VIVA ROSA LUXEMBURGO! 150 Anos



Por Vanda Souto (*)

“Quem é feminista e não é de esquerda, carece de estratégia. Quem é de esquerda e não é feminista, carece de profundidade”.

Rosa Luxemburgo


Nossa Rosa Luxemburgo nasceu em 5 de março de 1871, em Zamoṡc, uma pequena cidade polonesa então ocupada pela Rússia, no seio de uma família judia emancipada e culta. Desde a meninice, Rosa cultiva imenso gosto pelos livros, a leitura e o estudo. Animada pela potência das ideias revolucionárias, e na esperança da transformação radical da sociedade, Rosa sonhava e labutava incansavelmente pela construção de um tempo sem servidão, escravidão e exploração do capitalismo. Militante revolucionária, periodista, professora, intelectual revolucionária, oradora destemida e brilhante, polemista, feroz opositora das teorias revisionistas, escritora, leitora incansável, amiga amorosa, Camarada e Amante.


Rosa é uma mulher feminista, socialista, espartaquista, internacionalista, anti-militarista, comunista, de vida intensa e memorável. Cultivando suas flores, cuidando de seus álbuns de preciosa botânica, desenhando retratos ou naturezas-vivas, caminhando pelos parques, cerzindo seus vestidos, experimentando seus graciosos chapéus ou mimando sua gata Mimi, Rosa é uma figura que espalha alegria e afeto entre seu círculo da intimidade ou em sua fraternidade mais alargada.


Na prisão política, tenta driblar o isolamento e o sofrimento pedindo livros e escrevendo cartas; belas cartas. Se o corpo se ressente do confinamento, o espírito voa... e conversa com os pássaros! Dito por ela mesma: “Não é que me inquieto com o canto dos pássaros pela alegria que, deles, os homens tiram; mas é a própria ideia de um desaparecimento silencioso e inevitável destes pequenos seres sem defesa que me causa pesar, a ponto de me deixar com lágrimas nos olhos.”

Ou ainda nesta passagem pungente de uma carta escrita em maio de 1917 a Sonia Liebknecht:

“De repente, nessa atmosfera espectral à beira da minha janela, ergueu-se o canto do rouxinol. No meio desta chuva, destes relâmpagos, do trovão, dir-se-ia o carrilhão de um sino argentino. O rouxinol cantava com paixão, como se quisesse abafar o barulho do trovão e iluminar o crepúsculo. Nunca ouvi nada mais belo. No céu, alternadamente plúmbeo e púrpura, o seu canto fazia lembrar uma cintilação de prata. Tudo era tão misterioso e de uma beleza tão inacreditável que repeti involuntariamente o último verso do poema de Goethe: “Ah, e não estás tu ao pé de mim”.

Nas redações da imprensa revolucionária, como no jornal Bandeira Vermelha, do Partido Comunista da Alemanha, fundado por Rosa e Karl Liebknecht no final de 1918, aprendeu com os tipógrafos e gráficos com quantas letras e imagens era possível imprimir em vermelho, mesmo com a polícia no encalço. as palavras urgentes contra a ordem burguesa e a opressão.


Destemida e valente, não se vergou às interdições de seu tempo que se pretendia tão viril e másculo. Rosa, uma mulher ousada, atrevida num tempo de homens cultos e outros nem tanto. Suas aulas na Escola de Formação do Partido são lições de erudição e simplicidade na abordagem e no convívio com os estudantes.


Sua escrita é rigorosa, sem concessões ou atalhos convenientes. Sua coragem intelectual é marca perene; não recusou os temas áridos e cultivou o melhor estilo do verbo panfletário do século XIX, aquele das folhas vermelhas do radicalismo revolucionário!


Seus livros circulam em muitas línguas, e seus muitos lampejos de criativa matriz conceitual repercutem sua voz profética: Socialismo ou Barbárie! Em nosso tempo, graças ao labor incansável de notáveis leitoras e leitores, tradutoras e tradutores, as Cartas de Rosa Luxemburgo dizem tanto de sua trajetória, seus caminhos, suas belas amizades e seus grandes amores. Aqui, não como parênteses convencional, mas em homenagem sincera, nossa gratidão no Brasil ao labor intelectual de Isabel Loureiro, que desde muito nos impulsiona à leitura de Rosa Luxemburgo.


