PSOL ERRA AO EMBARCAR NA CHAPA LULA-ALCKMIN DESDE O PRIMEIRO TURNO



por Pedro Barbosa*


No sábado, o PSOL decidiu apoiar oficialmente a chapa Lula-Alckmin desde o 1º turno das eleições de 2022. Enquanto militante deste partido, afirmo com todas as letras: é um grande erro.


Nossa principal tarefa é derrotar Bolsonaro. É evidente. Quem discorda disso?


A questão mora em outro lugar.


O problema é acreditar que a melhor forma de contribuir para isso é apoiar a candidatura Lula-Alckmin no 1º turno. Além de um engano, esta é uma péssima decisão para o PSOL.


Na verdade, é também uma péssima decisão para o conjunto dos explorados e oprimidos no Brasil. Pois com isso perdemos a oportunidade de ter uma candidatura que represente os nossos interesses de maneira independente, consistente e coerente, com projeção e alcance nacional.


Uma candidatura que, na luta de classes, tomaria o lado dos oprimidos ⎼ sem conciliação com os grupos dominantes e seus representantes políticos de “centro” ou de direita. Uma candidatura que seria a porta-voz de um projeto político de ruptura e de emancipação, em defesa das transformações estruturais que precisamos para melhorar de maneira qualitativa e substantiva a vida dos de baixo.


Revogação de todos os ataques e medidas regressivas dos últimos anos (a começar pela EC do teto de gastos e pelas contrarreformas da previdência e trabalhista). Reforma agrária radical, reforma urbana popular, reforma tributária progressiva. Valorização dos serviços públicos, defesa dos bens comuns, da natureza e dos povos tradicionais. Combate às opressões de raça, gênero e sexualidade. Emprego e melhores condições de trabalho e de vida para todos.


A lista poderia se prolongar, mas a direção é clara. Um programa como esse exigiria se confrontar com os interesses dos donos do dinheiro e do poder. Um enfrentamento que a chapa Lula-Alckmin não terá nenhuma condição de fazer, por razões óbvias, inclusive por sequer se propor a tanto. Mas sem isso, não tem alternativa real. A perspectiva de ruptura com o capitalismo não é luxo, um desejo acessório e infantil. Mas uma necessidade histórica.


Desperdiçamos essa oportunidade.


E vejamos. Bolsonaro é fruto da crise do capitalismo. O bolsonarismo é a expressão nacional de uma tendência de ascensão e fortalecimento da extrema-direita em todo o planeta. A democracia liberal-burguesa está apodrecida. Ela não consegue dar respostas satisfatórias às contradições do sistema. Nem respostas suficientes aos problemas dos de baixo, cada vez mais esmagados pela barbárie capitalista e suas desigualdades, misérias e violências.


O bolsonarismo é um “monstro” que se alimenta das frustrações e desesperos gestados em larga escala diante da crise civilizatória em que vivemos. Revela uma crise de representatividade e legitimidade das instituições e dos partidos tradicionais (“da ordem”). A desilusão de setores significativos das camadas populares com o PT é parte deste processo. Sonhos e esperanças foram frustrados. A inclusão parcial pelo consumo não conseguiu conter a onda de despolitização em massa. Bolsonaro pode perder as eleições, mas o bolsonarismo não será enterrado eleitoralmente. E é preciso ter clareza de que o PT não tem condições de combatê-lo enquanto movimento político ultra-regressivo e reacionário. E pior, pode e deve contribuir para fortalecê-lo, se não agora, em um futuro próximo.


O PSOL comete um erro grave, portanto.


Mas um erro que tem pelo menos três grandes razões. Primeiro, o medo de uma reeleição de Bolsonaro, somado à pressão social para se apoiar a chapa Lula-Alckmin, desde o 1º turno, como única alternativa eleitoral possível. Este medo é coletivo e legítimo, porém para lidar com ele precisamos nos orientar por uma razão estratégica e uma bússola de classe. Uma candidatura própria da esquerda radical, encabeçada pelo PSOL, não só não atrapalharia como seria a melhor forma de contribuir para enfraquecer e derrotar Bolsonaro, votando em Lula-Alckmin apenas no 2º turno.


Segundo, há muita confusão ideológica e desorientação política no PSOL. De uns tempos para cá, especialmente desde o golpe institucional de 2016, o partido tem sistematicamente sofrido pressão para se subordinar ao PT e se adaptar à ordem. Para deixar de se postular como um partido necessário, independente, anticapitalista e radical. E se diluir em um “campo progressista”, liderado naturalmente por Lula e pelo PT.


