Contra a crise: a crise não é uma oportunidade, é o inimigo


Tradução de Julio Bueno

Fonte: http://www.internationalviewpoint.org/spip.php?article6506


A pandemia do corona e o crash econômico que hoje assola e sacode o mundo traz um enorme perigo para todos os povos. Para muitos capitalistas a crise é uma oportunidade, e para o sistema como um todo é uma solução para problemas subjacentes na economia capitalista. A COVID-19 é a destruição criativa que o capitalismo precisava para sobreviver. Isso soa perverso e de fato é. Os socialistas temos que não apenas trabalhar para mitigar os piores efeitos da crise, mas também reconhecer a crise capitalista como o inimigo em si.


A década inútil

Anwar Shaikh argumentou no final da década de 1980 que, quando o sistema econômico é saudável, ele revive rapidamente de todos os tipos de contratempos, mas quando não, praticamente qualquer coisa pode desencadear seu colapso. Agora, certamente não foi uma coisa qualquer que desencadeou essa rodada de crise econômica, mas um novo coronavírus, que se espalhou pelo mundo como um pesadelo e deixou a morte em seu rastro. Mas que algo iria desencadear uma crise parecia cada vez mais óbvio, mesmo para os economistas tradicionais, antes que o vírus surgisse.


A principal razão é que os problemas que causaram a crise de 2008 nunca foram resolvidos, apenas adiados. Nada muito diferente de como a crise ecológica foi tratada durante estes mesmos anos.


Os anos 2010s foram uma década inútil. Enquanto 2009 terminou com 100.000 nas ruas em Copenhagen exigindo ações na questão climática, nos anos 2010 se tratou principalmente de adiar problemas usando argumentos de que a crise poderia ser resolvida por novos mercados, novas tecnologias e compensações climáticas para os que pudessem aderir a elas. Embora as manifestações em 2019 pudessem trazer alguma esperança a única coisa que os políticos conseguiram durante esta década inútil foi aumentar a ambição a níveis que já eram impossíveis.


Da mesma forma, com a crise econômica, os problemas foram adiados. O resgate de bancos, a redução das taxas de juros, o aumento da dívida pública e privada, a flexibilização quantitativa, o aumento de bônus e lucros nos setores financeiros, o capital mais fictício e a austeridade crescente simplesmente estenderam os problemas subjacentes que causaram a crise de 2008.


Esta foi uma crise do gerenciamento de crises. Não havia ferramentas úteis no kit neoliberal para resolver a crise econômica ou parar as mudanças climáticas. Da mesma forma como o keynesianismo perdeu legitimidade na década de 1970, quando grandes investimentos estatais apenas arriscavam alimentar a inflação, a economia não podia ser salva dentro de uma estrutura neoliberal. Embora os investimentos keynesianos (2008-2010) e as políticas neoliberais tenham salvado o sistema temporariamente, era necessário algo mais para realmente resolver os problemas subjacentes.


COVID-19 como “destruição criativa”

As crises econômicas são normalmente resolvidas através de dois processos inter-relacionados. O primeiro, enfatizado por Marx e os marxistas, é a necessária destruição real ou a maciça desvalorização do capital. Segundo Michael Roberts, por exemplo, a queda precisa ser suficientemente grande para restaurar a lucratividade. O outro processo, o qual os marxistas também estudaram e que os economistas burgueses estão fetichizando, é que as crises são resolvidas à medida que novas formas de organização da economia, novas relações de classe, novas tecnologias e estruturas regulatórias estão substituindo as antigas.


Economistas, especialistas e políticos tradicionais saúdam o fato de que o capitalismo realmente sobrevive crise após crise. Essa destruição criativa supostamente mostra o quanto o capitalismo é realmente vital, inovador e criativo. Mas o processo anterior - a pura destruição de capital - é frequentemente ignorado. A grande depressão não foi resolvida através de novas tecnologias, ideologia keynesiana ou novos investimentos; foi resolvida principalmente pela destruição em massa durante a Segunda Guerra Mundial. Essa foi a principal razão do boom que se seguiu. Comparativamente, a crise na década de 1970 foi resolvida de um modo mais ”humanitário”: usando, entre outras coisas, o esmagando sindicatos, o aumento do desemprego, a pobreza generalizada e a introdução de condições de trabalho análogas à escravidão no sul global.


As grandes crises na economia política são absolutamente vitais para o funcionamento e a sobrevivência a longo prazo do capitalismo. Por isso Marx as chamou de soluções violentas para as contradições existentes. Desse modo, a crise em si é tanto uma crise real quanto uma solução (temporária) para os problemas nos marcos do capitalismo.


Para Karl Kautsky, a crise econômica foi uma memento mori (lembrança da morte). Historicamente, no entanto, as crises capitalistas nunca foram um lembrete da morte do capitalismo, como Kautsky esperava pacientemente. Pelo contrário, elas foram vitais para manter o sistema vivo.


