Dos males, o pior.



Ao tentar vincular a federação com a Rede ao Ecossocialismo, o Subverta maltrata a própria acepção do termo.


Por Mateus de Albuquerque*


A recentemente formalizada federação do PSOL com a Rede Sustentabilidade motivou diversos textos críticos assinados pela Comuna, inclusive um que contou com a assinatura deste humilde escriba e dos companheiros Gabriel Augusto Coelho e Railam Pires. Parece que todos os temas possíveis sobre essa situação já foram esgotados, ainda mais quando observamos que o PSOL acaba de aprovar outro acinte à sua própria história, rifando a possibilidade de apresentar uma candidatura própria em nome de apoiar a Frente Amplíssima lulista, com o ex-governador mas sempre atual-conservador Geraldo Alckmin na chapa principal.


O que resta a ser dito, então? Bom, nossos companheiros do Subverta, em seu texto publicado no dia 20 de abril de 2022, nos lembram que há ainda um elemento para tratar. Muitos dos que apoiaram a Federação com a Rede apresentaram razões pragmáticas para tanto. Isso está lá, nos textos do MES, que indicam, no geral, a necessidade de defender o PSOL de sua liquidação como justificativa para o ato, colocando a federação com a Rede como única alternativa entre nos liquidarmos ou formarmos uma federação com o PT-PCdoB. O pragmatismo está na notícia da federação no site do PSOL, que menciona as federações como “um instrumento para que partidos ideológicos possam buscar ultrapassar conjuntamente a antidemocrática cláusula de barreira”.Infelizmente nossos companheiros da Primavera Socialista, corrente que detém a presidência do partido, não fazem questão de publicar suas posições em seu site, talvez pelo fato de que a própria posição oficial do PSOL no geral seja expressão de seus desejos. O texto do Subverta também não se faz de rogado nesse tipo de argumento, clamando que não é momento de o PSOL arriscar em uma “ação tática” para “garantir a sobrevivência partidária”.


Mas o escrito também apresenta elementos que escapam a esse pragmatismo. Ali vemos razões programáticas para a vinculação com a Rede. Mas as razões programáticas apresentadas pelo Subverta possuem uma matriz diferente. Essas razões são apresentadas quando o Subverta clama, em uma seção específica do documento, pela convocação de um “pólo (sic) radical pelo ambientalismo brasileiro”. A resolução reconhece que a postura da Rede se aproxima do ecocapitalismo, mas contrapõe isso à crescente importância que a luta ambiental tem tido no PSOL, possibilitando que o PSOL lidere o polo ambientalista, pendendo a uma alternativa radical e anticapitalista. Poderíamos dizer que o excerto em questão é bastante confuso em mostrar a relação entre uma coisa e outra, mas estaríamos sendo injustos, tendo em vista que ele é encerrado com “A federação garante um espaço de proximidade entre os partidos, fértil para esse movimento. Essa disputa não será fácil, mas negar sua possibilidade de antemão é abandonar uma trincheira de luta”.


É bastante merencória essa narrativa. Claro, na proposição de legislações de maior regulação ambiental, na defesa legislativa contra os ataques promovidos pelo capitalismo ao meio ambiente, e mesmo nas ruas, construindo movimentos contra esses mesmos ataques, a Rede pode ser vista como aliada tática. Aliás, não somente a Rede, como vários grupamentos que não reivindicam o ecossocialismo, e sequer o anticapitalismo. Sectarismo é deixar de lutar em nome das diferenças. Nos unimos ao PT, ao PCdoB e demais traidores da classe contra os desmontes de Temer. Nos unimos até mesmo com setores da direita brasileira para exigir a vacinação para o povo em meio à pandemia. Isso é uma coisa. Outra coisa completamente diferente é crer que precisamos criar uma proximidade estratégica com esses movimentos e organizações. Essa crença subestima o papel que o capitalismo verde cumpre na atual conjuntura. Com a impossibilidade de negar o colapso ambiental cada vez mais latente, setores do capitalismo tem se transfigurado em formas” sustentáveis”, a fim de blindar do sistema as críticas radicais (de pegar pela raiz, como sabemos) à sua reprodução.


O capitalismo verde não é ruim apenas porque é insuficiente. Ele, em sua própria forma, contribui diretamente para deseducar a classe trabalhadora e assim manter a sua exploração, além de perpetuar, claro, o desmantelamento ambiental. Um ecossocialista pode se aliar com ecocapitalistas? Tendo como fim um objetivo específico na conjuntura, sim. Mas se nos deixarmos confundir, até mesmo no nível organizacional, estamos fortalecendo a narrativa que nos devora. No debate com a classe, temos que polemizar com esses setores, nos diferenciar, disputar. Isso não é sectarismo, é ecossocialismo: a crença que um elemento, a luta ambiental é indissociável do outro, a tomada dos meios de produção pela classe trabalhadora.


Nos surpreende que o Subverta, reconhecidamente uma das organizações mais preocupadas com a política comunicacional, subestime dessa forma o papel pedagógico que uma organização ecossocialista deve cumprir. Quanto à Rede, não precisamos nos esforçar muito para apresentar seu vínculo com a burguesia ‘ambientalmente preocupada’, já que o próprio Subverta admite seu caráter ecocapitalista. Não precisamos aqui detalhar a proximidade com os herdeiros do Itaú, com a Natura, e demais. Se o Subverta tem plena consciência dessa relação, por que então dar um verniz programático para uma decisão pragmática?


O fim do texto resume, muito bem, a contradição que tentamos expor. O Subverta anuncia que “Momentos difíceis de erosão democrática exigem de partidos da esquerda radical uma flexibilidade maior, mas também tornam necessária a responsabilidade de nos mantermos vivos e crescendo os instrumentos de luta da classe trabalhadora e dos movimentos sociais.”. Aqui residem os argumentos pragmáticos outrora mencionados. Mas, o diabo retorna na sentença posterior: “Esses momentos trazem também oportunidades inesperadas pelas quais podemos lutar.”. A oportunidade a qual o Subverta se refere aparece após: “Pela sobrevivência do PSOL e pela luta pelo ecossocialismo, apoiamos a federação com a Rede”. Não concordamos com o argumento pragmático. Mas colocar o ecossocialismo, tão caro a nós da Comuna e - esperamos - ao Subverta, como uma das razões para abrir mão de nossa autonomia organizacional é o pior argumento de todos. Muito semelhante ao que o próprio Subverta e outras organizações têm feito em relação ao apoio à chapa Lula-Alckmin: rapidamente, a aliança pragmática pela necessidade de derrotar o Bolsonaro vai se convertendo a um adesismo programático acrítico à figura de Lula, com direito ao “L” na mão e tudo mais.


A deformação programática que vem no pacote dos argumentos pragmáticos é gradual, mas, com o tempo, corrompe por inteiro qualquer organização que se preze revolucionária. É, dos males, o pior.


Post-scriptum: Após a feitura deste texto, mas antes de sua publicação, o Subverta publicou um artigo, assinado por Carlos Bittencourt. O documento, veiculado no site do Subverta, é uma resposta ao texto de nosso companheiro João Machado, que faz cobranças ao MES por suas posições, motivado pelo apoio desta organização à federação com a Rede. O texto de Carlos será merecedor de uma resposta em breve.

*Mateus de Albuquerque é membro da Coordenação Nacional da Comuna, do Diretório Municipal do PSOL de Curitiba e militante do coletivo Ecoar – Juventude Ecossocialista

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