Lula e Boulos – e a independência política do PSOL muito ameaçada


por João Machado

Na manhã da sexta-feira, dia 25/03, Lula lançou a candidatura de Guilherme Boulos a prefeito de São Paulo em 2024. Estava acompanhado tanto do próprio Boulos quanto de Fernando Haddad. Foi uma retribuição de Lula à desistência de Boulos de concorrer a governador em São Paulo, e à defesa de que o PSOL apoie a candidatura de Haddad, que ele começou a fazer.


Até 2024 muita coisa se passará, e não sabemos se Lula e o PT confirmarão o apoio anunciado. Entretanto, independentemente disto, a declaração de Lula teve dois efeitos, intencionais ou não.


a) Reforçou a pressão sobre o PSOL de São Paulo para apoiar a candidatura de Haddad ao governo, e não lançar outra candidatura. Assim, fez pressão contra a pré-candidatura da companheira Mariana Conti, vereadora em Campinas, que foi lançada após a desistência de Boulos.


b) Comprometeu Boulos com o apoio ao seu possível futuro governo. Não em 2024, mas desde seu início. Nem é o caso de mencionar que Lula também comprometeu Boulos com o apoio à sua candidatura a presidente, mesmo com Alckmin como vice e sem qualquer programa de esquerda, pois Boulos já estava mais do que convencido a fazer isto. O que, aliás, irá contra a resolução do Congresso do PSOL de setembro de 2021, que definiu uma coisa muito diferente: abrir discussões para o apoio à candidatura de uma “frente das esquerdas”.



Quando a candidatura de Boulos a governador foi lançada, o bloco majoritário da direção do PSOL (o “PSOL de Todas as Lutas”) acreditava, ou parecia acreditar, que seria possível que Lula e o PT, em troca do apoio à candidatura à presidência da República, apoiassem o PSOL em São Paulo. Talvez este setor acreditasse até que PT e PSOL poderiam formar, de fato, uma “frente das esquerdas”, embora qualquer pessoa que preste atenção à política brasileira devesse saber que esta não era a linha nem do Lula, nem do PT.


Depois, quando ficou evidente que o PT não renunciaria de forma alguma à candidatura de Haddad, a manutenção da candidatura de Boulos passou a ser defendida para dar ao PSOL presença significativa nas eleições majoritárias, e afirmar sua independência política em relação ao PT, bem como suas diferenças com este partido. Isto é, para não deixar passar a ideia de que o PSOL havia aceitado o papel de coadjuvante do PT.


Não tendo candidatura própria a presidente nas eleições deste ano, como o “PSOL de Todas as Lutas” sempre defendeu, o lançamento de candidaturas aos governos estaduais, principalmente o de São Paulo, compensaria, parcialmente, a falta de presença nacional do PSOL. Esta preocupação estava presente principalmente no setor mais à esquerda do bloco majoritário na direção do PSOL, o “PSOL Semente”, que achava importante reafirmar a posição do PSOL como um partido à esquerda do PT e crítico a seus governos (tanto aos atuais governos estaduais, quanto aos governos anteriores de Lula e ao governo de Dilma Rousseff).


Não sabemos o que fará o conjunto do setor majoritário na direção do PSOL agora. Sabemos, entretanto, que boa parte dele já se definiu pelo apoio a Haddad. Além de Boulos, outros dirigentes do “PSOL Popular”, que constitui a maioria do “PSOL de Todas as Lutas”, já se expressaram nesta direção. Alguns dirigentes do “PP” têm reivindicado ainda que o PSOL tenha a candidatura a vice-governador(a) de Haddad ou seja apoiado pelo PT, em São Paulo, para concorrer ao Senado. Ao que tudo indica, pelo menos na prática, o “PP” já abandonou a ideia de que é preciso reafirmar um perfil do PSOL distinto do PT e não passar a ideia de que o PSOL se tornou um coadjuvante nestas eleições.


O “PSOL Semente”, que constitui a minoria mais à esquerda do “PSOL de Todas as Lutas”, estava bem mais comprometido do que o “PSOL Popular” com a necessidade de candidaturas próprias do PSOL ao governo de São Paulo e de outros estados. Além disto, estava também comprometido com a ideia de que, para consumar o apoio à candidatura Lula à presidência, seria necessário, ao mesmo tempo, afirmar que o PSOL não participaria de um possível novo governo Lula – que seria um governo de colaboração de classes.