E então segue o que à primeira vista pode parecer irônico, mas que para um olhar atento é mais deprimente: os desastres econômicos e ecológicos que estamos presenciando atualmente - incluindo a pobreza, o desemprego, a falta de moradia e a morte em massa - não são apenas uma crise para o sistema capitalista. São também alicerces da solução para muitos de seus problemas.


O COVID-19 fez o que a atual classe dominante não queria fazer ou não tinha qualquer interesse em fazer: acabou com o neoliberalismo. Após décadas de privatizações, “livre comércio”, produção “just-in-time” e austeridade, os sistemas de saúde pública em muitos países estavam em péssimo estado para lidar com essa emergência de saúde. O capitalismo que se desenvolverá do outro lado do COVID-19 será diferente do que tínhamos antes.


O COVID-19 é a destruição criativa que ajudará o capitalismo a prosperar no futuro. É perverso! Mas quando a pandemia terminar, a economia – caso não consigamos pará-la - entrará novamente em rodadas de crescimento e em ciclos de expansão e contração. Novos negócios prosperarão e novos capitalistas encontrarão novas maneiras de explorar e dominar os trabalhadores. E tudo isso provavelmente acontecerá em um planeta cada vez mais quente.


Crise capitalista

Vivemos um tempo de crise. E de crise capitalista. Isso significa que os processos e relações de poder dentro do capitalismo estão causando as crises que estamos presenciando atualmente. Não de uma maneira determinista mecânica e simples, mas no sentido de que não podemos entender nenhuma das crises sem incluir uma compreensão do sistema capitalista em que estão inseridas.


Obviamente o COVID-19 poderia acontecer também sob um sistema de economia política diferente. As mudanças climáticas também, pelo menos hipoteticamente. Obviamente nem todas as preocupações econômicas públicas e privadas surgiram do capitalismo. Mas o capitalismo é um divisor de águas. Nunca antes as crises criadas pelo homem chegaram com tanta consistência e regularidade. Isso não deveria nos surpreender, pois processos de acumulação de capital e crescimento exponencial eterno estão alimentando e criando de maneira sistemática crises nunca presenciadas antes. Nunca antes uma economia política dependia de criar crises ecológicas e econômicas para sobreviver.


Ainda que o COVID-19 também pudesse viver em outro lugar, o crescente número de epidemias que estamos testemunhando é causado pelo simples fato de que uma economia baseada em eterno crescimento exponencial terá necessariamente uma pressão maior sobre a natureza, mediada pela agricultura industrial em larga escala, urbanização e aumento de viagens, bem como todas as mudanças sociais e econômicas que acompanham o aquecimento global.


As crises e sua classe

O Presidente John F Kennedy é famoso por ter dito que a palavra chinesa para crise é composta de dois caracteres, sendo que o primeiro - 危 (wéi) – significa perigo e o outro - 機 (jî) – significa oportunidade[1]. Evidentemente isso era péssimo chinês, não obstante muitos socialistas continuam a olhar para crises com otimismo e esperança. Mas o “provérbio chinês” de Kennedy disfarça o caráter de classe das crises. Outro provérbio: “nunca desperdice uma boa crise”, normalmente atribuído a Winston Churchill, traz a mesma ambiguidade de classe. Como socialistas devemos nos perguntar: perigos para quem? E oportunidades para quem?


O fato de que as crises do capitalismo tenham um marcante caráter de classe não deixa nos surpreender. Afinal, crises econômicas e ecológicas são parte do modus operandi do capitalismo.


As crises sob o capitalismo não ocorrem porque algo deu errado, mas exatamente porque tudo funcionou como devia. Se todo capitalista estiver agindo como esperado (e demandado) dele como capitalista, haverá taxas decrescentes de lucros, superprodução, rupturas metabólicas e mudanças climáticas.


As crises capitalistas sempre atingem com maior violência os mais pobres, marginalizados e racializados. Enquanto indivíduos ricos podem ir à bancarrota e perder bilhões, as consequências para a classe trabalhadora são qualitativamente diferentes (nos piores casos, pagam com suas vidas). Vale a pena lembrar que nenhum dos principais executivos de Wall Street foi preso pela crise de 2008.


A classe dos capitalistas é também a causadora das crises. Isso é facilmente percebido em relação à crise climática, em que 100 companhias globalizadas são responsáveis por 70% do total de emissões. Mas a classe que na verdade acumula capital também precisa responder quando o sistema econômico colapsa. Da mesma forma, de um ponto de vista de consumidores em ecologia, os ricos causam sistematicamente muito mais dano que os demais.


E exatamente da mesma forma que o sistema capitalista precisa das crises para sobreviver, assim também precisam os capitalistas, para persistir enquanto classe, de crises econômicas recorrentes e de uma relação com a natureza ainda mais insustentável. A classe dos capitalistas, historicamente, não só manteve seu poder hegemônico por meio da exploração e dominação dos trabalhadores – o que é uma verdade – mas também através do manejo e uso das crises capitalistas em seu proveito.


