IV Internacional na luta em defesa da humanidade

03/09/2020

 

Cinquenta anos de luta em defesa da humanidade

Ernest Mandel

Tradução de Elisabete Búrigo

 

O texto a seguir foi escrito por Ernest Mandel em 1988, por ocasião do aniversário de 50 anos da fundação da Quarta Internacional. Recuperamos hoje, em tradução inédita, este breve escrito.

 

Fonte: http://www.ernestmandel.org/new/ecrits/article/cinquante-ans-de-combat-pour-le

 

A construção de uma Internacional nunca foi de uma atualidade tão candente. As catástrofes que ameaçam o planeta não podem, de fato, ser contrarrestadas por um projeto baseado apenas em construções nacionais.

 

A teoria de que a construção do socialismo poderia ser completada em um único país fracassou. Isso se manifesta na terrível crise do sistema aberta há alguns anos na URSS. Mas também na tomada de consciência, entre os líderes do Partido Comunista soviético, de que uma série de problemas que se colocam para a sociedade soviética e para toda a humanidade só pode ser resolvida em escala global.

 

Essa tomada de consciência não é arbitrária. Reflete uma evolução material bem palpável. Nos últimos vinte e cinco anos, a sociedade burguesa alcançou um novo patamar na internacionalização das forças produtivas, do capital e da luta de classes. O peso predominante de algumas centenas de empresas transnacionais no mercado mundial resume bem esse desenvolvimento.

 

Um dado adicional torna ainda mais utópico qualquer projeto nacional de construção de uma sociedade sem classes. Os desastres que ameaçam o futuro da humanidade não podem mais ser contidos pelos esforços de um número restrito de países. Desde Chernobyl, qualquer pessoa com bom senso entende que as nuvens nucleares não respeitam fronteiras. Impedir uma guerra nuclear, ou com armas “convencionais” que transformariam usinas nucleares em disparadores de bombas de extermínio da humanidade, conter a poluição dos oceanos, impedir a destruição da camada de ozônio, barrar a destruição de florestas tropicais, pulmão de toda a humanidade, salvar os quatorze milhões de crianças que morrem a cada ano de fome e doenças curáveis ​​no “terceiro mundo” e resolver o problema da miséria e do subdesenvolvimento no terceiro mundo só é possível em escala global, pelo esforço conjunto dos povos e da grande maioria dos países.

 

Quando Mikhail Gorbachev expressa essas verdades básicas com mais nitidez do que o fizeram antes os líderes mais abertos da social-democracia ou dos partidos comunistas, é difícil divergir quanto ao diagnóstico. Ele representa um avanço em relação à concepção demencial de que “o campo socialista” ou “o mundo livre” poderiam vencer uma guerra nuclear. Não se constrói o socialismo, não se preserva a “democracia” sob as cinzas da poeira atômica.

 

Nossa disputa com Gorbachev é sobre as conclusões a serem tiradas do desafio da globalização da crise da humanidade. Para o líder soviético e para os que o seguem, a única resposta está em uma ampliação qualitativa da distensão e da colaboração com as potências imperialistas e com a classe dominante burguesa dos principais países capitalistas do mundo, incluindo os países dependentes semi-industrializados.

 

Promover o desarmamento nuclear – o que obviamente aprovamos, mas sem semear ilusões sobre suas chances de sucesso enquanto a burguesia imperialista detiver o poder em Washington – torna-se assim uma primeira etapa na direção da solução “pacífica” dos chamados “conflitos regionais”. A solução pacífica (por pressão conjunta de Washington e Moscou) de conflitos regionais, inclusive sacrificando movimentos revolucionários no Terceiro Mundo, é um passo em direção a uma colaboração econômica mais estreita, baseada na concessão de créditos muito importantes à URSS. Essa colaboração deve resultar numa redução das dificuldades econômicas internas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, o que sem dúvida levaria a atenuar as contradições sociais e as crises políticas internas. Como afirmou um dos principais consultores de Gorbachev: “O século XX será marcado pelo agravamento dos conflitos de classe, o século XXI será marcado pela expansão gradual da colaboração de classes”.

