O patrimônio cultural e as manifestações contra o racismo


Você concordaria se eu falasse que aquilo que é considerado como patrimônio hoje no Brasil é diferente do que foi estabelecido como tal no século passado? É verdade ou não que os elementos dignos de serem lembrados como expressões da memória nacional passaram a ter uma dimensão bem diferente? Pense em responder essas perguntas tendo em mente que o conceito de patrimônio cultural é uma das faces mais visíveis do processo de organização coletiva da memória social.

Levando em conta que a etimologia da palavra “patrimônio” remete à herança de bens que são legados de uma geração para outra, eu diria enfaticamente que a noção que se tem hoje no Brasil sobre o tema está realmente mudada. As gerações passadas foram responsáveis por um avanço no reconhecimento de outras expressões da cultura brasileira. A segunda metade do século passado foi um período de avanços significativos nessa compreensão, tornando a noção de patrimônio mais ampla e sofisticada ao abranger valores e bens culturais que não estão necessariamente contidos em vestígios materiais. Danças, músicas e até mesmo o preparo de alimentos passaram, felizmente, para o patamar das práticas reconhecidas como “bens culturais”. Sobre isso, é importante dizer também que cultura, patrimônio, museus e os demais conceitos ligados ao tema devem ser pensados em sua historicidade. Eles são e sempre serão elementos ligados à realidade social que os produz e reproduz. Assim sendo, a diversidade das coleções expostas no prédio marcadamente neoclássico do Museu Nacional - tragicamente vitimado recentemente - são um exemplo palpável de uma sociedade que começou a buscar por sua diversidade já faz algum tempo.

Sem dúvida alguma, esse é o elemento que mais me dói quando me lembro daquele incêndio terrível. Ser agente de uma sociedade culturalmente diversa, com múltiplas identidades culturais reconhecidas, era e ainda deve ser o papel exercido pela instituição. A função primordial daquilo que se queimou era de realizar um encontro entre a sociedade e uma parte do seu mais amplo patrimônio. Mas não era necessariamente disso que gostaria de falar por aqui. O foco hoje não é o Museu Nacional. O que me fez pensar em escrever hoje foram as recentes ações de manifestantes envolvendo monumentos que expressam a construção de uma sociedade racista. Para tratar desse assunto em especial, é preciso deixar claro logo de antemão que minha especialidade está centrada apenas em tratar dos pormenores envolvendo a construção de qualquer monumento, que se baseia essencialmente na escolha e na apresentação de objetos que possam sustentar uma narrativa sobre um assunto determinado. As seleções e definições envolvidas no processo de construção de qualquer monumento histórico apontam para ideias e imagens específicas e estabelecem, pelos sentidos, diálogos com o público.

Aliás, é justamente essa questão envolvendo a comunicação proposta por esses objetos que eu considero que merece destaque no caso das manifestações contra o racismo. Digo isso, pois a ideia de comunicar é justamente o que permite compreender aquilo que está acontecendo pelo mundo com a derrubada de algumas estátuas de personagens outrora tidos como relevantes. Quem diz apoiar as manifestações, mas acaba se doendo muito com as imagens envolvendo a queda de tal patrimônio, precisa saber o quanto antes que não está entendendo absolutamente nada do que está acontecendo nas ruas. As pessoas que estão se manifestando hoje indicam muito claramente que não estão satisfeitas apenas com a extensão do conceito de patrimônio no interior das instituições. As gerações passadas já conseguiram isso e agora parece ter chegado a hora de avançar.

Assim sendo, compreendo que aquilo que vem sendo dito nas ruas é algo infinitamente mais direto e sonoro: racistas não serão mais tolerados. Sejam eles do passado ou do presente. Derrubar monumentos erguidos para homenagear figuras que alcançaram seu lugar na história praticando a opressão é o mesmo que dizer que essas pessoas não serão mais aceitas em nenhum lugar.

Quem está nas ruas indica que já sabe muito bem que esses monumentos são parte de um sistema de comunicação, com lógica e sentido próprios de exclusão e opressão. Elas sabem perfeitamente que esses monumentos desempenham um papel ao representar e comunicar histórias únicas que excluem a diversidade de suas tradições, de suas novidades, de seus conhecimentos, modos de fazer e viver.

Elas sabem muito bem que esses monumentos muitas vezes podem ser o primeiro contato da população com determinados assuntos. Ninguém ali parece ter se esquecido que esses monumentos estão nas ruas e que, por isso, vivem em conjunto com a sociedade e são reproduzidos como ilustrações em materiais didáticos que formam as pessoas. Aqueles que estão se manifestando nas ruas e derrubando esses monumentos sabem perfeitamente que a presença daquelas peças nos locais em que estão distribuídas foi fruto de uma escolha consciente sobre quem seria ocultado na eleição do que formaria o patrimônio das sociedades ocidentais.

Sendo assim, aos que não estão entendendo bem aquilo que está acontecendo, é bom que olhem com muito mais atenção e seriedade para esse movimento. Essas derrubadas que estão acontecendo devem seguir, pois têm uma finalidade relativamente próxima da premissa que outrora justificou a construção desses monumentos: comunicar para as pessoas qual é o tipo de sociedade na qual se quer viver. A ruptura, entretanto, se faz presente no claro recado para as instituições de que nenhum espaço sequer do cotidiano será cedido para os racistas.

acesse também

arquivo

João Alfredo
Camila Valadão
Ailton Lopes

artigos

facebook

A Comuna é uma organização ecossocialista, feminista, antirracista, antilgbtfóbica, antiproibicionista e revolucionária fundada em 2017 no Brasil. Nos referenciamos numa tradição renovada do Marxismo, construímos a IV Internacional (CI) e atuamos como tendência interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).