Ler as Cartas de Rosa Luxemburgo é muito mais que um convite a entrar em sua história e na memória social de seu tempo. É uma leitura que nos humaniza; tão potente é seu apelo. Ali se desnuda a amiga incondicional, a intelectual empenhada na causa da Revolução, a mulher sensível e comovida ante as aparentes miudezas quase imperceptíveis do cotidiano. Como não lembrar dos inúmeros livros que leu? Como esquecer o afeto e a palavra sensível dispensada nos momentos de agudo sofrimento?


Rosa tinha amor aos estudos: Ciências Naturais, Matemática, Direito e Economia Política. Leu em prosa e verso os livros que nos mudam e mudam o mundo.


Nossa rubra Rosa carregava rigor em seus estudos e formulações teóricas, como se pode ver em tantos títulos. Rosa, vermelha, uma socialista, como bem decifrou sua grande amiga e camarada Clara Zetkin: “O socialismo foi, para Rosa Luxemburgo, uma paixão dominante que absorveu toda sua vida, uma paixão ao mesmo tempo intelectual e ética”.


Assim como as feministas revolucionárias, Rosa, a Vermelha, devotava paixão às grandes causas do proletariado e nunca deixou de sonhar com a revolução socialista. Desde os levantes revolucionários de 1905 no império Russo czarista hão-de se afirmar as ideias de Rosa Luxemburgo e sua convicção: o processo de tomada de consciência das massas operárias resulta menos da ação “esclarecedora” do partido do que da experiência da ação direta e autônoma das trabalhadoras, como aponta Michael Löwy em seus escritos.


Rosa, a Rubra, entendia o proletariado como sujeito e enfatizava a consciência de classe, a organização e o lugar da educação e formação política de luta e na luta viva, como perceberam os levantes de 1968 se alastrando desde Paris e, como hoje, seu pensamento é atualizado por Coletivos e Movimentos sociais, como é o caso do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra -MST, no Brasil.


De braços dados e punho erguido. Uma rosa e uma bandeira vermelha na mão. Uma máscara rubra antifascista no rosto, as mulheres proletárias, trabalhadoras, feministas clamam pela vida em 2021. Em luto e solidárias ante a tragédia das milhares de vidas ceifadas pela pandemia global e no Brasil, agravada pelo genocídio em curso, estamos alertas e firmes na denúncia da violência contra as mulheres e do feminicídio, que também se alastrou como uma pandemia.


Nossa homenagem hoje, passados 150 anos do seu nascimento, é no sentido de juntarmos a voz de Rosa às vozes multitudinárias das Mulheres da Comuna de Paris, e desejar que os ecos internacionalistas se espraiem daqui, do sul do mundo, e se unam a milhares de outras vozes em honra à sua memória e de outras tantas lutadoras anônimas, porém não menos importantes, que nos trouxeram pela mão até aqui.


Rosa Luxemburgo não morreu. Foi assassinada em Berlim no dia 15 de janeiro de 1919 pelos algozes da contrarrevolução alemã. Foi executada brutalmente; abatida com um tiro à queima-roupa na têmpora esquerda. Seu corpo foi jogado no Landwehr, um dos canais do rio Spree, e só encontrado no dia 31 de maio, cinco meses depois. Foi sepultada no dia 13 de junho, acompanhada por uma multidão em cortejo ao cemitério de Friedrichsfelde, na mesma Berlim. Rosa Luxemburgo tinha apenas 48 anos.


Em 1929, o dramaturgo e poeta Bertolt Brecht assinalou os dez anos da morte de Rosa Luxemburgo, com o poema Epitáfio.

Aqui jaz Rosa Luxemburgo, judia da Polônia, vanguarda dos operários alemães, morta por ordem dos opressores. Oprimidos, enterrai vossas desavenças!”


Render nossa homenagem a Rosa Luxemburgo, na Semana Lilás da Comuna, nossa organização, é compromisso e testemunho da tradição revolucionária, como em Michael Lowy que sempre nos conta como descobriu Rosa Luxemburgo. É nos energizar na força material de suas ideias, é inspiração perene. Quiçá também as novas gerações de lutadoras e lutadores leiam Rosa, para escrever com as tintas vermelhas de Rebeldia e Esperança. Nosso Salve aos 150 anos de memória viva e subversiva de Rosa Luxemburgo, que segue latente entre as feministas revolucionárias!


(*) Vanda Souto é cientista social, militante feminista da Comuna, do PSOL e da IV Internacional.

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