As crises de uma política errática para o PSOL: ainda há tempo e é preciso revertê-la!



por Gabriel Augusto e Ana Carolina Andrade

No VI Congresso Nacional do PSOL, uma maioria de 56% dos delegados e delegadas aprovou que o partido não apresentasse, naquele momento, pré-candidatura própria à presidência da república. Seu argumento era de priorizar a construção de uma aliança de esquerda que revertesse as medidas dos governos pós-golpe de 2016. Embora não esteja escrito na resolução, é de conhecimento público que os companheiros(as) que conformam esta maioria defendem o apoio a Lula desde o primeiro turno das eleições.


De lá para cá, a linha política levada adiante pelo PT dá sinais ainda mais claros de que a aliança que o partido pretende construir sob a liderança de Lula não será de partidos e organizações de esquerda, mas uma frente amplíssima com tantos direitistas quantos quiserem participar. A expressão mais evidente da política petista é a proposição de que Alckmin seja vice nesta chapa presidencial. Outras sinalizações, como a reunião recente de Lula com os Calheiros em Alagoas, escancaram que a busca do petismo não é a de vencer com um programa e uma aliança de esquerda, mas reeditar os acordos sob os quais governaram até 2016.


Na medida em que os trâmites para a frente amplíssima vão ficando mais explícitos, o setor da direção do PSOL que defendia, em abstrato, uma frente de esquerda com Lula e um programa de esquerda, se vê forçado a descer do mundo ideal e confrontar a realidade. A campanha que o PT fará em 2022 aliado a Alckmin, Renan Calheiros, Eunício Oliveira et. al. não será a de uma frente de esquerda. E embora o PT busque reeditar as fórmulas com as quais governou até 2016, o terreno da crise brasileira imporá a um governo “de conciliação” um grau muito mais elevado de concessões à burguesia. A classe dominante que terá, numa chapa com Geraldo Alckmin, a garantia de uma válvula de escape para golpear um futuro governo a qualquer sinal de deslocamento do PT dos limites que lhes forem determinados.


Embora o presidente do PSOL dê entrevistas afirmando que se a campanha de Lula tiver um programa de esquerda, a incoerência estará com Alckmin, todos sabemos que a aliança Lula-Alckmin delimita muito mais o horizonte programático de um futuro governo do que aquilo que estiver escrito no papel. Alckmin, como válvula de escape para a burguesia, é a garantia que o PT oferece de que o programa a ser implementado ficará nos limites que a classe dominante estabelecer. O presidente do PSOL sabe disso, mas ao afirmar que a contradição está com Alckmin, admite que a política do campo PSOL Popular será substituir o aprovado no congresso – “frente de esquerda, programa de esquerda” – pela participação do PSOL na frente amplíssima.


O risco iminente de o PSOL assumir a condição de ala esquerda da frente amplíssima tem levado a militância do partido a inúmeros questionamentos e a um preocupante quadro de dispersão política. Sem uma linha política independente e em compasso de espera, o PSOL vê parlamentares e mandatários saindo para o próprio PT, como o prefeito de Potengi (CE), ou mesmo para o PDT, como no caso do deputado David Miranda.


Por outro lado, camaradas que constroem o nosso partido pela base questionam se o PSOL ainda se afirmará como “um partido necessário” se optar por embarcar na frente amplíssima a qualquer custo, inclusive ao custo de renunciar o seu programa. Veem também com grande preocupação o partido discutindo a formação de uma federação partidária casuística com a REDE, partido com o qual não temos afinidade política ideológica construída nas lutas sociais. Como ficará o programa do PSOL diante desses dois passos? Na frente amplíssima e em federação com a Rede, a contradição não estará conosco?


