Uma luta de “David x Golias” dos trabalhadores negros contra a Amazon


Sindicalistas conversam com os trabalhadores da Amazon nos semáforos do lado de fora do Galpão em Bessemer, Alabama. (Foto: Bob Miller para The New York Times)



Publicado no site Solidarity-EUA em 18 de fevereiro de 2021 (*)


Por Johanna Brenner Tradução de Vinicius Almeida


Uma campanha sindical no novo centro de distribuição da Amazon (o centro BMH1), em Bessemer, Alabama, uma cidade de maioria negra e operária, próxima a Birmingham, começou no final do verão dos EUA de 2020, quando alguns trabalhadores, desgastados com suas péssimas condições de trabalho, assédio moral e falta de segurança sanitária durante a pandemia, entrou em contato com o Sindicato de Trabalhadores do Atacado e Varejo de Lojas de Departamento. O sindicato tem grande destaque na região, onde organizou avicultores, muitos deles afro-americanos, assim como cerca de 85% dos trabalhadores do BMH1, e no último ano protestou publicamente com sucesso contra as condições inseguras de trabalho dos aviários. O sindicato orientou avicultores sindicalizados em uma campanha para organizar mais fábricas de processamento de aves. Mas quando os trabalhadores da Amazon buscaram o sindicato, em retorno, o sindicato mobilizou esses trabalhadores avícolas para a luta na Amazon.


Desde o início, a Amazon fez uma campanha massiva anti-sindical, que incluía reuniões obrigatórias com o público cativo, um site anti-sindical e cartazes e adesivos em toda a fábrica, inclusive nos banheiros. Para orientar seu esforço de intimidação, a empresa contratou Morgan Lewis, o maior escritório de advocacia do país contra sindicatos. A principal alegação da Amazon é que se houver sindicalização, os trabalhadores terão que pagar altas taxas; mas as taxas não são altas em relação aos benefícios, e o Alabama se autoproclama um estado "dos direitos trabalhistas ", então o pagamento das taxas não é obrigatório.


O sindicato, por outro lado, está destacando os benefícios de uma filiação sindical, que permite o emprego “justa causa” – o direito a contestação judicial - bem como condições de trabalho mais seguras e intervalos regulares e formalizados, oferecendo proteção contra as odiadas “time off task” da Amazon, um sistema pelo qual os trabalhadores podem ser punidos por fazerem pausas e não cumprirem metas que mudam de dia para dia.


Apesar dos esforços da Amazon, em novembro, mais de 2.000 trabalhadores (de um total de cerca de 6.000) se sindicalizaram, e o sindicato entrou com um pedido de eleição para o Conselho Nacional de Relações do Trabalho (CNRT). Esta será apenas a segunda eleição sindical em uma instalação da Amazon nos EUA (em 2014, um grupo de trabalhadores técnicos em um depósito de Delaware votou contra a adesão a um sindicato).


A Amazon fez de tudo para arrastar o processo e minar o ímpeto da campanha. A empresa também lutou para exigir o voto exclusivamente presencial, sem a chance de voto pelo correio; no entanto, perdeu esse pleito no CNRT e foi permitido o envio de cédulas pelo correio no dia 8 de fevereiro. A votação termina em 29 de março.


Vai contra as expectativas que a primeira grande eleição sindical em um galpão da Amazon seja no sul. Mas Birmingham e seus arredores têm uma longa história de sindicalização e fortes conexões entre as lutas pelos direitos civis e os trabalhadores sindicais Negros. Os trabalhadores da BMH1 veem sua luta como uma extensão do levante Black Lives Matter neste verão. Em uma manifestação para apoiar a campanha, o presidente do Conselho Trabalhista do Oeste do Alabama, James Crowder, disse à multidão:


“Começamos com uma dúzia de trabalhadores em Bessemer e hoje somos milhares. Aconteceu rápido, e aconteceu porque pessoas como vocês os apoiaram. As pessoas em Bessemer se reuniram ... Não sei quantas vezes ouvimos: ‘Minha mãe me disse que se eu não assinar este cartão, ela vai me espancar’. Ouvimos isso de tios, avós e primos. Esse é o espírito de Bessemer. Esta é uma cidade da união. Sempre foi uma cidade sindicalizada e continuará a ser uma cidade sindicalizada.”


O sindicato, é claro, está enfrentando um grande e cruel corporação, que continuará a fazer tudo na sua campanha de intimidação e propaganda maliciosa. A Amazon sabe que uma vitória aqui seria um incrível estímulo para muitos trabalhadores da Amazon em todo o país que desafiaram a empresa por meio de petições, protestos e greves.


O Conselho do Oeste do Alabama e outros sindicatos giraram apoiadores para ajudar na campanha sindical, enquanto vários grupos comunitários se juntaram à luta para democratizar as instalações de Bessemer. Trabalhadores de todo o país estão organizando ações de solidariedade para o dia 20 de fevereiro e se reunindo para discutir como podem ajudar.


O sindicato montou um site para coletar mensagens de solidariedade e apoio que serão entregues aos trabalhadores. Por favor, compartilhe isso amplamente com seus amigos, familiares, colegas de trabalho e camaradas!

(*) Solidarity é um grupo simpatizante da IV Internacional. Conheçam no endereço https://solidarity-us.org/

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