Alguém consegue entender o MES?



Um diálogo com as companheiras e os compaheiros do MES/PSOL


por João Machado*

Não sou capaz de compreender os zig-zags do MES. Se alguém puder me ajudar nisto, agradecerei.


Roberto Robaina, provavelmente o dirigente mais importante da organização, publicou no dia 1º de abril, na Revista Movimento, a revista on line do MES, um bom artigo, “As baixas no PSOL e a necessidade de definição de rumos”. https://movimentorevista.com.br/2022/04/as-baixas-no-psol-e-a-necessidade-de-definicao-de-rumos/

Seu primeiro parágrafo menciona as diversas saídas recentes de parlamentares e lideranças do PSOL, em direção ao PT, ao PSB ou até ao PDT. Muito corretamente, na minha opinião, atribui o acúmulo destas saídas ao “custo da diluição do partido, da perda de seu perfil e da ausência de um projeto próprio.” Explica depois que o que se tem diluído no PSOL é a marca da “construção de uma perspectiva anticapitalista”.


Entretanto, dois dias antes, na reunião da Executiva Nacional do PSOL do dia 30 de março, o MES havia se unido à ala mais à direita do PSOL (Primavera e Revolução Solidária) para impor ao PSOL uma federação com a Rede Sustentabilidade. Se esta decisão for homologada pelo Diretório Nacional do PSOL, marcado para se reunir (virtualmente) no dia 18 de abril, o PSOL será, para efeito da Justiça Eleitoral, pelo prazo mínimo de quatro anos, o mesmo partido que a Rede. Os dois partidos terão de apresentar candidaturas unificadas aos cargos majoritários, bem como listas unificadas de candidaturas às eleições parlamentares, pelo menos nas eleições de 2022 e de 2024.


PSOL e Rede, que funcionarão eleitoral e parlamentarmente como um só partido, terão formalmente um mesmo programa, cuja proposta foi fechada numa comissão de negociação dos dois partidos. Sem nenhum debate mais amplo no PSOL, aliás.


Obviamente, o texto aprovado precisou ser programaticamente bem diluído, para poder ser aceito pelos negociadores dos dois partidos. Combina, por exemplo, a defesa do “ecossocialismo” e do “socialismo radicalmente democrático” (incorporados programaticamente, ao menos de modo formal, pelo PSOL), com “o conceito, ainda em formulação, do Sustentabilismo Progressista, que se propõe a superar os atuais modelos insustentáveis de desenvolvimento, pela via progressista e democrática”, proposto pela Rede. Como é bem sabido, a tal via “progressista e democrática” não passa de um “capitalismo sustentável”. Que as e os ecossocialistas sabem muito bem que não existe.


Haverá também uma direção comum da federação.


Para piorar as coisas, à diluição programática será acrescentada muita confusão prática, especialmente sobre em qual lado da luta de classes a “federação” estará. Vejamos o caso do estado de São Paulo (em outros estados pode ser ainda pior).


Marina Silva deverá ser candidata a deputada federal por este estado. Ora, como é notório, ela sempre defendeu, no plano econômico, não apenas o suposto “capitalismo sustentável”, ou o “conceito em construção do sustentabilismo progressista”, mas também o neoliberalismo. Foi por isto violentamente criticada pela campanha de Dilma Rousseff em 2014 – de forma, aliás, muito desonesta, pois a campanha da Dilma acusou Marina de querer fazer coisas que os próprios governos do PT já faziam (como respeitar a “independência do Banco Central”, o que vinha sendo praticado pelos governos brasileiros desde 1999). Alijada do segundo turno a partir destes ataques, Marina Silva retrucou depois defendendo o voto em Aécio Neves no segundo turno, e mais tarde levando a Rede a apoiar o impeachment de Dilma Rousseff. Um golpe, como sabemos.


No mesmo estado de São Paulo, a Rede tem uma deputada estadual, Marina Helou, que faz parte da base de apoio dos governos do PSDB, e que, na véspera de a Executiva do PSOL aprovar a federação do partido com a Rede, deu o voto decisivo para que um “plano de carreira dos professores”, encaminhado pelo governo Dória, passasse na Assembleia Legislativa. Foi, como não é difícil imaginar para quem sabe quem é Dória, um plano CONTRA a carreira dos professores. Esta medida de Dória foi combatida tenazmente pelo movimento docente. Com o apoio do PSOL, naturalmente, e também de outros partidos menos à esquerda.