Um programa é mais que um conjunto de folhas de papel onde se encontram rabiscadas uma dúzia de propostas bem-intencionadas. Deve ser a expressão de um acúmulo das lutas que é capaz de pôr em movimento a nossa classe na direção de transformações estruturais. O papel aceita tudo: reforma agrária, revogação das contrarreformas, retomada das demarcações, democratização dos meios de comunicação, imposto sobre grandes fortunas, reversão das privatizações, etc. Muitas coisas podem lá estar, mas não passarão de uma carta de boas intenções se as alianças conformadas para governar tiverem como pilar de sua sustentação o pacto com as elites que impedem que cada uma dessas propostas avancem.


Do ponto de vista dos que defendem a frente amplíssima, será muito fácil dizer – e já há quem prepare este terreno – que faltou uma maioria de esquerda no parlamento para defender nossas propostas. Uma posição que renuncia desde já a participação organizada da classe trabalhadora na dinâmica da luta política, limitando a atuação política da esquerda aos acordos possíveis no âmbito de um parlamento que, sabemos, seguirá dominado pelos interesses econômicos da burguesia.


Os companheiros e companheiras da Resistência, que fizeram nos últimos meses a defesa do apoio a Lula com um programa e esquerda, apresentaram em editorial no Esquerda Online um conjunto de 9 pontos programáticos com os quais temos muita concordância. Entre outras coisas, propõem a revogação do teto de gastos, da contrarreforma da previdência e trabalhista, o enfrentamento à crise climática, a estatização de grandes bancos privados, o fim da guerra das drogas e a desmilitarização das polícias, a legalização do aborto, desapropriações para avançar com a reforma agrária e urbana e adoção de mecanismos de consulta direta como plebiscitos e referendos.


Cabe, contudo, questionar aos companheiros e companheiras: que espaço terão essas propostas em uma campanha liderada por Lula e Alckmin? A frente amplíssima que vem se consolidando contribui para que cada um desses pontos seja implementado em um futuro governo? A participação do PSOL na frente amplíssima, sem uma candidatura própria no primeiro turno, dá mais visibilidade e força na sociedade para cada uma dessas bandeiras ou as deixará ainda mais escondidas?


Quando escolhemos nos diluir em uma frente amplíssima cujos participantes não estão comprometidos com o programa que defendemos - por seu passado e presente, de aliança com a burguesia e ataque aos trabalhadores - estamos, na verdade, nos eximindo de apresentar uma alternativa que chegue à raiz dos problemas que enfrentamos, que combata o capitalismo, o bolsonarismo e a extrema-direita.


Na pré-candidatura que levamos adiante com o companheiro Glauber Braga, por outro lado, temos desafiado os pré-candidatos do campo da esquerda a se comprometerem com um referendo revogatório das contrarreformas. Partimos do entendimento que enfrentar as agendas ultraliberais e reacionárias do bolsonarismo, uma luta para além das eleições, requer a aposta no fortalecimento das mobilizações populares.


Participando da frente amplíssima, o PSOL ajudará a consolidar na consciência do povo a ideia de que a derrota do bolsonarismo só é possível por meio do acordão com os co-autores da política genocida. Um erro que conduz a mais derrotas no futuro. Por isso, entendemos que a defesa do projeto socialista nas eleições não é um inconveniente para combatermos Bolsonaro e o bolsonarismo. Antes pelo contrário, esta defesa fortalece a construção de um projeto e de um horizonte de transformação radical para o Brasil.


Ainda que tenhamos perdido um tempo precioso para apresentar muito mais do que um nome, mas um conjunto de propostas para enfrentar a fome, o desemprego, a crise ambiental e política, o racismo, a LGBTfobia e o machismo, e a construção de um projeto anticapitalista e ecossocialista, ainda há tempo. É o momento de reafirmarmos o PSOL como um partido mais do que necessário, uma alternativa política que compreende que não existem atalhos na defesa da classe trabalhadora.



*Gabriel Augusto

Coordenação Nacional da Comuna e Direção Nacional do PSOL


**Ana Carolina Andrade

Coordenação Nacional da Comuna e Setorial de Mulheres do PSOL – SP

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