restritivas se as controlarem, compreendendo sua necessidade imperativa... se (e somente se) essas políticas melhorarem radicalmente as condições de existência e derem sentido à sua existência coletiva.

 

Este segundo ponto é capital (sem trocadilho!), sobre se o processo é realizado como deve ser - na sua dimensão Norte-Sul - isto é, numa dimensão decolonial - e na sua dimensão de género - isto é, do ponto de vista da emancipação das mulheres e LGBTQs. Na verdade, o discurso ecológico é muitas vezes construído sobre a afirmação de que mudanças drásticas requerem um forte poder, com um potencial muito perigoso de convergência objetiva com a direita e a extrema direita (uma convergência que também é evidente na esquerda populista). Contudo, o que é verdade, tanto em relação à epidemia como à mudança climática, é precisamente o oposto: mudanças drásticas só podem ser provocadas através de processos democráticos radicais (portanto, também antirracistas, antissexistas, anti-homofóbicos etc.). Para que o desafio seja assimilado, para que as suas causas profundas sejam compreendidas e para que as medidas a serem tomadas e sua implementação coletiva sejam discutidas, é necessária a democracia mais ampla possível.

 

Visto dessa maneira, finalmente, o Coronavírus poderia ter efeitos ideológicos, ecossocialistas, ecofeministas e decoloniais positivos. É uma pena que isto seja ao preço de uma forte epidemia.

 

Daniel Tanuro é um ambientalista ecossocialista e membro da seção belga da Quarta Internacional.

 

* Tradução de André Coggiola

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