O “PSOL Popular” era contrário a fazer desde já uma declaração de que não participaria do governo. Esta diferença levou a que, no Congresso do PSOL de setembro de 2021, o bloco “PSOL de Todas as Lutas”, formado pelos dois setores, aprovasse uma resolução completamente ambígua sobre a participação do PSOL em governos. Tão ambígua que, de fato, só disse que esta questão seria resolvida depois, pelo Diretório Nacional do partido.


Lamentavelmente, no lugar de reconhecer este fato incontestável, setores do “PSOL Semente”, levando ao limite a opção pelo autoengano, afirmaram que o Congresso havia definido que o PSOL não participaria de governos de colaboração de classes (como foram os governos Lula e Dilma, e todos os governos estaduais do PT desde, pelo menos, 2002).


Voltando aos desafios atuais para o PSOL: parece não haver dúvida de que o “PSOL Popular” vai defender, possivelmente com unhas e dentes, o apoio a Haddad em São Paulo. E que, diante de declarações como a que Lula deu nesta sexta-feira, ficará feliz com o possível apoio do PT a Boulos em 2024, e se encaminhará alegremente para participar do possível governo Lula-Alckmin. O qual, como é de conhecimento geral, não será um governo menos social-liberal do que os governos do PT entre 2003 e 2016.


Talvez as e os dirigentes do “PSOL Popular” justifiquem a participação em um governo de colaboração de classes dizendo, por exemplo, que para derrotar o neofascismo bolsonarista, impõe-se uma etapa de “governo de união nacional mais ou menos antifascista” (já que falar em uma união nacional nitidamente antifascista seria exagerado, levando em conta que parte dos aliados atuais de Lula colaboraram bastante com o governo Bolsonaro). Seria uma espécie de reedição, bem mais rebaixada do que a original, da antiga tese da “revolução por etapas” que foi defendida pelo PCB na época em que era um partido inteiramente submetido ao stalinismo. Na hipotética defesa de um “governo de união nacional mais ou menos antifascista” seriam imaginadas etapas, mas é muito duvidoso de que permanecesse alguma ideia de que elas desembocariam em uma revolução.



Ou talvez as e os dirigentes do “PSOL Popular” reeditem a tese do “governo em disputa”, que levou a maior parte da antiga esquerda do PT para a prática da colaboração de classes, ou sejam mais criativos e inventem outro tipo de argumento.

A questão-chave agora, então, é saber o que fará o “PSOL Semente”. Manterá a defesa anterior de candidatura própria do PSOL ao governo de São Paulo e em outros estados? Manterá a linha de que o PSOL não deve participar de governos de colaboração de classes?



Não sei qual será a resposta a esta pergunta. Mas sei que, para manter alguma defesa da independência política de classe e da construção do PSOL como um partido socialista independente, o “PSOL Semente” terá de romper com a linha do “PSOL Popular”, e terá de fazer isto JÁ, no máximo até a Conferência Eleitoral do PSOL, prevista para o fim de abril. Terá de deixar o bloco “PSOL de Todas as Lutas”. Qualquer outra posição será, na melhor das hipóteses, manter a prática de autoengano que, infelizmente, tem sido uma característica constante do “PSOL Semente”. Na pior das hipóteses, será a a aceitação da subordinação do PSOL ao PT.




Tomar a decisão de desfazer o bloco com o “PSOL Popular” não será nada fácil para o “PSOL Semente”. Será necessário corrigir um curso que já dura vários anos. Será necessário, em especial, expressar uma posição crítica à linha de Guilherme Boulos e deixar de ser, na prática, dirigido por ele – ou seja, o contrário do que o “PSOL Semente” vem fazendo.

Que o Bom Deus dos revolucionários ajude a quem quer construir o PSOL como um partido socialista independente.

P.S. Para o PSOL manter seu caráter de um partido socialista, e não social-liberal, há outras questões fundamentais, naturalmente. Uma delas é a batalha contra uma federação do PSOL com a Rede.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/03/lula-lanca-boulos-candidato-a-prefeito-de-sao-paulo-em-2024.shtml

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