A que pode levar o conflito entre os Estados Unidos e a China?


(4 de fevereiro, 2020)

Tradução de Julio Bueno

Fonte: http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article52004

Estados Unidos e China são hoje os únicos poderes “globais” que se confrontam em nível mundial. Quanto mais este conflito se aprofunda, mais uma tendência emerge: a da separação em dois sistemas com ambições hegemônicas competitivas.


A primeira certeza: a rivalidade entre os Estados Unidos, o poder estabelecido, e a China, o poder desafiante, constitui o maior (mas não o único) fator estruturante da situação geopolítica global, tendo, como pano de fundo, o caos social e ecológico criado pela ordem neoliberal. Esta rivalidade opera em todos os campos: militar, espacial, econômico, tecnológico, alianças estratégicas, política e modelos culturais.


A segunda certeza: apesar da interdependência econômica e financeira entre as duas potências, herdada da fase prévia de integração da nova China capitalista na divisão internacional do trabalho e na globalização neoliberal, o conflito não pode mais se manter contido nos arcabouços anteriores. Estes estão sendo questionados – e aqui entramos na incerteza.


A dinâmica de separação que se iniciou está cheia de perigos. Ela vai contra os interesses das grandes companhias globalizadas. Qualquer sanção imposta por um dos poderes rivais ao outro pode ter efeitos bumerangue, inclusive em relação a empregos. A guerra comercial pode se somar a outros fatores de instabilidade para iniciar a próxima recessão global (devido, por exemplo, às medidas tomadas por Trump para reprimir o desenvolvimento chinês) e abrir uma grave crise financeira, aguçada pelo peso da dívida. A situação não é irreversível, no entanto, no momento, essa dinâmica está definitivamente a caminho.


Por um lado, a ordem neoliberal continua seu progresso notadamente com a assinatura de novos acordos comerciais, por outro lado, Donald Trump dinamizou estruturas consultivas intergovernamentais como a Organização Mundial do Comércio e está tentando excluir Beijing de um "campo" sob a liderança americana a ser reconstituído. Isso tudo sendo a China (apesar das limitações) uma liderança no mundo das novas tecnologias e agora massivamente presente em todas as regiões do planeta (exceto no Ártico, onde ainda assim dedica recursos consideráveis para se posicionar [1] e na Antártica). Tal ruptura só pode ser caótica. O fato novo é que Xi Jinping agora parece estar se preparando para isso, depois de ter subestimado seu oponente por um longo tempo e de se gabar de termos entrado no "século chinês".

A guerra comercial

A China e os Estados Unidos acabaram de assinar, em 15 de janeiro de 2020, um “acordo preliminar” que supostamente poria um fim à “guerra fria comercial” que já dura 18 meses. No entanto, é apenas um cessar fogo temporário [2]. Com a aproximação das eleições, Trump tem interesse em congelar a situação. Xi, por sua vez, enfrenta uma série de dificuldades internas, incluindo a desaceleração do crescimento chinês, bem como os efeitos das medidas já tomadas por Washington. Ele quer ganhar tempo e avaliar o resultado da próxima eleição presidencial americana, em 3 de novembro de 2020.


A “Fase 1” , usando a terminologia dos EUA, do processo que supostamente levaria à normalização das relações comerciais não mudou muita coisa. A China concordou em planejar com Washington a compra de produtos adicionais dos EUA por US $ 200 bilhões em dois anos, mas não se curvou sobre o básico: subsídios a empresas estatais e a abertura de seus mercados. Os EUA se comprometem a não fazer mais aumentos de tarifas nos próximos meses e a suspender as acusações contra Pequim por manipulação de moeda. Em suma, o acordo preliminar é um ajuste ao status quo. A "Fase 2" está adiada para depois de novembro, ou seja, após as eleições presidenciais nos Estados Unidos. No entanto, as sanções tarifárias existentes, que cobraram 360 bilhões de dólares em produtos chineses por mais de um ano, permanecem. Tais “sanções” já estão afetando os fluxos de capital e comércio, levando a mudanças iniciais nas organizações industriais e nas cadeias de valor. Transferências "dentro da empresa", entre China e Taiwan, por exemplo, não são mais suficientes para contorná-las. As multinacionais americanas estão se mudando para o sudeste da Ásia (Vietnã e assim por diante), principalmente em eletrônica e TI. O repatriamento da produção para o país mãe é mais limitado. Apesar do aumento dos salários chineses, Pequim ainda mantém ativos importantes em mãos: mão de obra qualificada, nível geral de educação da população, desenvolvimento de infraestrutura, importância do mercado interno, produção de componentes, riqueza em terras raras e assim por diante.

Beijing pode escapar de suas dependências?

A interdependência econômica significa que em algumas áreas a China é vulnerável, mesmo que em outras (incluindo a Inteligência Artificial) esteja em uma boa posição. Vamos mencionar duas daquelas: microprocessadores e a posição internacional do dólar americano.