Infelizmente, não foram apenas os setores moderados do partido que nos levaram para esse (des)caminho. Hoje, mesmo uma parte da militância, (des)orientada por suas correntes e dirigentes ⎼ sem mencionar as demais lideranças e parlamentares ⎼, perdeu o norte e age como se tivesse passado por um processo de amnésia política. Como se o PSOL não tivesse sido forjado, a duras penas, como oposição de esquerda aos governos petistas de conciliação de classes. Como se não tivesse afirmado em 2016, corretamente, que o PT tinha sua parcela de responsabilidade no enfraquecimento da classe trabalhadora brasileira que abriu as vias para a concretização do golpe institucional e toda sua agenda de retrocessos.


Qualquer um que retenha algo desta memória histórica ⎼ e o programa de um partido serve justamente para assimilar e preservar os aprendizados da experiência dos oprimidos na luta de classes ⎼ não estaria comemorando de maneira eufórica a decisão de apoiar Lula no 1º turno de uma eleição presidencial. Ainda mais tendo como vice Geraldo Alckmin. Como é possível se entusiasmar diante desse cenário?


Por fim, há também o peso da “cooptação material”. A burocracia, neste caso sobretudo partidária, está preocupada prioritariamente com a manutenção de suas condições materiais ⎼ seus cargos e salários, vinculados ao desempenho eleitoral do PSOL (e até a uma participação em um eventual governo Lula-Alckmin). O que leva, como é a praxe dos burocratas, a colocar os cálculos materiais ($) na frente dos princípios. Logo, o que também guiou a decisão oficial da maioria da direção do PSOL foi o burocratismo, o reformismo e o eleitoralismo. Uma vontade de evitar o possível desgaste eleitoral de sustentar hoje uma posição de independência de classe. Mas o barato, muitas vezes, acaba saindo mais caro…


Isso é nítido, particularmente, no caso de correntes como a Primavera Socialista (de Juliano Medeiros) e a Revolução Solidária (de Guilherme Boulos), que compõem o bloco do “PSOL Popular”. Mas as correntes integrantes do bloco “PSOL Semente” (Resistência, Insurgência e Subverta) são, no mínimo, corresponsáveis por esta decisão lastimável ⎼ foram o peso decisivo, sem o qual o PSOL teria preservado sua independência política e decidido por uma candidatura própria (o deputado federal Glauber Braga teve o apoio de mais de 40% da direção).


É preciso, aliás, que as organizações do PSOL Semente tenham clareza de que esta decisão fortalece uma linha à qual elas têm afirmado se opor: a participação em um eventual governo Lula-Alckmin. Depois de passar todo o período eleitoral fazendo euforicamente campanha para a candidatura Lula-Alckmin ⎼ semeando ilusões e sem qualquer diferenciação, independência ou distância crítica ⎼, caso esta chapa seja eleita, será ainda mais difícil ser contra a integração do PSOL ao governo. A pressão será ainda maior e mais forte.


Se isso ocorrer, o destino do partido estará selado.


O papel do PSOL não é se tornar o braço esquerdo da “esquerda da ordem”. Mas recuperar a posição de ponta de lança da “esquerda contra a ordem”. É sua vocação histórica. Se abandonar isso, será “mais do mesmo” e perderá por completo a sua razão de existência.


Sob as asas do PT, o PSOL perderá a capacidade de organizar a militância em uma perspectiva de luta (eco)socialista, de ruptura com o capitalismo.


Embora tenha dado passos significativos nesta direção, aprovando a federação com a “ecocapitalista” Rede Sustentabilidade e, agora, abrindo mão de uma candidatura própria para integrar a “frente amplíssima” na chapa Lula-Alckmin, o PSOL ainda não acabou. A encruzilhada não representa o fim da linha. Há batalhas e combates decisivos ainda por travar.


Estamos em uma situação delicada e complexa. Não é fácil se apresentar como alternativa neste momento. A “onda Lula” é forte, e compreensivelmente. Mas a nossa tarefa e responsabilidade, em um momento como esse, como nos diria o velho Leon Trótski, é aprender a nadar contra a corrente. Não se deixar levar pelo refluxo geral.


Não é simples. Não é confortável. Mas é necessário.


Especialmente se ainda não nos resignamos com a política do “mal menor”, do possibilismo rebaixado e das mudanças cosméticas dentro da ordem capitalista. Especialmente se ainda sonhamos com mudar radicalmente o mundo.


*Pedro Barbosa é militante da Comuna em São Paulo

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