Assim, as coitadas e os coitados des eleitora/es paulistas que quiserem votar em candidates do PSOL a deputade federal e a deputade estadual nas próximas eleições estarão correndo o risco de contribuir para eleição de Marina Silva e de Marina Helou. Há uma forte possibilidade de uma parte des eleitores potenciais do PSOL, especialmente aquela parte que se identifica com uma perspectiva anticapitalista, não querer fazer isto, e preferir votar até mesmo em candidates do PT. O PT estará, certamente, numa coligação programaticamente confusa (a federação PT-PC do B-PV), mas talvez não mais confusa do que a federação entre PSOL e Rede.


Parece óbvio que a aprovação da federação com a Rede, se for homologada pelo DN do PSOL, terá contribuído para uma brutal descaracterização programática do partido. Terá feito o PSOL ficar mais parecido com o PT ou com partidos burgueses “de esquerda” ou “progressistas”, como o PSB ou o PDT. Aliás, Marina Silva e Heloísa Helena deverão ser liberadas pela federação para dar seu apoio ao candidato a presidente deste último partido, Ciro Gomes.


Logo, quem quiser agir de acordo com a preocupação do artigo de Roberto Robaina, e batalhar contra a diluição do PSOL, contra sua perda de seu perfil e contra a ausência de um projeto próprio do partido, deverá fazer o oposto do que o MES fez na reunião da Executiva Nacional do dia 30 de março. Quando – vale a pena repetir, para enfatizar – ele se uniu à ala mais à direita do PSOL (Primavera e Revolução Solidária) para impor ao PSOL a federação com a Rede Sustentabilidade.


É muito importante que todas e todos que defendem a não diluição programática do PSOL, que querem um partido com um perfil nitidamente socialista, anticapitalista, que seja visto como um partido que está sempre, na luta de classes, do lado das trabalhadoras e dos trabalhadores, e de todas e todos que lutam contra todas as formas de exploração e opressão, pressionem Roberto Robaina e es demais dirigentes do MES a mudarem de rota e a votarem na reunião do DN do PSOL CONTRA a federação do PSOL com a Rede, para que este absurdo não seja homologado.


Poderemos usar nesta batalha os bons argumentos que Roberto Robaina expôs neste artigo. Inclusive porque, se a federação for confirmada, corremos um forte risco de assistirmos a um movimento muito mais negativo para o projeto do PSOL do que a saída de setores que foram para o PT, o PSB ou para o PDT: a saída de setores de esquerda do partido, em direção ao Polo Socialista e Revolucionário animado pelo PSTU, ou para outras opções à esquerda de um PSOL descaracterizado, diluído programaticamente, sem perfil próprio e sem lado nítido na luta de classes.


Certamente não bastará fazer pressão sobre dirigentes do MES. Será preciso também garantir que todos os outros setores que fizeram parte da chapa da oposição de esquerda ao PTL votem contra a federação (como já declararam que farão), e que o mesmo façam a Resistência e a Insurgência (que, na reunião da Executiva, já expressaram uma posição contrária à federação, embora tenham preferido se abster na votação principal, e tenham votado com a Primavera e a Revolução Solidária, e contra o MES, em relação às emendas na resolução propostas por este último).


Finalmente, é importante lembrar que, além de eventualmente escrever bons artigos, o MES tem também boas ações práticas nos embates do PSOL, como teve quando participou da oposição de esquerda ao PTL no congresso do PSOL de 2021 (como a maior força dela), apoiando a pré-candidatura do companheiro Glauber Braga à presidência da República, ou como está tendo agora, disponibilizando o excelente nome da companheira Mariana Conti para ser candidata ao governo de São Paulo, após a desistência de Guilherme Boulos, decidida individualmente. Infelizmente, esta excelente pré-candidatura tem sofrido com um problema de timing: sua apresentação foi feita aproximadamente quando o debate em torno da federação do PSOL com a Rede se acirrou, o que fez grande parte da esquerda do PSOL de São Paulo não entender a linha do MES.


Uma maior nitidez do MES, que o colocaria em acordo com o que Roberto Robaina defendeu neste artigo, e exigiria a correção da ininteligível posição de defesa da federação com a Rede, certamente seria ótima para a pré-candidatura da companheira Mariana.


O MES fará esta correção de rumos? Não sei. Como disse no início deste texto, não consigo entender os zig-zags do MES.


Mas espero fervorosamente que ele a faça.




*João Machado é militante da Comuna em São Paulo e membro da Coordenação Nacional da Comuna

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