A economia chinesa está atrasada (duas ou três gerações) em termos de microprocessadores. Depende, em particular, de suprimentos de Taiwan ou Coréia do Sul. No entanto, microprocessadores são usados em todos os lugares. É um verdadeiro calcanhar de Aquiles, dado que Washington abriu hostilidades na frente de alta tecnologia, ameaçando negar o acesso da China aos componentes dos EUA.


Se inserir no mercado de microprocessadores não é fácil. Segundo o professor Zhou Zhiping (Universidade de Pequim), levará de cinco a dez anos para fechar essa lacuna [3]. Ainda mais que falta ao país neste campo engenheiros qualificados, uma cadeia de suprimentos adequada e um ecossistema industrial.


O paradoxo é que a China seguia seus rivais no campo dos circuitos integrados. Em 1965, era capaz de produzi-los, enquanto Taiwan e Coréia do Sul não. A Revolução Cultural, a repressão dos estudantes, depois o reinado da Gangue dos Quatro, reduziu esse potencial a cinzas. Uma "geração perdida" no treinamento de engenheiros quando muitos "cérebros" fugiram para os Estados Unidos. Para o futuro, fica uma pergunta: o uso da inteligência artificial poderia permitir que Pequim contornasse os bloqueios dos microprocessadores convencionais? [4]


Além disso, recentemente e muito gradualmente, a China está vendendo títulos do tesouro dos EUA (possui US$ 1.000 bilhões!) para se financiar em tempos de desaceleração econômica, mas também por razões de segurança. Embora fracos, esses desinvestimentos sinalizam o desejo de Pequim de quebrar sua dependência da moeda americana. Ao mesmo tempo, o Banco da China está diversificando suas reservas e comprando muito ouro [5].


Por incrível que pareça, os Estados Unidos se deram o direito de processar unilateralmente qualquer entidade do mundo que use dólares americanos em transações consideradas contrárias à política de Washington. É a arma usada atualmente para fortalecer o bloqueio ao Irã. O yuan chinês poderia eventualmente servir como moeda de recurso (assim como o iene japonês ou o euro?) desde que Beijing dê garantias de que não manipulará sua taxa de câmbio.

5G, um confronto político

Trump acusa Beijing de espionagem industrial ou política. Quem não faz isso? Foram os Estados Unidos que invadiram os telefones de Angela Merkel e Emmanuel Macron! Ao fazer isso, Washington adquiriu uma vantagem definitiva, principalmente nas negociações comerciais, conhecendo antecipadamente as táticas de seus "aliados" europeus. Macron ficou chateado com o fato de o governo belga ter decidido comprar aviões de combate americanos; e por uma boa razão: todas as informações de voo são enviadas diretamente ao fabricante, através do Atlântico. Quanto às “boas práticas”, são tão comuns que o Canadá prendeu e processou um diretor de um grupo concorrente, neste caso a Huawei… (EUA) forçando seu vizinho a manter Meng Wanzhou em detenção e a pagar o preço [6]?


A China é capaz de oferecer o melhor 5G (capaz de transferir massas de dados a uma velocidade incomparável) pelo menor custo, enquanto a implementação deste equipamento está começando hoje. As empresas européias estão bem posicionadas (Nokia, Ericsson), mas a Huawei está liderando a corrida e conquistando a maior parte do mundo.


Washington intimou seus aliados a se alinharem ao seu campo, excluindo os chineses da implantação do 5G em seus países. É acima de tudo um teste político. A resposta dos europeus não foi homogênea, como de costume, mas negativa ou mista. Apenas o Canadá (?), Austrália ou Nova Zelândia parecem responder. O teste não é muito encorajador para Trump.

A proibição de intercâmbio tecnológico

Outra medida mais importante é a proibição de que empresas americanas vendam tecnologia para empresas chinesas, particularmente no setor de telecomunicações (incluindo atualizações para sistemas existentes, como o Google). Isso deve pesar na reorganização do mercado mundial. Não é apenas o GAFA ("Google, Amazon, Facebook and Apple") que perderá mercados, mas também significaria a implantação mundial de tecnologias incompatíveis, como foi o caso do VHS e Betamax (gravação de vídeo e cassete) nos anos 1970. O DVD tornou obsoleta a guerra entre duas empresas japonesas (Victor Company e Sony).


O desenvolvimento de padrões globais facilita consideravelmente a mobilidade do capital. No entanto, a incompatibilidade de tecnologias é parte do conflito global hoje. Um número ainda desconhecido de setores econômicos seria afetado pela pressão política, comercial e militar para um país escolher seu “campo”. Washington opera essa lógica de exclusão. Beijing diz que seus parceiros também são livres para intercambios, mas estão construindo estados clientes, em particular graças à arma da dívida que lhe permite assumir o controle de portos, que se tornam "concessões" chinesas por até 99 anos (como era o status colonial de Hong Kong!).