Contra a crise

Agora, em meio à crise do corona, muitas vozes à esquerda falam nela como uma oportunidade. Não se critica apenas a privatização e a produção “just-in-time” … Até governos de direita aumentaram em massa seus gastos.


Tempos de crise são incertos, e as coisas mudam muito rapidamente. Por certo que a crítica às privatizações e ao neoliberalismo segue o rastro de outras crises. Mas seria uma oportunidade para a classe trabalhadora e os movimentos socialistas?


Em primeiro lugar, historicamente crises trazem menores “oportunidades” para trabalhadores, pobres, escravizados, racializados e especialmente para mulheres, pequenos agricultores etc. As crises têm significado desemprego, pobreza, desabrigo, pioras nas condições de saúde e frequentemente morte. Para o capitalista individual, a crise pode ter consequências devastadoras, mas é esta a classe que olha a crise procurando oportunidades.


Em segundo lugar, dizer que crises igualam oportunidades faz a coisa soar como uma partida de futebol ou um jogo de pôquer: com sorte a habilidade nós poderemos manobrar melhor que o oponente e obter alguma vantagem.


Um escritor no “The Correspondent (12.01.2015)” levantou a questão de se o terremoto do Haiti em 2010 também não seria uma “oportunidade fresca” ou mesmo “a melhor coisa que jamais ocorreu para o Haiti?”. Por volta de 200.000 pessoas morreram naquele evento, em sua maioria pobres, o que é a principal razão para não ser o terremoto chamado de classemoto. Seguindo a mesma lógica, será que o tráfico de escravos foi uma oportunidade para o povo preto? Afinal o descendente de algum virou presidente… e será que a colonização não foi uma oportunidade para os povos colonizados? Afinal eles ganharam ferrovias… Apenas fascistas e psicopatas responderiam sim a estas questões.


É provável que o coronavírus mate centenas de milhares, senão milhões de pessoas. Em especial trabalhadores pobres no hemisfério Sul. Milhões sofrerão com a crise econômica atual. E então, não esqueçamos, haverá as consequências decorrentes do aquecimento global. São estas as oportunidades de ouro? Sério?


Segundo o economista iugoslavo Rikard Stajner, a humanidade encara duas aflições: guerra e crise. Essa é uma abordagem que acho mais frutífera. Ao invés de olharmos crises econômicas ou ecológicas como oportunidades, devemos entendê-las como guerra, fome, escravidão etc. As crises não vêm principalmente para ser usadas, mas como o inimigo a se combater.


É claro que mudanças virão com diferentes ritmos durante a crise, e é claro que devemos manobrar as crises e suas consequências da melhor forma possível (exatamente como tentamos manobrar a política numa direção mais progressista). Mas definir a crise em si como inimigo tornará nossa análise mais aguçada.


Que Stajner tenha conectado crise e guerra é interessante, inclusive de uma perspectiva histórica. Para os socialistas na década de 1910, a revolução não foi possível apenas através da luta direta de classes entre trabalhadores e capitalistas. Também foi crucial acabar com (ou parar) as guerras capitalistas (imperialistas). Hoje, analogamente, além da luta de classes convencional organizada nos locais de trabalho, bairros, etc., também precisamos resistir à crise capitalista. A luta socialista hoje precisa ser agitada para acabar com a crise, o que significa acabar com suas causas.


A luta de classes deve ser dirigida contra a classe que cria e vive das crises do capitalismo. A classe capitalista deve ser responsabilizada por sustentar e defender um sistema que, a fim de existir, é baseado em deixar as pessoas pobres morrerem. Essa é a classe que possui e controla o capital. O foco nas distinções culturais entre os chamados trabalhadores e a classe média é agora politicamente mais irrelevante do que nunca. Agora, a classe trabalhadora - em sua definição mais ampla - deve combater a classe que cria a crise.


Como centro da luta socialista, precisamos ter uma guerra de classes contra as crises capitalistas - e contra a classe que as cria.


Ståle Holgersen é pesquisador em Geografia Humana na Universidade de Uppsala, Suécia, autor de “Cidade e crise, Malmö e o capitalismo” [City and Crisis, Malmö and Capitalism], e do livro no prelo “Crise do capitalismo: otimismo à beira do precipício” [Crisis of capitalism: optimism from the edge of a cliff]. Politicamente organizado no Partido de Esquerda Sueco, é membro da Política Socialista (seção da IV Internacional).


[1] Nota da tradução: “perigo” está OK, mas 機 está mais para “ponto crítico”, “mudança” ou “condição limite” do que “oportunidade”. Apesar disso, a fala é usada em palestras motivacionais de coaches ao redor do mundo como se fosse verdade…

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