 

O problema é que essa perspectiva de Gorbachev, como a da social-democracia, como a do gradualismo defendida por Bernstein no final do século XIX, é totalmente utópica. Baseia-se em uma grave subestimação da tendência do capitalismo a provocar crises e catástrofes. Basta olhar para a história do nosso século: a Primeira Guerra Mundial, a crise de 1929, a chegada dos nazistas ao poder, a Segunda Guerra Mundial, Auschwitz, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, as inúmeras guerras coloniais e “regionais” desde 1945, a fome e a miséria do Terceiro Mundo, a nova depressão econômica duradoura desde 1973, a tortura institucionalizada em sessenta países, o aprofundamento da crise ecológica: essa sucessão de catástrofes, o capitalismo já a produziu. Os reformistas não as detiveram. A colaboração de classes não as resolveu, e até mesmo muitas vezes as agravou. Ontem foi assim, será assim amanhã.

 

A crise da sociedade burguesa e dos sistemas de gestão burocrática não se atenua. Tende a se agravar. As contradições globais não se resolvem de modo algum. Pelo contrário, elas se tornam mais explosivas e literalmente colocam em risco a humanidade.

 

Desejar, nessas condições, resolver os problemas da globalização, preservando a sociedade burguesa, a propriedade privada, a concorrência e a guerra de todos contra todos, o “cada um por si” e a crescente irracionalidade global de “soluções” inspiradas pela competição, é tão tolo quanto querer eliminar o desemprego mantendo o capitalismo. Cento e sessenta e cinco anos de experiência a partir de 1823 provam que isso é totalmente irrealista.

 

Hoje são os social-democratas, os gradualistas de todos os tipos, os neo-reformistas do estilo Gorbachev, que são obviamente utópicos. Suas “soluções” não têm nenhuma chance de se efetivar.

 

A perspectiva dos revolucionários é muito mais realista: tentar fazer com que as graves crises que a sociedade burguesa e a ditadura burocrática produzem periodicamente desemboquem em revoluções vitoriosas realizadas pelas massas trabalhadoras dos países envolvidos; paralisar as possíveis respostas do imperialismo pelo poder das mobilizações de massa dentro das fortalezas imperialistas; preparar, durante as mobilizações parciais preliminares e por meio de propaganda sistemática, experiências de auto-organização e autogestão; construir partidos revolucionários de vanguarda que, durante essas crises, se tornarão partidos revolucionários de massa se ultrapassarem uma certa barreira numérica, de implantação, de influência na classe, de credibilidade; arrancar o poder dos capitalistas e dos burocratas responsáveis ​​pela crise atual; construir uma federação socialista mundial, único quadro em que os problemas da “globalização” podem ser efetivamente resolvidos.

 

Alguém poderia objetar que o sucesso não é garantido. Possivelmente. Mas pela outra via o fracasso é certo. Todo o passado atesta isso. Ser enganado hoje com a ilusão de que isso não acontecerá é repetir o erro suicida dos social-democratas e comunistas alemães antes de 1933, dos judeus da Europa antes de 1939, dos jovens japoneses e americanos na véspera de Hiroshima. Não será apenas tão ruim quanto o previsto pelos “profetas do juízo final”. Será pior.

 

Diante dessa corrida para o abismo, a única atitude razoável é parar a máquina infernal a tempo. Não haverá federação socialista mundial sem o esforço conjunto dos proletários dos principais países do mundo. Não haverá solução revolucionária para os problemas da “globalização” sem a construção de uma internacional revolucionária de massas. Não haverá construção de uma internacional revolucionária de massas sem a construção conjunta, desde já, de partidos “nacionais” e de um partido internacional que pratiquem a solidariedade universal dos explorados e oprimidos, sem exceção ou reserva. Todo o resto é ilusão e utopia espontaneísta.

 

Nunca nestes cinquenta anos a necessidade de construir a Quarta Internacional foi tão candente. A internacional deverá ser, será a humanidade, porque sem internacional, não haverá humanidade.

 

 – Ernest Mandel, 1988

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