Voltamos a uma das perguntas não respondidas da introdução deste artigo: que formas as zonas de influência mais ou menos exclusivas podem assumir hoje no mundo?

Geopolítica instável

A psicologia particular de Donald Trump, suas prioridades eleitorais e a influência da extrema-direita religiosa não ficam sem consequências. Aliados históricos dos Estados Unidos aprenderam da maneira mais difícil que o Presidente dos Estados Unidos não se importa com seus interesses. Chega-se ao ponto de o Japão de Abe negociar com (aproximar-se de) a Rússia de Putin para combater o abandono de Trump.


No entanto, a política errática de Trump também expressa tensões principais da política americana. Embora dominante, esse imperialismo não é poderoso o bastante para controlar o mundo – daí a tentação de recuar, mas seus interesses estão em jogo por toda parte – daí a impossibilidade de uma simples retirada. O Oriente Médio fornece uma ilustração impressionante dessa situação.


Washington precisaria de aliados que possam co-policiar o planeta. O unilateralismo de Trump não ajuda aqueles que poderiam desempenhar esse papel. Mas eles existem? O único "sucesso" da União Européia é promover hoje a ordem abalada da OMC. As possibilidades de intervenção do Japão são limitadas pelo apego pacifista da população (que Abe ainda não conseguiu romper) e pela memória dos abusos cometidos na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial. Um acordo duradouro com a Rússia contra a China parece impraticável; além do mais, a área de ação efetiva de Moscou se limita principalmente à sua "periferia" (incluindo a Síria) e sua capacidade militar.


Washington procura aliados entre as potências regionais, começando pela Arábia Saudita (um viveiro de terrorismo islâmico "radical"!). No entanto, essas chamadas potências regionais são muitas e a China é a mais capaz de se beneficiar delas. Isso é tão verdade no Oriente Médio (onde faz negócios com o Irã e a Arábia Saudita, atuando como seu principal importador mundial de petróleo) quanto no norte da África ou na África Subsaariana, ou mesmo em alguma medida na América Latina.


O teatro de operações indo-pacífico é um caso especial e significativo. Esta região está no centro do conflito entre os Estados Unidos e a China. Após um longo atraso, Washington estabilizou uma aliança, incluindo Índia, Japão (apesar das tensões entre Tóquio e Washington), Austrália e Nova Zelândia. Beijing enviou um de seus porta-aviões e sua frota para a região e está negociando pontos de apoio com vários estados insulares. (A China) Está bem posicionada na nova corrida armamentista, incluindo armas hipersônicas, capazes de ameaças aeronavais e territoriais à distância. As regras da guerra estão mudando.


O desenvolvimento territorial na China depende de se incorporar o espaço exterior [7]. Uma boa ilustração da dinâmica em curso. Em 2011, uma lei dos EUA excluiu a China da Estação Espacial Internacional (ISS). Repentinamente Beijing decidiu construir a sua própria até 2025. Em 2019 (a China) disparou mais foguetes do que qualquer outro país: 34 lançadores, incluindo 32 com sucesso (27 para os Estados Unidos) e, lembre-se, também colocaram um módulo no lado oposto da lua. Isso implica muitos avanços tecnológicos; bem como investimentos colossais (não trataremos das contrações ou fraquezas do regime Xi Jinping e de suas possíveis conseqüências).


Nada é ainda irreversível, mas entramos em uma situação muito nova, com consequências muito incertas. Por fim, não precisamos ser adivinhos para concluir que o conflito China/EUA pode levar a uma aceleração da crise climática. Quem está se preocupando com isso em Washington ou Beijing?


Notas de rodapé

[1] See Frédéric Lemaître and Olivier Truc, « Arctique. Une ambition chinoise », Le Monde, 5-6 January 2020.

[2] https://www.mediapart.fr/journal/economie/150120/la-chine-et-les-etats-unis-decident-d-une-treve-dans-leur-guerre-commerciale See also Jack Rasmus, Znet :https://zcomm.org/znetarticle/trumps-feeble-phase-1-china-us-trade-deal/

[3] 3 September 2019, “China needs ‘five to 10 years’ to catch up in semiconductors, Peking University professor Zhou Zhiping says”: https://www.scmp.com/tech/tech-leaders-and-founders/article/3024315/china-needs-five-10-years-catch-semiconductors

[4] 28 August 2019, “How China is still paying the price for squandering its chance to build a home-grown semiconductor industry”: https://www.scmp.com/tech/big-tech/article/3024687/how-china-still-paying-price-squandering-its-chance-build-home-grown

[5] American titles were used to recycle its huge trade surpluses made between the late 1990s and the mid-2010s. Martine Orange, op. cit.

[6] Hélène Jouan, « Procès Huawei : le Canada pris en étau entre Washington et Pékin », Le Monde, 23 January 2020.

[7] Simon Leplâtre, « La Chine s’impose comme une puissance spatiale », Le Monde, 21 January 2020


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