Desmentir o tratamento precoce é salvar vidas


Por Camila Viviane (*) e Thiago Jerohan (**)


Vivemos um contexto de crise sanitária gravíssima, alguns especialistas já falam que é o pior momento da história da Saúde Pública Brasileira. Já se somam mais de 11 milhões de infectados e 300 mil mortes em território brasileiro.


Todos os dias em nossas redes sociais é possível ver mensagens de luto, a sensação que a pandemia era algo distante deixou de existir.


Essa realidade revela outra crise: a de informação. A pandemia do Coronavirus também está sendo observada como um caso de fracasso de comunicação, onde é quase impossível garantir informações simples e seguras de serem tidas como referência pela população com a variedade de canais dispersos de comunicação digital como redes sociais e mensageiros (whatsapp, telegram, etc) sendo bombardeados várias vezes ao dia com notícias falsas que pioram e muito os desafios da gestão pública e das soluções comunitárias de combate à epidemia.


Ainda circulam notícias de que a covid-19 é um espetáculo midiático de interesse dos governos e que ela não é uma doença real; que máscaras e isolamento não funcionam como estratégias epidemiológicas e sim para controlar os cidadãos; que vacinas não ajudam a prevenir e ainda adoecem, matam, ou implantam chips que roubam dados… mas uma talvez mais preocupante por também ser disseminada por parte da comunidade médica que atende paciente infectados pelo Sars-CoV-2 e suas variantes que é o “Tratamento Precoce”.


É um coquetel de medicamentos que é promovido pelo governo Bolsonaro, e parte da sua seguidora classe médica e profissionais da saúde, o chamado “Kit COVID”, não é só polêmico. Ele é contraindicado por diversas entidades. A casadinha de administração de Hidroxicloroquina, Azitromicina e Ivermectina não é eficaz nem como prevenção, nem como tratamento em casos assintomáticos, leves ou graves.


Na fase assintomática, nenhum medicamento mostrou eficácia, infelizmente nenhuma pesquisa ao redor do mundo mostrou a eficácia dessas medicações, não há comprovação que essas drogas podem alterar o agravamento, nem o desfecho da doença. Inclusive a própria fabricante de Ivermectina indicou que o medicamento não fosse usado para esse fim pois não é eficaz contra a doença. Já existem notícias de alguns pacientes precisando transplantar o fígado e até mortes pelo uso equivocado desse fármaco.


A hidroxicloroquina foi abandonada em todos os países desenvolvidos e pode inclusive causar arritmia cardíaca. Há também a preocupação com o uso indiscriminado da azitromicina que pode levar a aumento da resistência bacteriana. Um exemplo prático é o já surgimento de uma gonorréia (doença bacteriana conhecida por ser transmitida sexualmente que é tratada com azitromicina) superresistente.


Nenhuma sociedade médica brasileira envolvida com o COVID indica que nesse momento há qualquer eficácia nesses tratamento profiláticos, são elas: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Assosicação dos Medicos Intensivistas,Sociedade de Geriatria, Sociedade de Medicina de Emergência, Sociedade Brasileira de Infectologia, além da Associação Médica Brasileira (AMB), ANVISA e Organização Mundial de Saúde.


Sem tratamento comprovado para a Covid-19, temos que nos preocupar mais em não espalhar mais o vírus, nos protegendo e protegendo outras pessoas com as medidas que já conhecemos. Ainda assim, existem novas variantes do vírus que são ainda transmissíveis e mais fáceis de ‘pegar’ e por isso os cuidados precisam ser redobrados. Aqui vamos lembrar quais são esses cuidados:


- Distanciamento Social (se puder, só saia de casa para o estritamente necessário)

- Manter o ambiente higienizado e bem ventilado

- Se precisar sair, prefira lugares abertos e ventilados e evite aglomerações e proximidade com as pessoas

- Usar sempre máscaras de qualidade (N95 / PFF2 sem válvula), cobrindo bem a boca e o nariz, quando precisar sair ou receber pessoas (as comuns máscaras de tecido são fracas para a nova variante do coronavirus)

- Limpar sempre as mãos com água e sabão (qualquer sabão funciona) ou álcool 70%

- Vacina

- Ficar em isolamento respiratório assim que houver suspeita de Covid-19 (sentir os sintomas comuns da doença ou ter sido exposto a alguém que testou positivo próximo dessa exposição)


Importante lembrar que algumas dessas medidas também são de responsabilidade do poder público na gestão da crise de saúde e que precisamos cobrar::


- Auxílio emergencial / renda básica para garantir que as pessoas possam ficar em casa

- Lockdown nacional para conter o fluxo de pessoas e, consequentemente, do vírus

- Vacinação em massa para toda a população em pouco tempo


Em outro texto, nós propomos mais medidas econômicas importantes na defesa da vida e contra a covid-19. Até lá, precisamos ser muito responsáveis no cumprimento das medidas preventivas individuais, em engajar nas ações de solidariedade, disseminar informações corretas e combater a viralização de fakenews. Mas nenhuma medida preventiva eficaz inclui o uso dessas medicações do kit covid hoje orientado pelas fakenews e médicos bolsonaristas como tratamento precoce.


Dessa forma, repudiamos as recentes divulgações de organização de médicos e empresários que visam disseminar tais medicações uma aberta ação política de correia de transmissão do Governo Bolsonaro que deseja minimizar sua ineficaz condução da Pandemia e a despeito de todo o debate da falta de evidências científicas sobre sua efetividade. O tratamento precoce faz parte da política de morte do Bolsonaro contra a qual todas, todos e todes precisamos nos organizar e lutar.


Fiquem em casa! Parem com o tratamento precoce! FORA BOLSONARO! (*) Camila Viviane é terapeuta ocupacional e membro da Coordenação Nacional da Comuna

(**) Thiago Jerohan é comunicador e membro da Coordenação Nacional da Comuna

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